Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


 Fundamentos filosóficos e cosmovisão do Candomblé



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2.4. Fundamentos filosóficos e cosmovisão do Candomblé: 
 
Sob o ponto de vista histórico, a África negra é o continente de origem dos 
grupos  étnico-linguísticos  que  inventaram  o  Candomblé  dentro  do  contexto 
socioeconômico  e  político  da  escravidão  colonial.  Esta  religião  originou-se  no 


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processo diaspórico de migração de cerca de dez milhões de pessoas trazidas 
de  diferentes  regiões  geográficas  para  as  terras  brasileiras,  pertencentes  a 
centenas de grupos étnico-linguísticos e culturais completamente distintos.  
Refletir sobre a formação das religiões afro-brasileiras, especialmente do 
Candomblé precisa partir da premissa que a África e os africanos não podem ser 
compreendidos como uma unidade, mas como um conjunto multifacetado, um 
gigantesco mosaico de povos, etnias e tradições religiosas. 
 As  religiões  afro-brasileiras  são  o  resultado  de  três  séculos  de  fluxo 
migratório  propiciado  pelo  tráfico  transatlântico  de  escravos.  Ao  longo  deste 
período  ocorreram  mudanças  socioculturais,  geopolíticas  e  populacionais 
significativas 
propiciadas 
pelo 
intercâmbio 
com 
outras 
civilizações, 
principalmente  a  europeia  dentro  da  África,  modificando  as  próprias  religiões 
autóctones, a partir do contato com o cristianismo e também com o avanço do 
islamismo.
37
 
Analisando este panorama de ampla diversidade, o teólogo e doutor em 
Ciência  da  Religião  Volney  J.  Berkenbrock  (2012)  apresenta  de  maneira 
simplificada alguns padrões comuns no pensamento religioso encontrados tanto 
no  Candomblé  brasileiro  como  nas  religiões  ancestrais  nativas  do  continente 
africano. Destacando que dentro da cosmovisão panteísta tradicional africana a 
religião  está  imbricada  a  todos  os  aspectos  da  vida  da  comunidade  e  do 
indivíduo,  ela  não  é  uma  esfera  separada  (transcendental)  mas  imanente  ao 
cotidiano. 
Uma  das  características  do  pensamento  afroteológico  é  o  fato  de  sua 
cosmologia, crenças e práticas não estarem organizadas em torno de um eixo 
binário,  como  é  o  caso  das  religiões  de  matriz  judaico-cristã.  No  candomblé, 
enquanto sistema religioso herdeiro da espiritualidade africana tradicional, não 
há uma oposição entre vetores contrários: luz x trevas, céu x terra, bem x mal, 
certo  x  errado,  sagrado  x  profano.  Ao  contrário,  a  concepção  afro-religiosa 
concebe sua cosmovisão em termos de articulação e complementaridade entre 
opostos,  assumindo  uma  perspectiva  totalizante,  complexa,  dinâmica  e  não  - 
dualista do universo. 
                                                           
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  Ver  BERKENBROCK,  Volney  J.  A  Experiência  dos  Orixás:  um  estudo  sobre  a  experiência 
religiosa no candomblé. 4ªed. Petrópolis: Vozes, 2012, p: 62-63. 


97 
 
      Na  perspectiva  afro-religiosa,  a  religião  não  é  uma  forma  de  religar  o  ser 
humano à divindade, pois o divino é imanente e não apenas transcendente. Tudo 
que existe no mundo é sagrado, nada é profano, separado de Deus. Portanto, a 
religião é mais do que uma busca por conexão com o divino, mas um modo de 
vida  que  honra  e  respeita  a  sacralidade  do  mundo,  de  harmonização  com  o 
cosmos. Segundo o doutor em filosofia Wanderson Flor do Nascimento (2016, 
pág:7),  para  os  candomblés  tudo  é  instância  das  manifestações  dos  orixás, 
inquices  e  voduns:  o  chão,  as  encruzilhadas,  o  mato,  a  água,  os  corpos,  os 
cemitérios, o vento, as transformações da natureza, a tecnologia etc. 
      
Não há dimensão profana para os candomblés. O “culto” é mais um recorte 
na dimensão temporal da experiência (já que não se se come, não se dança o 
tempo inteiro, por exemplo), que um recorte ontológico ou místico. Tudo participa 
dos inquices, orixás e voduns e estes estão presentes em tudo o que existe no 
mundo.  O  corpo,  nesse  contexto,  não  é  um  território  do  sagrado,  como  se 
pudéssemos recortar o sagrado e encontrar nele o corpo. O corpo é, ele mesmo, 
como  todas  as  coisas,  parte  e  participado  dessas  figuras  primordiais  dos 
candomblés.  O  corpo  é  reflexo  deles.  Formado  de  elementos  que  pertencem 
tanto  a  ancestralidade  histórica,  e  natural.  Os  corpos  carregam  a  história  que 
constituiu nossa família, carrega o tempo da memória, os acordos e alianças que 
fizeram  com  que  nossa  existência  se  desse.  Carregam  também  a  água,  os 
metais,  os  sais  minerais,  o  sangue  e  os  ossos,  trazem  o  ar  e  o  fogo  que  nos 
aquece: todos elementos ligados com os orixás, inquices e voduns. Os corpos 
trazem  em  si  a  divindade  e  permitem  o  trânsito  delas  entre  Duílo  (Orun)  e  o 
Mungongo  (Aiyê)  para  estabelecer  uma  das  formas  de  contato  que  orixás, 
inquices  e  voduns  têm  com  o  restante  das  comunidades  (Flor  do 
Nascimento,2016, pág:7). 
A  seguir,  apresento,  resumidamente,  alguns  aspectos  fundamentais  da 
cosmovisão afroteológica: 
   
 
 2.4.1.  



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