Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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   2.5. Candomblé e Ética 
 
      O Candomblé é uma religião que afirma a sacralidade do mundo natural e do 
corpo,  sem  dicotomias  entre  sagrado  e  profano,  seus  valores  éticos  são 
diferentes  da  moral  judaico-cristã  e  esta  não  serve  como  parâmetro  para 
compreender as especificidades de sua cosmovisão, pois são sistemas distintos 
(porém não opostos ou antagônicos). 
      O código de conduta ético do candomblé reveste de estima muitos elementos 
que  as  religiões  abraâmicas  consideram  pecaminosas  como  o  dinheiro,  a 
sexualidade, o êxtase espiritual, a dança e a música, a conexão com o mundo 
dos espíritos, a vaidade corporal, o sucesso pessoal e profissional, a dominação 
e o poder.  
      O  candomblé  não  distingue  o  bem  do  mal,  da  maneira  dualista  cristã,  por 
isso,  a  religião  tende  a  atrair  também  indivíduos  discriminados  e  excluídos 
socialmente, comumente marginalizados por outras denominações religiosas e 
instituições sociais em geral. Trata-se, pois, de um sistema religioso que aceita 
indivíduos  rejeitados  socialmente  de  todos  os  setores,  acolhendo  negros, 
pobres, homossexuais, travestis, prostitutas, sem discriminação.  
      É uma religião que se preocupa, sobretudo, com aspectos muito concretos 
da  vida:  dor,  desemprego,  deslealdade,  doenças,  falta  de  dinheiro,  comida, 
abrigo,  -  mas  sempre  tratados  individualmente,  caso  a  caso,  indivíduo  a 
indivíduo,  -  pois  nele  não  se  trabalha  com  interesses  coletivos,  mas  com  o 
destino individual (odu) que não é entendido como imutável.  
      Contudo isto não significa que dentro da cosmovisão do candomblé inexista 
a ideia de ética. Simplesmente o código de conduta do candomblé, distinto de 
outras  religiões,  não  está  pautado  nos  princípios  da  moral  judaico-cristã.  No 
pensamento  teológico  afro-brasileiro,  ética  e  moral  não  são  compreendidos 
enquanto sinônimos.  
      No  pensamento  religioso  afro-brasileiro  não  há  uma  concepção 
maniqueísta/dualista,  de  antagonismo  entre  bem  e  mal  como  forças  distintas, 


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cujo  campo  de  disputa  seria  a  alma  humana.  Para  o  adepto  das  religiões  de 
herança africana o mundo material e o espiritual estão impregnados pela energia 
dos deuses, portanto, em última instância tudo é sagrado e deve ser respeitado 
como emanação do supremo criador do universo.  
      Para  entender  a  ética  do  candomblé  é  preciso  despir-se  psicologicamente 
dos preconceitos imbuídos pelos valores de nossa sociedade eurocêntrica, de 
forma a discernir entre moral -, relativa aos códigos de conduta específicos de 
uma  sociedade  num  determinado  tempo-espaço  -,  e  ética,  entendida  como 
caráter individual, capacidade de escolha consciente pela prática da virtude e da 
honra.  
     Atos  aparentemente  corriqueiros  como  cozinhar,  alimentar-se,  banhar-se, 
vestir-se,  enfeitar-se  com  adereços,  falar,  cumprimentar  familiares  e  amigos, 
narrar  um  fato  sobre  o  passado,  dançar,  cantar,  tocar  um  instrumento,  são 
extremamente carregados de simbolismos religiosos, seguem preceitos, tabus e 
regras transmitidas somente aos iniciados, pela convivência entre novatos e os 
mais  antigos  “no  santo”.  Saber  ouvir,  obedecer,  memorizar  e  aprender  sem 
perguntas, mas seguindo o exemplo dos mais velhos são fundamentais para a 
construção e o fortalecimento do caráter dos indivíduos.  
        O adepto do Candomblé propicia os deuses na constante procura do melhor 
equilíbrio possível (mesmo que temporário) entre o que ele tem e aquilo que ele 
gostaria de ser e ter.  Nesta busca por uma vida mais plena e feliz, ele é guiado 
pelo pai de santo ou mãe de santo, no decorrer de um longo aprendizado de no 
mínimo sete anos, as fórmulas iniciáticas para a manipulação adequada do axé, 
força vital responsável pela realização da existência.  
      Ele aprende que os ritos são uma forma de manter a ordem do universo e 
preservar  ou  restaurar  o  equilíbrio  entre  as  três  forças  primordiais  da  vida, 
chamadas na cosmovisão iorubana de: Iwá, Axé e Abá. 
       A primeira, Iwá é o ser, o princípio da existência em geral, da ordem divina 
estabelecida pelo criador Olórun ou Olodumare que deve ser respeitada através 
de uma  conduta honrada,  pois  só possui  iwá  a  pessoa de  caráter  honrado. O 
segundo princípio é o Axé, a força dinâmica presente em todo o universo que 
possibilita o desabrochar da existência, de tudo o que pode vir a ser em suas 
infinitas possibilidades.  


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      O  axé  é  a  capacidade  de  realização,  a  vontade  e  a  ação.  Segundo  José 
Beniste (2000) é um fluido mágico que não tem forma, mas é sentido e que dá 
vida e forma a tudo o que existe. Se a pessoa está viva é porque está respirando 
o axé emanado do ser supremo. A própria casa de candomblé é definida como 
Casa de Axé (Ilê Àse). O Abá é o terceiro princípio que sustenta e possibilita a 
conexão entre Orun-Ayê, permitindo o fluxo de energias entre o plano material e 
o espiritual (Beniste, 2014, pág:276).  
          Concluindo este tópico, as religiões afro-brasileiras, nascidas no processo 
diaspórico  da  escravidão  colonial,  são  herdeiras  do  legado  de  crenças  e 
tradições  trazido  pelos  negros  de  seu  continente  originário.  A  análise 
comparativa dos pontos-chave elencados por Volney J. Berkenbrock (2012) leva 
a  perceber  analogias  evidentes  entre  os  sistemas  arcaicos  das  matrizes 
religiosas  iorubanas,  sudanesas  e  bantas  e  o  que  conhecemos  hoje  como 
Candomblé. 
        Quando afirmo a possibilidade de traçar paralelos entre ambos os sistemas, 
- africano e afro-brasileiro - não estou postulando que houve uma continuidade 
direta  destas  crenças  originárias  do  outro  lado  do  atlântico  em  nosso  país. 
Apenas  assinalo  a  existência  de  princípios  teológicos  e  filosóficos  comuns  e 
algumas permanências em práticas litúrgicas, - principalmente pela preservação 
da estrutura linguística africana através das cantigas, orações e poemas míticos, 
denominados ìtáns na tradição iorubana -, dentro de um conjunto ritualístico mais 
amplo  de  sincretizações  e  hibridizações.  Processo  este  decorrente  da 
necessidade  de  sobrevivência  em  uma  outra  dinâmica  social  que  vai  produzir 
diferenças e conferir um caráter único aos cultos afro-brasileiros.  
      As  religiões  de  matriz  afro-brasileira  contemporâneas  possuem  suas 
especificidades  em  relação  a  outras  religiões  exclusivamente  africanas  bem 
demarcadas.  Frequentemente  observa-se  que  uma  nação  aderiu  a  preceitos, 
terminologias e rituais de outra nação de origem étnico-linguística e geográfica 
distinta, em consequência da miscigenação, em solo brasileiro, entre africanos 
e  seus  descendentes  provenientes  de  múltiplas  matrizes  que  vão  construir  o 
Candomblé a partir da fusão entre elementos iorubanos, sudaneses e bantus.  
    A  realidade  desagregadora  de  identidades  étnico-culturais  do  processo  de 
escravização  resultou  na  invenção  do  Candomblé  como  estratégia  de 
sobrevivência/resistência cultural e histórica de indivíduos de diferentes grupos 


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que forjaram em suas práticas religiosas novas identidades, nações de culto e 
pertencimentos,  reinventando  suas  africanidades  perdidas  e  apagadas  pela 
opressão colonial. 
       Assim como a escravidão negra no Brasil foi um processo histórico marcado 
por 
especificidades 
próprias 
que 
geraram 
uma 
modalidade 
de 
organização/estruturação da sociedade distinta de outros projetos civilizatórios 
coloniais no continente americano, as religiões afro-brasileiras, formadas em seu 
interior,  distinguem-se    dos  cultos  tradicionais  ainda  existentes  no  continente-
mãe, bem como de outros sistemas religiosos de ascendência afro-latina como 
santería (também subdividida em nações bantu-angolanas-congolesas e nagô-
iorubanas  como  no  caso  do  candomblé  brasileiro)
43
,  o  vodu
44
  e  demais 
fenômenos originados em outras regiões do continente americano ao longo da 
diáspora cultural negra. 
 
 



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