Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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Capitulo III 
TECENDO UM BALAIO DE IDEIAS 
 
 
3.1. O que é o Balaio de Ideias Axé na Sala de Aula?  
 
A  dimensão  propositiva  desta  dissertação  consiste  na  formulação  do 
Balaio de Ideias  Axé na Sala de  Aula como recurso metodológico facilitador 
para a aplicação prática das Diretrizes Curriculares Nacionais para as Relações 
Étnico-Raciais,  no  tocante  à  abordagem  da  temática  da  diversidade  cultural  e 
religiosa  afro-brasileira  em  ambiente  escolar,  especificamente  no  segundo 
segmento  do  Ensino  Fundamental.  O  público-alvo,  portanto,  está  focado  em 
docentes  e  discentes  nas  etapas  do  6º  ao  9º  Ano  do  referido  segmento, 
especialmente para as séries finais deste segmento.  
          O Balaio de Ideias é um produto voltado para a introdução da temática 
das  religiões  afro-brasileiras  nas  aulas  de  História,  objetivando  promover  o 
questionamento crítico e reflexivo sobre as origens e implicações da intolerância 
religiosa  na  sociedade  brasileira  contemporânea,  entendida  como  um 
desdobramento do racismo epistemológico herdado de nosso passado colonial 
e escravista. 
Este  produto  foi  pensado  como  uma  estratégia  pedagógica  para  a 
sensibilização  de  docentes  e  discentes  do  segundo  segmento  do  Ensino 
Fundamental  com  relação  a  temática  do  preconceito  e  discriminação  afro-
religiosos  que  é  um  problema  recorrente  nos  ambientes  escolares, 
frequentemente  silenciado  pelos  educadores,  seja  por  despreparo,  formação 
acadêmica  insuficiente,  por  medo/receio  da  rejeição  manifestada  pela 
comunidade  escolar  e/ou  pela  falta  de  apoio  estrutural  da  própria  unidade  de 
ensino e do sistema educacional em sua localidade.  
Sei  que  frequentemente  o  educador  está  sozinho  e  despreparado, 
contando com recursos didático-pedagógicos limitados, insuficientes, ou muitas 
vezes  inexistentes  em  sua  unidade escolar, principalmente em  se tratando  da 
Rede Pública Estadual do Rio de Janeiro que nos últimos anos vem sofrendo os 
impactos  avassaladores  de  uma  grave  crise  econômico/administrativa  que  se 
estende nos níveis estadual e federal.  


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Acredito  que  a  utilização  consciente  do  Balaio  de  Ideias,  enquanto 
ferramenta  didática  para  o  exercício  da  ética  da  alteridade,  possa  propiciar  o 
debate e  a desconstrução de visões estereotipadas e equivocadas  veiculadas 
pelo senso comum alimentado pelo discurso neopentecostal ortodoxo, sobre os 
valores culturais e filosóficos das religiões brasileiras de ascendência africana.  
O presente produto foi pensado para aplicação nas aulas de História, por 
professores graduados na área, todas as propostas de atividades elencadas que 
integram o Balaio foram elaboradas para atender às demandas específicas deste 
público-alvo. Demandas estas detectadas pela própria autora da proposta, em 
minha experiência  enquanto  docente  na  Educação  Básica,  bem  como através 
da  pesquisa  qualitativa  de  inspiração  etnográfica  empreendida  na  unidade 
escolar na qual atuo desde 2008.  
O conjunto de informações obtidas através das entrevistas, aplicação das 
atividades pedagógicas do Balaio de Ideias e análise de resultados, efetuada 
ao longo do primeiro semestre do ano de 2015, quando do início da pesquisa de 
campo, corroboram a relevância  da temática afro-religiosa na área de História 
como uma estratégia para o adensamento de reflexões críticas que possibilitem 
a desconstrução de preconceitos naturalizadores/reprodutores da intolerância. 
 Por isto, considero um trabalho essencial dentro da perspectiva de uma 
educação histórica  crítica,  desenvolver dispositivos de ensino voltados     para 
uma  educação  efetivamente  inclusiva,  democrática  e  cidadã.  Por  isso  a 
importância  de  voltada  para  a  construção  coletiva  de  valores  éticos  e 
humanistas, - preservando os princípios constitucionais de liberdade religiosa e 
laicidade do Estado -, dentro de uma sociedade multiétnica e multicultural como 
a nossa. 
O  Balaio  de  Ideias  é  um  material  de  apoio  didático  idealizado  para 
fomentar  a  aplicação  da  legislação  10.639/03,  explicitada  pelo  parecer  do 
Conselho Nacional de Educação/CP 003/2004, referendado pela Resolução do 
Conselho  Nacional  de  Educação/CP  001/2004  no  ensino  de  História,  sendo 
direcionada  para  a  modalidade  previamente  especificada  e  destinado  ao  uso 
pelo professor em sua prática docente.  
Este  dispositivo  de  ensino  parte  da  utilização  do  repertório  mítico-
teológico  Jêje-Iorubano  -,  preservado  e,  ao  mesmo  tempo,  recriado  pelas 
comunidades de santo brasileiras, - para propor uma experiência pedagógica de 


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imersão  dos  adolescentes  de  doze  a  quinze  anos  neste  universo  cultural. 
Mediada pela orientação do professor -, que também é convidado a assumir um 
papel de “contador de histórias”, inspirado na tradição africana dos “griots” -, esta 
proposta  procura  resgatar  a  oralidade  enquanto  modalidade  ancestral  de 
transmissão  de  saberes,  construídos  em  espaços  de  educação  não-formais 
(terreiros) que podem ser agregados às práticas do cotidiano escolar e contribuir 
na aprendizagem histórica. 
Portanto,  a  proposta  do  Balaio  de  Ideias  Axé  na  Sala  de  Aula  foi 
confeccionar  um  material  interativo  que  propicie  a  articulação  entre  educação 
escolar e tradição oral afro-religiosa, entretecendo saberes e práticas oriundos 
das  áreas  acadêmicas  de  História,  Artes  e  Linguagem  com  outras  matrizes 
epistemológicas  provenientes  do  ethos  civilizatório  africano  reconstruído  na 
diáspora colonial. Duas fontes distintas de produção/difusão de saberes, porém 
não necessariamente excludentes ou antagônicas que podem dialogar dentro do 
currículo e da cultura escolar.  
Postulamos a viabilidade do diálogo entre   os saberes formais e informais 
nas aulas de História enquanto estratégia para superação do preconceito afro-
religioso e do racismo epistemológico ainda cristalizados em nossa sociedade, 
pela  aproximação  com  o  repertório  mitológico  africano,  suas  alteridades  e 
especificidades,  via  sensibilização  ética  e  estética,  interligando  a  cultura  dos 
terreiros (espaço de educação não-formal) e o cotidiano escolar.  
A  vivência  de  imersão  na  cosmovisão 
“do  outro”  possibilita  a 
perspectivação  das  supostas  verdades  absolutas  enraizadas  no  indivíduo 
formatado numa sociedade de valores hegemônicos eurocêntricos, de forma a 
relativizá-las  e  entende-las  como  uma  dentre  várias  possibilidades  cognitivas, 
mas  não  exclusivamente  como  único  parâmetro  legítimo  para  interpretar  a 
realidade.  
As narrativas míticas selecionadas/compiladas no Balaio de Ideias e as 
atividades  sugeridas/descritas  para  realização  ao  término  de  cada  encontro 
pedagógico,  assim  como 
as orientações contidas no “Material  do Professor” 
concorrem  para  o  enfraquecimento  das  resistências  psicológicas  dos 


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