Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


 Apresentação das Principais Divindade do Panteão Afro-Brasileiro



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2.7. Apresentação das Principais Divindade do Panteão Afro-Brasileiro 
   
Segundo a cosmovisão iorubana, os orixás são potências cósmicas que 
regem elementos da natureza, funções biológicas e atividades sociais dos seres 


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humanos. Estas divindades são emanações do Deus supremo (Olodumare ou 
Olórun),  incumbidas  por  ele  para  governar  o  mundo,  auxiliando  os  seres 
humanos em sua luta pela sobrevivência. Da mesma maneira como Olódùmarè 
criou os céus e a terra e todos os seus habitantes humanos, animais, vegetais, 
minerais,  igualmente  criou  as  divindades  -  denominadas  òrìsà,  irunmalè  ou 
imalé/ebora e espíritos, - personificações de forças naturais, dos ancestrais, dos 
poderes  influenciadores  da  vida  terrena  que  não  são  deuses,  -  para  atuarem 
como seus representantes (Beniste, 1997, pág:56).         
  Os  adeptos  do  Candomblé  reverenciam  um  amplo  conjunto  de 
divindades, cujos aspectos e representações podem ser conhecidos através de 
uma infinidade de narrativas poéticas (os ìtáns) que descrevem suas histórias, 
características  particulares  e  seu  relacionamento  com  outros  deuses,  muitas 
vezes  complexo  e  conturbado.  Além  de  reunirem  atributos,  personalidades, 
comportamentos,  conflitos,  sentimentos  e  paixões  próximos  daqueles  vividos 
pelos seres humanos.  
Os  orixás  representam  a  antropomorfização  dos  fenômenos  biológicos.  
Além de personificarem elementos e forças da natureza, tais como: água, terra, 
fogo,  ar,  montanhas,  pedras,  lama,  minérios,  florestas,  plantas,  animais,  rios, 
mares, arco-íris, orvalho, lagoas, chuvas, ventos, relâmpagos.  
Paralelamente, 
os 
deuses 
do 
panteão 
afro-brasileiro 
regem 
atividades/funções  biológicas  e  culturais  relacionadas  ao  ser  humano: 
sexualidade,  virilidade,  feminilidade,  gestação,  maternidade,  morte,  doença, 
infância,  velhice,  maturidade,  agricultura,  metalurgia,  guerra,  cura,  liderança, 
justiça, magia, sabedoria, adivinhação (artes oraculares), dança, música, poesia, 
pesca, comércio. Distinguindo-se uns dos outros por suas origens, atribuições, 
vestimentas, cores, tabus (proibições), preceitos e emblemas rituais. 
Na  religião tradicional iorubana,  acredita-se que os homens e mulheres 
descendem  dos  orixás,  não  tendo,  pois,  uma  origem  única  como  no  caso  do 
cristianismo. Cada ser humano herda da divindade da qual provém suas marcas 
e características, propensões e desejos, conforme descrito nos mitos. Os orixás 
são  seres  antropomórficos,  semelhantes  à  humanidade,  compartilhando  seus 
vícios e virtudes. 
Vivem em luta uns com os outros, defendem seus governos e procuram 
ampliar seus domínios, valendo-se de todos os artifícios e artimanhas, da intriga 


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dissimulada  à  guerra aberta e  sangrenta,  da  conquista  amorosa à  traição.  Os 
deuses  iorubanos  alegram-se  e  sofrem,  vencem  e  perdem,  conquistam  e  são 
conquistados, amam e odeiam. Os seres humanos são cópias esmaecidas dos 
orixás dos quais descendem (Prandi, 2001, pág:28). 
A energia vital ou axé é parte dos orixás, porque seu culto está ligado às 
forças,  elementos  e  fenômenos  naturais.  Eles  são  a  parte  disciplinada, 
antropomórfica destas forças, podendo ser adoradas para consolidar a formação 
de  um  elo  entre  a  humanidade  e  o  ser  supremo.  Alguns  orixás  são  descritos 
como  deidades  primordiais,  enviados  diretamente  do  órun  para  o  aiyê  pelo 
criador. Outro surgiram primeiramente na forma seres humanos excepcionais e 
heroicos que viveram na terra em eras remotas, e mais tarde foram divinizados
sendo objeto de culto e adoração (Beniste,1997, pág:57). Conforme sintetizado 
de  forma  poética  por  Pierre  Verger  (1987,  pág:  5),  a  partir  dos  ensinamentos 
aprendidos de um sacerdote de Ifá africano (babalawô). 
 
“ Antigamente, os orixás eram homens. 
  Homens que se tornaram orixás por causa dos seus poderes. 
  Homens que se tornaram orixás pela sua sabedoria. 
  Eles eram respeitados por cauda de sua força. 
  Eles eram venerados por causa de suas virtudes. 
  Nós adoramos suas memórias e os altos feitos que realizaram. 
  Foi assim que estes homens se tornaram orixás. 
  Os homens eram numerosos sobre a terra  
  Antigamente, como hoje, 
   muitos deles não eram valentes nem sábios. 
   A memória destes não se perpetuou. 
   Eles foram completamente esquecidos. 
   Não se tornaram orixás. 
   Em cada vila um culto se estabeleceu 
   Sobre a lembrança de um ancestral de prestígio 
   E lendas forma transmitidas de geração em geração 
   Para render-lhes homenagem.
” 
    
 Ao  término  desta  seção  apresento,  resumidamente,  os  dezesseis 
principais  deuses  do  panteão  do  candomblé  afro-brasileiro,  seu  local  de 
procedência,  nação  religiosa  e  atribuições.  Em  África,  existem  centenas  de 
outros Orixás, nkisis e voduns que não tiveram seu culto adotado em nosso país, 
por várias razões, dentre elas o fato de que o culto de algumas dessas deidades 
estava restrito a uma etnia, cidade, aldeia ou a um local geográfico específico 
(rio,  montanha,  floresta)  não  possibilitando  seu  deslocamento  para  outro 
continente. 


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 Outro  motivo  está  ligado  à  formação  histórica  das  religiões  de 
ascendência africana no Brasil que se desenvolveram nos centros urbanos e não 
em  áreas  rurais,  fazendo  com  que  divindades  importantes  em  solo  africano, 
como  o  iorubano  orixá  Ocô,  patrono  da  agricultura,  se  tornassem  cada  vez 
menos importantes nas cerimônias.  
Também  ocorreu  a  fusão  de  várias  divindades  similares  ligadas  a  um 
determinado elemento da natureza num mesmo culto, assimiladas por uma única 
figura central, a qual são atribuídas diversas “qualidades” ou “caminhos do orixá”. 
Assim,  no  Candomblé  brasileiro  de  tradição  iorubana  e  congo-angola, 
diferentemente,  do  culto aos  orixás  africano,  existem  diferentes  qualidades ou 
subdivisões dentro da figura da mesma divindade, com exceção dos voduns da 
nação Jêje.  
Por  exemplo,  no  caso  da  divindade  iorubana  Oxum,  mãe  das  águas 
doces,  ligada  à  feminilidade,  riqueza  e  fertilidade  que  possui  dezenas  de 
qualidades  como  Abalu,  Opará,  Onirá, Okê,  Odó,  Ajagunrá,  Omerín,  Ominibú, 
Ijemú, Osogbô, Carê, Ipondá, Nissim, Ipetu, Èwuji, Miwá entre outras. Assim, a 
orixá Oxum é cultuada a partir destas subcategorias, onde cada qualidade possui 
comportamento e temperamento distintos, está associada a uma passagem/local 
mítico  específico,  dança  usando  apetrechos  e  gestos  diferentes,  apresenta 
preferências distintas por determinadas oferendas alimentares e vestuário enfim, 
são múltiplas facetas dentro de um mesmo arquétipo.  
A  descrição  na  tabela  a  seguir  está  organizada  a  partir  da  ordem 
hierárquica em que os orixás se apresentam no xirê (cerimônia festiva de danças 
sagradas) tradicionalmente adotado na maioria dos candomblés, especialmente 
na nação Ketu da qual as informações foram retiradas.  
É  oportuno  lembrar  que  os  panteões  Bantu  e  o  Jêje  possuem  suas 
especificidades próprias com relação ao iorubano, portanto, a presente tabela foi 
organizada por aproximação entre as características das divindades cultuadas 
nas três matrizes do candomblé, tendo em vista que orixás, nkisis e voduns não 
são idênticos ou equivalentes, possuindo apenas algumas similaridades entre si.   
Também  houve  preocupação  em  inserir  um  pouco  da  teogonia  da 
Umbanda,  sendo  que nesta  religião  apenas oito  Orixás  são  cultuados  (Ogum, 
Oxossi, Xangô, Omolu, Oxum, Iansã, Iemanjá, Nanã). É pertinente destacar que 
dentro da cosmovisão umbandista, os orixás não são divindades ou ancestrais 


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divinizados, mas energias incorpóreas ligadas às forças da natureza, emanadas 
do  ser  supremo  (Oxalá).  Os  orixás,  na  Umbanda  são  pura  energia,  não 
incorporam nos seres humanos. 
Na Umbanda, quem incorpora nos médiuns são 
“chefes de falange” (ou 
falangeiros dos orixás), espíritos desencarnados de grande evolução espiritual 
que  exercem  o  papel  de  liderança,  atuando  dentro  de  uma  das  oito  linhas  de 
vibração  chamadas  orixás,  a  saber:  Ogum,  Oxóssi,  Omolú,  Iansã,  Oxum, 
Iemanjá, Nanã e Oxalá. Neste segmento Exu não é concebido como orixá, mas 
um  conjunto  específico  de  espíritos  masculinos  desencarnados,  denominado 
“povo de rua” ou “povo em evolução”, assim como Oxalá não é propriamente um 
orixá,  mas  está  situada  numa  posição  hierárquica  superior  enquanto 
personificação do Deus criador ou, em alguns casos, de Jesus Cristo.   
         Por  último,  porém  não  menos  relevante,  destaco  a  questão  de 
personagens polêmicos dentro do panteão candomblecista, como Exu, orixá do 
movimento,  mensageiro  do  deus  supremo.  É  preciso  que  fique  perfeitamente 
esclarecido  no  entendimento  de  quem  pretende  abordar  esta  temática  no 
ambiente escolar o fato  de  que,  dentro  das concepções  religiosas  tradicionais 
africanas,  inexiste  a  concepção  do 
“demônio”  ou  princípio  maléfico  absoluto, 
inimigo e antagonista do criador supremo.  
         Este é um conceito forjado pela teologia judaico-cristã ocidental e não faz 


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