Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


parte do conjunto de crenças e práticas de matriz africana, apesar de toda uma



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parte do conjunto de crenças e práticas de matriz africana, apesar de toda uma 
ideologia ter sido construída, desde o passado colonial, em torno desta figura, 
primeiramente pelo catolicismo e atualmente com a campanha de “satanização” 
empreendida pelo segmento neopentecostal. Fora do contexto das religiões de 
matriz  abraâmica,  -  a  saber  judaísmo,  cristianismo  e  islamismo-,  a  ideia  de 
dualismo maniqueísta entre dois princípios antagônicos ligados à luz e às trevas 
não faz sentido, por mais que o discurso destas muitas vezes enxergue o mundo 
desta forma e procure enquadrar todos os outros sistemas religiosos partir desta 
ótica dicotômica. 
         O foco deste trabalho não é discutir diferenças teológicas entre os sistemas 
de  crenças  judaico-cristãos  e  o  paganismo,  porém  diante  do  crescimento  da 
intolerância  afro-religiosa  e  dos  ataques  diários  sofridos  por  seus  adeptos, 
veiculado  pelo  neopentecostalismo  e  pelo  catolicismo  conservador,  torna-se 


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necessário entender a cosmovisão do “outro” para descontruir discursos forjados 
pela ignorância. 
       Pelo  seu  caráter  ambíguo,  sua  ligação  com  forças  primárias  como  a 
sexualidade e a fertilidade masculina, Exu acabou tornando-se o alvo ideal para 
as campanhas de desmoralização dos cultos afro-brasileiros, o principal foco do 
medo e das críticas infundadas dos segmentos cristãos conservadores. Desde 
o  início  da  colonização  europeia  do  continente  africano,  os  primeiros 
missionários cristãos a visitar os territórios fon-iorubá no século XVI viram nesta 
figura a personificação do mal, denominando-
o de “príapo negro”. Sua cor negra 
(associada às trevas e ao mal), seus objetos de culto como o tridente, os chifres 
e o símbolo fálico, os animais sacrificados em seu culto (bode, galo, porco) foram 
associados/sincretizados com o estereótipo do demônio medieval. 
       Contudo,  dentro  da  perspectiva  das  sociedades  fon-iorubá  da  África 
ocidental,  fonte  do  culto  a  Exu/Legbá,  esta  é  uma  divindade  de  grande 
relevância,  responsável  pela  ligação  entre  o  mundo  espiritual  e  o  mundo 
material, pois é o mensageiro entre os deuses e os seres humanos. Senhor da 
fertilidade e do dinamismo, participou da criação do mundo e da humanidade. É 
o  guardião  da  ordem  e  do  equilíbrio  universal,  porém  enquanto  princípio  do 
movimento, também gera o caos e a desordem, para que o mundo possa sempre 
se renovar e nada permaneça estagnado. Devido ao seu papel primordial, era 
uma  das  poucas  deidades  a  serem  cultuadas  em  todas  as  comunidades  das 
etnias fon-iorubá. Era sempre saudado, respeitado e reverenciado em primeiro 
lugar, antes da realização de qualquer cerimônia religiosa, atividade oracular ou 
no início de qualquer empreitada ou empreendimento
48

O  pesquisador  Nelson  Fernando  Inocêncio  da  Silva  (2005,  pág:126) 
apresenta uma interessante reflexão sobre o processo de “demonização” deste 
polêmico orixá fon-iorubano no trecho destacado a seguir: 
 
“ (...)  As interpretações acerca de Exu são paradigmáticas, pois 
elas denunciam o nível exacerbado de mediocridade e pavor que 
perdura na sociedade brasileira sobre as cosmovisões africanas 
ressignificadas no contexto do novo mundo. Na representação 
visual  dessa  divindade,  dois  símbolos  insurgem-se  contra  o 
pensamento  conservador  das  religiões  abraâmicas.  Um  deles 
                                                           
48
 Ver SILVA, Vagner Gonçalves da. Exu do Brasil: tropos de uma identidade afro-brasileira nos 
trópicos. In Revista de Antropologia. São Paulo: USP,2012, v:55, nº: 02, p: 3. 


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seria  o  tridente  portado  por  Exu,  via  de  regra,  na  estrutura  do 
raciocínio  do  oponente,  está  sempre  conectado  às  dimensões 
demoníacas  que  reiteram  a  valorização  do  mal como caminho 
preferencial ou única perspectiva a ser construída. O outro diz 
respeito à imagem fálica também alusiva a esta divindade, que 
imediatamente  remete  aos  leigos,  a  ideia  de  perversão,  de 
comportamento amoral e devasso. Portanto, em relação a essa 
divindade não haveria qualquer outra associação condizente a 
não ser vinculando-se a referenciais os mais negativos possíveis 
dentro da lógica dicotômica e antagônica que demarca de modo 
extremamente simplificado os territórios entre o bem e o mal. 
    Caso  nos  lançássemos  ao  desafio  de tentar compreender  a 
estrutura  de  pensamento  que  dá  forma  e  conteúdo  às 
elaborações simbólicas específicas, poderíamos notar que tanto 
o tridente quanto o falo remetem a uma filosofia que desconhece 
a polarização entre o bem e o mal, até porque busca transcender 
qualquer  dicotomia  que  se  imponha.  É  absolutamente 
importante  entender,  por  exemplo,  que  estes  símbolos  podem 
apresentar  diferentes  significações  culturais,  haja  vista  as 
conotações  que  objetos  semelhantes  adquirem  em  contextos 
distintos entre si. Existe também a necessidade de considerar as 


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