Ministra da cultura



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SETE ENSAIOS SOBRE
CAROLINA
Geny Guimarães 
Mariana Santos de Assis 
Flavia Rios
Sergio da Silva Barcellos 
Fernanda Matos 
Miriam Alves
Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro


Até onde Carolina nos leva com seu 
pensamento? Ao poder.
“[...] Os políticos sabem que eu sou poetisa.
E que o poeta enfrenta a morte 
quando vê o seu povo oprimido.” 
20 de maio de 1958
Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, interior de Minas Gerais, 
em meados da segunda década do século XX. Ao menos é o que se possui de 
notícia, pois a data precisa não é confirmada, fato que consideramos comum 
entre famílias negras daquela época devido à demora em registrarem seus filhos e 
filhas, por questões financeiras. Contudo, a data conhecida é esta, 14 de março de 
1914, assim relembrada neste ano de 2014 pelo seu centenário. 
Podemos dizer que o mais significativo para, principalmente, nós, 
mulheres negras, é  “o quê” Carolina Maria de Jesus produziu mais do que “o 
quanto”. A quantidade de escritos com os seus diversos desejos (editorial/livro, 
teatro, música etc.) é vasta, mas o que importa mesmo é o fato de a produção 
literária (poética, contos e romances) desta mineira nos causar tantos impactos 
devido ao seu impressionante conteúdo, pois a força e lucidez emitida por meio 
de suas palavras escritas representam espelhos refletindo cada uma de nós. 
Por isso, somos Carolinas!
A Literatura Canônica Brasileira − aqui tratada historicamente como uma 
instituição formada por pessoas que a dirigem, administram, portanto, tomam 
decisões, fazem escolhas, angariam os lucros e projeções, ou seja, um grupo social 
específico e com características próprias que tenta protagonizar todo o legado 
patrimonial gerado no processo histórico de construção de uma identidade 
nacional. Processo de imposição deste mesmo grupo que não deu conta da 
grandiosidade desta escritora. Assim, no lugar de assumir uma impossibilidade da 
Literatura em recebê-la, diante de sua estrondosa e ilimitada genialidade, Carolina 
Geny Ferreira Guimarães


foi preterida e, portanto, desenvolvida uma tentativa de anulação de sua escrita. 
Apenas tentativa, porque tal feito não foi bem-sucedido. Por isso é possível afirmar 
que a Literatura Brasileira nunca mais foi a mesma diante do equívoco em deixar 
de fora a escritora que teve, nas vendas de um único livro, mais de um milhão de 
cópias vendidas, traduzido para 13 idiomas e distribuído em cerca de quarenta 
países (IPHAN, s.d.), que ainda possui em seu acervo manuscritos desconhecidos 
pelo grande público, constando contos, poemas, provérbios, romances e textos 
teatrais. 
Como escritora, fato concreto e inquestionável, Carolina superou em 
muito o dito canônico que não a reconheceu como tal e ainda hoje reluta em fazê-
lo. Ao estrear publicamente com o livro Quarto de Despejo, em 1960, resultado 
de seu diário manuscrito (temido por sua vizinhança) mexeu com as bases da 
construção da Literatura nacional, por isso sua obra foi um sucesso, mas não foi 
absorvida, talvez a palavra que se encaixe melhor seja digerida. 
Ocorreu um processo de tentativa de silenciamento de Carolina e sua 
obra, a princípio pelo não reconhecimento do seu diário como literatura, fato que 
se estendeu ao longo dos anos dentre vários críticos literários e pesquisadores. 
Posteriormente, por impedimentos ainda não profundamente conhecidos em sua 
totalidade ou rompimentos na continuidade de suas publicações. Talvez as críticas 
desfavoráveis tecidas na época possam ser compreendidas como tentativas de 
apagamento de sua escrita, memória, identidade, competência e brilho próprio 
por meio dos estereótipos negativos que foram criados. 
Por fim, subjugaram sua escrita e a consideraram menor.
Voltamos a dizer que a Literatura Canônica brasileira, realmente, nunca 
mais foi a mesma, porque no consciente e subconsciente de quem sabia e conhecia 
a sua existência Carolina nunca desapareceu, algo impossível de acontecer. Mesmo 
com o soterramento literário que sua obra sofreu, esta mulher negra se manteve 
forte, inteira, viva, e nos dias de hoje se reapresenta à sociedade brasileira e, mais 
uma vez, do seu próprio jeito. 
Carolina rompeu com o lugar imposto à mulher negra pela sociedade, mas 
também não precisou estar no lugar de mulher branca, ou melhor, embranquecida, 
constituído por uma parcela da elite hegemônica do nosso país. Isso não quer dizer 
que tanto a escritora quanto a sua obra estejam em um não lugar. Isso anularia a sua 
existência e toda a sua produção, algo incabível de se pensar. Talvez um caminho, 
dentre tantos existentes, para pensar Carolina possa ser feito comparando-a com 
o que Dionne Brand construiu literariamente de si mesma e sobre sua escrita 
negra feminina. Na análise da obra de Dionne Brand (1997), a geógrafa Katherine 
McKittric (2006) menciona que esta autora desenvolve textos literários nos quais 
a sua escrita desenha mapas que ultrapassam as normas, regras, fronteiras e 
linhas cartográficas para formar diferentes geografias expressas por cada parte 


do seu corpo negro feminino. Ainda, acrescenta sua opção por um caminho 
destituído de uma busca por uma nacionalidade ou de um país como território 
de identidade. O corpo é seu ponto de partida, sendo assim o seu lugar, ou seja, o 
corpo negro feminino como um lugar.  Comparando com Carolina pode ser dito 
que ela também escreve a partir de seu corpo negro feminino, numa escrita de 
si sobre suas angústias, medos, pensamentos, maternidade e lugar que ocupa na 
sociedade. É a mulher negra submersa em diversas opressões escrevendo sobre 
sua essência e existência. 
Ao ler e refletir sobre a obra de Carolina, percebemos que este corpo 
negro feminino está presente. Talvez ela não tenha pensado em se desligar de 
sua nacionalidade, pelo contrário; suas indagações políticas expressavam o seu 
desejo de inserção na sociedade, algo que lhe arrancado com tamanha violência, 
uma vida inteira, que nas palavras da própria Carolina são apresentados em sua 
poética, mas de uma dureza que certamente a feria e ainda nos fere:
[...] Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconçêito
Se eu extinguir quero renascêr 
Num país que predomina o preto.
(JESUS, 1996, p. 33)
O que Carolina não imaginava é que ela já estava em um país com a 
segunda maior população negra no mundo fora do continente africano, estando  
a Nigéria em primeiro lugar. Resultado da falácia que vigorou no Brasil, dentre 
tantas, durante anos, de considerar essa população uma minoria, o que jamais 
fomos. Contudo, a inserção social desejada por Carolina não é no mundo dos 
brancos, nem mesmo uma destituição de sua negritude, ou incorporação ao meio 
embranquecido da sociedade. Ela não se imagina não negra, nem na própria vida 
dura que leva na favela e nem, caso existam reencarnações, em outras vidas e 
em outros lugares, tanto que escreve no seu diário, em 16 de junho de 1958, o 
seguinte: “[...] eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. [...] Se é que 
existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.” (JESUS, 1960, p. 40).
Carolina estava imersa numa sociedade opressora e seu pensamento 
expressava resultados de violências. Violências que ao serem pensadas e focalizadas 
no corpo feminino de Carolina remetem-nos ao que bell hooks (1990) menciona 
sobre racismo e sexismo serem opressões que condicionam a existência de uma 
desvalorização do ser feminino na mulher negra, reduzindo-a apenas à cor da sua 
pele. Como não mencionar o que Lélia Gonzalez (1981, p. 2) escreve na primeira 
edição do Jornal Mulherio sobre a reflexão de que, na história brasileira, a mulher 
negra pode ser considerada como vítima de uma “tríplice discriminação”: social, 
racial e sexual. Somado a isso, a violência relacionada à destituição de uma 


cidadania nos lembra as palavras de Langston Hughes (1990, p. 137), pois este se 
afirma como negro e como cidadão americano em seu poema I, too (Eu também), 
ao longo de todo o seu texto, contudo mais fortemente na frase final: I, too, am 
American (ou seja, Eu também sou americano). Parece-nos que Carolina gritava 
com as palavras escritas questionando as imposições sociais e exigindo respeito 
quanto à sua cidadania, que não era necessariamente uma nacionalidade, mas que 
pode ser entendido como tal, pois se era brasileira a cidadania que reivindicava 
era esta e nenhuma outra. 
Apesar da existência de resquícios de uma não aceitação da escritora, o 
que faz com que adjetivos pejorativos apareçam na fala e escrita de alguns poucos 
intelectuais, pesquisadores e críticos que insistem em partir de estereótipos como 
“vira-lata”, “improvável”, “exótica”, “infeliz”, “arrogante”, entre outros, em lugar de 
mergulharem em sua obra literária, Carolina se tornou, por meios próprios, uma 
escritora cuja produção está escrita e inscrita na eternidade, sem ter precisado 
submeter-se ao canônico. Diante disso: 
− “Muito bem, Carolina!”
E este “Muito bem, Carolina”, frase repetidas vezes dita por ela, e que em 
forma de eco chega até os nossos ouvidos nos dias de hoje, pode ser traduzido por 
um: 
− “Muito obrigada, Carolina!”
Agradecimento por termos acesso às suas “escrevivências”, termo criado 
por Conceição Evaristo e que pode aqui definir as vivências, experiências, 
pensamentos, medos, dores, dúvidas, belezas, contradições, apreensões do mundo 
político, econômico e social de Carolina em uma escrita de si e a partir de, mas 
que por outro lado emite tantas outras vozes que foram caladas pelas opressões de 
uma sociedade que se ergue e se mantém imbuída por doenças sociais (racismo, 
misoginia, sexismo, machismo, dentre tantos ismos).
É esta mulher negra, mãe, cidadã, escritora que inspirou o Projeto Carolinas 
ao Vento, Centenária e Atemporal desenvolvido pelo Coletivo Carolinas de 
Mulheres Negras, na cidade de Salvador, Bahia. 
Este projeto surge da vontade política de um grupo de mulheres negras 
das mais diferentes áreas de atuação que dividem uma permanente militância, 
e que em uma mesma direção se juntaram para a comemoração do centenário 
da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, desenvolvendo várias atividades 
Brasil afora. O Coletivo é formado por nove mulheres de diferentes partes do país, 
diferentes sotaques, ideias, construções sociais, culturas, gostos, cheiros, desejos 
etc., mas que mantêm uma unidade, um conjunto de mentes e corpos negros 
femininos objetivando que o legado escrito de Carolina esteja acessível a outras 


mulheres negras. Por meio das várias atividades que desenvolve no intuito de 
retirar esse poder-escrita de Carolina Maria de Jesus dos escombros e incentivar 
a formação de novos grupos de leitoras, e por acreditar na força da escrita de 
Carolina Maria de Jesus como um instrumento de transformação sociorracial e 
na qualidade literária de seus escritos. 
Ainda, a força que emana de suas palavras é convertida em poder e como 
muitos sabem este elemento é algo muito disputado nas sociedades em geral. 
Na sociedade brasileira o grupo hegemônico não abre mão de dominar todos os 
poderes, mas, talvez, este seja um que mesmo que este grupo tente se apoderar, 
não lhes pertence. 
Sendo assim, o objetivo do Coletivo de Mulheres Negras se converge em 
uma luta pelo nosso direito coletivo à memória. E reposicionar Carolina Maria 
de Jesus e sua obra, por nós mulheres negras na sociedade brasileira, é parte 
desta tarefa histórica, pois há uma simbiose entre ela e nós. Entre o que somos do 
ponto de vista da representação e tudo que este país, 50 anos atrás, rejeitou desta 
escritora. 
A agenda política proposta pelo Coletivo Carolinas de Mulheres Negras no 
centenário do seu nascimento evidencia o poder de Carolina Maria de Jesus e o 
quanto ela se faz presente para além de uma lembrança, mas também por um eixo 
estruturante de representação da linhagem de negros e negras, que no contexto 
Brasileiro cavam o direito de dizer quem são e a que vieram, sem mandar recado, 
sem deixarem-se tutelar por chancelas, assumindo o poder pela palavra de suas 
próprias letras. 



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