Mulheres e feminismo no Portugal Moderno (1899-1913)


Relações brasileiras de Ana de Castro Osório



Baixar 342.23 Kb.
Página2/6
Encontro17.03.2020
Tamanho342.23 Kb.
1   2   3   4   5   6
Relações brasileiras de Ana de Castro Osório
Em 1911, quando Ana de Castro Osório vem viver no Brasil acompanhando o marido, Paulino de Oliveira, que havia sido indicado a cônsul de Portugal em São Paulo, ela amplia a rede de contatos já estabelecida e se propõe a disseminar suas obras e suas ideias em diversas frentes. Angela Gomes, inclusive, já apontou as ações de Ana para ampliar sua participação como autora e editora de livros infantis por aqui e conclui:
Por conseguinte, quando ela viajou para o Brasil, não era uma desconhecida como autora de livros infantis. Com competência, aprofundou seus vínculos com uma rede de políticos e intelectuais estratégicos, aproveitando os contatos prévios, estabelecidos por Paulino. (GOMES, 2106, p. 102).
Assim, apesar de já existirem alguns estudos que apontam as relações de sociabilidade entre Ana de Castro Osório e outras escritoras, educadoras e feministas brasileiras percebidas pela troca de correspondência e mesmo referências publicadas (CORDEIRO, 2014; GOMES, 2013; LOUSADA, 2015; LOUSADA e LAGUARDIA, 2013; PEREIRA, 2015; REMÉDIOS, 2000), ao analisarmos em conjunto dois grupos de fontes primárias, que nas últimas décadas têm sido utilizadas por historiadores e pesquisadores da área de Letras na valorização de uma história cultural, como a correspondência da escritora e periódicos1, podemos reconstituir parte da rede de sociabilidade que ela estabeleceu no Brasil e como ela a articulava para divulgar seus livros. Aproveitamos, para isso, além do Portugal Moderno à guarda da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a coleção da família Castro Osório existente no setor de reservados da Biblioteca Nacional de Portugal. As duas entidades juntas permitem aprofundar os estudos sobre as relações luso-brasileiras. Apenas assim foi possível estabelecer algumas ligações da rede de sociabilidade a que Ana de Castro Osório estava ligada no Brasil e alguns reflexos imediatos de sua articulação através de notícias e artigos na imprensa periódica.

Ana de Castro Osório já tinha uma carreira consolidada em Portugal quando começou a buscar o público brasileiro. Resumidamente, podemos lembrar que ela foi editora, principalmente de livros infanto-juvenis, literatura que ela abraçou também como autora, tradutora e pela recolha de contos tradicionais, além de ter escrito algumas narrativas curtas e romances. Ela também foi responsável por alguns periódicos e colaborou com diversos jornais e revistas. Politicamente, Ana de Castro Osório foi defensora incansável dos direitos das mulheres e é de sua pena o texto considerado primeiro manifesto feminista português, Às mulheres portuguesas, de 1905. Ela lutava pelo voto, pelo divórcio, pela possibilidade de trabalhar, receber salário e administrar seus bens sem depender de autorização do marido, e pela igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres no código civil. Para isso, atuou publicamente em prol da república, único sistema de governo que ela acreditava ser capaz de promover essas mudanças, tendo sido a principal articuladora e primeira presidenta da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, fundada em 1909.

Ana de Castro Osório também está vinculada ao Brasil de diversas formas. Alguns de seus livros infanto-juvenis foram aprovados para uso nas escolas e para prêmios nos estados de Minas Gerais e São Paulo, como Uma lição de História (1909), As boas crianças, nona série da coleção “Para crianças”, Os nossos amigos (1910?) ̶ em coautoria com o marido ̶ , Lendo e aprendendo (1913) ̶ publicado em São Paulo, pela Empresa de Propaganda Literária Luso-Brasileira ̶ , e O livrinho encantador (1923). Isso demonstra um trabalho árduo de estabelecimento de relações socioculturais e mercadológicas no Brasil, antes, durante e depois esse período de residência no país.

Para as crianças, além da série em vários volumes saídos por sua própria editora e que ela busca comercializar também no Brasil (GOMES 2016), Ana publica, em 1924, Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil, buscando uma aproximação maior com o público e com o mercado brasileiros. No mesmo ano, lança A grande aliança, com o subtítulo “a minha propaganda no Brasil”, reunindo as ideias que ela propagara em uma série de conferências realizadas entre 1922 e 1923 no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Pelotas e Santa Maria. Em 1927, sai o romance Mundo Novo, sobre uma escritora feminista que busca nova vida aqui.

Seu objetivo de alcançar o mercado brasileiro era antigo. No espólio de sua família há a correspondência com representantes comerciais e amigos indicados a fazer divulgação de sua obra “Para as Crianças” por aqui. Os resultados nem sempre foram positivos, mas ela continuava tentando com outros contatos.

Quando Ana chegou ao Brasil, procurou ampliar suas relações e tratou ela própria de divulgar sua obra infantil e literária. Então, encaminhou um livro, Infelizes, a Júlia Lopes de Almeida com carta de apresentação, de modo a se fazer conhecer também como autora não apenas de livros infantis, conforme assume em artigo dedicado à escritora brasileira no Portugal Moderno motivado por as duas escritoras terem se encontrado:


Muito conhecida e estimada no meu país pela élite intelectual, D. Julia Lopes foi dos primeiros nomes que tracei na relação de ofertas que desejava fazer. É a acompanhar, em livrinho simples, falando dos humildes, que só não teve este título por ter aparecido outro assim chamado, escrevi uma carta a D. Julia apresentando-o e apresentando-me, seguindo desde então a norma, ainda não posta de parte, de preferir sempre apresentar-me pessoalmente do que pedir aos outros para dizerem por delicadeza, o que talvez não sintam muitas vezes. (Portugal Moderno 13:633, 19 out. 1912, p.2).
A partir do encontro e da publicação desse artigo, uma relação de amizade se estabeleceu entre Ana e Júlia, que escreveu para ela agradecendo suas palavras em 22 de outubro: “O meu desejo quando li o seu adoravel e consolador artigo no “Portugal Moderno” foi correr á Central, apezar do medo que ela me inspira e ir ao seu querido ninho apertal-a de encontro ao coração.”2

Intelectualmente, as duas já se conheciam. Prova disso é que Júlia Lopes de Almeida já havia publicado n’O Paiz um esboço bio-bibliográfico da escritora portuguesa elogiando suas produções para as crianças em 1907:


Por isso tudo, a arte de escrever para crianças exige prodigios da imaginação mais maleavel e vagabunda e a maior attenção na urdidura dos acontecimentos.

Ora, é exactamente essa uma das qualidades que admiro na bibliotheca infantil da Incansavel escritora portugueza D. Anna de Castro Osorio, nome que a nova geração da sua patria deve ter na mais alta consideração. (O Paiz 8299, 24 jun. 1907, p. 1).


O contato pessoal no Brasil possibilitou estreitamento dos laços. Na década de 1930, Júlia respondia de Paris uma carta de Ana. As relações estabelecidas entre Ana de Castro Osório e Júlia Lopes de Almeida são exemplo do tipo de ação empreendido pela escritora portuguesa no Brasil na divulgação de seus livros. Ao comentar obras alheias na imprensa dos dois lados do Atlântico ou servindo de intermediária, em Portugal, para a divulgação de obras brasileiras, ela estabelece alianças que a favorecem enquanto intelectual.

Por outro lado, Ana se esforçava em difundir suas produções para crianças no Brasil. Por isso, entrou em contato com Julião Machado, que era desenhista do periódico voltado para o público infantil, O Juquinha. Todavia, apenas conseguiu que sua coleção fosse indicada como presente de Natal numa edição especial daquele ano, sem que Julião aceitasse publicar nenhum de seus contos no jornalzinho brasileiro.


Fig. 1 - O Juquinha n. 4

No canto inferior esquerdo, a “Bibliotheca infantil / Anna de Castro Osorio” como sugestão de presente.
Outros contatos, no entanto, foram mais profícuos. É o caso das relações estabelecidas por Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira junto a um grupo de mineiros envolvidos com questões educacionais. Além da aprovação de livros de Ana para uso nas escolas e premiações no estado de Minas Gerais, estabeleceu-se a melhor forma como ela deveria se apresentar no II Congresso Pedagógico Brasileiro, que ocorreria em Belo Horizonte. O português residente naquela cidade, Avelino Fernandes, procurou diligenciar a melhor forma como seus patrícios deveriam ser convidados e como deveriam proceder no congresso.

A viagem a Minas Gerais e a participação de Ana de Castro Osório no congresso pedagógico foram amplamente divulgadas no Portugal Moderno, que a destacou como intelectual portuguesa ovacionada em Belo Horizonte. O tema de sua conferência, infelizmente não publicada no jornal, defendeu o incentivo do uso de literatura infantil na educação. Ou seja, ela aproveitou o evento para justificar a aceitação de seus livros nas escolas: “Mais uma vez, D. Anna de Castro Osorio, poz em relevo a intellectualidade do seu paiz, prendendo a atenção do auditorio selecto que a escutava, com o encanto da sua palavra, cheia de colorido, dissertando sobre A arte e a litteratura na educação infantil.” (Portugal Moderno 13:631, 12 out. 1912, p. 1 - grifos do original).

Além de notícias sobre o evento, ela própria escreveu sobre sua presença e relatou em seis partes seu deslocamento “Através de Minas”. Ana explorou os temas que a interessavam, como a aliança cultural luso-brasileira e a educação feminina. Ela começa por apresentar os mineiros como culturalmente próximos aos portugueses:
De facto julgámos sintetisar verdadeiramente o nosso sentir na frase que espontaneamente nos acudiu aos labios ao perguntar-nos alguem a ipressão que tinhamos da terra dos Inconfidentes: ̶ Quando nos sentirmos estrangeiros no Brasil, viremos para Minas e estaremos entre irmãos. (Portugal Moderno 13:634, 23 out. 1912, p. 1).
Essa relação cultural entre brasileiros e portugueses faz parte da campanha que a Castro Osório desenvolve em vários artigos no Portugal Moderno e que chegará ao livro A Grande Aliança. Na série de artigos sobre sua viagem por Minas, a presença histórica portuguesa é também destacada como algo a se preservar, tal como ela indica que se deva fazer com Ouro Preto, que ela teme entre em decadência com a nova capital.

E ainda no artigo sobre o congresso, ela destaca o papel das mulheres na educação:


Nos grupos escolares, todos dirigidos por senhoras, conforme o preceito mais adotado pelos pedagogos, de entregar quanto possivel a primeira infancia á mulher, já existe o trabalho manual, aliado ao intelectual, que é o desejo de todos os educadores. O proprio trabalho das meninas, que é quasi sempre uma maneira engenhosa de matar o tempo, têm-no as professoras tornado utilitario e que poderá ser, para muitas um princípio de pequena mas util industria caseira. (Portugal Moderno 13:634, 23 out. 1912, p. 1).
Liga-se assim, à sua análise sobre o ensino destinado às meninas em Minas Gerais, o propósito sempre levantado por Ana de Castro Osório de que as mulheres devem ser economicamente independentes, que devem trabalhar e controlar seus rendimentos. Além disso, Ana termina seu artigo com uma defesa da república, por Afonso Costa, segundo ela, ter compreendido a obra educacional do padre Antonio Oliveira, “que tão querido é por toda a Republica Portuguêsa, considerada a intransigente inimiga dos padres” (Portugal Moderno 13:634, 23 out. 1912, p. 1), por ela associar às ideias pedagógicas desse padre o que Leon Renault, do Instituto João Fernandes, estava realizando em Minas Gerais.

Quanto às relações estabelecidas, a viagem do casal Ana e Paulino através de Minas foi ciceroneada por um grupo de pessoas de sua relação, dos quais alguns nomes são citados ao longo da narrativa: “o bom professor dr. Luís Pessanha, o melhor dos companheiros e a boa alma do Congresso” (Portugal Moderno 13:636, 30 out. 1912, p. 1); e “o futuro engenheiro Roberto de Vasconcellos”, filho “do distintissimo historiador dr. Diogo de Vasconcellos” (Portugal Moderno 13:638, 6 nov. 1912, p. 1), que os visitou no hotel em Ouro Preto. O retorno a Belo Horizonte foi acompanhado pelo dr. Costa Sena, que os apresentou a escola museu com as pedras retiradas das minas. Na nova capital mineira, eles foram recebidos pelo amigo Avelino Fernandes. Ao exaltar os feitos do comendador português para o desenvolvimento da cidade, além de agradecer os trabalhos prévios realizados pelo amigo, indica à colônia lusa e mesmo aos mineiros o nível de importância desse patrício, fortalecendo sua influência em Minas Gerais.

Ao acompanharmos os comentários e as notícias publicados sobre Ana no Portugal Moderno, uma lista de nomes de empresários, políticos, editores e escritores se apresenta. Apesar de não ser possível depreender o nível de contato estabelecido, ou se essas relações se solidificaram e foram aproveitadas pela escritora em algum momento, sua publicação no periódico demonstra um pouco de sua recepção enquanto autora naquela momento no Brasil.

Assim, destacamos que, além do próprio diretor do jornal, Luciano Fataça, comentam as obras na imprensa ou em livros de Ana de Castro Osório: Luiz Lúcio (português residente em Juiz de Fora/MG); Leopoldo de Freitas (presidente da Associação do Livre Pensamento em SP, pronunciou conferências sobre Literatura Portuguesa e era genro do deputado Moreira da Silva) em artigo transcrito do jornal paulista Diario Popular; e Paiva Salles (secretário de agricultura de SP).

Na visita ao Rio em 1912, documentada no Portugal Moderno, Ana e Paulino foram recepcionados por: Maria Pessoa de Sá, Alice Lopes, Francisco V. de Sá, Illydio Lopes, João Pedro Lopes, Luiz Antonio Lopes, Julio Fernandes Tavares, José Lopes Amaral, João Rorigues Lopes, Abilio Ribeiro Figueiredo, Recredo Teixeira, Elisiario Brandão, Francisco d'Oliveira Marques Junior, Luciano Fataça, etc. O jornal conta que não puderam passear porque o tempo esteva ruim a semana toda, mas foram agraciados com um jantar de homenagem do Bernardino Machado, ministro de Portugal no Rio, no hotel dos Estrangeiros. Também houve um almoço íntimo oferecido pelo Portugal Moderno no restaurante Stadt München e um passeio de automóvel à Tijuca, sendo recebidos por José Baptista Vaz de Carvalho e seu genro João da Costa Barreiros, da firma Vaz de Carvalho & Cia. O casal tinha se deslocado ao Rio de Janeiro para acompanhar Ana Villalobos Galheto que embarcava para a Alemanha. Vieram com Joaquim David Galheto (negociante de São Paulo, parte da firma Augusto Rodrigues & C.ª). Na despedida à Galheto no navio estavam presentes Filinto de Almeida e Júlia Lopes de Almeida.

Após a viagem de Ana de Castro Osório por Minas Gerais, a escritora viajou a Portugal para levar seu filho José Osório de Castro, “que tendo completado o curso primario no grupo escolar dirigido pelo professor paulista sr. Frontino Guimarães, vai seguir os seus estudos no delicioso paiz onde viu pela primeira vez a luz do dia. Vae matricular-se no Lyceu Camões, de Lisboa.” (Portugal Moderno 14:659, 18 jan. 1913, p. 1). Ela estava a bordo do navio König Wilhelm II, que abordaria ao Rio de Janeiro no dia 20 de janeiro de 1913. Na edição do dia 22, o Portugal Moderno relata que infelizmente o navio ficara apenas três horas no porto carioca, o que impediu que Ana visitasse algumas “familias que muita sympathia lhe consagram”. Apesar da curta permanência na cidade, ela foi saudada no navio


por elevado numero de pessoas, entre as quases notámos: melles. Maria, Joaquina, Jeronyma e Elzira Machado, gentilissimas filhas do sr. dr. Bernardino Machado, ministro plenipotenciario de Portugal; melle. Alice Lopes, D. Palmyra de Abreu F. Castello Branco, e srs. Agnello Pessoa, secretario da Legação Portugueza, como representante do nosso illustre ministro, Illydio Lopes, João Lopes, Luciano Fataça, director do Portugal Moderno, Victorino Coelho de Carvalho e Antonio de Carvalho Pimentel, ambos tambem do corpo redactorial d’esta folha (Portugal Moderno 14:660, 22 jan. 1913, p. 1).
Mesmo presente por pouco tempo no Rio de Janeiro, Ana de Castro Osório recebeu representantes da diplomacia portuguesa, da família de Bernardino Machado, pessoal ligado ao jornal e amigos. Isso demonstra o reconhecimento que ela tinha, sobretudo na colônia portuguesa, como intelectual e política.

A partir dessas notícias, dos artigos escritos por Ana de Castro Osório sobre sua viagem a Minas Gerais, e pelas cartas por ela recebidas de pessoas vinculadas ao Brasil, foi possível perceber o meio pelo qual ela se movimentava e suas ações para que seus objetivos fossem atingidos. Ressalta-se a busca por estabelecer contato com portugueses influentes na sociedade brasileira e nos meios editoriais, além do relacionamento pessoal que ela procurou ter com a escritora Júlia Lopes de Almeida e que perdurou muito além de sua estada no país.



Catálogo: sites -> default -> files -> documentos -> producao -> pesquisa -> 2016
files -> Bernardo Mançano Fernandes Curriculum Vitae Setembro/2016 Bernardo Mançano Fernandes
files -> Profª Carolina Franco
files -> Publicado em março de 2018 pelo Conselho Mundial da Água Todos os direitos reservados
files -> Centro de estudos latino-americanos sobre cultura e
files -> Resumo: Discute-se as representações sociais que operam na constituição das questões das identidades
2016 -> Recomendações para a princesa e a rainha de Castela em dois tratados raros do quatrocentos que compõem o acervo da Fundação biblioteca nacional
pesquisa -> A penetração do arcabouço ideológico europeu no Brasil do século XIX: pensamento liberal burguês, teorias racistas e evolucionistas e o projeto republicano baseado na eugenia


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal