Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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Oxalá e a criação do mundo
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      No início dos tempos, quando o mundo tal como o conhecemos, ainda não 
havia sido criado, existiam apenas o firmamento, onde vivia Olodumarê-Olorun 
e  a  imensidão  do  oceano,  em  cujas  profundezas  abissais  habitava  a  deusa-
serpente Olokum. Ambos tinham a mesma idade e compartilhavam os segredos 
do passado e do futuro.  
      Cada  qual  reinava  em  um  dos  elementos  primordiais:  éter  e água.  A  terra 
ainda não existia, era apenas um deserto escaldante, completamente desprovido 
de vida. Olorún, o senhor dos céus, e Olokum, rainha dos oceanos, tiveram dois 
filhos.  O  primeiro  chamava-se  Oxalá-Obatalá,  o  grande  orixá.  O  segundo, 
Odudua. 
      Olorum-Olodumarê  encarregou  seu  primogênito  da  criação  da  terra  e  de 
seus futuros habitantes, vegetais, animais e humanos, conforme imaginado pelo 
ser supremo, concedendo-lhe poderes para realizar tal empreitada. Para realizar 
o plano divino, Oxalá recebeu de seu pai um misterioso saco de couro marrom, 
com a boca amarrada, contendo dentro de si a própria criação.  
                                                           
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 Narrativa adaptada da obra de PRANDI, Reginaldo. Op. Cit.;p:502. 


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      Antes  de  iniciar  sua  jornada,  conforme  recomenda  a  tradição,  Oxalá  foi 
consultar o oráculo de Ifá. Orunmilá, deus-patrono do Ifá, recomendou que ele 
fizesse  uma  grande  oferenda.  Alertou,  ainda,  que  caso  desobedecesse  aos 
preceitos recomendados pelo oráculo, seu projeto fracassaria vergonhosamente. 
      Oxalá,  teimosamente,  recusou-se  a  efetuar  as  oferendas  prescritas  por 
Orunmilá. Acreditou que seus poderes bastavam, não necessitava de ajuda de 
mais ninguém. E assim procedeu, cego por sua arrogância. 
      No  dia  determinado  para  o  início  da  viagem  ao  aiyê,  Oxalá  organizou  os 
preparativos  da  sua  forma,  sem  o  planejamento  adequado,  não  ouvindo  a 
opinião de seus companheiros de jornada.  
     Caminhando  com  seu  grupo  até  as  fronteiras  do  além,  passou 
orgulhosamente pelo guardião do ayê, Exu, sem prestar qualquer homenagem 
ao  nobre  orixá  ou  oferecer  algum  presente,  conforme  prescrito  pelas  leis  de 
Olodumarê.  
      Sob um sol inclemente, pisando nas areias de um imenso deserto, - pois a 
terra ainda era estéril, - partiu a comitiva do senhor da veste branca. Com pouca 
água  e  provisões,  os  orixás,  liderados  por  Oxalá,  tendo  o  destemido  Ogum  à 
frente seguiram seu longo trajeto.  
      Aos  poucos,  os  deuses  foram  ficando  esgotados  e  exaustos.  Um  por  um, 
desistiram da empreitada, retornando ao órun. Oxalá ficou sozinho no deserto 
sem água ou alimentos, ardendo debaixo do sol causticante.  
      Exu,  magoado  com  a  insolência  do  grande  orixá,  seguiu  a  comitiva  em 
segredo, observando os insucessos da empreitada. Quando percebeu a situação 
vulnerável em que se encontrava Oxalá, arquitetou seu plano de vingança. Exu 
fez  surgir  um  pequeno  grupo  de  palmeiras  de  dendezeiro  no  meio  daquele 
cenário desolador. 
      Quando  Oxalá  viu  as  palmeiras  ficou  aliviado.  Com  seu  cajado,  bateu  no 
tronco  de  uma  das  árvores,  fazendo  jorrar  vinho  de  palma  em  abundância.  O 
senhor  do  pano  branco,  devido  às  privações  sofridas  em  sua  jornada,  bebeu 
além da conta, embriagando-se e adormecendo ao pé do dendezeiro. Temendo 
sua ira, ninguém ousou despertá-lo e ali ficou, em sono profundo por três dias. 
      Percebendo a oportunidade de completar sua desforra, Exu pegou o saco da 
criação  de  Oxalá,  enquanto  este  dormia,  levando-o  consigo.  Regressando  ao 


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orun, contou toda a saga do orixá orgulhoso para Olodumarê, entregando-lhe o 
saco da criação como prova de sua negligência. 
       Sabendo que seu filho mais velho desobedeceu suas regras ao não realizar 
as oferendas prescritas pelo oráculo de Ifá, o deus supremo convocou seu filho 
mais  novo,  -  aliado  de  Exu  neste  pequeno  complô  familiar  -,  Odudua  para 
completar a missão. 
      Feliz  da  vida,  o  caçula  de  Olodumarê  não  desperdiçou  sua  oportunidade. 
Consultou o oráculo de Ifá. Realizou corretamente as oferendas prescritas pelo 
adivinho Orunmilá: quatrocentas mil correntes de ouro, uma galinha com cinco 
dedos em cada pé, um pombo e um camaleão, além de quatrocentos mil búzios. 
Ele pagou a parte devida a Exu e tudo funcionou corretamente. 
      Auxiliado  por  Exu  e  orientado  por  Orunmilá,  Odudua  pegou  as  correntes 
todas e transformou-as em uma só. Desceu por essa corrente até a superfície 
de ocum, o mar. Sobre as águas, abriu o saco da criação e deixou cair a terra 
mágica contida nele.   
      Depois soltou a galinha de cinco dedos para que nela ciscasse à vontade, 
espalhando  a  água  pela  superfície  da  terra.  Também  soltou  o  pombo  e  o 
camaleão.  Esses  animais  deram  origem  aos  demais  de  suas  respectivas 
espécies. 
      Odudua,  exultante  pela  conclusão  de  sua  obra,  chamou  a  terra  recém-  
criada de: “Ilè nfé”, ou “a terra se expande”. Esta foi a primeira cidade a ser criada 
pelos deuses, por isso ela é a cidade mais sagrada para os povos iorubas. Ali é 
o umbigo do mundo. 
        Quando, ao cabo de três dias, Oxalá acordou de sua bebedeira, o mundo 
já havia sido criado por seu irmão mais novo. Ele ficou furioso e envergonhado 
consigo mesmo. 
        Todavia  Olodumarê  que  é  o  todo  benevolente  e  onisciente,  já  havia 
reservado outra missão para seu amado filho. Uma dádiva ainda mais árdua e 
complexa: a criação da humanidade. Seres tão próximos dos orixás que seriam 
seus filhos e filhas, sua encarnação no mundo material. 
      Dessa vez sem falhas, respeitando fielmente os preceitos de seu pai, Oxalá 
cumpriu sua divina missão de modelar os corpos dos seres humanos a partir do 
barro. Até os dias de hoje... 
 

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