Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


parte  da  interpretação  de  que  a  tolerância  é  uma forma  de  lidar



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da  alteridade  parte  da  interpretação  de  que  a  tolerância  é  uma forma  de  lidar 
com  as  diferenças  que  não  é  suficiente  para  eliminar  as  hierarquizações  e 
assimetrias  entre  os  indivíduos  e  grupos  sociais.  A  meu  ver,  tolerar  não 
corresponde à atitude ética de solidariedade e responsabilidade ativa para com 
as diferenças, ela é um cálculo de conveniências, a fim de garantir a coexistência 
pacífica ou minimizar os conflitos entre diferentes etnias, concepções, valores, 
comportamentos  e  culturas.  A  tolerância  é  uma  etiqueta  moral  exigida  para 
salvaguardar  a  estabilidade  em  meio  ao  dissenso,  um  imperativo  pragmático 
diante  da  inevitabilidade  de  ser  politicamente  correto  numa  sociedade 
democrática e multicultural. 
       As  relações  entre  o  tolerado,  -  portador  de  marcas  identitárias  não  -
hegemônicas socialmente -, e o tolerante, - representante do grupo hegemônico 
-, ainda são profundamente assimétricas e hierarquizadas. A diferença presente 
e  expressa  na  constituição  da  identidade  do  outro  ainda  incomoda,  ainda  é 
superficialmente 
“tolerada”, porém não compreendida de fato. Não se tolera o 
igual ou semelhante, se aceita e convive naturalmente, sem restrições. Portanto, 
o  ato  de  tolerar  pressupõe  não  apenas  uma  relação  entre  diferentes,  mas 
desiguais, - que não convivem nem compartilham -, apenas coexistem no mesmo 
espaço.  O  ato  de  tolerância  não  exige  um  esforço  maior  na  compreensão  do 
outro em sua alteridade, no reconhecimento de sua cultura e valores no mesmo 
patamar de igualdade.  
       A  ética  da  alteridade  segue  um  passo  adiante  da  tolerância,  ela  busca  a 
superação de suas limitações no que se refere à abertura e aceitação plena do 
outro  em  sua  diversidade/alteridade,  sem  superficialismos,  passividade  ou 
indiferença.  Pensar  numa  postura  para  além  da  tolerância  -,  aceitar 
passivamente o outro em nome da virtude moral  -, é considerar não apenas o 
direito  de  existir  imanente  ao  outro  ser  humano,  mas  perceber  a 
responsabilidade ética com relação ao outro.  
       Trata-se,  pois,  de  enxergar  de  outra  perspectiva  a  própria  diferença,  ela 
deixa de ser um “fardo” a ser “suportado”, para tornar-se um exercício dinâmico 
de  valorização  do  fato  do  outro  não  ser  idêntico   
ao  “eu”.  Trata-se,  pois,  de 


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enxergar  a  diferença  sob  outro  olhar,  um  olhar  de  amorosidade  e  abertura 
exotópica
21
,  de  percepção  da  alteridade  do  outro  como  possibilidade  de 
acabamento e completude de si mesmo. A ética da alteridade é uma perspectiva 
de convivência respeitosa entre seres humanos iguais em humanidade, porém 
diferentes  na  forma  como  vivem  e  interpretam  o  mundo.  É  um  exercício  de 
interação  e  troca,  sem,  contudo,  perder  seus  próprios  valores e  crenças,  nem 
abrir mão de sua identidade constitutiva. 
      Esta concepção considera as distinções entre tolerância como entendimento 
do  direito  à  liberdade  para  a  existência  das  diferenças  e  a  “ética  da 
responsabilidade

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 que busca valorizar a importância da solidariedade e justiça 
também  para  com  o  diferente.  A  ética  da  alteridade  é  uma  possibilidade  de 
pensar  outras  abordagens  para  a  superação  da  intolerância  via  empatia, 
afetividade,  abertura  exotópica  e  diálogo,  partindo  das  premissas  críticas  do 
multiculturalismo  interativo.  A  ética  da  alteridade  consiste  na  ampliação  do 
discurso  tolerante,  sua  proposta  convida  a  assumir  um  papel  ativo  no 
aprofundamento  do  consenso  no  dissenso,  no  sentido  do  reconhecimento  e 
valorização  da  diferença  como  característica  intrínseca  das  sociedades 
humanas e das subjetividades individuais. 
                                                           
21
 A abertura exotópica é um movimento reflexivo de interação entre os olhares e perspectivas 
de diferentes sujeitos que se completam, mas não se fundem de forma simétrica, pois existe uma 
tensão  neste  processo.  A  expressão  aqui  apresentada  deriva  da  apropriação  do  conceito  de 
exotopia, forjado pelo filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin (1919). Segundo Bakhtin, o conceito 
de exotopia envolve um caráter dialógico, um esforço de compreensão das diferenças culturais,  
entre os sujeitos observador e observado. (...)  No âmbito da cultura, a exotopia é o motor mais 
potente da compreensão. Uma cultura estrangeira não se revela em sua completude e em sua 
profundidade  que  através  do  olhar  de  uma  outra  cultura  e  ela  nunca  se  revela  em  toda  sua 
plenitude,  pois  outras  culturas  virão  e  poderão  ver  e  compreender  mais  ainda  (...).  BAKHTIN, 
Mikhail M. 
Les études litteraires aujourd’hui, em Esthétique de la Création Verbale, p:348 apud 
AMORIM, Marília. Cronotopo e Exotopia  in BRAIT, Beth (org.) Bakhtin: outros conceitos-chave. 
São  Paulo:  Contexto:2008,  p:100.  Quando  penso  na  ética  da  alteridade,  estou  mobilizando 
alguns conceitos do círculo de pensamento bakhtiniano, como o dialogismo e a exotopia, pois o 
que proponho não é a fusão entre os diferentes ou a absorção dos pontos de vista da cosmovisão 
afro-religiosa por parte do estudante/docente cristão. Pelo contrário, postulo a possibilidade de 
interação, de “leitura do outro” em sua alteridade/diversidade,  - que é um dado antropológico, 
ontológico  e  histórico  da  espécie  humana  -,  enfim,  proponho  a  necessidade  do  diálogo  entre 
culturas  e  modelos  epistemológicos  distintos,  mas  que  não  necessariamente  precisam  ser 
antagonizados  na  escola  e  na  sociedade.  Segundo  Marília  Amorim  (2008,  pág:102):  (...)  O 
conceito de exotopia designa uma relação de tensão entre pelo menos dois lugares: o do sujeito 
que vive e olha de onde vive, e daquele que, estando de fora da experiência do primeiro, tenta 
mostrar  o  que  vê  do  olhar  do  outro.  A  criação  estética  ou  de  pesquisa  implica  sempre  um 
movimento duplo; o de tentar enxergar com os olhos do outro e o de retornar à sua exterioridade 
para fazer intervir seu próprio olhar: sua posição singular e única num dado contexto e os valores 
que ali afirma(...). 
22
 GARCÍA-BARÓ (2004) e MIRÓ-QUESADA (2004) apud SOUZA, Marcelo. Op. Cit.; p: 145. 


57 
 
         A ideia de ética da alteridade baseia-se na articulação dialógica entre os 
conceitos de ética e alteridade. A categoria conceitual que orienta esta pesquisa 
traduz  a  concepção  de  ética  enquanto  filosofia  da  moral,  dimensão  definidora 
dos  valores  e  atitudes  que  sulizam  a  conduta  de  vida  individual  e  coletiva.  A 
palavra ética,  conforme empregada neste texto,  difere do conceito de moral, - 
conjunto de regras de conduta estabelecidas por determinado grupo social, em 
dado  tempo  e  lugar  -,  aqui  ela  se  refere  a  projeto  de  vida,  à  autorreflexão  e 
construção  consensual  de  valores  pelo  próprio  sujeito  que  envolvam  a 
superação 
de 
atitudes 

posturas 
intolerantes,  preconceituosas 

discriminatórias.  
         Formar um estudante dentro da ótica da ética da alteridade não consiste 
na  imposição  externa  de  regras  proibitivas,  do  estabelecimento  de  limites 
externos e alheios ao sujeito, para as ações consideradas erradas, o que seria 
uma educação moral. Na abordagem ética proposta neste trabalho, o desafio de 
educar para a diversidade é o de problematizar, despertar a consciência crítico-
reflexiva  do  estudante,  para  que  este  possa  construir  e  internalizar,  de  forma 
autônoma - através de autoanálise -, valores e atitudes pautadas no respeito à 
alteridade e no reconhecimento da pluralidade como um fator positivo.  
         O objetivo de trabalhar a ética da alteridade, em diálogo com as propostas 
do multiculturalismo interativo e da descolonização curricular, - cerne do Balaio 



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