Ministra da cultura


Antes de ser mulher, é inteira poeta



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Antes de ser mulher, é inteira poeta: 
Carolina e o cânone literário
Estamos vivendo um momento único em nossa história literária, 
momento em que grupos até então excluídos do contato com a literatura, da 
leitura e, principalmente, da produção literária, estão se apropriando desse espaço 
majoritariamente branco e altamente elitizado. Podemos dizer que esse processo 
tem um marco fundador, um momento altamente simbólico em que vemos 
a literatura negra sendo forjada no fogo e nos moldes da pobreza e abandono. 
Longe da academia e do cânone, é no lamaçal da favela, em um barraco de tábuas, 
cercada pela fome, que vemos surgir o primeiro grande sucesso dessa literatura.
Carolina Maria de Jesus nunca quis ser uma liderança política ou ativista 
negra, era apenas poetisa e usava a escrita para escapar de sua dura realidade, 
mas acabou se tornando um símbolo da luta das mulheres negras e pobres por 
sobrevivência, respeito e humanidade. Além disso, sua obra pode ser vista hoje 
como um ponto de encontro entre a literatura negra – já bastante rica nos anos 
60 – e a literatura marginal/periférica que viria a surgir no final dos anos 90. Ela 
traduziu o debate racial que vinha sendo desenvolvido entre intelectuais, artistas 
e ativistas negros em todo o país para a linguagem dura de quem vive a realidade 
que aqueles grupos tentavam mudar.
Porém, o que pretendo discutir aqui é a Carolina poetisa, prosadora, 
compositora, é a dificuldade de reconhecermos os aspectos e contribuições desses 
artistas para a literatura nacional e não apenas para as lutas sociais dos grupos 
em que estão inseridos. Para tanto, entendo que a valorização desses poetas e a 
constatação da qualidade literária de seus textos dependem do questionamento 
dos interesses e valores da crítica literária para definir o cânone e aceitar ou excluir 
o novo.
Diante disso, nos deparamos com algumas questões fundamentais: Afinal, 
o que é literatura? O que aconteceria se, ao invés de perguntarmos se um poema 
tem valor, perguntássemos o que queremos dizer ao chamarmos um poema bom 
ou mal?
1
 Responder a tais questões tem sido um grande desafio para a crítica 
literária e é a impossibilidade de oferecer uma resposta unívoca à primeira que 
nos obriga a refletir sobre a segunda. Nos faz pensar a literatura como o fenômeno 
cultural e histórico que ela é e, portanto, passível de receber diferentes definições 
em diferentes épocas e por diferentes grupos sociais
2
. Portanto, não podemos 
1 Ver mais em EAGLETON, Terry. Depois da teoria: Um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Rio 
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
2 Ver mais em ABREU, Márcia. Cultura letrada: literatura e leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
Mariana Santos de Assis


desconsiderar as relações de poder envolvidas nas suas definições, uma vez que 
o poder é exercido por diferentes grupos ao longo da história, com diferentes 
formações e interesses estético-políticos. O que nos leva a questionar também 
como avaliamos o valor literário de um texto, sua literariedade e mesmo os 
critérios para a definição do cânone literário.
Podemos dizer que os limites para definir o que entra no seleto grupo 
dos textos literários e o que vai para a vala dos comuns da escrita considerada 
medíocre, dos best-sellers e daqueles do gosto popular são estabelecidos, antes, por 
interesses ideológicos, políticos e econômicos do que pela literariedade imanente 
aos textos, pois esta também está submetida a outros elementos como o nome do 
autor, grupo social de que faz parte, interesses mercadológicos etc
3
.
Diante disso, o crescimento da produção literária nas periferias das 
cidades brasileiras, bem como o interesse de pesquisadores de diversas áreas 
por esses novos poetas e prosadores negros e pobres torna ainda mais complexo 
esse debate. Porém, a força de nossa tradição literária preconceituosa e avessa 
às novas produções e, sobretudo, de grupos não hegemônicos ainda limita os 
estudos e os lugares destinados à produção cultural desses grupos. Prova disso é 
a predominância de pesquisas e projetos voltados à literatura da periferia na área 
das ciências sociais e não na teoria literária, como seria de se esperar.
Se entendemos que os elementos que fazem de um texto qualquer uma obra 
literária são internos e inseparáveis dele, por que então a crítica literária não está 
se debruçando sobre as obras produzidas nas periferias? Por que os pesquisadores 
da Teoria Literária ainda se mantêm distantes dos poemas, contos e romances 
escritos pelos marginalizados do Brasil e voltam-se apenas para a linguagem 
peculiar, o posicionamento político, a origem humilde ou marginalizada do autor 
etc? 
As respostas a essas perguntas são tão delicadas e complexas quanto a 
definição de literatura, valor literário e literariedade, pois esbarram em preconceitos 
que tentamos mascarar com o argumento de que as oportunidades existem para 
todos que sabem aproveitar e que a seleção do que é bom ou ruim tem a ver 
apenas com a qualidade do que está sendo produzido. Tais argumentos tentam 
inferiorizar as culturas não hegemônicas, ao mesmo tempo em que o mercado se 
apropria da riqueza cultural das periferias marginalizadas.
Historicamente as classes dominantes têm grande interesse pela produção 
cultural da classe trabalhadora. Ao longo do processo de desenvolvimento do 
capitalismo, conhecer e subjugar a cultura popular serviu para “reeducar” o povo, 
por meio da formação de uma nova recreação, dança e música, voltadas para 
fortalecer a alienação do trabalho
4

3 Idem.
4 Ver mais em HALL, Stuart. Da diáspora: Identidade e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.


Esse primeiro ataque à cultura popular denuncia o receio das classes 
dominantes de que essas produções ou a independência cultural da classe 
trabalhadora pudessem atrapalhar a construção das relações entre trabalhadores 
e patrões que, numa sociedade capitalista, é pautada pela superioridade política, 
econômica, social e cultural do patrão e a inferioridade ou quase incapacidade por 


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