Ministra da cultura


parte da classe trabalhadora de produzir conhecimento, arte, cultura, sobretudo



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parte da classe trabalhadora de produzir conhecimento, arte, cultura, sobretudo 
por sua formação defasada e poucos recursos econômicos. Fortalecer essa 
hierarquia cultural é fundamental, dentre outras coisas, porque a tradição popular 
era e continua sendo um dos principais locais de resistência a tal “reforma” do 
povo empreendida pela dominação
5
.
É importante frisar que se trata de um espaço de resistência política, 
porém uma resistência por meio da arte. Logo, seus ativistas são artistas sensíveis 
que nos brindam a todos com muito mais do que manifestos e relatos de sua luta 
e resistência diárias, nos oferecem o que os poetas e artistas sempre ofereceram: 
beleza, deleite, estesia, enlevo, revolta, amor, ódio, horror... Enfim, nos mostram 
leituras únicas de uma realidade que, quando não fazemos parte – no caso das 
classes dominantes que se curvam aos prazeres da arte e cultura negra e periférica 
– torna-se uma aventura constante, repleta de sensações confusas, misto de revolta, 
repúdio e fascínio; e quando a vivenciamos – somos negros e periféricos – vemos 
nossa realidade cotidiana se pintar de cores fortes que nos motivam, orgulham e 
impressionam.
Tais interpretações da produção literária da periferia ainda são poucas 
ou quase nenhuma, nossos artistas negros e pobres ainda estão atados à prisão 
identitária em que o mercado editorial tenta mantê-los. A obrigatoriedade de 
oferecer o exotismo da pobreza, de mistificar a miséria e abandono da periferia
as agruras do racismo e a força dos homens e mulheres que “não vivem, apenas 
aguentam” tem sido uma arma para barrar a criatividade e diversidade da arte e 
cultura negra e da periferia.
Carolina Maria de Jesus é um dos exemplos mais simbólicos dessa armadilha 
capitalista. Conhecida mundialmente por seu diário, intitulado Quarto de despejo: 
o diário de uma favelada, Carolina foi um fenômeno do mercado editorial, seu 
livro foi traduzido para diversas línguas e se tornou best-seller no Brasil e no 
exterior. Graças a esse sucesso a favelada, negra, catadora de papel, finalmente 
conseguiu sair do quarto de despejo e se tornar uma ex-favelada, mas seu público 
não estava interessado na história de sucesso da negra da casa de alvenaria, da 
negra posta na sala de visitas pela porta da frente. Esta não tinha mais fome, 
não presenciava e vivenciava as piores facetas da miséria humana, portanto não 
mais se interessava em escrever sobre isso. Ao contrário, tinha tempo e saúde 
para refletir sobre os novos espaços em que circulava, sobre seu novo lugar social
sobre o fato de que jamais deixaria de ser uma negra favelada aos olhos de seu 
público,  pouco interessado ou incapaz de ver a poetisa que ela sempre quis ser e 
5 Idem.
 


achou que seria depois do reconhecimento mercadológico de seu diário.
E até hoje a Carolina poetisa, compositora, contista ainda está praticamente 
desconhecida do grande público e, mais grave do que isso, a visão única de poetisa 
que ela tentou nos mostrar da vida na favela, da vida dos pobres, da cultura de 
seu povo ainda está deturpada por interesses de mercado e pelas limitações de 
nossa formação cultural e intelectual para apreciar a arte. Permanecemos lendo 
seus textos unicamente como documentos histórico-sociológicos e negando o 
lugar de poetisa, tão caro a ela e a tantos poetas pobres e negros que vemos surgir 
diariamente nos saraus da periferia, nas publicações de selos independentes 
e cooperativas. Seguimos negando um lugar para ela no seleto grupo das belas 
letras. Com isso, perdemos a maior e mais importante contribuição da literatura: 
a capacidade de nos humanizar
6
.
Ou seja, negar a possibilidade de ser lida como escritora e poetisa, antes 
de ser negra, favelada e pouco escolarizada é negar a humanidade a uma classe, 
a grupos oprimidos sem conta que passariam a se ver como sujeitos na literatura 
e não mais meros objetos para a inspiração alheia. Além disso, enquanto leitores, 
diminuímos absurdamente as possibilidades de fruição estética dessa rica 
produção literária.
Pensando nisso proponho uma análise de um texto que compõe essa 
importante coletânea, foge ao estilo da Carolina do Quarto de Despejo e nos 
mostra a poetisa que ela buscou ser em toda a sua vida. Trata-se do conto Onde 
estaes Felicidade? Nesse texto vemos o olhar apurado e sensível de quem conhece 
a pobreza, a miséria e a rudeza de um povo que sofre com as privações e responde 
à sociedade como pode ou como sabe. Mas vemos também a escritora habilidosa 
que sabe utilizar esse conhecimento para compor sua obra, para nos mostrar 
o que só seus olhos sensíveis de artista podem ver. Vemos se desenhar à nossa 
frente uma história de pessoas, não de pobres, não de sertanejos ignorantes, não 
de pessoas rudes e analfabetas, mas de pessoas, seres humanos que ganham vida 
em sua escrita, seus personagens criados para mostrar a beleza dos sentimentos 
humanos em toda sua contradição e conflitos.
A habilidade da escritora começa na escolha dos nomes de seus protagonistas, 
compostos por alguns dos nomes mais comuns entre os brasileiros: José e Maria, 
poderia ser qualquer um, poderia simbolizar o apagamento das subjetividades ou 
uma alegorização, mas, ao contrário, vemos cada um deles ganhar autenticidade 
e personalidade com o desenrolar do enredo, e pela escolha do segundo nome de 
cada um: dos Anjos e da Felicidade, respectivamente, fazendo com que transitem 
constantemente entre a alegoria e a subjetivação.
José dos Anjos apresenta uma personalidade pura, ingênua e generosa que 
6 Ver mais em CÂNDIDO, Antônio. O direito à literatura. In: ______. Vários Escritos. São Paulo: Ouro sobre Azul, 
2004.


o identifica ainda mais com seu segundo nome, podendo nos levar a pensar em 
uma alegoria do sagrado religioso de fato – dos Anjos. Felicidade não sabe de si, 
não se dá conta de como todos vivem à sua volta, todos admiram sua beleza, ela só 
se percebe pelos olhos de José dos Anjos e pelas palavras tentadoras do viajante. 
Seria possível pensar apenas na estratégia de aproximar a felicidade de algo 
sagrado e a tentação surgindo para destruir a felicidade verdadeira afastando-a 
do sagrado e profanando-a com os bens materiais do mundo capitalista. Porém, a 
potência das personalidades não nos permite limitar nossa leitura apenas a essas 
alegorias, sobretudo de Felicidade.
O casal vive em um ranchinho de sapê, de maneira humilde como devem 
viver os seres sagrados e afastado dos grandes centros e tentações do mundo 
urbano, no meio rural, onde está a verdadeira felicidade, fantasia que povoa o 
imaginário dos poetas desde a Antiguidade.
Mas a tentação de ter o mundo inteiro e sua glória chegou ao recanto 
sagrado do amor verdadeiro e puro de José dos Anjos e Felicidade. E veio na 
forma de um viajante, vendedor, o símbolo máximo do capitalismo e suas 
demoníacas tentações. De imediato ele se encanta por Felicidade, o homem que 
parecia poder ter tudo, oferecer tudo, queria mais, queria a Felicidade. Aquela 
que, supostamente, não se compra teve um preço. A curiosidade e a vaidade 
turvaram os olhos castos da moça fazendo-a esquecer de seu devotado marido e, 
num delírio de desejos estranhos e fascinantes, forjar insanidade e abandonar seu 
ranchinho e seu querido José.
O viajante compromete-se a levar a Felicidade, supostamente louca, para 
tratar-se em um sanatório, José dos Anjos não suporta viver apartado da Felicidade 
e parte disposto a encontrá-la. Percorreu os sanatórios de várias cidades e em cada 
novo sanatório, como um desvairado fazia a pergunta fatídica “A Felicidade esta 
aqui?”. Onde seria menos provável encontrar a felicidade que em um sanatório? 
Por fim, a loucura, a melancolia e a tristeza tornam-se as únicas companheiras de 
José dos Anjos.
Uma história tocante que mostra diversas facetas das relações humanas. 
Colocar a felicidade para abandonar os anjos e partir para a cidade onde ninguém 
a conhecia, retoma a fantasia bucólica de que a felicidade verdadeira está em 
ambientes rurais, na simplicidade e nas pequenas coisas. Porém, também mostra 
uma visão amarga do poder do dinheiro e da capacidade de consumo; mesmo 
a Felicidade se curva diante do poder do dinheiro, mesmo os Anjos podem ser 
vitimados pelo egoísmo e ganância criados pelo consumismo.
Ao contrário de Felicidade e José dos Anjos, o viajante não tem a 
personalidade bem definida e os conflitos e sentimentos problematizados, não 
conhecemos seus sentimentos e pensamentos profundos, sequer sabemos seu 
nome. Chamá-lo de viajante reforça ainda mais sua condição instável, volúvel e 


superficial, como devem ser aqueles que só têm o dinheiro como cartão de visitas. 
Ao mesmo tempo, essa personalidade esvaziada reforça a beleza da humildade e 
simplicidade dos protagonistas.
Também podemos pensar do ponto de vista da mulher, a partir do conflito 
torturante que atormentava a pobre Felicidade, a bela moça que nunca se sentiu 
desejável até José dos Anjos abrir-lhe os olhos, e de repente ver-se linda e atraente, 
pintada com as cores do luxo e da vaidade, ver um mundo de possibilidades se 
abrindo diante de seus olhos presos aos limites de seu ranchinho, sentir seu corpo 
palpitar e desejar coisas que sequer sabia que existiam e ainda por cima ter um 
homem culto e rico a seus pés.
A tentação da felicidade plena, a possibilidade de elevar-se a níveis nunca 
antes pensados por ela, a possibilidade de ser mulher de uma forma que nunca 
imaginou tinha, porém, um preço: o sofrimento daquele que vivia para amá-la e 
fazê-la feliz. 
Diante disso, não conseguimos julgar friamente a atitude de Felicidade. 
Entramos em seu conflito, partilhamos suas indagações e sofremos com sua 
decisão final que levou ao trágico desfecho de José dos Anjos e nos deixou com a 
angústia de não saber o que foi feito da Felicidade.
Para quem está na cidade grande, sabemos que por aqui ela não passou.
Assim, como vemos nesta breve análise, a pobreza do ranchinho, a 
ignorância de Felicidade e José dos Anjos não são o tema, não precisam ser o 
tema desse belo conto. O texto não é apenas um grito dos oprimidos pela pena de 
Carolina. Ele pode ser apenas o fruto de uma mente criativa e talentosa que nos 
presenteou com uma obra repleta de lirismo e beleza. Para enxergarmos isso, só 
precisamos nos livrar das amarras (im)postas por uma crítica literária tacanha, 
classista e racista e apreciar nossos artistas negros e pobres como os artistas que 
são.



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