Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


 Batuques, Acotundás e Calunduzes: os cultos afro-brasileiros no



Baixar 2.25 Mb.
Pdf preview
Página44/124
Encontro20.06.2021
Tamanho2.25 Mb.
1   ...   40   41   42   43   44   45   46   47   ...   124
2.2. Batuques, Acotundás e Calunduzes: os cultos afro-brasileiros no 
período colonial. 
 
Segundo o artigo “Do Calundu ao Candomblé”, do antropólogo Renato da 
Silveira (2005), as primeiras referências sobre cerimônias afro-religiosas em solo 


84 
 
brasileiro:  os  denominados 
“calundus  coloniais”  (no  plural:  calunduzes) 
28
 
remontam  a  primeira  metade  do  século  XVII  na  Bahia  e  ao  início  do  século 
seguinte em Minas Gerais.  
Os calunduzes coloniais envolviam um conjunto heterogêneo e difuso de 
ritos,  práticas  e  comportamentos  mágico-religiosos  variados  que  envolviam 
desde cerimônias  coletivas de transe e possessão espiritual envolvendo música 
e  dança,  até  práticas  individuais  como  adivinhação  por  meio  de  conchas  e 
caroços de árvores sagradas (como o jogo do “opelê” utilizando o “ikin”, fruto do 
dendezeiro), curas pela medicina tradicional africana (herbalismo), realização de 
feitiços  e  encantamentos  (confecção  de  fetiches  para  finalidades  variadas, 
preparo  de  amuletos  e  beberagens),  entrega  de  ofere
ndas  votivas  ou  “ebós” 
(flores, alimentos, bebidas, sacrifícios de animais, principalmente de galináceos) 
em locais considerados propícios como encruzilhadas, rios, cachoeiras, matas, 
pedreiras, entre outras práticas devocionais.  
 De  acordo  com  Renato  da  Silveira  (2002,  pág:23),  uma  das  primeiras 
referências  trazida  à  público  sobre  rituais  de  fé  introduzidos  pelos  escravos 
africanos, tem como protagonista as atividades do sacerdote congolês Domingos 
Umbata,  registradas  em  1646  por  visitadores  da  inquisição  portuguesa  na 
capitania de Ilhéus. Outra líder de culto citada nos autos do Santo Ofício foi a 
angolana Branca, atuante na cidade baiana de Rio Real já no século XVIII.  
Uma  das  mais  notórias  “calundunzeiras”  (ou  calundunzeiros,  no 
masculino),  -  termo  utilizado  nos  documentos  setecentistas  portugueses  para 
designar os praticantes de atividades mágico-religiosas de procedência africana 
em território colonial -, foi a angolana Luzia Pinta da freguesia de Sabará, cujas 
atividades  ligadas  à  tradição  ritual  da  etnia  bantu  xinguila  foram  muito  bem-
sucedidas e toleradas pelas autoridades locais entre 1720 a 1740. Misturando 
                                                           
28
  Segundo  a  etnolinguista  Yeda  Pe
ssoa  de  Castro,  o  verbete  setecentista  “calundu”  é  o 
aportuguesamento do termo bantu “Kalundu”, derivado da junção entre as palavras “Kamdombe” 
e “lundu”. A expressão “calundu” é a designação mais antiga encontrada na literatura para os 
cultos afro-baianos, tendo inclusive sido utilizada na poesia barroca de Gregório de Matos Guerra 
no século XVII. Significa: obedecer a um mandamento, realizar um culto invocando os espíritos 
(“kandombe”: reza, louvação), utilizando para isso música e dança (“lundu”). A autora comenta 
que o termo “calundu”, a partir do século XVII passa a significar, também, o rictus facial de uma 
pessoa amuada, mal-
humorada (do original banto “kialundu”: estar “com a macaca”, zangado, 
agressivo e de mau humor). Adotar a expressão “calundu” para indicar alguém amuado traçava 
um paralelo com o semblante contraído e  o comportamento taciturno do praticante dos rituais 
mágico-
religiosos de ascendência africana, em “estado de santo” ou seja, possuído em transe 
pela divindade. Ver CASTRO, Yeda Pessoa. Op. Cit, p:192 para calundu e p:266-267 para lundu. 


85 
 
tradições mágicas africanas, ibéricas e indígenas em seu ofício espiritual, Luzia 
Pinta  realizava  uma  forma  de  sincretismo  religioso  próxima  do  que 
contemporaneamente é desenvolvido pela Umbanda.  
Um  dos  casos  mais  emblemáticos,  registrado  pelos  autos  inquisitoriais 
portugueses no século XVIII, foi o da calundunzeira/vidente/escritora/prostituta 
Rosa Maria Egipcíaca. Proveniente da Costa da Mina, desembarcada no Brasil 
em 1725, a ex-escrava da etnia courana tornou-se célebre pelas artes mágicas 
praticadas  no  Rio  de  Janeiro,  além  de  ter  sido  uma  das  primeiras  escritoras 
negras da história do Brasil, ao narrar sua autobiografia que misturava fatos reais 
e  ficção  com  delírios  místicos.  Infelizmente  sua  obra  não  existe  mais,  pois  foi 
destruída a mando das autoridades inquisitoriais
29
.  
Outro relato está relacionado à Josefa Maria ou Josefa Courá, também da 
etnia  courana (Golfo da Guiné), estabelecida no arraial mineiro de Paracatu a 


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   40   41   42   43   44   45   46   47   ...   124


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal