Márcia Regina de Oliveira



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Discussão

Saúde  mental  é  um  conceito  abrangente  e  complexo, 

exigindo um olhar que integre as dimensões bio-psico-socio-

espiritual do ser humano, como foi constatado nas entrevistas. 

Na análise dos dados pode-se observar que a visão dos psicólogos 

M. R. Oliveira & J. R. Junges



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entrevistados é afirmativa frente à relação entre saúde mental e 

espiritualidade/religiosidade. Embora tenha surgido definição de 

saúde mental, como equilíbrio entre as dimensões do ser humano, 

ela é pouco evidente na prática dos profissionais, sendo que a 

dimensão espiritual nem sempre é levada em consideração ou 

compreendida num contexto amplo da vida da pessoa.

Partindo do fato da queda das instituições, entre elas, as 

religiões, como um dos fatores que contribuem para o sentimento 

de vazio, pode-se perceber que, nesse contexto, a espiritualidade 

vem encontrando seu lugar como resposta aos anseios mais 

profundos do ser humano. Ao mesmo tempo, não se pode reduzir 

essa busca a uma mera satisfação de consumo social que não 

preencheria o vazio constituinte do ser humano. Este sentimento 

de “vazio existencial” que vem crescendo, colocando o sujeito 

numa posição de desamparo, na sintomatologia de Frankl (1989) 

é chamado de tríade da neurose de massa: a depressão, a agressão 

e a toxicodependência. Essa tríade estaria ligada ao sentimento de 

falta de sentido da vida. Para este autor, todos os seres humanos, 

além das suas necessidades comuns, sentem o desejo de sentido, 

em maior ou menor grau, como uma necessidade específica. Esse 

desejo é um “valor de sobrevivência”.

Coelho  e  Mahfoud  (2001),  estudando  as  dimensões 

espiritual e religiosa da experiência humana na obra de Viktor 

Frankl, chegam à mesma conclusão de que a experiência religiosa 

faz parte da caminhada de uma vida plena de sentido. Nela o ser 

humano explora a força de sua dimensão espiritual, permitindo 

ser conduzido por uma realidade que o supera, e captando essa 

dinâmica na própria consciência.

Na inter-relação entre saúde mental e espiritualidade/

religiosidade, é importante perceber o quanto a segunda oferece 

recursos para enfrentar situações estressantes inevitáveis na 

vida,  mantendo  um  bom  nível  de  saúde  (Pargament  et  al., 

1998). A pesquisa mostrou que esses recursos vão surgir na 

medida em que o sujeito se abre e se deixa afetar pelos diversos 

encontros e experiências que a vida lhe proporciona: encontro 

com as demais pessoas, com o cosmos, com o transcendente e 

consigo mesmo. Toda experiência é singular e pode apresentar 

aspectos positivos e negativos. Segundo Pargament et al. (1998), 

a eficácia no enfrentamento a determinados estressores pode 

estar  correlacionada  com  a  integração  de  crenças,  emoções, 

relacionamentos  e  valores,  na  resposta  da  pessoa  a  esses 

estressores. Os resultados negativos do enfrentamento são 

aqueles que apontam para uma quebra da integração interna, 

perda de valores religiosos, fortes sentimentos de raiva de Deus, 

dúvida ou confusão no seu sistema de crenças.

Por outro lado, para que essa inter-relação seja positiva 

e favoreça a saúde mental e intensifique a vivência espiritual 

do  sujeito,  vai  depender  do  “sentido”  e  da  forma  como  ele 

recebe e interpreta em seu contexto de vida essa experiência. 

A racionalização pode obstruir o fluxo da experiência afetiva 

espiritual, podendo ser um mecanismo de defesa que levaria o 

sujeito a um comportamento de justificar e explicar, de forma 

superficial  a  própria  experiência,  como  foi  apontado  pelos 

psicólogos entrevistados.

Com esses resultados, pode-se pensar a clínica como espaço 

em que o psicólogo, enquanto facilitador do processo terapêutico, 

reconhece a dimensão da espiritualidade como parte inerente 

da  relação  estabelecida  entre  ele  e  o  paciente,  considerado 

um ser bio-psico-socio-espiritual. O psicólogo ocupa um 

importante lugar na fundamentação das diversas abordagens que 

reconhecem e trabalham com a dimensão espiritual no setting 

terapêutico (Saldanha, 1999). Pacientes que estabelecem uma 

relação de empatia e confiança com seus psicólogos/médicos 

se beneficiam mais do que outros que não a estabelecem. A 

confiança depositada no terapeuta desempenha um papel central 

na  efetividade  do  tratamento  e,  por  isso,  deve  ser  cultivada 

eticamente (Peres, Moreira-Almeida, Nasello, & Koenig, 2007).

É importante que os profissionais psicólogos saibam lidar 

adequadamente, na prática clínica, com sentimentos espirituais 

e  comportamentos  religiosos  das  pessoas  atendidas.  Para 

Moreira-Almeida et al (2006) e Tavares, Beria e Lima (2004) 

quatro questões sobre o papel da religiosidade na saúde mental 

do paciente são importantes investigar na prática clínica: 1) O 

paciente tem alguma forma de espiritualidade/religiosidade? 2) 

Pertence a uma comunidade religiosa? 3) Tem alguma crença 

espiritual que possa influenciar nos cuidados médicos? Qual a 

importância que o paciente atribui a estes aspectos da vida? 4) O 

paciente usa a religião ou a espiritualidade para ajudá-lo a lidar 

com sua doença, seu sofrimento, ou essas são fontes de estresse? 

Caso afirmativo, esta tem sido fonte de apoio ou de conflitos? 

Apresenta algum conflito ou questão espiritual que o preocupa? 

Tem alguém com quem conversar sobre estes tópicos?

Também a Associação Psiquiátrica Americana (American 

Psychiatric Association, 2006) recomenda alguns procedimentos 

para psicoterapeutas ao abordarem os temas espiritualidade e 

religiosidade: utilizar procedimento de entrevista para acessar 

o histórico e envolvimento com a religião e a espiritualidade; 

pesquisar o papel da religião e da espiritualidade no sistema 

de  crenças;  identificar  se  as  idealizações  religiosas  e  as 

representações de Deus são relevantes, e abordar clinicamente 

essa idealização; identificar se as variáveis religiosas e espirituais 

são características clínicas relevantes às queixas e aos sintomas 

apresentados; demonstrar o uso de recursos religiosos e 

espirituais no tratamento psicológico; treinar intervenções 

apropriadas sobre assuntos religiosos e espirituais e atualizar-se 

a respeito da ética sobre temas religiosos e espirituais na prática 

clínica.


Para  Farris  (2005),  a  psicologia/psicoterapia  e  a 

espiritualidade  podem  ser  entendidas,  apesar  das  diferenças 

fundamentais,  como  dois  universos  simbólicos  que  usam 

conceitos diferentes para descrever um processo semelhante 

de construção, percepção ou criação de significado, não sendo, 

portanto, incompatíveis. Porém, ele assinala pertinentemente, 

que é a orientação e abertura do psicólogo que determinará ou não 

o alcance da relação terapêutica, possibilitando ou impedindo o 

alcance da dimensão espiritual em psicologia. A espiritualidade/

religiosidade tanto pode expressar um processo maduro e bem 

integrado na busca de compreensão ou de significado para a vida, 

como também pode funcionar de maneira neurótica, defensiva 

ou  adaptativa.  Cabe  ao  psicólogo,  com  a  devida  abertura  e 

capacitação, diferenciar e permitir a plena manifestação dessa 

estrutura humana no setting terapêutico.

Os resultados da pesquisa sugerem que o processo 

terapêutico que auxilia o sujeito a ir além dos sintomas é aquele 




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