Ministério da educaçÃo universidade federal rural do rio de janeiro dhri ichs mestrado profissional em ensino de história



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        Partindo deste objetivo, este trabalho propõe a abordagem das religiões de 
matriz  afro-brasileira  no  ensino  de  história  como  estratégia  propiciadora  do 
necessário  adensamento  das  reflexões  críticas  sobre  a  temática  das  relações 
étnico-raciais e inter-religiosas em ambiente escolar.   
        Assim,  a  presente  dissertação  tem  como  propósito  contribuir  para 
ampliação  deste  debate,  em  ambiente  escolar.  Ao  tecê-la  considerei  sua 
relevância para nossa sociedade, ainda marcada por um paradigma sociocultural 
eurocêntrico  hierarquizador  que  desvaloriza  as  contribuições  intelectuais, 
filosóficas,  epistemológicas,  históricas  e  culturais  das  minorias  políticas  e 
econômicas, secularmente relegadas ao 
“não-lugar” e ao silenciamento.   
        Participar  deste  debate  permite  o  aprofundamento  da  reflexão  sobre  as 
origens  e  desdobramentos  das  tensões  sociais  que  permeiam  a  questão, 
influenciando  inclusive  o  ambiente  escolar  e  comprometendo  as  efetivas 
possibilidades  de  aplicação  de  políticas  afirmativas  de  identidade  como  os 
dispositivos legais 10.639/03 e 11.645/08, inseridos na Lei de Diretrizes e Bases 
da Educação Nacional sancionada pelo governo federal em 1996.  
        Estes  dispositivos  legais  consolidam  uma  longa  trajetória  de  militância 
política  promovida  pelos  movimentos  sociais,  tanto  indígenas  como  de  afro-
brasileiros,  -  grupos  étnicos  subalternizados  socialmente  no  passado 
–  que 
finalmente passam a ser reconhecidos enquanto protagonistas de sua história, 
agora oficialmente transformada em objeto de ensino obrigatório nas instituições 
educacionais públicas e privadas de todo o país. 
         Na esteira do processo de legitimação destes componentes curriculares na 
formação  escolar  básica  como  política  pública,  conforme  estabelecido  pelas 
Diretrizes Curriculares Nacionais para as Relações Étnico-Raciais e para o Ensino 
de História e Cultura Africana e Afro Brasileira, considero que sua aplicação em 
sala de aula não deve excluir o debate crítico sobre pluralidade religiosa, sob o 


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viés da perspectiva do multiculturalismo interativo
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. Da mesma forma como são 
estudadas  as  religiões  abraâmicas  monoteístas  e  da  antiguidade  clássica,  as 
aulas  de  história  podem  englobar  formas  de  expressão  do  sagrado  ainda  não 
“canonizadas” pelos manuais didáticos.  
         Uma  educação  inclusiva,  voltada  para  as  relações  étnico-raciais,  precisa 
incluir  outras  construções  identitárias  que  englobem  modalidades  não-
hegemônicas  de  construção  do  ethos  civilizatório,  como  o  originário  da 
ancestralidade africana, recriada pelas comunidades de santo. Modos específicos 
de  “ser”,  “fazer”  e  “viver”,  valores  e  concepções  filosóficas  que  abrangem 
aspectos  como  a  sacralidade  da  natureza,  o  conceito  não  linear  de  tempo,  o 
comunitarismo,  a  ancestralidade,  a  valorização  das  pessoas  mais  idosas,  a 
corporalidade, a oralidade, a memória, entre outros repertórios culturais.  
        A  apropriação  desta  herança  diaspórica
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  para  além  de  uma  contribuição 
subalterna, - mão de obra compulsória para a implantação do sistema colonial -, 
através  do  reconhecimento  de  seus  valores  civilizatórios,  no  mesmo  plano  de 
igualdade do legado europeu, é uma ferramenta extremamente eficaz no resgate 
da  autoestima  dos  educandos  tanto  afro-brasileiros  como  de  outas  matrizes 
etnoculturais. 
       A valorização da etnicidade negra também é possível pelo ensino da história 
das  religiões  afro-brasileiras,  permitindo 
aos  alunos  “invisíveis”  que  se  sintam 
reconhecidos  e  representados  pela  e  na  escola.    Simultaneamente,  um 
tratamento  equânime,  por  parte  da  escola,  com  relação  às  diferentes  matrizes 
                                                           
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  Proposta  curricular  de  educação  com  perspectiva  intercultural  crítica  voltada  para  a 
descolonização  epistemológica  das  práticas  pedagógicas  latino-americanas  atuais,  nas  quais 
ainda predomina um paradigma cultural etnocêntrico e eurocêntrico herdado do passado colonial 
e  escravista,  ainda  não  superado  no  ambiente  escolar  dos  países  que  passaram  pela 
implantação do projeto civilizatório português e espanhol no continente americano.  
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  O  termo  herança  diaspórica  refere-se  ao  legado  civilizatório  herdado  do  processo  de 
colonização    europeia  do  continente  africano,  iniciado  no  século  XVI.  Diáspora  africana  é  um 
conceito  ligado  ao  processo  histórico  de  transferência  compulsória  de  grupos  étnicos  (num 
contingente  de  aproximadamente  dez  milhões  de  pessoas,  ao  longo  de  trezentos  anos  de 
escravidão)  deste  continente  em  direção  às  colônias  europeias  do  novo  mundo,  durante  a 
vigência do regime escravocrata.  Neste processo de dispersão, os  povos africanos trouxeram 
consigo suas culturas, crenças, religiosidades, artes, linguagens e saberes   para o continente 
americano que aqui foram ressignificados/recriados/reinventados por eles e seus descendentes, 
em  função  das  novas  condições  sociais,  econômicas  e  políticas  encontradas,  formando  uma 
nova  identidade  afro-diaspórica.  Este  legado  é  uma  das  três  matrizes  formadoras  da  cultura 
brasileira. Inicialmente, a expressão diáspora foi  utilizada pelo povo hebreu para denominar o 
processo de dispersão demográfica, - fazendo analogia com a metáfora de sementes espalhadas 
sobre  terras  distantes  que  ao  germinarem  apresentam  características  específicas  da  mesma 
espécie, -  deste grupo étnico na antiguidade, durante a dominação romana. 


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religiosas,  possibilita  a  desconstrução  de  visões  estigmatizadas  por  parte  da 
comunidade escolar como um todo, favorecendo a convivência respeitosa entre 
alunos cristãos e os “outros”. 
       Em contrapartida, o silenciamento em torno da religiosidade afro-brasileira 
nos currículos escolares corrobora a continuidade de uma concepção pautada 
no  senso  comum,  profundamente  equivocada  sobre  seus  princípios  éticos  e 
finalidades  de  busca  pela  unidade  com  o  divino,  comum  a  todas  as  religiões 
consideradas “do bem”.  
        Ao negar sua historicidade e sua dimensão sociocultural, - nos movimentos 
sociais  e  de  consciência  negra,  seus  ensinamentos  filosóficos,  sua  mitologia, 
manifestações  artísticas,  culinária,  música,  dança,  indumentárias,  estética, 
gestualidade, tradições comemorativas, sincretismos -, a escola contribui para a 
invisibilidade dos sujeitos históricos que as constituem/constituíram ao longo da 
história do Brasil, desde o passado escravocrata até os dias de hoje. 
         Visando facilitar a abordagem deste tema sensível e polêmico no ensino 
de história , busquei tecer uma estratégia de interferência pedagógica que venha 
a atender à demanda social diagnosticada ao longo de minha prática docente c 
no  segundo  segmento  do  ensino  fundamental  e  do  ensino  médio  da  rede 
estadual pública de ensino do Rio de Janeiro, no CIEP Brizolão Irmã do Céu
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localizado numa  comunidade rural do Município de Itaguaí, Baixada Fluminense 
do Estado do Rio de Janeiro. 
         O público-alvo das investigações consistiu em duas turmas com as quais 
atuei durante dois anos (2014/2015), em condição de regência unidocente, na 
modalidade de ensino supletivo denominada Programa Autonomia, destinado à 
aceleração  de  estudos  para  alunos  em  defasagem  idade-série.  O  referido 
programa é um sistema de correção de fluxo escolar implantado pela Secretaria 
Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, entre 2009 e 2015.   
       Tendo  em  vista  que  o  cerne  desta  pesquisa  acadêmica  consiste  na 
contribuição para a ampliação dos horizontes de criticidade na História ensinada
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5
  Como não foi possível obter autorização oficial da Rede Estadual de Educação do Estado do 
Rio  de  Janeiro  (SEEDUC),  optei  pelo  emprego de  um  nome  fictício  para  designar  a  unidade 
escolar onde a pesquisa foi desenvolvida.    
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  Conceito  empregado  por  MONTEIRO,  Ana  Maria  F.  C.  Ensino  de  História:  entre  saberes  e 
práticas. Tese de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC/ RJ, Rio de 
Janeiro, 2002. 


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em  ambiente  escolar,  por  meio  do  desenvolvimento  do  pensamento  histórico 
enquanto  ferramenta  para  a  orientação  temporal  dos  sujeitos  nos  desafios  da 
vida prática, - no caso desta pesquisa, em particular, o desafio é a superação do 
preconceito afro-religioso - foi criado o dispositivo de ensino: 



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