Miolo tempos de vargas p65


partir daí, o rádio perde as suas características de erudito



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Tempos de Vargas

partir daí, o rádio perde as suas características de erudito,
instrutivo e cultural e transforma-se em meio popular de
lazer e diversão (Caldeira, 1997: 274).
No plano internacional, os meios de comunicação já
haviam se consolidado como empresas industriais-comer-
ciais de informação, o rádio se transformando em pode-
roso meio de disseminação de informação, idéias e opini-
ões e a indústria gráfica começava a massificar produtos
culturais, antes consumidos apenas pelas elites.
Para se entender melhor o poder do rádio como instru-
mento de disseminação de informação, é preciso voltar um
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pouco no tempo. O final do século XIX e o início do século
XX foram períodos marcados por grande desenvolvimento
científico e tecnológico. Simultaneamente, surgem na vida
das pessoas inovações variadas, como a energia elétrica, o
telefone, transporte de massa, aviação, elevador e, posteri-
ormente, o rádio, que passa a se desenvolver comercialmente
depois da Primeira Guerra Mundial.
Esses avanços causaram um impacto profundo na soci-
edade. O rádio chega numa época em que as pessoas ain-
da não haviam se acostumado a uma convivência tão pró-
xima com desconhecidos dos seus grupos familiar e soci-
al e que passam a fazer parte de suas vidas, com o apareci-
mento dos transportes de massa e até mesmo do elevador.
Analisando a influência do rádio na sociedade de 30 no
Rio de Janeiro, Sevcenko destaca a diferença do novo veí-
culo das demais tecnologias inseridas anteriormente:
Partindo cada um do seu isolamento real, se encontram
todos nesse território etéreo, nessa dimensão eletro-
magnética, nessa voz sem corpo que sussurra suave vin-
da de um aparato elétrico no recanto mais íntimo do
lar, repousando sobre uma toalhinha de renda capricho-
samente bordada, e ecoando no fundo da alma dos ou-
vintes, milhares, milhões, por toda parte e todos anôni-
mos. O rádio religa o que a tecnologia havia separado.
Era um modo de remeter a um recôndito familiar das
tradições e das memórias um artefato moderno e de efei-
to arrebatador. Cada um põe naquela voz aliciante o
rosto e o corpo dos seus sonhos (Sevcenko, 1998: 586).
Em meados da década de 30, portanto, o rádio já havia
conquistado um público fiel. Criou-se um elo mágico en-
tre o indivíduo, que atuava nos microfones, e a coletivi-
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dade. Além de vender produtos e ditar modas, o rádio
mobilizava as massas, levando-as a participar mais ativa-
mente da vida nacional.
O modelo norte-americano de radiodifusão adotado no
Brasil, que tinha como base o interesse das agências de pu-
blicidade em explorar recursos para conquistar audiência,
permitiu o desenvolvimento de técnicas de administração,
edição, locução e distribuição e controle de mercados. Foi
nessa escola que o presidente americano Franklin Roosevelt
foi educado e aprendeu que o que é dito no rádio vale mais
pelas qualidades sensíveis da elocução da voz do que pelo
conteúdo do que é comunicado (Idem, Ibidem: 584).
A repercussão do uso do rádio na propaganda política
não tardou a chegar ao Brasil. Em 1932, Getúlio cria a
Hora do Brasil, com o objetivo de “vulgarizar as realiza-
ções do governo e esclarecer a opinião pública sobre os
problemas do momento” (Nosso Século: 70).
Mas é no Estado Novo, sem dúvida, que a simbiose do
rádio com a política vai ter sua maior expressão. Para for-
jar uma ideologia estado-novista aceitável pela popula-
ção, o governo investe significativamente na área da radi-
odifusão, através de patrocínios dos programas mais po-
pulares e dos artistas, já então, transformados em ídolos.
Em meados da década de 30 o rádio já havia se consoli-
dado como veículo de informação e de entretenimento.
Com a introdução do patrocínio de anunciantes, apare-
cem os programa de variedade, os primeiros a transformá-
lo em fenômeno social, com milhares de ouvintes cativos,
que possibilitaram ao novo veículo influenciar o compor-
tamento das pessoas e a ditar suas modas. A grande audi-
ência desses programas permitiu, por exemplo, que sob
os auspícios de um purgante fabricado pelo Laboratório
Queirós, fossem lançados nomes, posteriormente consa-
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grados, como os de Carmem Miranda, Mário Reis, Fran-
cisco Alves, Lamartine Babo, Almirante e Noel Rosa, en-
tre outros (Idem, Ibidem: 62).
Na verdade, a introdução de mensagens comerciais
transfigurou imediatamente o rádio. O veículo até então
erudito, instrutivo e cultural transformou-se em popular
órgão de lazer e diversão. Foi também com o advento da
publicidade que as emissoras se organizaram empresari-
almente para disputar o mercado. A integração nacional
através do rádio, vislumbrada por Roquette Pinto, come-
ça a se tornar realidade ainda nos anos 30, mas é na déca-
da de 40 que o veículo passa, efetivamente, a interferir na
vida do país, de norte a sul e de leste a oeste.
Para se ter idéia da rápida transformação do rádio de
veículo erudito em meio de comunicação de massa, basta
lembrar o conflito vivido pelos ouvintes das classes mais
abastadas que, diariamente, escreviam para as emissoras
reclamando da popularização da programação. O rádio,
que lhes fora apresentado como símbolo de status e eru-
dição, de repente passa a transmitir programas humorís-
ticos que, segundo os críticos, “agridem a língua portu-
guesa, falando mal o próprio idioma”. Entretanto, numa
carta enviada a Rádio Mayrink Veiga, um ouvinte ironiza
àqueles que reclamam da popularização do veículo:
Psycologicamente falando, o ouvinte de rádio é um typo
interessante. Se faz parte da alta sociedade, recebe em
casa o gran-fino, mantém o receptor na ópera, conversa
acerca de Verdi. Mas quando as visitas se retiram... No
tabuleiro da bahiana tem... (Idem, Ibidem: 62)
Em 1934, a Rádio Record de São Paulo introduz o cast
profissional e exclusivo, oferecendo salário em dobro. A
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