Nascido em 7 de fevereiro de 1943 pertence ao corpo docente do



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E o Vento Levou é, com certeza, o mais popular filme de todos os tempos 

nos Estados Unidos. Ele é, em sua maior parte, um romance, mas está situado 

na escravidão, e a concepção de escravidão dele é muito desatualizada. Trata, 

em sua maior parte, da Guerra Civil, mas também tem algumas partes sobre a 

Reconstrução. E ele ainda mostra o antigo mito: aventureiros políticos malva-

dos vindo do Norte, os negros como pessoas ignorantes e manipuladas por 

todas as outras. É isso que as pessoas recebem quando vão assistir a E o Vento 

Levou, com certeza.

E o que você acha dos filmes recentes sobre o assunto da escravidão e dos direitos 

civis, como O mordomo da Casa Branca e Doze anos de escravidão?

Eu não vi O mordomo da Casa Branca. Talvez um dia eu assista. Bem, 



Doze anos de escravidão é um grande passo rumo à realidade para os filmes. 

Mas ninguém está fazendo um filme assim sobre a Reconstrução. É complicado 

demais, é ambivalente demais. Doze anos de escravidão tem um final feliz, de 

certo modo, não é? O cara consegue se safar da escravidão. É claro que todos 

os demais escravos ficam para trás, mas, ainda assim, ele consegue deixar a 

escravidão e voltar para sua família. A Reconstrução tem um final muito infe-

liz. A Ku Klux Klan triunfa, os direitos das pessoas negras são tirados. Isso não 

é o que Hollywood está tentando mostrar. Não acho que venhamos a ter um 

bom filme sobre a Reconstrução em um futuro próximo. Como disse alguém, 

Hollywood adora uma tragédia com final feliz. Tragédia com final feliz. A 

Reconstrução não tem um final feliz.

Vamos, finalmente, falar sobre seu último livro, The Fiery Trial (Foner, 2010). 

Revista Brasileira de História, vol. 35, n

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  p.343-363




Entrevista: Eric Foner

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Espero que alguém no Brasil decida traduzi-lo. Por que você decidiu escrever 

uma biografia de Lincoln?

Lecionei história dos Estados Unidos, história dos Estados Unidos no 

século XIX, durante muito, muito tempo. Ao fazer isso, você sempre está pen-

sando sobre Lincoln de uma maneira ou outra. E Lincoln fica aparecendo. Ele 

está em meu primeiro livro sobre o Partido Republicano, está em meu livro 

sobre a Reconstrução. Mas eu nunca me concentrei em Lincoln. Acho que me 

interessei em escrever sobre Lincoln porque fiquei cada vez mais aborrecido 

com a forma como a literatura sobre ele estava se desenvolvendo há uns 10 

anos. Porque havia toda uma literatura sendo publicada que via Lincoln como 

o grande pragmatista, o grande realista, o político, em contraposição aos abo-

licionistas, que são apenas fanáticos, irresponsáveis e causadores de todo tipo 

de ruptura. É Lincoln quem conquistou tudo. E eu achava que essa era uma 

leitura completamente equivocada da dinâmica da mudança social. Lincoln 

não era abolicionista. Mas a relação entre ele e os abolicionistas era muito mais 

simbiótica do que antagonística. É um conceito diferente de política. Os abo-

licionistas estão trabalhando na sociedade, tentando mudar a opinião pública. 

Isso é política. Não é apenas política eleitoral. Lincoln é um homem que está 

no sistema político. Mas sem eles não há Lincoln. Sem uma opinião pública 

hostil à escravidão, um homem como Lincoln não pode se dar bem. Eu queria 

me contrapor a essa concepção de que Lincoln é a essência do pragmatismo e, 

por isso, qualquer outra pessoa que exigisse algo diferente era apenas um ma-

luco. Eles não eram práticos. Como vamos saber que eles não eram práticos? 

Porque Lincoln não o fez. E ele é prático. Trata-se de um argumento circular. 

Assim, eu realmente queria [combater isso], mas então fiquei cada vez mais 

interessado nas concepções do próprio Lincoln. Fiquei muito impressionado 

com a maneira como suas concepções mudaram ao longo do tempo. Porque 

muitas vezes [em narrativas históricas] Lincoln já nasce pronto para assinar a 

Proclamação da Emancipação. E muitos aspectos das concepções dele são ig-

norados ou negligenciados na literatura – como algumas de suas concepções 

raciais, que não são muito avançadas. Boa parte da literatura simplesmente 

ignora isso, ou simplesmente diz: “É, de fato, ele disse essas coisas racistas, mas 

não era isso que ele realmente queria dizer; isso era só para ganhar a eleição”. 

Ele acreditava que as pessoas negras deveriam ser incentivadas a ir para algum 

outro país, após o fim da escravidão. Bem, ninguém fala sobre isso, mas fiquei 

muito impressionado com o fato de que Lincoln passou 10 anos insistindo 

nesse ponto de vista. Assim, por um lado, eu queria tentar explicar Lincoln. 

Mas também estava tentando mudar a forma como as pessoas pensavam sobre 

Revista Brasileira de História, vol. 35, n

o

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Hebe Mattos e Martha Abreu

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movimentos sociais. Também fui influenciado pelo início da campanha de 

Obama, em 2008. Eu estava escrevendo o livro nessa época. Um líder político 

e um movimento social – qual é a relação entre eles? E Obama acabou não se 

tornando Lincoln, em minha humilde opinião, mas muito poucas pessoas se 

tornam. Entretanto, ele assumiu o cargo como um exemplo daquilo a que estou 

me referindo quando falo de Lincoln e dos abolicionistas.






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