Ministra da cultura



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Fernanda Oliveira Matos é brasileira e morou na Zona Sul de São Paulo. Atualmente 
é mestranda em Literatura na Universidad de Chile e se dedica aos estudos sobre 
gênero, raça e classe social nos textos literários.


Escritora Carolina Maria de Jesus. A Fala 
do seu lugar de brasileira, mulher, negra.
Miriam Alves
Carolina Maria de Jesus representa, representou e ainda irá representar 
por muito tempo dentro da literatura brasileira, por mais que o cânone literário 
a negue, enquanto escritora. Uma vida complexa e tensa como só o pode ser a 
vida de uma mulher negra nascida em 1914, no dia 14 de março, na cidade rural 
de Sacramento, Minas Gerais. Estudou por dois anos, as primeiras letras, como 
diziam, interrompeu os estudos porque foi obrigada a migrar com a mãe para 
outras cidades, na luta pela sobrevivência. Vagou, segundo suas anotações em 
diários, por algumas cidades do interior de São Paulo, até que, por fim migrou 
para a capital paulista (1947).
Inquieta e questionadora, Carolina não se adaptou às exigências do emprego 
doméstico, no qual as relações de trabalho se assemelhavam ao extinto regime 
escravista. Acabou morando na Capital , na favela do Canindé, às margens do rio 
Tietê, uma das favelas que surgiam com o processo de modernização e progresso 
da cidade de São Paulo, onde, como consequência, a população preta, pobre e 
migrante iria morar em habitações precárias aglomeradas em locais inóspitos, 
sem infraestrutura. Ela buscava e retirava do lixo – sua fonte de renda e o sustento 
dos três filhos – aquilo que a cidade desprezava. 
Carolina perambulava pela cidade e observava: luzes, casas, flores, pessoas 
e avenidas, atrativos urbanos que contrastavam com sua realidade vivencial. À 
noite, em seu barraco, onde se apinhavam além da miséria, papéis e livros nos 
quais, entre o ronco da fome, os pedidos dos filhos e os burburinhos da vizinhança, 
tão esquecida e desprezada como ela, extraía a matéria-prima para a sua escrita
para o seu sonho de se tornar escritora, mais precisamente poetisa e abandonar 
aquela vida de precariedade.
Ela arquitetava outra vida para si e para os filhos. Escrevia constantemente 
e procurava jornais e editoras para publicar seu trabalho, como relata no seu diário. 
Obviamente, não conseguiu sucesso nesta investida, pois não logrou credibilidade 
ao mostrar seus manuscritos registrados em papéis reutilizáveis, numa grafia e 
gramática que denunciavam os seus poucos anos de estudos formais, que não 
coadunavam com uma arte elitista como é a literatura escrita. Insistentemente, ela 
escrevia o seu dia-a-dia, repórter de si mesma e da cidade que, olhada pelo ângulo 
dos à margem do rio Tietê não conseguia ostentar nem o glamour, nem a ilusão 
de um progresso igualitário.
O que muitos chamam de coincidência é, na verdade, intencionalidade 
por parte de Carolina, que mostrava seus escritos aos profissionais do serviço 


social e a religiosos que iam prestar assistência aos favelados. Em 1958, Carolina 
Maria de Jesus mostrou seus escritos a Audálio Dantas, um jovem repórter da 
Folha da Noite, designado para fazer uma matéria sobre a favela do Canindé. 
Impressionado com os manuscritos de Carolina, Audálio editou algumas páginas 
e as intitulou Quarto de Despejo – diário de uma favelada. O livro, publicado em 
agosto de 1960, com uma tiragem inicial de dez mil exemplares, foi recorde de 
vendas, foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller no Brasil, na 
América do Norte e na Europa.
Carolina de Jesus logrou realizar os seus dois intentos. Tornou-se escritora 
e, no mesmo ano da publicação de seu livro (1960), mudou-se da favela do Canindé 
para uma “casa de alvenaria” comprada com a venda de Quarto de Despejo. Nesse 
período, recebe várias homenagens nacionais e internacionais, e viaja por diversos 
estados do Brasil e outros países. Se fosse um filme, a vida de Carolina Maria de 
Jesus poderia terminar aqui, com legendas e final feliz.
Morando na casa de alvenaria, o sonho de moradia da agora escritora 
Carolina se concretizava, ao mesmo tempo em que era pressionada pela editora 
para escrever um segundo livro. Ela escreve Casa de Alvenaria (1961) com a 
mesma estrutura de diário. No entanto, o livro não alcança o mesmo desempenho 
de vendas de Quarto de Despejo. Os escritos da De Jesus, agora, eram oriundos 
da observação feita através da janela da casa de alvenaria. Carolina passou a 
frequentar o mundo que, ainda na favela, ela via e almejava: “o outro lado da 
ponte”.
Para uma mulher negra com escolaridade incompleta, “houve uma 
mudança de lugar físico, mas não do local social de onde De Jesus fala, em relação 
à sociedade
1
” Na cidade que ela vislumbrava como um passageiro que não podia 
descer do veículo, andar e adentrar seus espaços, agora era convidada para 
coquetéis, almoços e jantares – como, por exemplo, na casa da família Suplicy –, 


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