Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história


      Multiculturalismo  interativo,  identidade  (s)  e  diferença  (s):  a



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1.2.      Multiculturalismo  interativo,  identidade  (s)  e  diferença  (s):  a 
contribuição dos estudos culturais 
 
O termo multiculturalismo, pelas suas ambiguidades, também precisa ser 
utilizado  com  cautela.  Por  um  lado,  representa  um  movimento  legítimo  de 
reivindicação  dos  grupos  culturais  subalternizados  no  interior  de  uma 
determinada sociedade,  a fim de pleitear o direito ao reconhecimento de suas 
formas culturais.  
Por  outro  lado,  este  conceito  pode  ser  interpretado  por  um  viés 
“assimilacionista” de cunho liberal universalizante que preconiza a incorporação 
das minorias étnicas e culturais à cultura hegemônica, ou por uma abordagem 
“diferencialista” monocultural/plural de tendência segregacionista.  
 Entendo a perspectiva interativa do multiculturalismo em educação como 
um  modelo  de  orientação  epistemológica  que  inclui,  valoriza  e  reconhece  a 
legitimidade das contribuições de múltiplas matrizes culturais na construção do 
currículo, sem hierarquizações, folclorismos ou essencializações.  
A abordagem multiculturalista interativa critica o racismo epistemológico, 
defendendo  a  pluralidade  de  saberes  oriundos  de  grupos  étnicos/sociais 
subalternizados  pelo  colonialismo  como  africanos,  indígenas,  camponeses, 
classes populares entre outros. Ela propõe a interação cultural e o entendimento 


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das  diferenças  coletivas  e  individuais  como  estratégias  antirracistas  e  de 
construção  de  uma  ética  da  alteridade/convivência  respeitosa  entre  diferentes 
etnias,  grupos  sociais  e  religiões  que  compõem  o  mosaico  da  diversidade 
brasileira.  
Em outros termos, o multiculturalismo interativo ou crítico reflete sobre a 
igualdade na heterogeneidade, que vai além da concessão de direitos básicos 
de  isonomia  civil  e  participação  política,  reivindicando  o  direito  de  ser,  viver  e 
expressar sua própria cultura sem discriminações (Walsh,2009). 
           A  abordagem  intercultural  do  multiculturalismo  interativo  apóia-se  na 
consideração  de  que  os  processos  de  hibridização  cultural  são  elementos 
fundamentais  nas  dinâmicas  dos  diferentes  grupos  sócio-culturais,  mobilizando 
identidades  abertas,  em  constante  construção.  Segundo  a  pesquisadora  em 
educação Cinthia Monteiro de Araújo (2013), a perspectiva intercultural consiste 
numa  possibilidade  de  desenvolver  uma  “outra  história”,  outro  olhar 
epistemológico para além do ponto de vista da razão metonímica ocidental. Para 
esta  autora,  a  instauração  de  diálogos  interculturais,  enquanto  práticas 
sócioeducativas  no  ensino  de  história,  promove  um  rompimento  radical  com  a 
concepção tradicional e monocultural de temporalidade e saberes, denominada 
de “colonialidade”. Como resume Catherine Walsh (2009, pág:158): 
   
“A  interculturalidade  crítica  se  preocupa  também  com  a 
exclusão,  negação  e  subordinação  ontológica  e  epistêmico-
cognitiva dos grupos e sujeitos racializados; com as práticas 
– 
de desumanização e de subordinação de conhecimentos 
– que 
privilegiam alguns sobre os outros, ‘naturalizando’ a diferença 
e ocultando as desigualdades que se estruturam e se mantêm 
em  seu  interior.  Mas,  e  adicionalmente,  se  preocupa  com  os 
seres de resistência, insurgência e oposição, os que persistem, 
apesar da desumanização e subordinação”.  
 
             Sobre  as  articulações  ente  diferença,  identidade  e  multiculturalidade,  
TomásTadeu da Silva (2009) destaca a expressiva notoriedade destes conceitos 
na atualidade, inclusive no âmbito das políticas públicas educacionais. Contudo, 
o pesquisador chama atenção para o fato de que essa discussão é feita de forma 
ingênua, sem o devido aprofundamento teórico-epistemológico. Muitas vezes, o 
multiculturalismo é empregado como um discurso inconsistente e benevolente 
de  apologia  à  “diversidade”  e  à  “diferença”,  limitando-se  a  explicitação  das 


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diferenças, sem realizar uma crítica política da identidade e da diferença (Silva, 
2009, pág: 93). 
               Silva  (2009)  enfatiza  o  caráter  de  interdependência  entre  as  duas 
variáveis  (identidade  e  diferença),  ambas  possuem  uma  característica 
constitutiva partilhada: são criações linguísticas, não são dados da natureza ou 
fatos  essenciais.  São  produto  de  intrincadas  relações  sociais  e  políticas 
assimétricas, não fatos “concretos” para serem respeitados, tolerados ou aceitos 
por si mesmos.  
               Sua  configuração/delimitação  é  objeto  de  disputa  entre  grupos 
distintamente situados na hierarquia social que visam assegurar seu status quo 
e a manutenção de bens e privilégios decorrentes dele. Em outras palavras, o 
processo de formação das identidades/diferenças oscila entre dois pólos, de um 
lado,  encontram-se  forças  que  tendem  a  fixar  e  estabilizar  a  identidade,  e  de 
outro, forças que tendem a desestabilizá-la (Bakke, 2011, pág: 19). 
               Nessa  disputa,  frequentemente,  as  representações  identitárias 
hegemônicas  se  colocam  na  posição  de  normatividade para a  conduta  social, 
provocando  ou  acentuando  uma  assimetria  entre  grupos  distintos.  Esta 
hierarquização  das  identidades  e  diferenças  legitima  estruturas  sociais 
desiguais,  perpetuando  a  relação  de  dominação/subordinação  exercida  pela 
“regra” sobre a “exceção”.  
              Selecionar  exclusivamente  um  sistema  discursivo  identitário  como 
“referencial  positivo”  significa  elegê-lo  como  parâmetro  normativo,  sob  o  qual 
todas  as  outras  modalidades  devem  submeter-se.  Seguindo  esta  lógica 
perversa,  diferença  torna-se  sinônimo  de  desigualdade  e,  simultaneamente,  o 
discurso identitário uma instância para sua legitimação. 
    O problema da abordagem multiculturalista a-crítica consiste justamente em 
não  distinguir  as  regras  deste 



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