Ministra da cultura



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Doutor Fausto? Pensamos que ainda não foram elaboradas abordagens críticas 
capazes de lidar com os textos que constituem o arquivo de Carolina Maria de 
Jesus. E também porque ainda se insiste em investigar o “livro” – sem nem ao 
menos cotejá-lo com os cadernos que lhe serviram de matriz. Extrair do “livro” 
uma Carolina que foi renegada pela de “carne e osso”. Lembraram-lhe que a fama 
tem um preço. E foi Ruth de Sousa, a Carolina do palco, quem publicamente 
explicou à Carolina da vida como funciona o mecanismo da fama: 
Lembre-se Dona Carolina Maria de Jesus: Não se recebe nada sem dar alguma coisa 
em troca. A fome que você tinha lhe dava a liberdade total de ser favelada. Realizado 
o seu sonhado sonho de muitos anos, de sair da favela, ver seu livro publicado (que 
lhe deu um sucesso inesperado), você assumiu obrigações, para com seu público, 
seu descobridor, seu editor, e ainda, o mais importante, seus filhos. [...] O sucesso 
exige sacrifícios e muita paciência. É claro que a realização de um ideal escraviza. As 
mais famosas criaturas do mundo, negros e brancos, têm a mesma escravidão que a 
sua. Mas elas não reclamam. 
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A chave, então, para a manutenção da fama seria a submissão às engrenagens 
da fama. Paradoxalmente, ao dar voz a uma realidade miserável, Carolina fez-se 
notada. E querem, queria Ruth de Sousa, então, que Carolina se calasse para manter 
o seu status quo. Mas que status era aquele exatamente? Sim, Carolina deveria ter 
seguido o mesmo conselho dado a outra mulher e artista, pela sua mãe: “You can 
help yourself, but don’t take too much”. “Sirva-se, mas não abuse”, respondeu a mãe 
de Billie Holiday, dona de um restaurante comprado com o dinheiro do sucesso 
de Billie, ao pedido de ajuda financeira feito pela filha. Caberia, na obra literária 
de Carolina Maria de Jesus, que hoje vemos guardada em Sacramento, no Rio 
de Janeiro e em São Paulo, conformar-se à essa condição? Teria sido melhor não 
reclamar e guardar, no sentido de ocultar e interditar, o que hoje compõe o acervo 
documental de Carolina? Não. E urge analisar a obra literária de Carolina Maria 
de Jesus, ouvir sua voz em sua totalidade, examiná-la para que se compreenda 
quem foi essa escritora – vira-latas ou improvável!, não importa – para além da 
imagem plasmada através do “livro” que tanto a popularizou. 
4 SOUSA, Ruth de. “O Que Fez o Cartaz à Carolina”. Coluna “Vejo, ouço e... conto”. Jornal Última Hora, São 
Paulo, 13/11/1961.


Só será possível fazer isso, ou seja, descobrir Carolina, de uma vez por 
todas, debruçando-nos sobre sua obra literária, buscando instrumentos capazes 
de compreendê-la e não somente tentar circunscrevê-las, escritora e sua obra, 
dentro dos limites de noção hegemônica de literatura – ou do senso comum de 
submissão à ordem. Só será possível se guardarmos Carolina, no sentido que o 
poeta sugere:
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar. 
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5 Este poema foi extraído do livro Guardar - Poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 337.



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