Nascido em 7 de fevereiro de 1943 pertence ao corpo docente do



Baixar 136.9 Kb.
Pdf preview
Página5/11
Encontro17.03.2020
Tamanho136.9 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11
Ótimo. Antes de continuar falando sobre este ponto, apenas para concluir o 

quadro a respeito de sua relação com os movimentos sociais na época dos direi-

tos civis, você pode contar como foi sua primeira aula sobre história dos afro-

-americanos?

Bem, alguém me deu isso aqui recentemente. [Mostra uma foto.] Este sou 

eu, naquela época, naquela aula. Isto é um pequeno artefato histórico. Alguém 

me deu isto estes dias. Disse que achou em algum lugar. Então eu disse: “Meu 

Deus, olhe só isso!”. Quando terminei o doutorado, fui contratado para lecio-

nar na Columbia. Isso foi em 1969, no auge do Black Power entre os estudantes 

negros, e agora havia um número significativo de estudantes negros. Quando 

eu era aluno de graduação, não havia estudantes negros. Esse lugar era tão 

segregado quanto a Universidade do Mississípi. Mas, por causa do movimento 

pelos direitos civis, estudantes negros estavam entrando na universidade agora. 

E eles queriam história dos negros, o que é mais do que justo. Mas não havia 

ninguém – só havia dois professores negros em toda a instituição, acho eu – 

não havia ninguém que pudesse lecionar história dos negros. Assim, pediram-

-me para fazer isso, e eu aceitei. Eu tinha algum conhecimento do assunto. E 

então estudei, trabalhei muito duro. E muitos estudantes fizeram essa discipli-

na; essa foi a primeira que eu lecionei na vida. Mas depois de algum tempo os 

estudantes negros, nacionalistas, decidiram que não queriam um professor 

branco. Para eles, era insultuoso ter um professor branco dando aula de histó-

ria dos negros. Então a disciplina entrou em uma espécie de tumulto. Os estu-

dantes faziam manifestações na sala de aula. E eles saíram da sala um dia. 

Dirigiram-se ao Spectator, o jornal estudantil, e disseram: “Nós queremos mu-

dar a disciplina”. E isso foi muito complicado para mim, porque essa era a 

primeira vez que eu dava uma disciplina e, naturalmente, eles tinham razão no 

sentido de que precisávamos de mais docentes negros. Mas também fiquei 

Revista Brasileira de História, vol. 35, n

o

 69  



  p.343-363




Entrevista: Eric Foner

351


dizendo: “Não. Se isto é uma matéria, ela precisa ser julgada com base em seus 

méritos intelectuais. Não existe algo assim como um único tipo de pessoa que 

vai lecionar. Quem é que vai lecionar história da Grécia antiga, então, se não 

há nenhum grego antigo aqui?”. Essa foi minha primeira disciplina. Nós so-

brevivemos, a disciplina chegou até o fim, e foi isso. E eu lecionei história dos 

negros muitas vezes depois disso. Então eles começaram a contratar mais pro-

fessores negros. Mas essa foi uma situação muito desafiante e caótica. E o re-

sultado foi: nada que pode acontecer em uma sala de aula consegue me 

perturbar. Você entende o que eu quero dizer? Não pode acontecer nada que 

seja tão desafiante e traumático quanto aquilo. Portanto, entro em sala de aula 

sem sentir nenhum medo, porque já passei por tudo que poderia eventualmen-

te acontecer. Isso foi no final dos anos 1960. E foi isso. O Comitê Não Violento 

de Coordenação dos Estudantes [SNCC – Student Non-violent Coordinating 

Comittee] e o Congresso de Igualdade Racial [CORE – Congress of Racial 

Equality] estavam expulsando pessoas brancas, e o Black Power estava em toda 

parte. Portanto, não surpreende que ele estivesse no campus também. Assim, 

nós sobrevivemos. É o que posso dizer. E o livro que publiquei depois, um ano 

mais tarde, America’s Black Past (Foner, 1970) era basicamente a ementa dessa 

disciplina. Ele continha apenas as leituras para as aulas, porque não havia nada 

disso na época. Hoje em dia há uma vasta bibliografia de história dos negros à 

disposição. Mas naquela época não havia livros assim. Eu apenas compilei as 

leituras, e a editora publicou o livro, que, na verdade, acabou sendo usado 

muito amplamente durante alguns anos pelo país, porque de repente essas 

disciplinas começaram a ser desenvolvidas em toda parte e ninguém sabia o 

que fazer, como lecioná-las.

O engraçado é que, depois que tudo isso acabou, muitas pessoas negras 

me elogiaram dizendo que eu era um pioneiro da história dos afro-americanos. 

E do ensino da disciplina. Há alguns anos, eu estava em um evento na Rutgers 

University para comemorar o 40º aniversário de seu curso de história dos 

negros. Eu fazia parte de um painel para discutir o que aconteceu na história 

dos negros. E por acaso – a maioria da plateia era formada por negros, e o 

auditório era grande – eu disse: “Pois é, é um grande prazer para mim estar 

aqui porque há 40 anos dei a primeira disciplina sobre o assunto jamais dada 

na Columbia University”. E todo mundo começou a aplaudir. Então eu disse: 

“Puxa vida, olha como as coisas mudaram! Há 40 anos me denunciaram como 

racista. Hoje estão aplaudindo o fato de eu ter dado essas aulas”. Algumas 

coisas mudaram.

Revista Brasileira de História, vol. 35, n

o

 69  


  p.343-363



1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal