Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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       2.4.3. Existência de um ser supremo 
 
      Fé em um ser supremo que pode ser caracterizado de formas muito diversas, 
podendo  assumir  a forma  de uma  divindade  ou  um  ancestral  divinizado.  Para 
alguns  povos  esta  figura  pode  ser  masculina  em  outros  feminina,  ou  mesmo 
hermafrodita. Esta deidade suprema é vista como demiurgo, criador do mundo, 
do universo e de todos os seres viventes, por via direta ou indireta (
seus “filhos”  
ou representantes).  
      Pela ligação com o ser supremo a vida na terra se manifesta, reproduz e a 
ordem  cósmica  é  garantida,  refletindo-se  na  manutenção  da  ordem  social  da 
comunitária.  Na  religião  tradicional  Iorubá  o ser  primordial  é  chamado  Olórun/ 
Olodumare  entre  os  daomeanos  é  Mawu  o  pai  de  toda  a  criação  e  entre  os 
grupos  étnico-linguísticos  de  origem  banta  é  conhecido  como  Zambi,  Mvidi  e 
Kalunga
38
.  
      Portanto,  podemos  perceber  que,  em  última  instância,  as  religiões 
tradicionais africanas são monoteístas e ao mesmo tempo politeístas. A miríade 
de  deuses,  espíritos  e  ancestrais  são  expressões  da  energia  do  supremo  ser 
criador que não interfere diretamente nos destinos humanos, atuando através de 
seus emissários.  
                                                           
38
 Ver FIGUEIREDO, Janaína (org.) Op. Cit.; p:61. 


100 
 
      Porém, a meu ver, a ideia de monoteísmo africana nada tem em comum com 
a  concepção  teológica    judaico-cristã  pois:  1)  não  apresenta  características 
dualistas,  de  eterno  conflito  entre  bem  e  mal  absolutos,  2)  não  prega  uma 
escatologia salvacionista, um céu ou inferno destinados aos justos e pecadores 
como  resultado  do  julgamento  divino,  3)  não  concebe  a  interferência  do  ser 
supremo  diretamente  na  vida  de  toda  humanidade,  mas  aproxima-se  do 
politeísmo  monoteísta  presente  em  religiões  como  a  hinduísta  que  também 
concebe  um  único  criador  (Brahman,  o  absoluto  e  impessoal)  com  infinitas 
manifestações ou emanações (devas e devis, os deuses e deusas) que atuam 
nas questões humanas como seus mensageiros e representantes 
 
 
         2.4.4. Animismo e Panteísmo 
 
         Crença na existência de uma vida após a morte o
u pós vida num “mundo 
superior”.  O  culto  aos  ancestrais  mortos  é  um  dos  cernes  dos  sistemas  de 
crenças  africanos.  Os  mortos  são  cultuados  pelos  vivos,  individual  ou 
coletivamente,  muitas  vezes  sendo  viabilizada,  em  cerimônias  e  rituais 
específicos, a experiência de transe e possessão de um membro da comunidade 
(sacerdote iniciado do culto) por um espírito ancestral que faz o intercâmbio entre 
os dois mundos, orientando o grupo.  
         Porém diferentemente do cristianismo, a crença na vida após a morte não 
envolve salvação escatológica, não há recompensa ou castigo após a morte. As 
punições  por  desvios  de  conduta  são  inflingidas  pelos  deuses  aos  indivíduos 
nesta própria vida e não na próxima.  
         Na  afroteologia,  o  ser  supremo  é  uma  fonte  única  e  infinita  de  poder, 
misericórdia  e  bondade,  portanto  não  há  uma  força  maligna  absoluta  e 
antagônica  ao  criador,  semelhante  ao  conceito  do  demônio  judaico-cristão. 
Todos  as  pessoas,  ao  morrer,  fazem  a  transição  do  aiyê  (terra)  para  o  órun 
(morada divina), não existe a ideia de inferno ou purgatório, pois todos nascem 
abençoados pela salvação, fruto da bondade do criador 
       Diferente  da  teologia  judaico-cristã,  a  cosmovisão  africana  tradicional 
agrega de forma coerente e não conflitante elementos filosóficos tanto politeístas 
como monoteístas, bem como panteístas. A expressão panteísmo (formada pela 


101 
 
aglutinação dos termos gre
gos “pan”: tudo, “theos”: Deus, ou seja: “Deus está 
em tudo”) define a crença de que todos os seres da terra, animados e inanimados 
possuem energia  vital emanada do ser supremo  - onipresente,  imanente e ao 
mesmo tempo transcendente-, estando interligados e fazendo parte do delicado 
equilíbrio cósmico. 
 
 



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