Nascido em 7 de fevereiro de 1943 pertence ao corpo docente do



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No final do livro, quando Lincoln é morto, você de fato acha que ele estava real-

mente assumindo a cidadania plena para os negros como uma convicção?

Bem, ele estava em movimento. Achava que os negros eram cidadãos. Que 

direitos eles teriam, isso era algo que não estava claro ainda. Lincoln é morto 

a certa altura. O grande erro que as pessoas fazem quando escrevem sobre isso 

é que elas dizem: “Certo, esse é o ponto de vista de Lincoln”. O que ele acredi-

tava quando foi alvejado – essa é a concepção de Lincoln. Mas, na verdade, 

uma coisa que meu livro mostra é que Lincoln estava evoluindo o tempo todo. 

É completamente irrealista pensar que ele teria mantido essa concepção de 

abril de 1865 se não tivesse sido morto. Não, Lincoln estava sempre em relação 

com o Congresso, os abolicionistas, as próprias pessoas negras. Não há dúvida 

de que ele teria evoluído. Para onde exatamente? Não sabemos. Isso não é 

história. Isso significaria fixá-lo. Se ele tivesse sido morto em 1861, seria fácil 

dizer que nunca teria emancipado os escravos. Certamente não. Ele disse: “Não 

vou emancipar os escravos”. Disse isso muito claramente, então é óbvio que 

não iria. Mas ele continuou a viver e efetivamente emancipou os escravos. 

Particularmente em tempos de crise como essa, as pessoas não se apegam sim-

plesmente a uma única concepção. Assim, admiro Lincoln muito, mas ele não 

é um deus. Tinha falhas como qualquer ser humano. Mas acho que foi essa 

capacidade de mudar, essa mente aberta, essa disposição de ouvir os críticos 

que fizeram dele um grande líder. Ele não ficou parado enquanto a história 

andava muito depressa.

E o filme sobre Lincoln, você o viu? O que achou?

O filme? É Hollywood. O que se iria quer? Não é história. É um bom filme 

hollywoodiano. Não é história. Está baseado em história. Mas tem mais a ver 

com a história do que o Júlio César de Shakespeare tem a ver com a Roma 

antiga. É uma afirmação sobre o presente, sobre os políticos, sobre o Congresso, 

em forma de história. Em toda história de Hollywood, talvez com umas poucas 

exceções, mesmo Doze anos de escravidão, parece inevitável que ela vai exaltar 

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Entrevista: Eric Foner

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uma única pessoa. Essa é simplesmente a essência do gênero. Tanto faz se é 

Malcolm X, Gandhi, seja quem for. Há toda uma série desses filmes. Doze anos 



de escravidão é todo ele sobre Northup. Tudo bem, está baseado no livro dele. 

Mas os outros escravos realmente ficam bastante em segundo plano, a maior 

parte do tempo. Sabe, você não fica sabendo grande coisa sobre muitos dos 

outros escravos, e suas opiniões, suas atitudes. Assim, o filme Lincoln foi sobre 

Lincoln. O problema é que naquele universo Lincoln não era o único ator, ator 

histórico. Mas o ator era bom, e o figurino, bastante bom. Tudo bem.

[pergunta da profa. Martha Abreu] Bem, e sua pesquisa atual?

Estou terminando um livro neste momento; é um pouco diferente, porque 

é sobre a cidade de Nova York, na verdade. Ele trata daquilo que chamamos 

de Underground Railroad [Ferrovia Subterrânea], de escravos fugitivos que 

vieram para Nova York, quem os ajudou, de onde vinham, para onde foram 

enviados, como a “ferrovia” funcionava. Porque há muita literatura sobre a 

Ferrovia Subterrânea, mas muito pouco sobre a cidade de Nova York, porque 

Nova York estava muito estreitamente vinculada ao Sul. Comerciantes da ci-

dade se encarregavam de despachar algodão para toda parte. Empresários de 

Nova York estavam muito vinculados ao Sul. Banqueiros de Nova York finan-

ciavam a escravidão no Sul. Assim, essa era uma cidade pró-Sul antes da 

Guerra Civil. Assim, era complicado lidar com escravos fugitivos. Boston era 

muito mais contra a escravidão, de modo que boa parte do trabalho era feito 

sigilosamente aqui. É difícil desenterrar isso, embora eu tenha desenterrado 

muito. E há ainda processos judiciais o tempo todo – e todos eles são públicos 

e úteis – relacionados a fugitivos capturados, e depois um processo sobre seu 

envio de volta. Assim, o que está em pauta realmente, de cerca de 1830 até 

1860, é como se desenrola a questão dos escravos fugitivos. E há também, 

voltando a Doze anos de escravidão, a questão do rapto. Porque havia escravos 

que escapavam para Nova York e havia pessoas livres de Nova York sendo 

raptadas e enviadas para o Sul. Solomon Northup não foi o único com quem 

isso aconteceu. E assim, de fato, eu justaponho. Há anúncios sobre escravos 

fugitivos nos jornais do Sul: “Escravo fugido. Esta é a aparência dele. Esta é 

roupa que ele estava usando. 500 dólares de recompensa por sua captura”. E 

nos jornais do Norte há anúncios sobre pessoas raptadas: “Uma criança foi 

arrancada das ruas por alguém recentemente. Esta é a aparência dela. Esta é a 

roupa que ela estava usando. Enviada ao Sul. Recompensa para quem a trouxer 

de volta”. Assim, temos esse estranho transporte de mão dupla de pessoas 

negras nesse período. Trata-se, portanto, de uma história interessante. Nova 

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Hebe Mattos e Martha Abreu

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York tinha um movimento abolicionista muito pequeno, muito pequeno, mas 

ele era muito ativo na tentativa de ajudar escravos fugitivos. Esse é simples-

mente um romance policial interessante, na verdade. E está quase pronto. O 

livro provavelmente será publicado na próxima primavera. Vou entregá-lo à 

editora daqui a um mês, mais ou menos. Portanto, ele está basicamente pronto. 

Venho mexendo com isso há alguns anos. Levou muito tempo só para desco-

brir onde as coisas estão. Mas há mais informações do que eu imaginava.

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