Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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Oyá transforma-se num búfalo
60
 
 
      Ogum estava caçando na floresta, as margens do rio. De repente ele avista 
um  imenso  búfalo  de  chifres  retorcidos,  ficando  escondido,  atrás  das  árvores, 
espreitando o momento certo para abater a presa. Quando já estava mirando o 
coração da fera com suas flechas certeiras, eis que teve a maior surpresa de sua 
vida! 
      De sob o couro do animal bravio surgiu uma formosa mulher negra como o 
ébano,  com  rosto  de  deusa,  cabelos  ornados  de  joias  e  amendoados  olhos 
amarelos de pantera: era Oyá! 
      Sem suspeitar que estava sendo observada, a beldade mergulhou nas águas 
cristalinas,  banhando-se  sensualmente.  Após  refrescar-se,  Oyá  pendurou  sua 
pele de búfalo na copa de uma árvore e caminhou em direção ao mercado. Ogum 
ficou cego de paixão, nunca havia visto tantos encantos físicos reunidos numa 
única mulher: ele precisava possuí-la! 
      Aproveitando-se  de  seu  anonimato,  o  apaixonado  orixá  roubou  a  pele  de 
Oyá, levou para sua casa e escondeu dentro de uma arca de madeira no quarto. 
Feito isto, arrumou-se todo e depois dirigiu-se ao mercado, sem perda de tempo. 
     Chegando  ao  local,  procurou  a  mulher-búfalo,  cumprimentou-a,  perguntou 
seu nome e começou a cortejá-la. Impaciente como sempre, Ogum logo pediu 
Oyá  em  casamento.  Sem  responder,  ela  voltou  à  floresta.  Chegando  lá, 
constatou que a pele havia sido roubada. Desconfiada, retornou prontamente. 
                                                           
60
  Esta  é  uma  versão  livre  inspirada  na  narrativa  compilada  por  PRANDI,  Reginaldo.  Op. 
Cit.;p:297. 


190 
 
      No  mercado,  reencontrou  seu  admirador  que,  cinicamente  fingiu  nada 
perceber. Oyá indagou se Ogum havia furtado algo dela na floresta, ao que ele 
negou com a expressão mais inocente no rosto. De novo, ele insistiu com seu 
pedido de casamento. Astuta, a deusa concordou em se casar. 
      Realizada a cerimônia de praxe, Oyá foi viver na casa de seu novo marido 
que já  possuías três outras esposas,  conforme o costume entre os iorubás. A 
nova esposa começou a fazer suas exigências, a impor seus tabus: ninguém na 
casa poderia referir-se a ela fazendo qualquer alusão a seu lado animal, não se 
poderia usar a casca de dendê para fazer fogo e, por fim era proibido rolar o pilão 
pelo chão da casa. 
      Ogum ouviu seus apelos e expôs aos familiares da casa as condições para 
conviverem  em  harmonia  com  sua  nova  consorte.  A  vida  no  lar  de  Ogum 
prosseguiu  sua  rotina.  Oyá  teve  nove  filhos  de  Ogum,  por  isso,  ficou  sendo 
conhecida  como  Iansã,  “a  mãe  dos  nove  filhos”.  Todavia,  ela  nunca  ficou 
plenamente  satisfeita  em  sua  vida  de  casada,  Iansã  não  era  dessas  que  se 
contentam em viver há sombra do domínio masculino.  Ela sentia falta da vida 
selvagem  na floresta,  de  sua  antiga  liberdade  quando  era  uma  mulher-búfalo, 
por isso, continuava procurando sua pele. 
      Por  outro  lado,  Ogum  cada  dia  ficava  mais  apaixonado  por  Iansã  e  seu 
espírito  independente,  deixando  suas  outras  esposas  enciumadas,  pois  estas 
sempre ficavam em segundo plano. 
      Certa  feita,  quando  Ogum  saiu  para  cultivar  os  campos,  as  esposas  mais 
velhas se reuniram para arquitetar um plano de vingança contra a preferida do 
marido.  As mulheres rejeitadas planejaram uma forma de descobrir o segredo 
da origem de Iansã e assim humilhá-la. Naquela noite, elas embriagaram Ogum 
e tanto insistiram que ele lhes revelou o esconderijo da pele de búfalo de Iansã. 
      Pela manhã, quando Ogum retornou ao trabalho, em tom de deboche, elas 
cantarolaram  para  Iansã  o  que  ouviram  de  Ogum.  Disseram  que  ela  era  um 
animal horrível da floresta e sua pele fora roubada por ele e estava na arca de 
madeira. Depois, aos risos, jogaram cascas de dendê no fogo e para completar, 
rolaram o pilão de amassar inhame no chão da cozinha. 
      Iansã ficou possessa! Foi até o quarto, abriu a arca de madeira do marido, 
pegou  a  sua  pele  de  búfalo  e  vestiu.  Na  mesma  hora  transformou-se  no 
magnífico  animal  e  saiu  derrubando  tudo.  Atropelou  e  perfurou  as  mulheres 


191 
 
invejosas com seus chifres afiados, matou todas elas. Só poupou seus queridos 
filhos. 
      Passada sua fúria assassina, Iansã voltou à forma humana, porém sabia que 
já não poderia mais viver com Ogum, ela era livre e deveria seguir sua verdadeira 
natureza  dali  por  diante.  Ninguém  poderia  controlá-la,  ela  era  como  o  próprio 
vento! 
Para as crianças que teve com Ogum, Iansã deixou seus chifres como talismã 
encantado.  Para  que no  momento  de  necessidade,  com  eles  invocassem  sua 
presença, esfregando um no outro. Ela prometeu que de onde estivesse viria em 
seu socorro pois é uma mãe que jamais abandona seus filhos amados. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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