Mulheres e feminismo no Portugal Moderno (1899-1913)


Teresa Franco e o feminismo pelo mundo



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Teresa Franco e o feminismo pelo mundo
Mesmo residindo na Covilhã, no interior de Portugal, a jovem Teresa Franco mantinha uma atuação feminista ativa. Por lá, era assinante do jornal da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, além de ter colaborado nos periódicos A Mulher Portuguesa, da Associação de Propaganda Feminista, como uma das responsáveis pela seção “Através do Mundo”. Na Revista Pedagógica, assinou seções sobre o feminismo internacional (ESTEVES, 2005, p. 872). Esse é o mesmo conteúdo que ela vai enviar para sua coluna “De Passagem”, no Portugal Moderno.

Com a participação de Teresa Franco, o jornal da colônia lusa, focado originalmente apenas nos problemas dos imigrantes no Brasil e em notícias de Portugal, ganha um perfil cosmopolita. Sua coluna, apesar da pequena extensão, levanta as principais bandeiras da luta feminista, sobretudo por direitos e por posições de comando e direção, e relata as discussões internacionais e as vitórias obtidas nos mais diversos países. O principal foco é para o que acontece na França e na Inglaterra, mas as notícias abrangem outros países, mesmo a longínqua China.

A primeira coluna apresenta o que será o conteúdo da coluna: “Ligeiras notas, impressões colhidas ‘de passagem’ para um futuro ainda distante: ahi vão como um feixe de saudades, com destino ás queridas irmãs brazileiras.” (Portugal Moderno 13:595, 8 jun. 1913, p. 1). É como se cada publicação representasse um passo no caminho para uma sociedade mais igualitária. Muitas crônicas eram sobre as conquistas das mulheres portuguesas, mesmo as mais simples, como o Centro Democrático do Porto ter convidado Maria Veleda para proferir uma conferência sobre feminismo:
A prova mais segura e flagrante de que em Portugal está cada vez despertando mais vivo interesse a situação da mulher na sociedade moderna encontra-se n’um simples volver d’olhos constatando o numero de distinctas senhoras e homens illustres da nossa terra que a esse problema dedicam a generosidade do seu coração e os fulgores do seu talento. [...]

É sempre assim: vae-se lentamente, na impossibilidade de vencer aos primeiros passos todos os lacerantes obstaculos da vereda ainda quasi intransitavel, quando se toma um caminho para onde a alma nos foge. Depois, outro viageiros ensaiam o novo trilho, que a pouco e pouco se amenisa e alarga. É o triumpho. (Portugal Moderno 14:627, 28 set. 1912, p. 1).


Ou ainda, na crônica de 12 de outubro de 1912, a felicidade em relatar que uma enfermeira havia sido apontada como fiscal do Hospital Estefânia. Pequenas conquistas como essa eram vistas como um triunfo do feminismo, por cada vez mais mulheres estarem sendo indicadas pelo governo republicano para cargos de direção.

Enquanto isso, Teresa Franco refletia sobre os rumos do feminismo no estrangeiro e suas formas de luta. As sufragistas inglesas foram diversas vezes tomadas como modelo de conduta:


Na reivindicação dos seus direitos, luctando por um ideal, o homem quasi sempre tinge de sangue o caminho desbravado.

É ainda o mais forte que para vencer recorre, em occasiões decisivas, aos meios extremos que confrangem o espirito, qualquer que seja o nosso modo de pensar. [...]

Quando vemos que nos conflictos creados pelos protestos d’alguns centos ou milhares d’homens são arrebatadas algumas vidas, tanto mais admiramos o sangue frio das fervorosas suffragistas militantes inglezas nas suas energicas manifestações ̶ luctando pelos interesses moraes e materiaes de milhões de criaturas. (Portugal Moderno 13:610, 31 jul. 1912, p. 1).
Por isso, apesar de comemorar que as mulheres estivessem sido aceitas como voluntárias para acompanhar o exército, como enfermeiras, cozinheiras, costureiras, etc., e mesmo na defesa, na guerra turco-balcânica, Teresa Franco assume-se como pacifista:
Mais uma vez o espirito novo se nos revela sob uma modalidade diversa na conflagração turco-balkanica: em Sofia centenares de mulheres correm para o exercito, organisando-se bandos de voluntarias que vão para os acampamentos preparar as refeições e confeccionar fardamentos, outras affluem, irmanadas na sua fervorosa abnegação á Cruz Vermelha.

Na Turquia reclamam para seguirem nas ambulancias para a fronteira, ao passo que as servias não se limitam á excelsa missão d’enfermeiras, armando-se para a defesa da patria.

[...]

Entretanto, oxalá nunca se nos offerecesse tal ensejo para celebrarmos o feminismo.



[...]

Um dia virá, e bem luminoso e radiante, em que as nações poderosas, n’um amplexo sublime, tornem realidade o sonho do pacifismo. (Portugal Moderno 13:638, 6 nov. 1912, p. 1).


Com as colaborações constantes de Teresa Franco apontando e comentando as lutas e as vitórias feministas por todo o mundo, novos discursos se articulam no Portugal Moderno. Não é mais apenas a questão das mulheres portuguesas, mas de todo o mundo, ampliando a campanha para o “humanismo”, termo de preferência da própria Ana de Castro Osório. Essa coluna alinha-se ao folhetim feminista holandês traduzido por Ana para esse jornal tornando-o um produto editorial que poderia atrair público mais amplo do que a colônia portuguesa no Brasil. Assim, por mais que Ana indicasse que sua propaganda era exclusivamente voltada para Portugal e para a colônia portuguesa, a abertura da discussão para o que se passava em outros países e mesmo o direcionamento específico de Teresa Franco às brasileiras, indicam que houve uma tentativa de maior aproximação entre os grupos feministas dos dois países. Um dos resultados foi a presença de colaboradoras brasileiras ligadas à essa luta, como Ana Villalobos Galheto e Emiliana Delminda.

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