Mulheres e feminismo no Portugal Moderno (1899-1913)



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Mulheres e política no Portugal Moderno
Ana de Castro Osório teve uma participação ativa no jornal da colônia portuguesa. Se ela já havia aparecido em suas páginas com artigos copiados de jornais portugueses e, como vimos, escrevendo excepcionalmente para o Portugal Moderno a partir de Lisboa, ao se transladar para o Brasil, a autora de “O problema feminista” vai se tornar colunista permanente do jornal, responsável por um artigo semanal. Nesses textos, vemos o predomínio de alguns temas de seu interesse.

Ana de Castro Osório não parece ser apenas uma colunista desse jornal. Seus textos ocupam posição de destaque, normalmente o de abertura ao alto da primeira página, lugar anteriormente dedicado aos editoriais do redator Luciano Fataça. A quantidade de publicações é expressiva no período. Entre 16 de setembro de 1911, data da primeira participação por contrato, e a última em 14 de dezembro de 1913, Ana de Castro Osório publica no Portugal Moderno 52 artigos, apenas 1 não é inédito, ao longo de 90 números. Além disso, publica um conto original e duas traduções: um conto de Natal de Andersen e 41 capítulos de um longo folhetim, “O inevitável trunfo”, tradução do romance Hilda van Suylenburg (1897), de Cecilia de Jong van Beek em Donk. Esse romance é considerado um marco do feminismo holandês. Ana de Castro Osório afirma estar traduzindo do alemão para o português (desde a primeira publicação até 1913, o romance teve 7 edições em holandês, 6 em alemão, uma em sueco e outra em francês). Não conhecemos outra tradução para o português e é uma pena que o jornal Portugal Moderno tenha cessado sua publicação antes do término do romance. Mesmo assim, esse folhetim mostra que Ana de Castro Osório estava a par do que outras feministas estavam produzindo e ajudava a difusão e a veiculação de suas ideias.

Sua presença vai alterar sensivelmente o estilo do periódico, como se ela fosse uma editora não oficial, atuando ao lado de Luciano Fataça. O destaque dado às suas produções e a presença cada vez maior de mulheres colaboradoras vai levar a que essa folha se torne também um órgão feminista, por esse tema também ser discutido pelos homens relacionados com a redação.

Em seus textos, encontramos o esperado destaque para a república recém-implantada em Portugal, para a participação das mulheres na sociedade e a luta por seus direitos, e a defesa de educação de qualidade para todos, tópicos já discutidos amplamente por Ana de Castro Osório em seu país. Liga-se a isso uma proposta de aliança cultural entre as duas nações, com uma grande preocupação com o papel da colônia imigrante nas relações luso-brasileiras. Esse tema será o foco de suas conferências de 1922 e 1923 reunidas em A Grande Aliança. No entanto, não era uma novidade. Já em junho de 1908, o Portugal Moderno republicara um texto de Ana de Castro Osório editado por um jornal de Lisboa respondendo às conferências sobre o Brasil realizadas por Paul Doumer, que defendia a estreita relação cultural entre brasileiros e franceses. Defendia ela que:


O Brasil não é verdadeiramente a nossa obra, mas é a obra do nosso sangue, somos nós que lá revivemos, nós que poderiamos desapparecer da Europa com a nossa grande historia os nossos monumentos e até com a nossa lingua ̶ se isso fosse possivel ̶ que continuariamos a viver lá ao longe, com todas as nossas qualidades e até os nossos defeitos, com a historia do nosso povo que é a historia do seu passado, com os nossos livros, a nossa lingua, com a nossa alma, emfim... Não é verdade que o Brasil para um portuguez é uma grande Patria? Não sentimos nós que estamos entre familia, quando estamos com elles? (Portugal Moderno 9:446, 27 jun. 1908, p. 1).
Isso antes de conhecer pessoalmente o Brasil. Estando aqui, a preocupação em manter ligados culturalmente os dois países se torna mais evidente. Vimos o quanto ela se importa com as cidades, os monumentos e mesmo o jeito mineiro de ser, ao passear por Minas Gerais, a todo o momento relacionando aquele estado com os portugueses. Havia, inclusive, uma preocupação com a mudança da capital para a nova Belo Horizonte, por a colônia portuguesa ainda ser pequena naquela cidade. E é justamente o cuidado com o papel dos imigrantes portugueses que vai ser constante em seus textos, com destaque para a série intitulada “Para ser lido em Portugal”, publicada em treze partes, entre 3 de fevereiro e 11 de maio de 1912.

A motivação para esses artigos foi a viagem realizada por Alexandre Braga ao Brasil, para criticar o estado em que estava a monarquia portuguesa pouco antes da proclamação da república, ter sido mal recebida pela colônia lusa. Braga era um republicano histórico. Ele já havia sido deputado em 1906 e era reconhecido como orador e propagandista da república. A proposta de sua viagem tinha um duplo viés. Ele também pretendia apresentar aos dirigentes republicanos portugueses “o que é, realmente o Brasil e qual a maneira melhor de aproveitarem a tradicional corrente imigratoria, que não tem afrouxado ha quatro seculos, e que não diminuiu sequer com a independencia” (Portugal Moderno 13:571, 3 fev. 1912, p. 1). Pois, segundo ela, havia um desconhecimento geral sobre o Brasil em Portugal, principalmente, não se conhecia lá o povo brasileiro, apesar de o país sul-americano ser “a terra sofrega que bebe anualmente uma grande parte do sangue português, e devolve á patria como maquina aperfeiçoada, os residuos inferiores, que não tiveram resistencia, nem inteligencia para triunfar” (Portugal Moderno 13:571, 3 fev. 1912, p. 1).

Percebe-se, por esse texto, que ou Ana de Castro Osório não conhecia de fato a situação de seu país e o que fazia com que tantos jovens emigrassem, ou não queria criar um problema político para o novo regime apontando problemas estruturais portugueses. Além disso, para uma autora que se considerava humanista, é estranha essa defesa sem modulação da lei dos mais fortes e adaptáveis. Segundo Miriam Halpern Pereira, ao longo do século XIX, “o emigrante está longe de imaginar que constitui um peão na política dos países implicados no seu destino” (PEREIRA, 2002, p. 26). Questões socioeconômicas brasileiras e portuguesas intensificavam a onda migratória, independentemente de qualquer ação coerciva do governo português. Do lado brasileiro, desde meados do Oitocentos, havia a necessidade de substituição da mão-de-obra escrava com a proibição do tráfego negreiro. Do lado europeu, sobretudo nos países mediterrânicos, a emigração é resultado “da não-absorção pelos respectivos mercados nacionais da enorme massa de camponeses que a desagregação do Antigo Regime e o desenvolvimento das relações capitalistas no campo libertara” (PEREIRA, 2002, p. 19). No caso português especificamente, após a revolução liberal, “um número crescente de filhos de camponeses não encontrava trabalho nem no campo, nem da indústria. O modelo de desenvolvimento econômico português oitocentista não permitiu a absorção do excedente demográfico” (PEREIRA, 2002, p. 20).

A preocupação de Ana de Castro Osório era com a crescente influência da colônia de imigrantes italianos no Brasil, sobretudo em São Paulo, onde ela residia. Segundo Ana, enquanto em Portugal havia um desconhecimento geral sobre a situação brasileira, na Itália havia ampla divulgação, mesmo sendo eles a terceira fonte de imigrantes, atrás ainda da Espanha. E, mesmo assim, também o jornal Estado de São Paulo publicava constantemente informações telegráficas italianas.

Há uma dupla proposta defendida por Ana de Castro Osório para ser lida em Portugal. Em primeiro lugar, seria preciso valorizar as colônias africanas, incentivando a migração para elas em detrimento da brasileira, pois ela temia que seu país perdesse esses territórios para as grandes potências sob a acusação de má administração. O problema, segundo ela era o povo que, “indiferente aos interesses futuros da coletividade, interesses que elle nem chega a compreender, ignorante como é, não procura nem procurará tão cedo, essas regiões incultas, correndo como formigas que sahem dum mesmo formigueiro” (Portugal Moderno 13:571, 3 fev. 1912, p. 1). Caberia, então, aos que velam os destinos da nação, aproveitar melhor a leva emigrante portuguesa, que ela chama de “exportação voluntária do cidadão português”. Para isso, era preciso preparar melhor os que deixariam o país. E, preocupada com a forma como se fazer isso e inspirada na ação de Alexandre Braga, sente-se na mesma obrigação: “dizer o que pensâmos e temos observado nos poucos meses de permanencia aqui [...] O que temos observado, e o que pessoalmente temos sentido e pensado” (Portugal Moderno 13:571, 3 fev. 1912, p. 1).

Ao longo desses artigos, percebe-se um dos grandes problemas da emigração portuguesa para o Brasil aos olhos de Ana de Castro Osório: ser feita praticamente apenas por homens jovens solteiros.


Daí o perder-se, sem compensação, grande maioria do nosso povo emigrante, que, solteiro e sem compromissos, apenas se liga á Patria por uma vaga e quasi indistincta saudade da terra em que nasceu e pelo afecto aos velhos paes, que se extingue com a morte, não tendo depois nada que os chame ao paiz.

Assim facilmente casa, mais facilmente do que outro colono, e fica preso naturalmente á Patria da nova familia. (Portugal Moderno 13:572, 10 fev. 1912, p. 1).


Essa falta de vínculo entre o jovem português que emigra e sua pátria tem vários motivos, segundo a autora. Como muitos emigram ainda crianças e das aldeias mais remotas, “a Patria é uma saudade e é um simbolo. É uma religião vaga e dôce, como a lembrança dum sorriso materno ou dum conselho paternal. Não se pode tocar nessa preciosidade muito antiga e muito fragil, com receio de que se desfaça em pó toda a ilusão.” (Portugal Moderno 13:573, 17 fev. 1912, p. 1). Essa ideia vaga e tênue do que é Portugal, que o jovem imigrante mal conhece, por ter saído muito novo e sem instrução, precisava ser alterada. Segundo a articulista, a imagem que o grande público no Brasil tinha dos portugueses era a de “ignorante, de galego, de burro, finalmente” (Portugal Moderno 13:574, 24 fev. 1912, p. 1). Tanto que, dantes, os brasileiros de família portuguesa se ufanavam de sua ascendência, mas que isso já não acontecia. E mesmo os imigrantes lusos, ao se casarem, tornavam-se brasileiros, pertencendo à pátria onde criou laços de afeto, pois, para ela, é a mulher que guarda o sentimento patriótico:
Por mais simpatico e carinhoso afecto que manifestem pela terra onde nasceram, a sua verdadeira patria é aquella que a mulher quer que seja a patria de seus filhos.

Porque uma Patria só se forma pelo sentimento que a mulher guarda e conserva no seu peito como o fogo sagrado das antigas vestes. É pela mulher que o sentimento da Patria se transmite como uma religião, vive e triunfa de todos os outros sentimentos, e até da propria razão, na alma dos povos.

E se ha mulher que tenha ardente, dentro do seu coração, o sentimento exclusivista da Patria, essa mulher é sem duvida a brasileira. (Portugal Moderno 13:573, 17 fev. 1912, p. 1).
Por isso, apesar da força do associativismo português no Brasil, responsável por apoiar os imigrantes, de tentar manter a cultura portuguesa e de educar os jovens que chegavam sem formação, isso não bastava para os manter de fato ligados à pátria. Ao se casarem com brasileiras, constituíam uma família dessa terra e, segundo Ana de Castro Osório, as mulheres do Brasil preferiam os portugueses aos colonos de outras nacionalidades, por os considerarem culturalmente próximos. Era preciso, portanto, que em Portugal fossem criadas escolas que instruíssem os jovens sobre o passado glorioso de seu país e fomentassem o amor pela pátria. E que aproveitassem a colônia lusa para exportar os produtos nacionais para o Brasil. Todavia, continuando a emigração de jovens solteiros, seria difícil manter o patriotismo nas futuras famílias constituídas aqui, pois esse português se torna também brasileiro pelo casamento:
Mas fica brasileiro, principalmente, porque ainda mais forte do que a constituição e que todas as leis codificadas, está o amôr entranhado e absorvente que a mulher tem á sua terra moça, á sua terra que tanto necessita desse afecto quasi irreflectido, instintivo, que é a sua força fixadora.

É observando com plena liberdade de espirito, sem preocupações de jacobinismo patriotico, os factos que se desenrolam aos nossos olhos, que bem compreendemos o papel fundamental que a mulher representa na formação das nacionalidades.

Ella é como que a raiz que mergulha no seio quente da terra e com os seus mil liames fixa ao sólo a arvore que se erguerá nas alturas, mas que logo perderá o viço e cahirá sem vida, se essas raizes deixarem de aurir do sólo a vida que as alimenta. [...]

É pela mulher que se transmite o amôr á terra patria; é pela mulher que o homem abandona e esquece tudo o que o prendeu ao berço natal. (Portugal Moderno 13:583, 27 abr. 1912, p. 1).


Fica evidente, portanto, a importância da mulher na colonização e no vínculo patriótico. Todos os outros motivos e ações discutidos por ela e por outros, como educação, serviço militar, economia, associativismo, campanhas direcionando às colônias africanas, todos eles se tornam minoritários pela força com que as mulheres se ligam ao solo pátrio. Isso seria muito difícil de combater se os portugueses continuassem a emigrar solteiros e jovens. Era necessário mantê-los por mais tempo em Portugal, sendo instruído e fazendo-o valorizar seu país, que “não é só essa facha de terra encantada á beira mar; mas é a Angola maior do que a França, a Guiné, Moçambique, Cabo Verde, Açores, Índia, Timor, Macau... tudo emfim que é a terra que nos custou muitas vidas de irmãos” (Portugal Moderno 13:574, 24 fev. 1912, p. 1). Voltando, pois, a defender a ocupação das colônias africanas e asiáticas.

Ao analisarmos os artigos de Ana de Castro Osório para os imigrantes portugueses, percebemos então que ela procurava reconstruir o imaginário nacional. Os pontos principais de seu discurso aliam as características independentistas do povo português a uma participação feminina ativa. Ela defende que a república é o sistema de governo natural para Portugal, que as mulheres sempre foram politicamente atuantes em Portugal, e que apenas o republicanismo permite uma participação feminina digna na coisa pública, por não precisar ser uma atuação envergonhada.

Segundo Castro Osório, a vivência politizada das mulheres não era uma atribuição apenas de rainhas e senhoras nobres, mas algo natural das portuguesas:
Se especialmente quizessemos fazer historia tratando em generalidade da influencia da mulher na politica portuguêsa, sobravam-nos os factos e os nomes, minguando-nos o espaço para uma relação que teria de subir os degraus do throno onde as rainhas impozeram sempre a sua vontade e influenciaram a sociedade do seu tempo, ora para bem, ora para mal, como descer até ao coração do povo, onde se abrigam tantas vezes os mais nobres e desinteressados sentimentos e onde todas as paixões e todas as ideias têm uma repressão intensa, que é como o fluxo e refluxo da vaga a cantar e a ecoar na praia... (Portugal Moderno 12:558, 4 nov. 1911, p. 1).
É importante destacar que Ana de Castro Osório valoriza o papel de influência de todas as rainhas, não apenas das que reinaram ou foram regentes. E se as do povo não tiveram papel mais intenso na vida pública, foi pela repressão que sempre sofreram. É o que ela, no artigo “Feminismo”, responde ao padre Etienne Brasil, que havia sido entrevistado na Gazeta de Notícias sobre esse tema e afirmou que esse movimento não estava mais avançado no Brasil por causa da colonização portuguesa:
O senhor padre Brasil talvez não saiba que a mulher do nosso paiz foi sempre, atravez dos séculos, a mãe de família exemplar e ideal, aquella que dirige os negocios de sua casa, que substitue o marido e na ausencia faz a administração dos seus bens; que educa os seus filhos, que os prepara com energia e saber para sêrem os triunfadores sociaes. (Portugal Moderno 13:600, 26 jun. 1912, p. 1).
Sejam nobres ou plebeias, para Castro Osório, a mulher, na história portuguesa, sempre foi agente de propaganda. Os monárquicos a usaram. Depois, os republicanos perceberam a força da ação feminina na sociedade e convocou as mulheres para fazerem parte da revolução.

A mudança, segundo Ana conta em seus artigos, era já latente, porque a revolução não se explica pelos últimos momentos. Diz ela que “O que propriamente se costuma chamar a revolução não é mais do que o epilogo de crises coletivas que podem durar annos como duram seculos” (Portugal Moderno 12:559, 11 nov. 1911, p. 1). Em Portugal, a república teria começado a surgir quando a corte vem para o Brasil, com seu prólogo na revolta liberal de 1820.


Como a cachoeira que se precipita da montanha e depois do fragor da queda ainda corre vertiginosa, pela força adquirida, e se alastra pelo solo fecundo da planicie e leva no seu leito tudo quanto lhe pretender embargar o passo; assim a ideia revolucionaria caminhava na terra em que a Liberdade mais apaixonadamente tem sido amada e defendida, atravez de todas as dôres, resistindo a todas as tiranias. (Portugal Moderno 12:566, 30 dez. 1911, p. 1).
Ao longo do liberalismo, explica Castro Osório, a mulher, cada vez mais interessada nos assuntos políticos, conservava-se aparentemente afastada, porque não havia “nenhuma associação que tivesse a coragem de confessar-se abertamente politica” (Portugal Moderno 12:559, 11 nov. 1911, p. 1). Essa foi a grande diferença entre a participação das reacionárias e das republicanas. Enquanto estas organizavam-se publicamente e defendiam seus interesses abertamente, aquelas precisavam agir de maneira oculta, pois o regime que elas apoiavam as silenciavam. Por isso a defesa e a propaganda republicana encetadas pela articulista. Daí também sua critica aos que atacam qualquer ação política feminina, independentemente do viés seguido, pois ela defende o direito das mulheres reacionárias de atuarem politicamente: “Nunca insultariamos uma mulher porque ella se interessa pela politica, porque faz propaganda, porque dirige, influe e manda, seja qual for o seu ideal” (Portugal Moderno 12:561, 25 nov. 1911, p. 1). Afinal, para ela, impedir que mulheres monarquistas defendessem suas ideias seria retroceder em algo conquistado pela república: a participação ativa das mulheres no debate político.

Ao descrever as ações políticas das mulheres em Portugal, Ana de Castro Osório valoriza as associações feministas, afinal, ela foi membro, colaboradora e mesmo fundadora e presidente de algumas delas. E incluiu nesse rol a maçonaria, da qual fazia parte. Segundo ela conta, como essa irmandade trabalhava em prol da liberdade e reconheceu “a necessidade de opôr á propaganda da mulher reacionaria influindo directamente na familia e por ella na sociedade em geral” (Portugal Moderno 12:560, 18 nov. 1911, p. 1) com a propaganda da mulher liberal, por isso, “revendo e modernisando inteligentemente os seus estatutos conforme a evolução social” (Portugal Moderno 12:560, 18 nov. 1911, p. 1), já admitia lojas femininas autônomas e com direitos iguais às masculinas. Teria sido na Loja Humanidade, a primeira e a mais numerosa e poderosa das oficinas femininas que funcionavam no Oriente Português, que muitas senhoras se inscreveram na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. E dessa loja veio uma das fundadoras da Liga, a Carolina Beatriz Angelo, e Adelaide Cabette. Por ter feito parte desse movimento, o artigo histórico se transforma num texto memorialístico que afeta a autora:


Hoje, decorridos sobre esses factos quasi tres annos, com todas as emoções e crises e luctas, anciedades e alegrias, do periodo mais agitado da vida portuguesa: tendo passado pelo nosso paiz como uma lufada purificadora a revolução triunfante de 5 de outubro, sabe-nos bem recordar serenamente, recolhidamente; coma unção de quem revive um passado muito distante pelo que em si contém de factos, de ideias e de sentimentos; muito perto porque faz quasi ainda parte do momento presente, essas horas unicas de entusiasmo e de esperança em que as mulheres poruguêsas iniciavam o caminho de lucta pelos seus direitos influindo na sociedade, trabalhando para a sua libertação, para que num meio mais propicio o futuro lhes fôsse de maior justiça. (Portugal Moderno 12:560, 18 nov. 1911, p. 1).
Isso não a impedia de criticar algumas ações da república em relação às mulheres. Também a incentivava a continuar lutando e a tentar convencer outras do seu gênero sobre a validade de sua luta. Para ela, “a legislação portuguêsa é hoje a que mais dignifica a mulher na familia. E ha mulheres portuguêsas que hostilisam a Republica e odeiam o ministro que verdadeiramente as libertou” (Portugal Moderno 13:569, 20 jan. 1912, p.1). Mesmo assim, ela não deixava de apontar problemas: “Por fim não podiamos deixar de protestar, como mulheres, como sêres humanos que acima de tudo presam a dignidade do seu sexo e a pureza e honestidade dos costumes, contra essa perversão social que se chama a prostituição legalisada” (Portugal Moderno 13:569, 20 jan. 1912, p.1).

Para continuar convencendo portuguesas e os governos, era urgente e necessário continuar lutando, algo que ela continuava fazendo, agora na imprensa periódica dos imigrantes:


A nossa propaganda não têm esmorecido, porque a mulher em Portugal deixou, felizmente, de ser politica no sentido de ser a influencia oculta e intrigante dos governos, mas lucta serenamente e inteligentemente para ocupar dentro do seu pais um logar de igualdade que nobilita uma sociedade progressiva.

Precisamos de trabalhar muito para o conseguir?... Sem duvida! Porque precisamos, antes de tudo, de educar a mulher para se tornar um sêr nobre e altivamente livre, consciente dos seus direitos como dos seus deveres. Mas o nucleo das que conhecemos de perto e com quem lidamos fraternalmente, tanto as que fazem parte da “Liga Republicana das mulheres Portuguêsas” como as que pertencem á “maçonaria”, como as que formam o brilhante grupo da “Associação de Propaganda Feminista” e muitas outras ainda que estão comnosco embora não estejam agremiadas, dá-nos a certeza que a ideia caminha sem descanço e que a Republica, que já escancarou á mulher as portas das leis, que se tornaram humanas e dignas, hade satisfazer a todas as nossas aspirações libertadoras.

De longe seguimos com todo o nosso coração o trabalho das nossas colegas [...] (Portugal Moderno 13:569, 20 jan. 1912, p.1).
Apesar de Ana de Castro Osório ter afirmado algumas vezes ao longo de sua colaboração que sua luta feminista era para ser realizada em Portugal, sem querer interferir na sociedade brasileira, a divulgação de suas ideias e sua presença aqui era sentida. Contudo, como o Portugal Moderno era voltado para a colônia portuguesa, a repercussão não foi maior, talvez chegando apenas às pessoas de sua relação.

Suas ações no periódico, por outro lado, iam muito além da colaboração com artigos de cunho sociopolítico. Acreditamos que tenha sido ela a responsável pela aproximação ou não de outras escritoras e feministas. É o caso, pelo menos, de Ana Villalobos Galheto, que, segundo as notícias, era amiga pessoal de Ana de Castro Osório. Além dela, há feministas portuguesas que se tornam colaboradoras ocasionais, com textos originais ou republicações, como Delfina de Lemos, Maria Veleda, Joana de Almeida Nogueira, entre outras.

É importante, portanto, também buscarmos compreender a visão que Ana de Castro Osório tinha sobre outras mulheres atuantes em seu tempo. Algumas ela comentou na própria série de artigos sobre a mulher na política portuguesa, o que deixa claro que Ana não dissocia a atuação política da composição literária. Nesse artigo, ela faz breves considerações sobre Angelina Vidal, Maria Veleda, Maria Amália Vaz de Carvalho, Cláudia de Campos, Virgínia de Castro e Almeida, Alice Moderno e Beatriz Pinheiro. A lista parte de recordações sobre as escritoras que escreviam no Mundo, mas não só. Vejamos: Angelina Vidal, “que fôra socialista revolucionaria e vermelha, afastara-se da propaganda, entristecida e desanimada com as tristes condições duma vida de lucta áspera, começando talvez nella a evolução espiritual que a atirou para o misticismo dos últimos tempos”; Maria Veleda, “ainda nessa época se conservava no seu Algarve, prêsa numa dolorosa crise de sentimento que a alheava das grandes questões sociaes que se agitavam já como um vento prognosticador da procela que se avisinhava”; Cláudia de Campos “foi sempre romancista e critica historica, uma vez por acaso, revelando nesse trabalho qualidades de logica primorosa”; Virgínia de Castro e Almeida “tambem nunca luctou pelo triunfo das ideias sociaies senão nos capitulos do seus romances”; Alice Moderno “conservava-se, como ainda hoje, na sua ilha açoriana poetando, jornalicando, educando, e trabalhando sem lazer para conquistar o direito ao futuro socêgo”; Beatriz Pinheiro “que entrára com tanto brilho e coragem na lucta feminista-social, afastava-se num mutismo que é um crime a que ainda hôje nos não habituamos a sancionar sem o nosso protesto” (Portugal Moderno 13:567, 6 jan. 1912, p.1). Mas Ana dedica mais espaço à Maria Amália Vaz de Carvalho, mais velha, já renomada, inclusive com colunas fixas em jornais de grande circulação no Brasil e que já aparecera no Portugal Moderno com textos copiados de outros jornais e de seus livros. Maria Amália, apesar de ter se lançado na carreira literária, ter aberto um dos salões mais frequentados de Lisboa e ter sido a primeira portuguesa eleita para a Academia das Ciências de Lisboa, não apoiava o feminismo. Em um texto de 1909, Vaz de Carvalho comenta sobre feminismo e a participação política das mulheres:
Eu não sou das que aprovam incondicionalmente a súbita e violenta invasão feminina, em todas as regiões onde há pouco ainda só o homem imperava, soberano e exclusivista. Gosto do movimento feminista em muitas coisas. Que a mulher se prepare para ganhar o seu pão quotidiano ou o dos filhos órfãos de pai [...]

Admiro a mulher artista ou escritora, elevando conscienciosamente e longe da cabotinagem oficial, o seu monumento de graça e de poesia, e dessas vejo adoráveis exemplos [...], pois não falo aqui das grandes mulheres que o gênio pôs fora das condições do seu sexo, tais como Madame de Stäel e Georges Sand, e no tempo dessas o feminismo ainda não era uma carreira militante.

[...] As mulheres também estão tentando as asas nas regiões da política, mas por ora que desastrados voos! Que ininteligência das coisas! Que sectarismo cego e fanático nas ideias!... (CARVALHO, 1920, p.145-152).
Por esses trechos, vê-se claramente que, por mais que a própria Maria Amália Vaz de Carvalho tivesse vida pública, uma carreira como literata, enfim, ações que indicam um avanço nas condições impostas às mulheres na sociedade daquela época, ela ainda se mostrava reativa aos avanços do feminismo e a uma maior participação política de seu gênero. Talvez por isso, Ana de Castro Osório, ressente-se das posições políticas de Maria Amália, mas a desculpa, reconhecendo a importância dela como nome importante na intelectualidade portuguesa do final do século XIX:
Maria Amalia Vaz de Carvalho conservava o bastão de marechala das letras nas mãos delicadas de patricia. A febre que nos fazia agir, atirando com o desafio da nossa palavra ardida ao velho preconceito e á caduca sociedade em que fôra criada e vivia, assustava-a, mas não a irritava.

A grande escriptora portuguêsa foi sempre um bello e claro espirito que o meio apertou em moldes que por vezes rompe numas fugas brilhantissimas e que serão mais tarde páginas de verdadeiro combate, justificação aos nossos ataques a toda essa inutil sociedade que se julgava a superior. (Portugal Moderno 13:567, 6 jan. 1912, p.1).


A luta política republicana e feminista era tão importante para Ana de Castro Osório, que isso interferia em seu apoio a outras escritoras. No espólio da família de Ana de Castro Osório na Biblioteca Nacional de Portugal há duas cartas da escritora Maria O’Neill. A primeira agradecia a amiga pelo envio de uma colaboração para o Almanaque das Senhoras, fundado em 1870 por Guiomar Torresão, cujos volumes para os anos de 1911 a 1925 ficaram a cargo de O’Neill. Nessa mesma missiva, Maria pede a Ana de Castro Osório que consiga algum contrato de colaboração na imprensa porque precisava de “remuneração certa”3. O arquivo não contém a resposta, mas a carta seguinte, de 22 de setembro de 1912, revela informações prestadas pela correspondente do Brasil. Ana teria lamentado a forma com a qual os portugueses seriam recebidos aqui, o que dificultaria o acesso ao tipo de contrato que Maria O’Neill desejava. A editora do Almanaque ainda justifica suas relações com os monárquicos, respondendo a uma dúvida sobre o posicionamento político, mas declara-se republicana, apesar de não gostar “de combates, nem de pena”4. Por fim, Maria oferece-se para enviar algum pequeno texto ao Portugal Moderno, como forma de agradecimento:
se no modesto circulo das minhas ideias a minha pessoa lhe puder servir com meus versos, um conto ou qualquer cousa d’esse genero para “O Portugal Moderno” terei muito gosto em lhe ser agradavel sendo-me com isso por muito bem paga.5
Em março de 1913, o Portugal Moderno publica dois poemas inéditos de Maria O’Neill. Em abril do mesmo ano, mais um. Ou seja, a relação entre Ana de Castro Osório e a redação do jornal permitia que ela indicasse colaboradoras. Os dois sonetos de O’Neill, “Soneto”, “Lamento” e “O maior mal” repercutem o tema da mulher sofrendo o amor não correspondido, como as Cartas Portuguesas, atribuídas à soror Mariana Alcoforado, ou a lírica da poetisa romântica Maria Browne, tema ainda glosado, pouco depois, por Florbela Espanca, gerando escândalo.
Lamento

(inédito)


Reconcentrado em ti, como um aváro,

Sem ter affeição forte, que te acoite,

Andas perdido n’uma eterna noite,

Meu pobre coração! Que desamparo!...


Ficou-te na memoria, como açoite,

A certeza de quanto custa caro

O verdadeiro amôr; ̶ é mal tão raro

Que a retribui-lo não ha quem se afoite.


Mais te valêra nunca ter nascido

Para viver assim, desilludido,

De quanto está por vir ou já passou!
Do grande incendio, agora n’um brazido,

É maior dôr que ter sobrevivido,

Já não poder amar quem tanto amou!

Maria O’Neill (Portugal Moderno 14:677, 22 mar. 1913, p. 1).


Outras duas feministas portuguesas se tornaram colunistas assíduas do Portugal Moderno, posição que não deve ter sido oferecida à Maria O’Neill. Teresa Franco assina, a partir de junho de 1912, a coluna “De Passagem”, também na primeira página. Maria Evelina de Sousa, editora da Revista Pedagógica, de Ponta Delgada, envia notícias dos Açores a partir de fevereiro de 1913. A primeira era colaboradora e a última, sócia da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Talvez participação nessa associação feminista republicana tenha sido fundamental para a ligação dessas escritoras com o jornal. Ou, quem sabe, as amizades monárquicas de Maria O’Neill tenham sido realmente impeditivo para que uma inserção efetiva nesse periódico. Como a questão política se tornou fator importante nessa folha, esses vínculos não podem ser ignorados.



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