Ministra da cultura



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Alvenaria e Diário de Bitita apresentam uma diversidade de gêneros textuais que 
ultrapassam os limites estabelecidos para a autobiografia, o diário ou o testemunho, 
principalmente no que se refere à identidade do autor-personagem, à denúncia e 
linguagem visceral dos escritos e à busca de legitimação autoral.


Sobre este tema me respaldo em teóricos como Philippe Lejeune e John 
Beverley, para não dizer que não falei de teoria, né Carol? Você sabe bem como 
se autolegitimar, e ainda que muitos acreditem que é produto da sua inocência 
e falta de consciência crítica, a bajulação e posicionamentos contraditórios em 
relação a ideologias sociopolíticas não foram mais que estratégias de afirmação 
e sobrevivência. Dessa forma, como admiradora sua e com a necessidade de 
afirmar-me aqui também como afrodescendente, oriunda da favela e mulher, eu 
não poderia deixar de me apropriar dessa estratégia sua.
O segundo ponto é sobre a recepção da sua literatura no Brasil. Além das 
sensações de estranhamento e admiração causadas, há uma tendência em esgotá-
la na academia e apagá-la nos meios públicos. Explico-me. Ao decidir pesquisar 
sobre você, notei uma gama muito variada de estudos que circulavam nos meios 
acadêmicos. No entanto, nenhum dos meus amigos (considerando que sou 
da periferia de São Paulo e que tenho contatos com pessoas de variados graus 
de instrução), a conheciam, sequer tinham ideia do que foi a riqueza das suas 
peripécias literárias. Contraditório, não?
Para a primeira mulher negra, pobre e com pouca instrução que dedicou 
sua vida aos filhos e as letras? Isto, porque nem menciono a Maria Firmina dos 
Reis com a magnífica obra Úrsula, esta, ainda menos conhecida. É que acerca dos 
malefícios da modernidade, tão pulsantes e latentes, é você mesma.
Parece que estavam todos muito ocupados em continuar reproduzindo o 
olhar e a influência estrangeira, branca, de boa situação econômica e alto nível de 
escolaridade. 
Mas..., Fernanda..., muitos autores retrataram a figura do oprimido, seja 
do sertanejo, do negro, da mulher etc. Ok, obras louváveis, referências sempre, 
mas, terão o mesmo olhar aquele que fala sobre a fome e aquele que passa fome? 
Você já bem o disse, quando afirmava que somente aquele que conhece a fome 
poderia descrevê-la.
Bom, também não posso deixar de mencionar o surgimento de movimentos 
periféricos literários que a resgataram (e foi através de um deles que a conheci, 
não por meio da faculdade de letras); as iniciativas de organizar antologias de 
escritores afrodescendentes, os inúmeros grupos de pesquisa... O gigante está 
acordando e precisamos levá-lo para passear por todos os cantinhos do mundo, 
principalmente, do nosso Brasil, e me refiro às inúmeras Carolinas e Carolinos 
que estão produzindo arte por aí. Bora expor, dialogar, criticar o que foi e está 
sendo feito. Daí a importância de iniciativas como esta aqui.
O terceiro, e não menos importante ponto, é sobre o objeto de estudo 
que, com muito sacrifício, estou analisando no mestrado. Diário de Bitita e as 
representações do sujeito feminino negro.


Primeiramente, breves considerações sobre o motivo da escolha de Diário 
de Bitita. Notei que esta obra não havia sido tão analisada como as demais e que 
por muitas vezes fora minimizada em razão de questionamentos sobre veracidade 
e interferências das editoras, duas jornalistas francesas. Ora, quem acompanhou a 
sua história, leu os seus livros e críticas, pode perceber o quanto você se preocupou 
em aperfeiçoar a sua escrita, o quanto amava as letras, os livros, a criação literária.
Considero Diário de Bitita a obra que revela a verdadeira face da escritora 
Carolina Maria de Jesus. Que na busca pela paz, vencida pelo cansaço para 
conseguir tranquilidade e afirmar-se como escritora, com a tristeza de ver-se 
novamente pobre, lança a sua última cartada de permanência no circuito literário: 
a sua autobiografia.
Este texto nos entrega um sujeito feminino todo especial que procura 
destacar a sua capacidade intelectual, que se sobressai do resto. Vejamos uma 
possível categoria de interpretação sobre a menina Bitita e a adulta Carolina de 
Jesus.
Ainda que Bitita seja você conversando conosco, explicando como nasceu 
essa fome insaciável pelo saber e legitimando seu talento literário pela linhagem 
genealógica do bohemismo do pai e do socratismo africano do avô; ela ganha 
vida e se desprende do seu relato atuando como um ser cuja capacidade crítica 
e consciência étnica e social são espantosas. Isso a faz desejar ardentemente ser 
homem, representado na linguagem pueril de passar por debaixo do arco-íris. Ah, 
de infantil Bitita não tinha nada, né Carol? Era só um jogo de linguagem para que 
pensássemos que fosse uma criança, mas nenhuma criança faria as analogias que 
Bitita fazia; você a resgatou aí dentro e se apropriou dela para falar o que queria, 
já que se recusavam a te escutar.
O que me chama atenção é a vontade enorme de ser homem. Ora, ser 
homem era (?) sinal de supremacia, e se fosse branco, ainda melhor, pois como 
condição para a dupla exclusão, ser mulher já envolvia um histórico de luta pela 
conquista por acesso aos espaços públicos. Ser mulher negra, ainda pior, pois 
enquanto as feministas brancas gritavam por independência, estas continuavam 
em regimes de “escravidão” sexual, abuso da força de trabalho, sendo inferiorizadas 
e interiorizando estereótipos e preconceitos de toda espécie.
Bitita, então, teve que se conformar com o que era, uma criança negra e 
pobre, o que não a impedia de crescer confrontando aos homens, questionando 
a sua falsa superioridade, apresentando o seu grupo familiar e denunciando as 
relações entre opressor e oprimido nos âmbitos de gênero, raça e classe social. No 
entanto, quando na escola a chamam pelo seu verdadeiro nome, Carolina Maria 
de Jesus, há um momento epifânico dos mais belos, estilo Clarice Lispector, que 
marca a transição para a fase adulta.


Na fase adulta, você teve que abandonar a escola e, com muita dor, abandona 
os livros, o seu maior tesouro. Tem que deixar a sua cidadezinha de Sacramento 
para “ganhar a vida”, se é que isso representa as doenças, a exploração de trabalho 
e as humilhações pelas quais teve que passar. Já é um pouco da Carolina de Quarto 
de Despejo; crescer significou trabalhar duro e sofrer como cão, por isso é que você 
morreu na infância escondidinha no seu sítio em Parelheiros, resgatando suas 
memórias, sozinha com as suas lembranças. Ali, mesmo sendo tachada de feia, 
louca e atrevida, tinha o colo da mamãe, os ensinamentos do vovô, as comidas 
gostosas das dindas.
Ainda há muito por discutir aí, por reivindicar teorias – e/ou valorização 
das já existentes – que enfoquem o sujeito feminino negro no Brasil. Ainda estou 
te descobrindo e adoro pensar que sempre me traz algo novo.
E é encorajada pela tua ousadia que me permiti neologismos, este 
pseudoensaio, sem referências, nem mil citações e notas de rodapé –, pois eu 
já tenho que fazer tudo isso para poder jogar o jogo das academias e ter um 
lugarzinho ao sol; mas você bem sabe que a resistência é forte e falar de mulher e 
negra não é muito bem visto em determinadas circunstâncias.
De qualquer forma, é um prazer conversar contigo, sempre, afinal, me 
apego a você e a todas as referências de bravas mulheres que a tua literatura me 
despertou, a começar pela minha mãe, Elisete Oliveira de Jesus, essa sempre foi e 
nunca deixará de ser.
Espero que o teu grito também possa ecoar e guiar outras pessoas, a 
outras mulheres que estão em busca constante de autoconhecimento, orientação 
e projeção no mundo. Viver é isso aí, e que lindo é.
Que o sol, o astro rei como você dizia, venha brilhar para todas, e que 
possamos socializar ideias e produzir nossas artes e encontrar um lugar em que 
possamos florescer como disse a feminista negra Audre Lorde. 
Um axé, um salve e viva a sua literatura e todas as mulheres guerreiras que 
na labuta diária marcam existência!



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