Ministra da cultura


Sergio da Silva Barcellos



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Sergio da Silva Barcellos é Pós-doutor em Estudos de Escritas de Vida pela Hofstra 
University e Doutor pela PUC/Rio de Janeiro. Atualmente desenvolve um projeto de 
catalogação dos manuscritos de Carolina Maria de Jesus pela FUNARTE.


Um diálogo com Carolina Maria de Jesus 
Saraus, Projeto Cine Viela e biblioteca comunitária com o seu nome. 
Mestrado no Chile, literatura marginal, feminina, negra, Carolina.
Jesus, o mesmo sobrenome da minha família materna, da minha mãe, 
figura de admiração e semelhança com a sua história de luta, sofrimento, de 
coragem.
 Medo, rejeição, medo, insegurança, medo, isto não é literatura, isto não 
é literatura Fernanda. Peraê, mas o que é literatura então? Se não dialoga com a 
vida, com o ser humano, se não é esta que fica no tempo e no espaço? O que é 
literatura então? Ok, então, a qual gênero textual pertence? O que são os gêneros? 
Quem os determina e legitima? Por quê? 
Pode ser testemunho, autobiografia, mas não é literatura. Ok, não importa 
como o definam, é sobre este mesmo que quero e vou trabalhar...
É literatura profe, é Carodivina. De vida. De Carolina Maria de Jesus. 
Nunca ouviu falar dela? 
Estas ideias soltas definem, grosso modo, meus primeiros contatos com a 
sua obra, Carolina, e a resistência que enfrento para poder analisá-la. Afinal, falar 
sobre oprimido como você fez, e nas suas condições de mulher, negra e pobre, 
causou e tem causado impacto; muito mais do que você imagina. O que cumpre 
a sua vontade quando dizia que as suas letras jamais seriam apagadas. Nunca 
foram, nunca serão.
Sua literatura é tão viva, é tão contemporânea, tão impactante, é um tapa 
na cara constante do nosso comodismo. Fique tranquila, pois você ainda tem 
tirado muita gente da sua zona de conforto. Da minha então, nem se fala...
Neste diálogo contigo vou mencionar algumas polêmicas que envolvem 
a sua obra, dialogando com a minha experiência em relação a elas. São apenas 
reflexões um tanto vagas, minha intenção aqui não é aprofundá-las, nem seria 
possível. Quem sabe possa ir ao encontro de algum semelhante que também está 
lutando para se encontrar, se posicionar no mundo.
Fernanda Matos


Bom, vamos lá. Primeiramente, comentemos o que se refere à definição do 
gênero textual e às características dos seus livros.
Por que essa mania de etiquetar tudo né? Tenho uma sensação ambígua 
a respeito. Se você não dá nome às coisas elas parecem não existir ou, na 
homogeneidade de outras afins, perdem o seu valor peculiar. Por outro lado, 
enquadrar muito um gênero, um estilo, não seria minimizar o seu potencial 
literário?
Quando digo isso, penso nos conceitos e discussões sobre literatura afro-
americana, afro-brasileira, africana, marginal, de testemunho, memorialística e 
tantos outros términos que por aí surgem, nos quais a inclusão dos seus textos são 
polêmicas e variadas, dependendo de QUEM os legitima. Como sempre... 
No mais, sua obra sempre causou, e causa, sensações de estranhamento e 
admiração em relação ao desconhecido. 
Sim, o desconhecido. Este que é uma ameaça aos padrões preestabelecidos. 
Questionamentos de literatura e gêneros textuais, linguagens e recursos textuais 
adotados não são bem-vindos quando não estão pré-legitimados por alguém, 
e você sabe bem o que isso representa, pois lutou contra um mercado literário 
ideológico que se recusava a inseri-la nos seus circuitos intelectuais. E não podia ser 
diferente, não é mesmo? Você representava uma ameaça ao poder político. Desta 
forma, alguém editava e publicava para você, organizando as ideias e projetando-a 
no mercado editorial, mas quiseram manipulá-la como um ventríloquo, e você 
mesma disse que se recusava a isso.
O que poucos reconhecem desse feito é que esta intervenção extraliterária 
acontecia de maneira controlada, ou seja, seus editores não escreviam para 
você ou recopilavam o que diziam. Digo isso, porque, conversando um dia com 
uma das maiores pesquisadoras sobre o gênero testemunho na América Latina, 
Elzbieta Sklodowska, ela comentava que você era a primeira mulher a escrever 
testemunho de autoria própria neste continente, o que me surpreendeu muito 
porque os nomes mais destacados deste gênero são da guatemalteca Rigoberta 
Menchú, em um primeiro momento, e a boliviana Diomitila Chungara, mas os 
casos delas são bem diferentes do seu porque foram recopilados e editados; daí o 
seu pioneirismo.
Sobre este ponto, eu penso duas coisas. A primeira, em relação ao gênero 
textual que escrevia, considerações à parte sobre a interferência dos editores e 
centrando-me nas narrativas de algumas obras suas. Quarto de DespejoCasa de 



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