“Música en Onda”: a esquerda chilena na disputa pelo público jovem (1971-1973) natália ayo schmiedecke



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“Música en Onda”: a esquerda chilena na disputa pelo público jovem (1971-1973) 



 

NATÁLIA AYO SCHMIEDECKE* 

 

Até  1971,  inexistiam  no  Chile  revistas  de  esquerda  direcionadas  à  juventude,  mas  a 



necessidade  de  disputar  o  mercado  com  a  oposição  no  contexto  da  Unidade  Popular  (UP)

1

 



estimulou a criação de Onda. Ela visava fazer frente à revista Ritmo de la Juventud, dirigida 

por  María  Pilar  Larraín  e  veiculada  entre  1965  e  1975  pela  editora  Lord  Cochrane, 

pertencente ao grupo Edwards. De acordo com a historiadora Mariana Arantes, as seções de 

Ritmo  se  dividiam  entre  os  temas:  moda,  música,  notícias  (nacionais  e  internacionais)  e 

passatempos  (2009:16).  Em  sua  análise,  a  autora  constata  que  o  jovem  é  ali  representado 

como  um  sujeito histórico com  demandas próprias  e que  rompe com  as  gerações  anteriores, 

sendo  constantes  as  referências  à  sua  proeminência  enquanto  agente  transformador  da 

sociedade. Mas isso não significaria romper com a moral tradicional; ao contrário, 

 

 



[...] há uma discussão que perpassa aspectos comportamentais, uma vez que toda a 

estruturação  da  revista,  tanto  a  parte  estética  quanto  o  conteúdo  dos  artigos,  foi 

realizada pensando no público jovem, mas para um jovem que não concorda com o 

“sensacionalismo e as atitudes duvidosas e negativas”. Esta caracterização do leitor 

da revista demonstra uma postura conservadora a fim de dar satisfação à sociedade 

chilena  preocupada  com  o  comportamento  da  juventude.  [...]  Assim,  a  revista 

apresenta-se  como  favorável  às  tendências  inovadoras,  mas  não  no  sentido  de 

contracultura,  tampouco  de  militância,  e  sim  de  defesa  de  uma  juventude  que  não 

transgride, uma juventude de acordo com a moral [...] (ARANTES, 2009:93-94) 

 

Portanto,  Ritmo  assumiria  uma  postura  de  apaziguamento  das  tensões,  evitando  dar 



visibilidade aos conflitos sociais. Como destaca Arantes, a preferência por assuntos “banais” 

pode ser notada no seguinte fragmento de um texto assinado por María Pilar: 

 

[…] Creio que não deveria se julgar com tanta severidade esta juventude que grita 



com Adamo, desmaia com os Beatles ou fica louca ao escutar o Pollo [Fuentes]. Não 

há motivo, ou prefeririam nos ver em greve de fome, gritando em uma concentração 

política? Creio que não, ah? (apud ARANTES, 2009:98) 

                                                           

*  Doutoranda  em  História  pela  FCHS-UNESP,  bolsista  da  FAPESP,  é  Mestra  em  História  pela  mesma 

instituição (2013), Bacharel e Licenciada em História pela UNICAMP (2010). E-mail

nati.ayo@gmail.com

1



 Em 1970, Salvador Allende chegava à presidência do Chile representando a coalizão de partidos de esquerda 

denominada  Unidade  Popular  (UP),  liderada  pelos  partidos  Comunista  e  Socialista  e  composta  também  pelo 

Partido  Radical,  Movimiento  de  Acción  Popular  Unitaria,  Partido  Social  Demócrata  e  Acción  Popular 

Independiente.  Em  1971,  o  Partido  de  Izquierda  Radical  e  o  Movimiento  de  Izquerda  Cristiana  (IC)  se 

incorporaram  à  coalizão,  sendo  que  o  primeiro  desligou-se  desta  em  1972.  O  programa  de  governo  da  UP, 

intitulado  Via  chilena  ao  socialismo,  previa  a  instauração  do  regime  socialista  no  país  por  vias  democráticas, 

respeitando a institucionalidade vigente. No dia 11 de setembro de 1973, antes que Allende pudesse terminar seu 

mandato – previsto para durar até 1976 –, foi deposto por um golpe militar que conduziu à ditadura do general 

Augusto Pinochet. 



 

 



 

Percebemos  aqui  a  presença  da  figura  do  ídolo  da  canção,  que  será  bastante  explorada  nas 

páginas da revista, sempre privilegiando “as qualidades dos artistas como sua bondade, beleza 

e  responsabilidade”  e  deixando  de  lado  aspectos  de  sua  vida  que  não  correspondessem  “à 

moral e aos bons costumes” (ARANTES, 2009:98).  

A  imagem  do  ídolo  e  a  representação  da  juventude  promovidas  por  Ritmo  foram 

fortemente  criticadas  pela  esquerda  chilena.  Em  1970,  Michèle  Mattelart  publica  nos 


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