Ministra da cultura



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Da Cabula, com ilustrações do artista plástico Marcelo De Salete, recria Carolina 
na personagem de Filomena. De autoria de Allan da Rosa, a peça dramatúrgica 
tem como personagem central uma empregada doméstica que vive numa grande 
cidade, que, como bem interpretou Conceição Evaristo, poderia ser qualquer 
metrópole brasileira. Em meio ao sono – a fadiga do dia de trabalho, no trajeto 
em ônibus apertado na volta para casa – e à insistência em lidar com a língua 
escrita, são revelados dilemas da protagonista. Eles bem poderiam ser os mesmos 
enfrentados por Carolina de Jesus, seja na sua experiência com a produção textual, 
seja na recepção crítica de sua obra. Nas letras de Allan da Rosa (2006, p. 31), o 
problema da forma aparece em humor ácido:
E essas regras humilhando?... Vou entender nunca... Só serve para arrochar 
com a cabeça da gente. Se escrevo ´as faca´, não tá na cara que é mais de 
uma faca? Já tô falando “as”. Mas não, tem que meter um S lá no fim da outra 
palavra, obrigação de complicar. E as letra? Tem cada praga indecisa: já viu o 
H? Tem vez que silencia fica ali só de enfeite. Outra hora vem e chia. Depois 
chega rouca. Dobra a língua. Vich... Nem comento do J e do G, do X e do C... 
Vou tentar não passar do chão da linha, não tremer o lápis. 


O dilema formal encarnado na personagem Filomena da Cabula 
faz remissão direta aos problemas com a língua portuguesa devidos à baixa 
escolaridade de Carolina de Jesus, que fez apenas dois anos do antigo primário. 
Paradoxalmente, isso seria um dos principais atestados da autenticidade de sua 
obra, quando da polêmica sobre a relação dela com Audálio Dantas, o então 
jovem jornalista responsável pela publicação de Quarto de Despejo, realizada pela 
prestigiosa Livraria Francisco Alves.
Sem perder o fio da meada, sublinho ainda a relevância do papel da 
museologia para deixar vivo o patrimônio literário que Carolina nos legou. 
Nesse sentido, o Museu Afro-Brasil, ao manter a exposição permanente sobre 
sua vida e obra, bem como a exibição da recepção internacional de seus livros e a 
conservação de parte dos manuscritos, atende ao espírito republicano de deixar as 
memórias e os documentos para consulta pública. Nesse sentido, o mesmo espírito 
que orienta o referido museu também é encontrado na Biblioteca Municipal de 
Sacramento, cidade natal de Carolina, bem como na Biblioteca Nacional, onde 
outros manuscritos da autora encontram-se disponíveis para pesquisa. Carolina 
de Jesus é, assim, patrimônio cultural do Brasil.
Se a preservação e a recriação dos escritos de Carolina se fizeram representar 
no museu, nas bibliotecas, nos eventos culturais, cinema, literatura, também o 
teatro encenou-a. Numa leitura pós-dramática, a Companhia teatral Os Crespos 
– composta por ex-alunos da Escola Dramática de Artes, Lucélia Sérgio, Sidney 
Santiago, Mawusi Tulani, Joyce Barbosa e Gal Quaresma – estreou Ensaio sobre 
Carolina em 2007, arrancando humor, beleza e sátira de sua obra máxima
3
. Sob 
a direção de José Fernando de Azevedo, Quarto de Despejo, metáfora caroliniana 
para favela, é palco para os dilemas afetivos, amorosos, políticos e sociais. Se a 
personagem central de Diário é a fome – como chamou a atenção o poeta Oswaldo 
de Camargo em evento do centenário da autora –, a Companhia Os Crespos 
subverte a protagonista e sabota a orientação do jornalista Audálio Dantas que 
preferiu, em seu prefácio à primeira edição do livro, dar ênfase ao realismo do 
texto em oposição à sua dimensão literária. Na nova dramaturgia, não há lugar 
para uma Carolina apenas. Ela é múltipla. E o que é melhor: a dramaturgia deu 
margem para o horizonte ficcional do Diário. Carolina, então, não é só autora, mas 
também personagem de sua própria obra: sua humanidade antagoniza a fome.
Passados mais de cinquenta anos da publicação do seu primeiro diário, a 
crítica contemporânea já pode se perguntar: o que faz de Carolina de Jesus uma 
autora clássica? 
Seu maior sucesso, Quarto de Despejo, foi lançado em 1960, recebeu oito 
3 Ressalte-se que Carolina de Jesus teve em vida a oportunidade de ver sua obra virar peça de teatro em 1961, 
quando Ruth de Souza a interpretou na montagem dirigida por Almir Haddad.


edições, vendendo mais de 70 mil exemplares. Num período curto, o livro ganhou 
o mundo e foi traduzido para treze idiomas. Contente com o sucesso inesperado, 
Carolina também publicou Casa de alvenaria (1961), Provérbios (s/d) e Pedaços 
da fome (1963). Suas demais obras foram publicações póstumas. Primeiramente, o 
Diário de Bitita (1986), que trouxe ao público seu apelido de infância, organizado 
por jornalistas da França que editaram seus escritos memorialistas, publicando-
os originalmente em língua francesa e só posteriormente em português. Anos 
depois, seus poemas foram reunidos numa Antologia Pessoal, organizada por 
Meihy e Levine, o primeiro também organizador de Meu Estranho Diário (1996a), 
composto por fragmentos dos manuscritos. Com isso encerrava-se um ciclo 
de produção voltada para divulgação das letras e reflexões desconcertantes da 
escritora brasileira.
Os referidos autores, aliás, há muitos anos estudiosos dessa matéria, já 
tinham nos brindado com o livro Cinderela Negra (1994), leitura obrigatória tanto 
para os interessados em questões metodológicas sobre a história oral, quanto para 
os curiosos da biografia e das condições de produção intelectual da autora. Essa 
empreitada acadêmica e editorial de tornar pública a produção e a biografia de 
Carolina de Jesus foi decisiva para que as novas gerações pudessem ter acesso às 
informações e à complexidade da escritora.
Desde então, sua vida e obra têm sido sistematicamente revisitadas pela 
academia e por intelectuais que aceitaram o desafio de escrever sua trajetória e 
rever seus diários
4
. Notável nesse sentido é o trabalho de Joel Rufino, espécie de 
acerto de contas entre a sua geração ligada à esquerda e “uma escritora improvável”, 
esta estranhamente incompreendida por aqueles que estavam preocupados – 
naquele tempo – com a revolução brasileira. Destarte, Rufino aventa hipótese 
sobre o impacto do golpe militar na recepção da autora, causando interrupção no 
debate público sobre traumas complexos do Brasil moderno.
 
Para nossa geração, ficou o desafio de interpretar – nas diversas 
acepções desse vocábulo – as contradições de Carolina, em sua forma própria 
de olhar o mundo e de enfrentar a sociedade e seus valores, e, sobretudo, o seu 
lirismo. A obra de Carolina de Jesus permanece porque ainda comove. Mas, acima 
de tudo, podemos dizer que se trata de uma grande escritora, pois ela conseguiu 
transcender a sua realidade, construindo interpretação sensível do mundo, assim 
como o fizera Anne Frank relatando em seu diário de adolescente o terror da 
segunda guerra e a experiência do holocausto
5
. Ambas testemunharam o indizível 
e desenharam, em letras, um retrato avesso de nossa modernidade.
Assim, só é possível dizer que Carolina é 100 porque a boa literatura é 
aquela que carrega as contradições de seu tempo, atinge públicos diversos e ainda 
4 Outra biografia é a de Eliana Castro e Marília Machado: Muito bem, Carolina. Belo Horizonte: C/Arte, 2007.
5 Ver O Diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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