Ministra da cultura


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participava das conversas e percebia como seus moradores entendiam o Quarto de 
Despejo, que esta mesma cidade gerava. E, em Casa de Alvenaria, ela questionou, 
com a crueza poética do relato, as desigualdades sociais a partir da sala de visitas 
onde passara a transitar.
Com o lançamento do primeiro livro, ela foi tratada com exotismo, o 
surpreendente “uma favelada semianalfabeta” que escreveu um livro. “A estranha”, 
da qual se esperava, talvez, uma postura entre gratidão e a “originalidade” do local 
de onde saiu. Originalidade cobrada pelas críticas desfechadas sem piedade contra 
o livro.
A literatura levou Carolina de Jesus a lugares que, talvez, jamais tivesse 
imaginado, o que poderia se dizer do inferno ao céu. No entanto, também, a expôs 
1 SILVA, Mário Augusto Medeiros da. A Descoberta do insólito, literatura negra e literatura periférica no Brasil 
(1960-2000). p. 415.


a cobranças às quais escritores que ousam colocar o dedo nas feridas a partir da 
arte de escrever são submetidos. Ela deve ter sofrido muito a ponto de dizer que 
não escreveria mais porque os filhos não queriam. Deve ter sofrido muito mesmo, 
por escrever, e por não escrever. Seus livros inspiram muitos leitores e escritores 
no Brasil e no mundo afora. Porém, a rejeição dos cânones literários, do mundo 
intelectual, tanto negro quanto branco, ainda a coloca no lugar de estranha e faz 
pairar no ar as perguntas: Como pode? Como pôde?
Na trajetória de Carolina Maria de Jesus, eu me inspiro e me reconheço 
no papel de “a estranha”, que, segundo Mário Augusto Medeiros da Silva, em 
Descoberta do Insólito, é próprio de todos os escritores, mas que, na condição de 
escritores negros, potencializa-se devido às abordagens temáticas e à ousadia de 
serem escritores. E as perguntas: como pode? como pôde? continuam adicionadas 
às cobranças de abordar outros temas que não sejam aqueles que a nossa escrita 
escolhe.
Miriam Alves é escritora. poeta e ensaísta. Participou de várias antologias nacionais 
e internacionais. Fez parte do Grupo Quilombhoje e participa da série Cadernos 
Negros. Publicou os livros de poemas: Momentos de Busca (1983) e Estrelas no 
dedo (1985), além de ensaios e dramaturgia. O livro mais recente de Miriam Alves 
é Mulher Mat(r)iz (2011, contos), publicado pela Nandyala Ed.

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