Ministra da cultura


Carta para Carolina Maria de Jesus



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Carta para Carolina Maria de Jesus 
Salvador, 14 de março de 2014.
Venerada Carolina Maria de Jesus,
Bom dia, amada senhora! Escrevo-lhe esta carta neste dia tão importante, 
para parabenizá-la pelo seu centenário e retribuir um pouco do muito oferecido 
por você. Ficou um tanto longa, eu sei, mas faça a leitura da mesma quando 
puder, sem pressa para finalizar. Realize a seu tempo e da forma mais confortável 
e tranquila possível. 
Como tem passado, amiga tão querida? Sei que, apesar do lugar muito 
aprazível onde está (pelo menos são as poucas informações que chegam até aqui 
sobre o mesmo), você, permita-me tratá-la assim, não anda satisfeita com o que 
pode ter conhecimento nesse outro plano. Sou portadora, nesta comunicação, de 
boas e más notícias. Quais as que prefere receber primeiro? Não que eu guarde 
esperanças de que você não saiba o que passo a relatar a partir de então.
Passado um século do seu nascimento, não creio que descanse em paz, 
infelizmente. Não sei notícias sobre seu filho José Carlos. João José, seu mais 
velho, sei que faleceu. Vera Eunice é lembrada por alguns (uns, sérios, outros, 
nem tanto). Não encontro notícias sobre seus netos: Ricardo, Luciana, Marisa, 
Paulo César, Adriana, Lilian, Eliane, Elisa, Ana, Jackson e Rafael. Fiquei sabendo 
a respeito deles na dedicatória existente no seu livro mais conhecido, Quarto 
de Despejo: diário de uma favelada. Por aqui pelo nordeste, notícias suas não 
costumam chegar, mesmo em tempos que se dizem e se desejam globais. Quase 
nada se fala por aqui sobre você, querida, infelizmente. Até mesmo as suas obras 
são muito difíceis de achar ainda hoje. Mas, em compensação, há muito, não ouvia 
falar tanto de você como neste ano, em que completaria 100 anos (não vou dizer 
se viva estivesse, uma vez que creio na continuação da sua energia, amiga tão 
Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro


querida). Envio essas mal traçadas linhas, constituídas de indignadas indagações 
sobre sua trajetória, suas andanças, produções e legados deixados à sua família e 
que, novamente, as “aves de rapina”, como você mesma nominava todos aqueles 
oportunistas, não deixam chegar a quem, por direito, deveria.
Carolina desejaria muito partilhar com você somente as boas notícias, 
compartilhar o quanto tem sido grande a procura das suas obras pelas gerações 
mais novas, com um genuíno interesse de aprender, com as suas negras escritas, 
sobre as artes de vencer mesmo em contextos mais do que adversos. É meu desejo, 
também, falar sobre os desdobramentos da sua escrita, mesmo sabendo que você 
os acompanha atentamente os desdobramentos e alcances do legado deixado por 
você, pois creio que a vida não acaba aqui e que vive em suas obras e para além 
delas. 
Diria mais, penso que você traga a condição de Ìyetùndè, que é aquela 
que retorna. Espero e anseio por isso. No entanto, gostaria de lhe dizer, mesmo 
ciente que você observa a caminhada de muitas das nossas irmãs e se regozija 
com as nossas vitórias, que muitas são as mulheres negras que seguem as estradas 
desenhadas inicialmente por você, querida amiga. Muitas têm escrito com 
dignidade, (re) significando para dignificar a nossa existência aqui no àiyé, no 
plano material. A lista é enorme, graças a Olórun. Dentre elas, podemos citar: 
Conceição Evaristo, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão, Lia Vieira, 
Geni Guimarães, Cristiane sobral, Cidinha da Silva, Nilma Lino Gomes, Mel 
Adún, Lívia Natália, Rita Santana, Urânia Muzanzu, Edileuza Penha, Florentina 
Souza, Ana Rita Santiago e Cristian Sales, dentre outras tantas. Todas continuam o 
trabalho arduamente iniciado por você, venerável ancestral. Até mesmo eu, muito 
recentemente, iniciei o caminho por essa seara difícil, que é o de ouvir, arquivar e 
propagar nossas negras memórias, para que gritemos ao mundo sobre os nossos 
negros mundos, tão cheios de sabedoria e de ensinamentos, no mais das vezes, de 
ordem ancestral.
Narrar. Eis o duro e árduo ofício que escolhemos (será mesmo que 
escolhemos?), iniciado por você e perpetuado por essa forte e determinada 
rede formada por mulheres negras. Seria uma continuação da reunião ocorrida 
em solo africano, quando as ìyagba, nossas mães ancestrais, decidiram se unir, 
para acumular força e energia contra o poder falocêntrico, já tão impregnado 
naquelas épocas imemoriais? Seria uma (re) atualização do que, outrora, em 
terras nigerianas, se denominou de Gèlèdè, que tinha como patronas as Ìyaa Mi, 
as Senhoras Donas do Pássaro? Penso que muitos dos nossos traços de garra, 


teimosia, perseverança (sobretudo ira, por que não?) sejam advindos destas, e 
como elas nos proporcionam poderes imensuráveis e nos fazem acreditar que 
podemos sempre ir mais além e seguir adiante, rumo à emancipação individual, 
levando-nos, também (e inevitavelmente), à emancipação coletiva.
Narrar: esta foi a sua missão, cumprida com toda a dignidade e teimosia 
que lhe eram tão peculiares. Obrigada, irmã, pelo espelho que se tornou para 
todas nós, que procuramos seguir pela mata apontada por você, precursora em 
tais caminhos. Narrar para: (sobre) viver; para que os dias passem; para procurar 
entender; para se (re) fazer; para aceitar – como se possível fosse; para se fortalecer 
e tentar seguir adiante. Esperando o fim? Não. Construindo um futuro.
Escrever era tudo que lhe restara Carolina, para que não lhe arrancassem 
de vez a dignidade duramente assegurada. Entre uma dor e outra, você corria 
para o papel para eternizar a sua história, mas que era de tantas outras das nossas 
também. Uma contadora de histórias reais, vividas e experienciadas diariamente, 
na linda e sofrida pele preta. Na pauta dos dias e no conteúdo dessas pretas letras, 
sob folhas em branco, registrava ressentimentos os mais diversos, traumas, dores, 
amores não correspondidos, a dureza dos dias, demandas de todas as ordens, a 
falta de dinheiro para impor respeito, a sua condição de humana mulher negra, 
consegue recordar amiga? Narrava a agonia de não poder oferecer condições 
mínimas à sua prole. Projetava um futuro diferente, desenhando-o no papel, para 
que ele ganhasse força e se tornasse real. Você nunca desistiu. Sempre acreditou 
na sina de ser uma escritora. Sentenciava sobre isso em muitos dos seus textos. 
Sabia-se e concebia-se escritora.
Posso ouvir os ecos dos seus escritos no primeiro diário publicado. Penso 
que seja importante reproduzir alguns trechos aqui, minha mais velha, nessa 
nossa comunicação de ordem tão íntima, visto que se trata de uma carta, mas 
que não há garantia de onde ela vá parar amanhã, não é mesmo? Quanto mais 
nos tempos atuais, nos quais o privado e o público são separados por linhas tão 
tênues, tão frágeis e tão próximas... Acredito que seja interessante registrar trechos 
da sua primeira e mais conhecida obra, sobretudo, para que as novas gerações, 
tão interessadas nas suas escritas, possam conhecer um pouco mais do seu rico
diversificado e complexo acervo, amiga. Prometo que os reproduzirei aqui, 
conforme constam nos originais, pelo menos daqueles a que tivemos condições de 
realizar a leitura, para que futuros leitores sintam-se incitados a realizar a leitura 
da sua linda e necessária obra. Permite que assim seja?


Espero que você e todas (os) as (os) que, depois, vierem a ter acesso leiam 
tais trechos, como quem ouve assobios lançados ao vento, de forma leve, suave, 
ainda que, muitas vezes, muito mais pareça com o ruído de uma trovoada, por que 
não? O vento parece traduzir perfeitamente a sua energia, ora brisa, ora furacão, 
mas sempre vento.
Permita-me, amiga, alinhavar a nossa comunicação com a explicitação de 
algumas das suas falas magistrais, até mesmo para que eu possa provar ao nosso 
leitor virtual e real que, ainda que a admire infinitamente, o que torno público aqui 
ultrapassa, e muito, a admiração pela escritora. Ainda que seja um texto com um 
forte, inevitável e desejoso tom emocional, com as passagens selecionadas, espero 
explicitar características suas que gostaria de ter lido em muitos das escritas sobre 
a sua pessoa, aos quais tenho acesso ao longo desses anos de estudo sobre a sua 
escrita e sobre você.
Sobre a sua escrita, venho relembrar os seguintes trechos: o primeiro a ser 
relatado aqui nessa carta, escrito em 22 de maio de 1958, “Duro é o pão que nós 
comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado”; o segundo, 
em 29 de maio de 1958, “Há de existir alguem que lendo o que eu escrevo dirá... 
isto é mentira! Mas, as miserias são reais”; o terceiro, em 1 de junho de 1958, “Não 
tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas 
são incicatrisaveis”.
Você resistiu. Escreveu. Eternizou-se no papel e em nossas memórias. 
Mostrou-nos caminhos, saídas, nunca atalhos – uma vez que esses não costumam 
funcionar para nós, mulheres negras desfavorecidas economicamente, quer 
tenhamos estudo ou não. Obrigada pela teimosia, pela persistência, pela 
representação tão digna da nossa condição de humanas mulheres negras.
Hoje, mais especificamente no ano em que se “comemora” o seu centenário, 
você volta a ser, tal qual outrora, objeto de estudo para tantos não negros. Você 
continua sendo pensada por eles, bem como a sua vasta obra, sempre a partir 
da ênfase ao depreciativo. Adjetivos como “escritora da miséria”, “memorialista 
do lixo”, “voz enunciativa favelada”, dentre tantas outras, são atualizadas, mas a 


intenção permanece a mesma, a de confiná-la na favela da qual, mesmo tendo 
se mudado, permaneceu engessada no imaginário daqueles que não conseguem 
nem desejam concebê-la como aquela que conseguiu driblar todas as inúmeras 
adversidades e produziu um acervo que, mesmo hoje, com toda a facilidade 
advinda das altas tecnologias, não permite que um escritor tenha fôlego e vontade 
para produzir tanto quanto você o fez.
O seu ato de escrever era diário e compulsivo.Você contava o mundo tal 
qual o via, despedaçando-se, sobretudo o seu e dos seus iguais. Tantos dos seus, 
que são nossos, vivendo em condições desumanas! Era preciso narrar. Narrar 
para sobreviver, para testemunhar, para publicizar continuadas atrocidades 
perpetradas contra o nosso povo de pele preta e negra alma. Sim, temos alma 
sim, Igreja católica. Não somos e nunca fomos peça, mercadoria, coisa. Foram os 
coloniza-DORES que, assim, impuseram a nossa existência ao mundo. Mas, você, 
mais do que ninguém, sabe que nunca nos submetemos ao jugo, à subordinação, 
não é, Carolina?
Escrever para (re) construir-se dia após dia: “Todos os dias escrevo”. Era a 
sentença proferida por você, nobre guerreira, talvez, na tentativa de que a sentença 
ecoasse e para que você não fraquejasse e não desistisse. Tinha, ainda, muito e 
tanto a nos dizer. Eternizar as nossas histórias e memórias no papel para que elas 
ganhassem o mundo e tornasse pública a miséria, o sobejo, os restos e sobras 
destinados ao nosso povo negro, mas a nossa capacidade, também, de superar os 
inúmeros e diversificados obstáculos.
O que não pode deixar de ser contado hoje e precisa ser feito por nós, 
que viemos a partir da porta arrombada por você, Carolina Maria de Jesus, são 
seus feitos e não os seus possíveis defeitos, visto que você era humana. Torna-
se imprescindível, também, procurar, problematizar e publicizar adjetivos que 
revelam o menosprezo à sua pessoa e à sua rica obra, ininterruptamente, jogados 
ao vento. Estes voltam, são devolvidos por esse mesmo vento que os leva, junto 
com as suas negras escritas, para terras distantes e, por lá, são tão bem acolhidos, 
recebidos e lidos, a exemplo da recepção de suas obras em outros países.
Aqui, registro também o seu domínio sobre o que se passava no Brasil e 
no mundo, sobretudo no plano político: em 15 de maio de 1958, escreveu “Eu 
classifico São Paulo assim: O Palácio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de 


jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos”; em 19 de 
maio de 1958, bradou em letras pretas “O que o senhor Juscelino tem de aprovável 
é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está 
residindo na gaiola de ouro que é o Catête. Cuidado sabiá, para não perder esta 
gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E 
os favelados são os gatos. Tem fome”; “Quando estou na cidade tenho a impressão 
que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, 
almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um 
objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”; “E assim no dia 13 de 
maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”.
Mesmo tendo somente a antiga segunda série, dona uma caligrafia 
caprichada, e uma sagacidade e ironia a toda prova, seguia você, desbravando, 
com toda a valentia que lhe era peculiar, os dias que passavam corridos e cheios 
de adversidades. Momentos de sossego e de merecido descanso eram irreais para 
você a nossa heroína e, ainda assim, nunca deixou de acreditar que chegaria a 
concretizar o destino que desenhou para si e para os seus.
Dividia os afazeres domésticos e de garantia da sobrevivência com a leitura 
e a escrita. Conhecia os grandes das letras de sua época e de outros tempos que a 
antecediam. Como? De que maneira se dava o acesso a tais autores e obras? Que 
momento do dia você tinha para lê-los e guardá-los em sua privilegiada mente, 
conhecer e propagar ideias deles e de os seus pensamentos, a ponto de reproduzi-
los até mesmo no formato poético, dentre outros tantos produzidos por você?
Uma veia para comentários que beiravam o domínio do marxismo, tamanha 
a lucidez de leitura do contexto sócio-histórico desfavorecido que vivenciava, 
mas que avançavam para muito além do que um economista de origem europeia 
poderia prever. Uma consciência e lucidez do quanto era explorada. Uma mãe 
teimosa que não abria mão de dar aos filhos o que estivesse ao seu alcance. Mesmo 
que o único presente possível para a filha caçula fosse encontrado no lixo, um par 
de sapatos para Vera Eunice, esse era devidamente limpo e engraxado antes de ser 
entregue.
Bela, vaidosa, cheia de si, sempre cuidadosa com a aparência, as poucas 
imagens fotográficas que chegam até nós, hoje, revelam tais cuidados, você não se 
deixava levar por nenhum “perna de calça”, como nomeiam as nossas mensageiras, 


que encontrasse pelo caminho. Orgulho poderia ser o seu sobrenome. Não se 
rendia à força e à presença masculina que, no mais das vezes, deseja impor a sua 
vontade sobre as demais. Talvez, preferisse continuar só, conforme narrou em 2 
de junho de 1958: “O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. 
Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de 
gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E 
que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver 
só para o meu ideal”.
Você manifestou, repetidamente, o não render-se à exploração masculina 
em troca de um pouco de comida. Tudo isso a fazia uma mulher sempre muito à 
frente do seu tempo, como ilustram as passagens a seguir: em 18 de julho de 1955, 
“Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. 
Não casei e não estou descontente”; em 19 de julho de 1955, “Há mulheres que 
os espôsos adoece e elas no penado da enfermidade mantem o lar. Os espôsos 
quando vê as esposas manter o lar, não saram nunca”; em 21 de julho de 1955, 
“Não tenho marido, e nem quero! Uma senhora que estava me olhando escrever 
despediu-se. Pensei: talvez ela não tenha apreciado a minha resposta”.
Você não maldizia a sua tez negra nem o seu cabelo crespo, muito pelo 
contrário, orgulhava-se, enaltecia a sua estética herdada dos africanos: em 16 de 
junho de 1958, eternizou o seu orgulho em “Eu escrevia peças e apresentava aos 
diretores de circos. Êles respondia-me: – É pena você ser preta. Esquecendo êles 
que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de 
negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde 
põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça 
ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar 
sempre preta”.
Nutria a crença de que venceria, tanto quanto a sagacidade de se saber 
roubada. Você mantinha a teimosia em continuar narrando. Narrava para abrir 
os caminhos, para não sucumbir. Hoje, as “aves de rapina” continuam rondando 
o que restou do seu cadáver, o corpo que a terra já deu conta, porque todo o mais 
vive, ressoa, vibra, segue, propaga-se, sobretudo, com o auxílio indispensável do 
vento. Os usurpadores de ontem e os descendentes dos mesmos continuam no 
desespero de se apropriar do que restou para sua família do seu legado. De que 
valeu escrever tantos cadernos inéditos, se a sua herança não é usufruída pelos 
seus? Tudo bem, trata-se de um acervo inestimável ao nosso povo negro, mas sua 
família, de fato e de direito, goza deles no plano material? Você nos ensina e nos 


representa com maestria, mas e seus desejos de não deixar seus filhos passarem 
pelos mesmos dificultosos caminhos, percorridos com tanto sofrimento por você, 
querida mais velha? Tão sábia e tão resistente!
Você continua sendo estudada na Academia, mas só para uso interno. 
Poucos são os que a alcançam e a respeitam. Poucos, muito poucos, infelizmente. 
Tão poucos conseguem e desejam alcançar tal nobreza. Este não é nem esta para 
todos. Ainda bem, não? Mínima e fragilmente assegurada estará a apropriação de 
sua rica sabedoria por parte das “aves de rapina”.
Desejo que você, momentaneamente de passagem pelo òrun – lugar 
reservado a poucos, só aos que têm merecimento para tal – consiga ter um 
descanso digno. Aproveite para se revigorar, amiga e daí nos emane força para 
continuarmos. Desejo que retorne logo, ou no tempo previsto, para prosseguir em 
sua missão, dessa vez, de maneira menos penosa e pesada. Não que muitas coisas 
tenham mudado por aqui. Mas você desbravou inúmeras fendas e possibilidades 
com sua escrita primeira.
Aprendi que, no “espaço celestial”, o tempo é espiralado, entretanto, 
mesmo de posse de tal informação e conhecimento, quase consigo visualizá-la 
com a cabeça e o ìrun todo branquinho, cheia de ideias, a pele já toda enrugada, 
revelando as marcas do tempo sobre a mesma, o qual lhe trouxe ainda mais 
sabedoria.
Você nunca parou de escrever e, ainda assim, partiu para o òrun asfixiada, 
sem ar. Entupida de dizer? Provavelmente. Dizem que o corpo somatiza o que 
a mente produz. Faltou fôlego, não foi mesmo, minha mais velha? Asfixiaram-
lhe. Faltou ar para encarar, com tanta ousadia, interruptas dificuldades. Você foi 
usurpada. Viu o seu projeto de escrever dar certo, mas não conseguiu garantir o 
tão desejado futuro para seus filhos, que, hoje, veem-se na sina da mãe, novamente 
secados, dissecados, violentados, devassados em suas intimidades e memórias.
Sim, Carolina, “SOMOS TODAS CAROLINAS”, um coletivo de mulheres 
negras, com um projeto intitulado Carolinas ao vento, centenária e atemporal. E 


é desse lugar de poder que ouso convocar as minhas irmãs, originárias da mesma 
fértil barriga, que precisamos tomar novamente a caneta para falarmos com 
propriedade, respeito e dignidade, para que jovem senhora, que foi embora do 
plano físico tão cedo, sinta-se contemplada. Só nós poderemos fazer isto: levar 
adiante a missão iniciada por você, nossa mais velha, mestra na arte de contar 
histórias do cotidiano, histórias tão próximas às vividas por nós também.
Para (re) lembrar tudo de negativo que, historicamente, tem sido escrito 
sobre você, adorável irmã, não são necessários reforços. Há muito o que dizer e 
escrever sobre a Carolina, mulher negra e orgulhosa do que é, suas proezas, suas 
artes de ginga, suas superações, positivizar o que os não negros fazem questão de 
não contar. Penso que deva ser iniciada por aí a nossa jornada como perpetuadoras 
do que você nos legou.
Sempre que penso em você, Carolina, sinto a sua forte e doce presença. 
Como isso me apazigua e me engrandece! É como se você estivesse contemplando 
e abençoando o trabalho. É novamente Conceição Evaristo – outra mais velha 
nossa, que muito nos dignifica nas letras pretas – que vai afirmar que, para 
falarmos e tratarmos de você, venerada mulher, faz-se necessário, acima de 
tudo, fazer com reverência e muito respeito, pedir a sua permissão para tanto, 
sobretudo, pela espoliação que fizeram com o seu legado e o muito sofrido por 
você a partir de então. Toda vez que leio algo seu ou vejo uma imagem sua, sinto a 
sua forte presença abençoando o estudo, a busca por saber quem foi essa mulher-
GÊNIO. Gosto de senti-la abençoando a caminhada. Gosto muitíssimo de sentir 
a sua presença-benção. E é com a sua permissão e autorização que procuro seguir 
adiante na senda escancarada por você, tão combativa e incansável. Que orgulho 
tenho eu de ter tido uma ancestral tão digna e cheia de garra! Gosto de sentir a sua 
presença que parece chegar com o vento que pela janela adentra. Este parece ser 
o seu elemento, tal qual a Mulher Búfalo, dada a sua determinação e seu poder de 
transmutar-se, superar-se diante da vida. Se você, que tinha tudo para nem tentar, 
teimou e foi adiante, não seremos nós, juntas, que desistiremos ou deixaremos 
novamente nas mãos das “aves de rapina”, o contar sobre a nossa mestra maior.
Mas, infelizmente não consigo vê-la serena, tranquila, usufruindo da paz e 
descanso que o lugar deveria lhe proporcionar merecidamente. Você parece tensa
ainda a labutar com a vida, que momentaneamente neste plano, não lhe pertence 
mais. Parece, ainda, brigar com o àiyé que quase tudo lhe negou.


Sigamos, irmãs. Nossa mais velha, Carolina, espera que assim procedamos. 
Levamos o nome dela no vento. Voemos, pois, junto com ela! Narrar Carolina, eis 
o desafio, espalhar seu nome ao vento...
Despeço-me, momentaneamente, de você, Carolina Maria de Jesus, com 
mais um dos seus ricos ensinamentos, tão lúcidos, tão atuais, mesmo passadas 
algumas décadas desde a sua escrita primeira: em 9 de agosto de 1958, legou-nos 
que “A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E 
nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. 
A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu 
moro. Ou ainda quando, tão profética e lucidamente, afirmou em 20 de maio de 
1958: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte 
quando vê o seu povo oprimido”.
Mesmo tendo muito que dizer ainda, para que você não se canse com a 
leitura desta carta, que já se tornou extensa por demais, fico por aqui, amada mais 
velha. Sei que nos encontraremos em breve, de uma maneira ou de outra e que 
você permanece em cada uma de nós mulheres negras.
Da sua mais nova, para sempre sua admiradora, 
Hildalia Fernandes Cunha Cordeiro



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