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particularmente no que se refere às crianças e adolescen-



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Tempos de Vargas

particularmente no que se refere às crianças e adolescen-
tes. A partir dessa preocupação passaram a ser estabeleci-
dos rigorosos regulamentos relativos à decência, violên-
cia, sexo, bebidas alcoólicas, drogas, produtos tóxicos etc.,
além, evidentemente, de tudo o que se referisse à política,
à economia e à ideologia.
Uma terceira justificativa levava em consideração a uni-
versalidade da influência da radiodifusão para estabelecer
regulamentos visando evitar incitamento aos ódios racial,
de classe, de etnia, de religião etc. Nesse contexto, foi
institucionalizado também o direito de resposta.
A regulação da radiodifusão tornara-se, então, um pro-
cesso pelo qual o Estado, por meio de seu poder executi-
vo, estabelecia o modo em que ela se organizava e opera-
va, criando os meios para fiscalizar o cumprimento das
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normas, coibir e punir os abusos. Tanto a distribuição
quanto o conteúdo passaram a ser relativamente contro-
lados pelo Estado.
O controle da radiodifusão pelo Estado Novo ocorria
de duas formas principais: a) exercido parcialmente atra-
vés da concessão de emissoras de rádio e de licença para
importação de equipamentos; e b) diretamente, exercido
pelo DIP, através de censura e da distribuição da propa-
ganda estatal. Apesar disso, o período é marcado pela as-
censão do rádio, cujo apogeu ocorre com os programas de
auditório e radionovelas, financiados pela publicidade, li-
berada desde o Decreto n
o
21.111 de 1932, seguindo mo-
delo privado semelhante ao norte-americano. O DIP, con-
tudo, a partir de sua criação, em 1939, manteve-se sempre
vigilante. Para se ter idéia da dimensão do controle exer-
cido pelo órgão, apenas em 1943, ele examinou 27.396
programas de rádio e 5.678 músicas populares (Cultura
Política, n.47, dez/1944, p. 231).
Enfim, todo o processo de concessão e fiscalização da
radiodifusão, no Brasil, ficou centralizado no Poder Exe-
cutivo e, por conseqüência, sob direto controle do Presi-
dente da República. Iniciado por Getúlio, por Decreto de
1931, este modelo persiste até os dias de hoje.
Este livro busca analisar o pensamento e o comporta-
mento de Getúlio Vargas no processo de implantação e
consolidação da radiodifusão no Brasil. A concepção do
projeto, o levantamento de informações, sua análise e in-
terpretação foram orientados por um quadro de referên-
cia conceitual fundado em estudos próprios ou correlatos
do campo da economia política da informação e das co-
municações. Trata-se, portanto, de um trabalho que rele-
va o conhecimento sobre as bases políticas e econômicas
das decisões tomadas a respeito do tema em estudo, as
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formas legais que estas decisões assumem e suas conse-
qüências para a sociedade e a radiodifusão.
As análises feitas procuram demonstrar que o rádio foi
inicialmente operado no país como um instrumento cul-
tural, educacional e de entretenimento, e logo em seguida
– a rigor, 10 anos depois de criada a primeira emissora –
transformado num meio de comunicação de massa de
caráter comercial. A TV, ao contrário, já surgiu no Brasil
ungida por este último caráter, tendo como inspirações
não só o padrão já estabelecido pelo rádio, como também
o modelo americano de uso comercial dos meios de co-
municação de massa.
Mostra-se igualmente neste livro que os primeiros atos
regulatórios da radiodifusão deram uma direção estru-
turada ao desenvolvimento e consolidação da indústria
brasileira de radiodifusão e seu ambiente regulador. Ar-
gumenta-se aqui que esses atos, particularmente os
decretos n
o
20.047 e n
o
21.111, de 1931 e 1932, respectiva-
mente, instituíram os princípios que têm norteado a re-
gulamentação da indústria do rádio e da TV no Brasil, a
saber: (1) Reserva da atividade para brasileiros; (2)
Conceituação da radiodifusão como serviço de interesse
público, a ser utilizado com finalidades educacionais; (3)
Centralização do processo decisório e do controle da ati-
vidade no poder executivo; (4) Exploração predominan-
temente privada da indústria.
Aprofundaremos estas questões no decorrer dos capí-
tulos que se seguem.
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Primeiro Capítulo
Nasce a Radiodifusão no Brasil
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O Cenário Nacional e Internacional
No final da década de 20, o Brasil passava às margens
da segunda revolução industrial, com uma economia es-
sencialmente agro-exportadora, na qual oito produtos pri-
mários representavam 90% do valor total das exportações:
café (cerca de 70% do total), açúcar, cacau, algodão, mate,
tabaco, borracha, couros e peles (Abreu, 1986: 13). Este
fator fazia com que o Brasil fosse altamente dependente
dos rumos indicados pelo mercado internacional.
A política econômica, embora reservasse lugar privilegi-
ado para os Estados Unidos, em vista de seu crescente po-
der de barganha (maior mercado consumidor de café bra-
sileiro), “caracterizava-se pela ênfase na manutenção de uma
alternativa econômica que contrabalançasse a influência
norte-americana, através da diversificação de parceiros eco-
nômicos e financeiros” (Abreu, 1986:11).
Entre os anos de 1928 e 1938 a participação econômica
norte-americana caiu de 27% para 23%, a britânica de 22%
para 10%, a francesa de 6% para 3%, enquanto a alemã
cresceu de 12% para 25% (Abreu, 1986: 28). A Alemanha
havia, portanto, conquistado um importante espaço na
economia brasileira do período. Esta, por sua vez, recu-
perou o nível das suas atividades de forma singularmente
rápida se comparada à experiência de outros países.
(Abreu, 1986: 18). A adoção de um sistema de controle
cambial que impedia a importação de determinados pro-
dutos e protegia a produção doméstica competitiva, im-
pulsionando a nascente indústria nacional, foi o principal
fator que contribuiu para a superação da crise.
Por outro lado, (...) a diversificação da pauta de expor-
tações mostrou-se inviável, neste período, basicamente
por que a indústria recém-implantada não tinha capa-
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cidade de competir num mercado mundial que conti-
nuava ainda, como em 1937, circunscrito a autarquias e
impérios coloniais (Singer, 1986:217).
O Reino Unido optou por enfatizar a proteção de seus
interesses financeiros no Brasil, em prejuízo dos interes-
ses comerciais, o que reduziu sua importância de país su-
pridor de bens. Isto beneficiou os Estados Unidos e, pos-
teriormente, a Alemanha, por meio de políticas de com-
pensações (Abreu, 1986:14). Em 1930, os investimentos
britânicos eram mais concentrados no setor de serviços
públicos, como as ferrovias, enquanto os capitais norte-
americanos eram aplicados, predominantemente, nas in-
dústrias de transformação e atividades comerciais.
Os Estados Unidos trataram de assegurar, não só no Brasil
como em toda América Latina, com exceção da Argentina
1
,
o suprimento adequado das necessidades de sua economia,
bloqueando, ao mesmo tempo, a provisão que a Alemanha
viesse a ter. Essa estratégia não impediu o Brasil de estabele-
cer, durante a década de 30, relações comerciais com o Reich.
Um bom exemplo disso foi o acordo comercial, firmado em
fins de 1934, entre Brasil e Alemanha, por intermédio do qual
Vargas buscou comercializar os produtos brasileiros que não
eram exportados para os Estados Unidos e que advinham de
regiões politicamente importantes, como o Nordeste e o Rio
Grande do Sul. Dessa forma, Vargas atingia dois objetivos:
além de gerar rendimento para o comércio, capitalizava tam-
bém apoio ao seu governo, naquelas regiões.
A partir daí, o Brasil conservou uma posição ambígua
nas suas relações comerciais. Ao tempo em que prometia
às autoridades norte-americanas que o comércio de com-
pensação com a Alemanha seria reduzido, continuava a re-
novar acordos bilaterais com aquele país. (Abreu, 1986: 25).
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Logo após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Uni-
dos conheceram uma década de prosperidade. Sua indús-
tria, favorecida pelo governo e protegida por tarifas alfan-
degárias elevadas, estava em plena atividade. Foi um perío-
do marcado pela produção colossal e pela especulação de-
senfreada, ambas apoiadas pelos bancos. O desenvolvimento
registrado foi tão expressivo que o país tornou-se a princi-
pal potência capitalista do mundo (Weiss, 1966: 1246). A
verdade, contudo, é que essa prosperidade era mais apa-
rente que real e o establishment artificial sucumbiu à pri-
meira crise, o chamado crack da bolsa de Nova York, em
1929, antes da qual tinham feito grandes empréstimos, tanto
aos vencidos quanto aos vencedores da I Guerra Mundial.
Ao contrário dos Estados Unidos, a Alemanha, princi-
pal derrotado da Primeira Guerra, saiu totalmente esface-
lada, tanto do ponto de vista geográfico quanto político e
econômico. Geograficamente, perdeu boa parte do seu
território para os países aliados. Do ponto de vista políti-
co, foi forçada a aceitar a limitação do número de homens
em seu exército, imposto pelo acordo de paz e, interna-
mente, teve que enfrentar um intenso movimento operá-
rio, organizado pelo Partido Comunista Alemão. Mas foi,
sem dúvida, a sua economia que mais sofreu as conseqü-
ências do pós-guerra. Além de ter que arcar com os custos
dos anos de conflito armado, o país foi obrigado a assumir
os prejuízos provocados nos territórios invadidos. Tudo
isso aliado a uma grave crise interna, desencadeada pelo
elevado índice de desemprego.
Mesmo saindo da guerra ao lado dos vencedores, a Itália
apresentava claros indícios de crise econômica. O grande
número de desempregados motivou a eclosão de um forte
movimento dos trabalhadores, organizado pelo Partido
Socialista Italiano. Do mesmo modo, a Inglaterra amarga-
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va uma crise industrial sem precedentes, que se revelava,
sobretudo, na taxa de desemprego e na perda progressiva
da sua hegemonia política.
A crise de desemprego, no entanto, não se limitou ape-
nas aos países que haviam participado diretamente da
guerra. A crise se alastrava por toda a Europa, durante a
década de 20:
(...) Grã-Bretanha, Alemanha e Suécia registraram ín-
dice médio de desemprego entre 10% e 12%, e nada
menos de 17% a 18% na Dinamarca e na Noruega(...).
(Hobsbawm, 1997:95).
No mesmo período, os EUA mantinham uma taxa de
apenas 4% de desempregados, o que caracterizava situa-
ção de economia em alta. Com a crise de 29, a situação
tornou-se muito mais grave:
(...) No pior período da Depressão (1932-33), 22% a 23%
da força de trabalho britânica e belga, 24% da sueca,
27% da americana, 29% da austríaca, 31% da noruegue-
sa, 32% da dinamarquesa e nada menos de 44% da ale-
mã não tinha emprego (...) (Hobsbawn, 1997: 97).
Além do cenário de forte estagnação econômica, um ou-
tro movimento preocupava o mundo: a Revolução Russa,
iniciada em 1917, pouco antes do fim da guerra. O principal
movimento revolucionário do século XX atendia aos anseios
do proletariado, que reivindicava aumento de salário e di-
minuição das horas de trabalho para os operários, nos cen-
tros urbanos, além da reforma agrária para camponeses.
Os reflexos da Revolução Russa se estenderam por toda
a Europa e fortaleceram os movimentos de trabalhadores,
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organizados em torno dos partidos socialistas e comunis-
tas. A idéia de que a paz e a segurança sócio-econômica
seriam restabelecidas pelo comunismo proporcionou o
crescimento dos partidos de esquerda europeus, mas, por
outro lado, intensificou a inquietação social e tornou a
crise mais crítica, uma vez que não se conseguia imaginar
uma saída dentro das estruturas político-econômicas li-
berais. Além disso, o fato de o comércio internacional es-
tar praticamente parado deixava o cenário ainda mais
preocupante e sem perspectiva.
A alternativa para a crise adotada em muitos países foi
o protecionismo. Os Estados abandonaram o livre comér-
cio e passaram a proteger sua economia, no mercado in-
ternacional, o que significou o abandono da política eco-
nômica liberal. A partir de então, as políticas econômicas
passaram a ser pautadas pela social-democracia, regime
pelo qual o Estado assume a responsabilidade pelo bem-
estar da população. Consolidada, posteriormente, pelos
países europeus, após a Segunda Guerra Mundial, a soci-
al-democracia permitiu, já na década de 30, por meio de
políticas de geração de emprego e da busca da ‘har-
monização’ entre capital e trabalho, uma saída para a cri-
se econômica, dentro do próprio sistema capitalista. Além
de diminuir os índices de desemprego, o regime afastou
também o fantasma do comunismo, que passara a assom-
brar toda a Europa e os Estados Unidos depois da Revo-
lução Russa.
Antes, porém, a crise econômica mundial já havia cria-
do condições históricas para o surgimento de fenômenos
políticos, como o nazi-fascismo, que teve a sua maior ex-
pressão na Itália, com Mussolini, e na Alemanha, com
Hitler. Abalados por fortes manifestações sociais e por uma
quase revolução socialista (no caso da Itália), esses dois
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países optaram por uma saída à extrema direita. Tanto o
nazismo como o fascismo previam a formação de um es-
tado forte, interventor, nacionalista e dominador do pen-
samento humano.
No caso da Itália, o corporativismo, como solução dos
problemas econômicos, foi estimulado e ganhou dimen-
são maior entre a população mais pobre. A vida social foi
invadida por uma ideologia pseudocoletiva que, encarna-
da pelo Estado, regulava a rotina dos cidadãos. A política
econômica, voltada para as grandes empresas, previa o
crescimento apoiado no rebaixamento dos ganhos dos
operários. Os sindicatos, fortemente controlados pelo re-
gime, passaram a ser órgãos do Estado, o que quase os
levou à destruição. Caminho semelhante foi adotado pela
Alemanha, através da expressão mais extrema do fascis-
mo, o nazismo. Além do controle e da vigilância sociais, o
regime de Hitler pregava a supremacia dos arianos e esti-
mulava uma brutal intolerância racial e religiosa.
Para consolidar a imagem paternalista do Estado e man-
ter a ideologia do regime, tanto Mussolini quanto Hitler lan-
çaram mão da propaganda política. Para isso, utilizaram
fortemente a incipiente indústria de comunicação de mas-
sa, principalmente o cinema e o rádio, num processo de
massificação da opinião pública. O precursor desta estraté-
gia foi o ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels,
que teve um papel revolucionário na percepção do poder de
persuasão que a radiodifusão e o entretenimento poderiam
ter como instrumentos de propaganda política.
Desde 1938, quando assumiu a liderança da propagan-
da nazista, e, principalmente durante a Segunda Guerra
Mundial, Goebbels trabalhava em duas vertentes. Uma era
a construção e mitificação da imagem de Adolf Hitler como
uma espécie de super-herói paternal, repleto de valores em
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voga na sociedade alemã
2
. A outra se manifestava pela via
da manipulação e financiamento das empresas jornalísticas
e da indústria do entretenimento, através da contratação de
artistas, diretores e escritores já reconhecidos e da produ-
ção de filmes, exposições fotográficas, espetáculos públicos
– teatrais e musicais – programas de rádio, jornais, livros e
revistas. Desta forma, observa Adriana Kurz, expandia-se
conjuntamente o amor aos ideais nazistas e o ódio a tudo
aquilo que não representasse esses valores:
O entusiasmo e fanatismo das massas hipnotizadas pelo
seu Führer garantiriam completa adesão nacional tanto
a uma nova rodada de matança nos campos de batalha
quanto, no âmbito interno, à sistemática perseguição e
extermínio de vítimas inocentes, fossem judeus alemães
3
(e logo europeus), doentes físicos e mentais, ciganos, in-
digentes, homossexuais ou qualquer espécie de opositor
político, sem falar nos artistas “degenerados”
4
. Comple-
tamente banida de todos os âmbitos da vida política e
social, a razão daria lugar à mais pura insanidade. O
Século XX se afirmaria como a era da recaída na barbárie
(...). Por trás desta tragédia de proporções globais, a pro-
paganda nazista mostrava sua força e fazia escola. Uma
modernidade reacionária impunha ao mundo a nova cara
do poder. A estetização da política, sinalizada por Ben-
jamin no célebre texto sobre a arte e a reprodutibilidade
técnica, chegaria num nível jamais imaginado. A propa-
ganda engolira a política e a estética: o resultado seria
devastador (Kurtz, 1999: 162).
Os efeitos da grande depressão também atingiram o
Brasil, que viu ser desvalorizado seu principal produto
econômico, o café. No campo político, o processo de ur-
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banização e industrialização atinge as camadas médias e
as massas urbanas, que passam a exigir participação polí-
tica. As reivindicações e pressões dessas novas forças leva-
ram à contestação do Estado oligárquico agrário, na me-
dida em que este era incapaz de absorver suas demandas.
Progressivamente, São Paulo e Minas apropriaram-se do
poder central e instituíram a chamada Política do Café com
Leite, segundo a qual paulistas e mineiros se revezavam
no governo da República.
Quebrando a regra política, em 1928 o presidente Wa-
shington Luís, ligado ao Partido Republicano Paulista
(PRP), passa a apoiar ostensivamente a candidatura de um
conterrâneo à sua sucessão, o então presidente
5
do Estado
de São Paulo, Júlio Prestes. Para se opor ao PRP, o Partido
Republicano Mineiro (PRM), alijado do processo sucessório,
aproxima-se então do Presidente do Rio Grande do Sul e,
em julho de 1929, lança as candidaturas de Getúlio Vargas
para presidente e de João Pessoa, governador da Paraíba,
para a vice-presidência, chapa em torno da qual se forma-
rá, posteriormente, a coligação Aliança Liberal.
Ao contrário da coligação Concentração Conservadora,
encabeçada por Júlio Prestes, que defendia a continuida-
de administrativa, a Aliança Liberal pregava a renovação e
a modernização do Estado. Após uma eleição marcada
por acusações de fraude, de lado a lado, a vitória dos
paulistas não foi aceita pela Aliança Liberal, que iniciou
as articulações para um movimento revolucionário. O es-
topim foi o assassinato do candidato a vice-presidência,
João Pessoa, em julho de 1930. Os preparativos ainda le-
varam dois meses e em 3 de outubro, com a chancela dos
militares, os revolucionários eclodiram o movimento, que
culminaria em 24 de outubro, com a posse do Governo
Provisório, liderado por Vargas (Abreu, 2001: 4999).
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O reflexo da disputa política na imprensa foi contundente.
Segundo Werneck Sodré, os veículos que apoiaram a Aliança
Liberal consolidaram-se, enquanto os que eram ligados à
República Velha sofreram duras intervenções:
O movimento liquidara, praticamente, a imprensa que
apoiava a situação anterior. Mesmo os jornais que não ha-
viam sido destruídos e por isso voltaram a circular de ime-
diato, sofreram graves conseqüências (Sodré, 1977: 376).
Através de invasões às redações, desapropriação de bens,
nomeação de interventores e prisões, o Governo Provisó-
rio anunciou o tom que deveria marcar as relações entre
os órgãos de comunicação de massa e o Estado, a partir
daquele momento.
Mídia e Cultura
Até meados da década de 30, a indústria de comunicação
de massa no Brasil estava limitada ao cinema e a indústria
fonográfica. Embora a imprensa estivesse consolidada, o
índice de analfabetismo, que superava 60% dos 37,6 mi-
lhões de habitantes (IBGE, 1934: 41), desencorajava qual-
quer investimento de consumo massivo nesse setor. A lite-
ratura também era produzida só para as elites. Renato Ortiz
observa o baixo consumo de livros nesta época:
Todos os testemunhos e as análises apontam que até a
década de 30 a produção e o comércio de livros no Brasil
eram praticamente inexistentes em termos de mercado.
A tiragem de um romance era, em média, de mil exem-
plares, e um ‘best seller’ como ‘Urupês’ vendeu, em 1918,
oito mil cópias (1988: 28).
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O rádio, que ainda não completara uma década de exis-
tência no país, contava com apenas 18 estações, todas ain-
da experimentais.
Embora a imprensa tivesse um papel importante na for-
mação da opinião pública e dos valores culturais da época,
o cinema e a música popular fomentavam, praticamente
sozinhos, a expressão cultural de massa no país. Os locais
para exibição de filmes e espetáculos musicais (teatros, cine-
teatros e cinemas) cresceram significativamente. Em 1907,
havia 108 estabelecimentos registrados, enquanto em 1922
já existiam nada menos que 1.439, concentrados nos prin-
cipais centros urbanos: São Paulo, com 398; Minas Gerais,
com 312, e Rio de Janeiro, com 108 (IBGE, 1937: 1404).
Marcada pela disseminação do cinema hollywoodiano
em todo o mundo, a década de 20 não foi diferente no
Brasil. Os westerns, seriados e filmes cômicos norte-ame-
ricanos caíram rapidamente no gosto popular e as poucas
produções nacionais eram, em sua maioria, versões brasi-
leiras dos sucessos americanos, como David W. Griffith,
Charles Chaplin e Mary Pickford, entre outros. Segundo
Sérgio Augusto, além dos filmes, a influência de Hollywood
impulsionou também o surgimento das primeiras revis-
tas brasileiras especializadas em cinema, a exemplo de
Scena Muda (1921) e Cinearte (1926) que eram similares
às produções norte-americanas, como a Photoplay.
Começávamos, então, a construir nosso próprio Star
System, com atrizes como Eva Nil, lançada pelo minei-
ro Humberto Mauro, quando ainda filmava em
Cataguases, Lia Torá e, na década seguinte, Amanda
Leilop, promovida como ‘a Greta Garbo brasileira’, e
Rubens Rocca, a quem deram o epiteto de ‘Lon Chaney
dos Trópicos’ (Augusto, 2000: 51).
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Em 1929, o jornalista Adhemar Gonzaga, que já edita-
va a revista Cinearte, fundou o estúdio cinematográfico
Cinédia. No mesmo ano, o cinema falado estreou com a
exibição do longa-metragem Broadway Melody. Na se-
qüência, Luís de Barros lançou a primeira produção bra-
sileira falada: Acabaram-se os Otários. Neste momento,
acreditava-se que o cinema falado seria a mola propulso-
ra da produção nacional, uma vez que a barreira da lín-
gua poderia quebrar a hegemonia norte-americana. De
fato, os filmes brasileiros, antes preteridos pelo público
por conta da produção artesanal, começaram a ter uma
estrutura industrial de produção.
O sucesso da comédia caipira Acabaram-se os Otários deu
impulso à produtora de Luís de Barros, a Syncrocinex e à
dupla de comediantes Genésio Arruda e Tom Bill. No ano
seguinte, 1930, dos 14 filmes produzidos em São Paulo, cin-
co eram da Syncrocinex, todos dirigidos por Luis de Barros e
quatro deles estrelados pelos mesmos comediantes: Canções
Brasileiras, Lua de Mel – lançado em 21 de abril como com-
plemento do erótico-romântico Messalina – Minha Mulher
me Deixou (curta-metragem) e Sobe o Armário (Almanack
Paulistano, 2002).
Estes filmes indicavam um rumo que teria boas possibi-
lidades práticas de continuação no cinema brasileiro. A
produtora (a Syncrocinex), sem dispor de recursos que
permitissem seguir os conselhos da crítica da época, cons-
truindo estúdios ou importando equipamento refinado,
filma nas precárias condições com que conta, em barra-
cões improvisados e com o equipamento disponível, da
mesma forma que a grande maioria das produtoras naci-
onais do momento. O resultado são filmes baratos e de
grande aceitação popular (Galvão; Souza, 1986: 468).
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Apesar da indústria cinematográfica nacional delinear-
se no início da década de 30, não se pode dizer que ela
fosse independente ou que sua produção reproduzia uma
identidade nacional. Pelo contrário, a influência norte-
americana ia além da ‘inspiração’ dos roteiros, estando
presente por intermédio dos técnicos, formados nos EUA;
das produtoras, como a Waldow, do norte-americano
Wallace Downey e Alberto Byington Jr., ambos funcioná-
rios da filial brasileira da gravadora Columbia; dos no-
mes adotados pelos astros, como Tom Bill; ou, ainda, dos
cenários ou dos nomes dos personagens.
A produção nacional concentrava-se cada vez mais nas
chanchadas e nos musicais. Enquanto as primeiras retra-
tavam o universo caipira, o primeiro musical brasileiro, Coi-
sas Nossas, estreou em 1931, copiando o estilo de Broadway
Melody, alternando esquetes cômicos com números musi-
cais. Este filme é considerado também o marco inaugural
da associação do cinema com o rádio, através do aprovei-
tamento dos cantores e atores que se popularizavam em
um ou outro veículo. Mais uma vez, a imitação dos filmes
originais ia além do estilo: em Coisas Nossas sobrepunham-
se imagens dos edifícios paulistanos para dar a idéia dos
arranha-céus nova-iorquinos, um ritmo acelerado era im-
presso às cenas onde pedestres e automóveis tentavam imi-
tar um trânsito caótico tipicamente norte-americano e uma
pessoa
6
cantarolava o sucesso Singin’in the Rain no chu-
veiro (Augusto, 2000; Galvão; Souza, 1986).
Pode-se dizer que no caso da música, diferentemente
do cinema, a influência norte-americana centrava-se na
distribuição, não influindo no conteúdo nem no estilo.
Como narra Ruy Castro, em paralelo ao foxtrot, ao
charleston, ao dixieland e outros ritmos importados, o sam-
ba já se firmara no cenário nacional.
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A primeira gravação de um disco de jazz, por exemplo, a
de ‘Livery stable blues’ (...), no dia 26 de fevereiro de 1917,
se deu quase ao mesmo tempo que a primeira gravação de
um samba: a de ‘Pelo telefone’, pela banda Odeon. E só
não foi ao mesmo tempo porque, na verdade, o primeiro
samba foi gravado alguns dias antes do primeiro jazz.
Quando ‘Livery stable blues’ começava a ser prensado na
fábrica da RCA Victor, em Nova York, o povo do Rio já
estava cantando ‘Pelo Telefone’ no carnaval de fevereiro
daquele ano. (...) Ambos determinaram os rumos que os
dois países seguiriam: a música americana conservaria um
sotaque ‘jazzístico’ por décadas e a brasileira um sotaque
‘sambístico’ por mais tempo ainda. (Castro, 2000: 131).
Cinco anos após a gravação de Pelo Telefone, atribuída
ao sambista Donga, o movimento modernista, de 1922,
teve um papel central na defesa da cultura popular e, a
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