Ministra da cultura



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Mariana Santos de Assis é licenciada em Letras e Mestre em Linguística Aplicada 
pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


 Carolina de Jesus na Cena Cultural 
Contemporânea
Flavia Rios 
Carolina é 100. Esse foi o título do evento com que o Instituto Moreira Salles 
nos brindou em comemoração ao centenário de Carolina de Jesus, resgatando o 
documentário Favela – Das Leben in Armut (1971), dirigido por Christa Gottman-
Elter, até então inédito no Brasil. Restaurado e legendado, o filme foi apresentado 
no Rio de Janeiro na data provável de seu aniversário, 14 de março de 2014, e é só 
mais uma peça descoberta (ou – por que não dizer ? –, uma relíquia) do grande 
quebra-cabeças em torno dos materiais legados pelo sucesso e pelo impacto dos 
escritos de Carolina de Jesus mundo afora, e Brasil adentro. 
Com efeito, na última década, a autora do célebre livro Quarto de Despejo 
tem sido revisitada por diversos intelectuais, ativistas, artistas e produtores 
culturais. Para trazer à cena, cito o filme de Jeferson De, Carolina (2003), 
considerado o melhor curtametragem do Festival de Gramado naquele ano. O 
empreendimento do cineasta paulista tem dois méritos. O primeiro deles é o de 
colocar a memória em movimento, por meio do resgate das imagens de época, 
tanto de nossa personagem, quanto do Canindé, favela que deu origem ao seu 
primeiro diário, publicado em 1960. O segundo mérito, de apreensão não tão 
imediata, é o de flagrar a contemporaneidade e a poética da escritora, expressas 
tanto na magnífica interpretação de Zezé Motta quanto na técnica dos jogos de luz 
e escuridão, atravessados pela grafia gritante de Carolina inscrita na película. Essa 
contemporaneidade é, ademais, capturada pelo diretor no encontro profético da 
literatura de diários com o Hip Hop. Da estrofe do rap ao audiovisual: “Daria um 
filme, uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço”
1

Literatura, música e cinema; a criação artística e a denúncia social reencontravam-
se entre o passado e o futuro em múltiplas linguagens. 
A perenidade da obra de Carolina de Jesus também se faz notar nos 
inúmeros saraus, eventos culturais, cursos de formação, nomes de bibliotecas, 
palestras e minicursos produzidos em São Paulo e em outras cidades brasileiras
2

No campo da produção cultural, destaca-se a importância de Marciano Ventura, 
editor engajado na propagação da literatura negra, alimentando a jovem geração 
interessada na obra desta mineira radicada em São Paulo e disponibilizando 
edições raras dos livros. É dele também a iniciativa de promover, com seus 
parceiros, no centro e na periferia, eventos comemorativos ao cinquentenário 
de Quarto de despejo (2010) e ao centenário da autora (2014), ocupando, assim, 
diversos espaços públicos: bibliotecas, centros culturais, cursinhos comunitários 
1 Estrofe do rap Negro Drama, de Edy Rock/Mano Brown, do disco Nada como um dia após o outro (2002).
2 Devo destacar aqui os minicursos ministrados por Jackeline Romio (Unicamp), Edilza Sotero (USP) e por mim, 
em Goiás (2008); São Paulo (2009-2010); Rio de Janeiro (2010), entre outras cidades.


e universidades.
De fato, todas as gerações de leitores de Carolina de Jesus se envolveram 
tanto com o Diário como com sua biografia. Na sua recepção atual, digno de 
destaque é o trabalho realizado por Allan da Rosa, com interpretação da poeta 
Maria Tereza, num documentário radiofônico embalado pela capoeiragem rítmica 
de sua produtora e pela intensidade interpretativa da autora de Negrices em Flor
livro este onde encontramos um poema em homenagem a Carolina Maria de 
Jesus, com um título homônimo:
Comprei um sapato lindo número trinta e nove sendo que calço 
número quarenta e dois. Andei muito a pé, adoentei-me. Pra acalmar 
os pés e não repetir esse ato insano fiz uma salmoura de água quente 
e ensinei crianças e adolescentes que não se vende o próprio sonho.
(Maria Tereza, 2007, p. 25).
Acentuo nesse efervescente meio cultural a marca dos escritos carolinianos, 
ou seja, seu impacto sobre a geração que adentrou no século XXI reivindicando 
para si a escrita da periferia. Dito nesses termos, a literatura periférica toma 
Carolina de Jesus como a sua genuína herança literária. Não por acaso, o livro 



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