Ministra da cultura



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Arquivando Carolina...
O retorno aos manuscritos e aos cadernos autógrafos de Carolina Maria de 
Jesus, neste ano de seu centenário de nascimento, desencadeou uma profusão de 
imagens e ideias. Algumas delas serão de grande auxílio na reflexão da importância 
da organização do acervo documental dessa escritora singular. 
“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la”, nos adverte o poeta 
Antonio Cícero. E os cadernos de Carolina estiveram guardados – mas não 
escondidos a ponto de não serem encontrados – até meados dos anos 1990, quando 
os pesquisadores Robert M. Levine e José Carlos Sebe Bom Meihy trouxeram-
nos à tona. “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por / admirá-la, isto 
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.” O poeta explica. E foi o que, em partes, 
ocorreu, a partir da redescoberta de Carolina por Levine e Meihy. Redescoberta, 
sim, pois ela havia já sido descoberta, em 1958, pelo “repórter”, como a própria 
se referia a Audálio Dantas. A partir da redescoberta, muito se falou de Carolina, 
frequentemente os olhares fixaram-se em sua biografia, a admiração por ela 
ressurgiu, mas não se pode dizer que Carolina foi iluminada ou iluminou aqueles 
que por ela se encantaram, nos anos seguintes a sua redescoberta.
E por quê?
Primeiro, porque Carolina foi objeto do ventriloquismo de uma onda 
crítico-teórica. Teve sua figura tomada de empréstimo para exemplificar o corpus 
de um novo discurso. Tida como periférica – logo ela, que entrava e saia dos 
diversos “núcleos”, estando sempre lá onde queria estar -, seu não pertencimento 
foi confundido com um pertencimento de que a própria  Carolina duvidava, 
quando dizia ter alma aristocrática e utilizar uma linguagem “clássica”. Assim, 
Carolina estava sendo reenviada, por essa nova onda crítico-teórica, às margens 
de onde tanto lutara para sair. E de onde saiu, efetivamente, porque, de outra 
maneira, como explicar o sucesso de seus diários traduzidos em mais de vinte 
línguas?
Segundo, porque não se buscou a totalidade de sua voz, dentro do cofre 
onde estava guardada, mas não trancada, mas não inacessível. Nessas últimas 
décadas em que se ouviu com mais frequência o nome e as palavras de Carolina
foi somente uma parcela ínfima, porém de valor inquestionável, o que se ouviu. 
Exatamente a parte publicada, aquela que tornou Carolina famosa e, no final, 
causou-lhe tamanho sofrimento. Um ano antes de sua morte, a escritora se refere 
Sergio da Silva Barcellos


Quarto de Despejo, o “livro”
1
, em uma carta, como “o quarto do diabo”. O “livro” 
– que se tornou gigantesco e engoliu Carolina – ofuscou paradoxalmente um 
projeto literário. O “livro” que era o projeto não somente dela, mas de muitos 
outros. Um projeto concluído, como afirmou Audálio Dantas, no prefácio de Casa 
de Alvenaria, e, uma vez mais, em ocasião da morte de Carolina:
Agora que você está na “sala-de-visitas” e continua a contribuir com este novo livro, 
com o qual pode dar por encerrada a sua missão. Conserve aquela humildade, 
ou melhor, recupere aquela humildade que você perdeu um pouco – não por sua 
culpa – no deslumbramento das luzes da cidade. Guarde aquelas “poesias”, aqueles 
“contos” e aqueles “romances” que você escreveu.
2
 
Eis aqui a recomendação: guardar! Mas o conselho do “repórter” pode 
ser comparado ao conselho do “poeta”? Para este “Guardar uma coisa é vigiá-la, 
isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, / 
isto é, estar por ela ou ser por ela”. Através da exploração meticulosa do acervo 
documental de Carolina Maria de Jesus, vemos que há uma diferença entre um 
e outro significado do verbo guardar. E ela vigiou, fez vigília, velou e manteve-se 
desperta e esteve para e foi pela sua Literatura. O repórter, nesse mesmo texto, de 
1977, em que retoma o conselho dado em 1961, admite que Carolina era dona de 
uma personalidade forte... tão forte a ponto de não aceitar certos palpites, “como 
os meus”, confessa. Isto porque Carolina antecipou-se e seguiu o conselho que o 
poeta Antonio Cícero ainda não havia articulado e, felizmente, ignorou aquele 
dado pelo “repórter”.
Não saberia dizer se as caixas onde Carolina guardou seus cadernos 
poderiam ser chamadas de baús ou de arcas, mas a plasticidade dessas palavras 
evoca aquilo a que elas se prestam. Longe de serem sepulturas de vestígios do 
passado, são recipientes de tesouros, protegendo-os e conservando-os – velando 
por eles. Como aquela construída por Noé para salvar os animais da extinção, 
imposta por um criador insatisfeito com a criatura. A arca, porém, evoca mais 
do que o texto bíblico. Remete-nos ao sentido da palavra “arquivo”, que vem do 
grego arkheîon: o começo e o controle, o local onde se abrigavam os documentos 
jurídicos, públicos, e seus protetores, os magistrados, os arcontes. Um local e um 
conceito. Uma moradia e abrigo, mas também um repositório e cofre.
1 Convém distinguir, aqui, à qual manifestação o título Quarto de Despejo se refere. Se à peça teatral, ao disco ou 
ao “livro”. Destaco este último, distinguindo-o dos outros, porque sua força real e simbólica na vida da escritora 
foi ambígua, redentora e destruidora. E também porque um diário publicado, transformado em livro, deixa de ser 
diário. E se torna livro, com toda a ambiguidade permitida, para o bem e para o mal.
2 DANTAS, Audálio. “Audálio: Carolina não quis parar!”. Símbolo, São Paulo, Maio de 1977.


O acervo documental de Carolina Maria de Jesus é composto por umas 
dezenas de cadernos manuscritos, algumas páginas datilografadas, algumas 
fotografias, alguns objetos. Esses cadernos e objetos não estão sob um mesmo teto, 
mas esparsos, sob diversos tetos em pontos geográficos distintos. Ainda assim, 
constituem um arquivo, pois são resultado de atividades humanas, provenientes de 
um sujeito a que se costuma chamar, na terminologia dos arquivos, de “produtor”. 
Entretanto e acima de tudo, trata-se de arquivo, esse repositório abstrato, essa 
arca onde estiveram guardados e preservados os escritos de Carolina, porque 
apresentam características próprias de documentos que constituem arquivos: 
autenticidade, imparcialidade, organicidade, naturalidade e unicidade. O mais 
emblemático local onde se podem verificar, reunidas, essas características, é o 
Arquivo Público Municipal Cassimiro de Araújo Brunswik, em Sacramento
Minas Gerais. Não somente por se tratar da cidade natal de Carolina, mas por ter 
sido, no passado, o edifício onde hoje funciona o arquivo público, uma cadeia. 
Talvez, a cadeia onde Carolina e sua mãe estiveram detidas por cinco dias. E onde 
hoje se encontram trinta e quatro cadernos autógrafos, contendo os contos, os 
romances, os provérbios, as peças teatrais e as histórias curtas, tudo e um pouco 
mais do que aquilo que o “repórter” sugeriu que Carolina guardasse. 
O significado do “guardar” que se depreende do exame meticuloso 
desses cadernos nos desvia um pouco do caminho sugerido pelo “repórter”. Em 
primeiro lugar, o manusear esses documentos, essas páginas contendo a caligrafia 
inconfundível de Carolina é, de certa forma, prestar-lhe uma homenagem: “Por 
isso melhor se guarda o voo de um pássaro/Do que um pássaro sem voos.” Outra 
vez, Antonio Cícero. A “poetisa” possuía um projeto literário. E esse projeto se 
desvela facilmente através de uma leitura semiótica daqueles signos ali reunidos
ou, como queria Derrida, ali consignados, pois:
Por consignação não entendemos apenas, no sentido corrente desta palavra, o fato 
de designar uma residência ou confiar, pondo em reserva, em um lugar e sobre 
um suporte, mas o ato de consignar reunindo os signos. [...] A consignação tende 
a coordenar um único corpus em um sistema ou uma sincronia na qual todos os 
elementos articulam a unidade de uma configuração ideal.
(DERRIDA, 2001, p. 14).
3
Derrida ainda adverte que num arquivo não deve haver uma dissociação 
radical. Um arquivo não deve refletir heterogeneidade ou hermetismo, mas reunião. 
E é da reunião que se observa nesse arquivo, a partir dos cadernos de Carolina, 
que surge a noção mesma de uma obra literária que necessita ser atribuída a essa 
3 DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo – Uma impressão Freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.


escritora. Os voos de Carolina, que tanto e tantos quiseram substituir por uma 
Carolina “pássaro sem voos”. Sua resistência nos favorece, hoje, quando perfilamos 
os cadernos, exploramos seu imaginário e percebemos que há ali uma obra. 
Teria sido sua obra ou seu projeto literário apreendidos diferentemente, 
tivessem os leitores acesso a um romance como O Escravo? Ou Rita, ou, ainda, 



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