Nascido em 7 de fevereiro de 1943 pertence ao corpo docente do



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Sim, felizmente algumas coisas mudam. Vamos falar, então, sobre Nada além da 

liberdade (Foner, 1983). Este é seu livro mais conhecido no Brasil. Ele foi publi-



cado no Brasil em uma época de mudanças, 1988, no centenário da abolição da 

escravidão, e ajudou a criar o campo de estudos do pós-abolição no país. Saiu 

antes de Reconstruction e tem uma abordagem comparada que você não segue 

em obras subsequentes. Você pode nos falar sobre o contexto de produção desse 

livro especificamente?

Fico muito contente em ouvir isso, é claro. Infelizmente, é o único livro 

meu que foi traduzido para o português. Eu adoraria ver meu livro sobre 

Lincoln ou algum outro livro traduzido, usado e disponível no Brasil. Mas isso 

exige que uma editora faça isso em algum lugar. Esse livro foi publicado quan-

do me convidaram para dar conferências, chamadas “Fleming Conferences”, 

na Universidade Estadual da Louisiana. A cada ano, ela convida alguém para 

ir até lá e dar três palestras sobre história do Sul dos Estados Unidos, e depois 

a publica em forma de um pequeno livro. Na época, eu estava trabalhando no 

livro Reconstruction, que me tomou cerca de 10 anos. Eu estava em meio a esse 

trabalho. Mas isso nos mostra como a vida está repleta de felizes acasos. Alguns 

anos antes disso, eu tinha feito uma palestra na Duke University sobre uma 

parte de minha pesquisa relacionada à reconstrução e ao problema do trabalho 

ou da mão de obra, em particular – terra, trabalho, a luta em torno da terra 

após o fim da escravidão, teorias do trabalho e coisas assim. Eu estava tentando 

dizer que não se trata apenas de uma questão de raça. Nos Estados Unidos, 

tudo que está relacionado aos negros vira raça. O contrário do que costumava 

acontecer no Brasil. Mas muitas coisas não são questão de raça. Mesmo que 

uma pessoa negra esteja implicada, isso não quer dizer que a raça seja a grande 

questão. Eu estava falando sobre o trabalho e essas outras questões. E uma 

aluna de pós-graduação em história da áfrica me procurou depois da palestra 

e disse: “Sabe, existe uma extensa literatura sobre essas questões na áfrica, 

sobre toda a questão de como mobilizar mão de obra negra e ideologias do 

trabalho, e uma parte dela é relevante para você”. E eu disse: “É mesmo?”. Ela 

disse: “Sim, e vou lhe enviar uma bibliografia. E na bibliografia ela também 

incluiu textos sobre as Índias Ocidentais. Eu comecei a ler isso, e foi surpreen-

dente, porque percebi que nós temos uma perspectiva limitada. Os historia-

dores americanos têm uma perspectiva limitada, talvez atualmente em grau 

um pouco menor do que costumava ser. Mas é assim porque todos – ou a 

maioria de nós – acreditamos no excepcionalismo americano, certo? Esse é o 

mal de nossa existência – a crença no excepcionalismo americano. Porque, se 

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Entrevista: Eric Foner

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você crê que os Estados Unidos são excepcionais, você não precisa saber nada 

sobre o resto do mundo. Ele se torna irrelevante. Se somos tão excepcionais, 

nós não temos nada a aprender de qualquer outra história. Estamos isentos 

das leis da história. Eu não sabia nada sobre aquilo. Como você sabe, tinha 

havido alguns trabalhos de escravidão comparada que remontam a [Frank] 

Tannenbaum e [Carl] Degler e outros, Herbert Klein e Genovese. Mas nada 

que eu conhecesse em termos de comparação das consequências da escravidão. 

E todo país que teve escravidão teve consequências da escravidão, certo? 

Assim, foi muita sorte que essa mulher tenha me dado tudo aquilo, e comecei 

a ler. Depois, em 1980-1981, eu estive de novo na Inglaterra por um ano. 

Lecionei em Cambridge naquele ano, e cheguei a conhecer pessoas que eram 

realmente especialistas em Índias Ocidentais. E me deram livros. E percebi que 

essas questões de acesso à terra, controle da mão de obra e outras coisas eram 

universais. Elas não podiam ser simplesmente entendidas dentro do contexto 

da história dos Estados Unidos. Assim, dediquei minha palestra naquela série, 

e no livro, a essa questão da emancipação comparada. Bem, isso realmente 

soou como um alerta aqui. Ninguém sabia nada sobre isso. Ganhei muita aten-

ção nos Estados Unidos. Fico muito contente ao saber que isso também teve 

impacto no Brasil. Levantou uma questão em que outras pessoas se aprofun-

daram atualmente. Mas, tendo dito isso, devo também dizer que isso não é tão 

fácil assim de fazer. E o que eu fiz foi realmente pioneiro, ou até primitivo de 

certa forma. Porque, por exemplo, há muito pouca coisa sobre o Brasil em meu 

livro, porque eu não leio português. Portanto, sou prisioneiro da literatura 

escrita em inglês. Quer dizer, obras boas de pesquisadores no Brasil foram 

traduzidas para o inglês, mas muitos trabalhos não foram traduzidos para o 

inglês. Se você vai realmente fazer isso a sério, você tem de saber línguas e – 

mais importante ainda – você tem de conhecer a historiografia, tem de saber 

qual é a origem deste ou daquele livro. Eu posso pegar um livro sobre o Brasil 

após a escravidão, mas não compreendo como isso se encaixa em todo um 

discurso intelectual em andamento no Brasil. E, no fim das contas, eu poderia 

entender isso em relação ao Caribe britânico, porque conheço a história da 

Grã-Bretanha, e está tudo em inglês, de modo que eu posso ler o material e 

comparar como este e aquele pesquisador estão procedendo. E grande parte 

dos trabalhos sobre a áfrica. Mas eles são basicamente anglófonos. É uma 

história comparada, mas ela é em grande parte do mundo de fala inglesa. Desde 

então, fiquei sabendo de muita coisa sobre o Brasil e, é claro, sobre o trabalho 

muito bom sobre isso que tem sido feito lá. E depois, é claro, a América espa-

nhola, o Caribe espanhol, há toda uma outra literatura. Isso para não 

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Hebe Mattos e Martha Abreu

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mencionar o Haiti, que tem outra literatura. Portanto, estou bem consciente 

da falta de profundidade em certos aspectos, mas ao menos consegui colocar 

essas questões na mesa. Como pensamos sobre as consequências da escravi-

dão? E quais são os assuntos recorrentes em toda parte? Uso isso como uma 

forma de contraposição àquele excepcionalismo. A questão de senhor e escravo 

nos Estados Unidos não é, absolutamente, diferente da questão de senhor e 

escravo em Cuba ou na Jamaica, ou talvez no Brasil. A maneira como ela é 

elaborada é diferente em cada contexto nacional. Mas as questões são as mes-

mas. E até na áfrica, toda a questão da escravidão e do trabalho forçado na 

áfrica. Muito poucas pessoas fizeram isso nos Estados Unidos até hoje. Há 

uma ou duas. Rebecca Scott, é claro, fez isso para o caso de Cuba e dos Estados 

Unidos. Eu o achei muito fascinante. É apenas um pequeno ensaio, mas ainda 

é uma área bastante aberta aqui nos Estados Unidos, 30 e poucos anos depois 

de eu publicar aquilo.






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