Miguel Madeira



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Série Mar Português: Um mar de palavras

03.10.2012 - 09:25 Por Luís Miguel Queirós


Há muitos mares na poesia portuguesa: o da viagem ou da epopeia marítima e outros mais circunscritos (Miguel Madeira)

Ao longo de séculos, os poetas portugueses cantaram o mar. Muitos mares: o mar afável das praias e dos banhistas, o mar duro da faina dos pescadores, ou ainda esse mar que levou os navegadores quinhentistas à descoberta de um novo mundo.

A poesia portuguesa é uma praia constantemente batida pelas ondas do mar. Foi-o sempre, desde os primeiros trovadores galaico-portugueses até aos poetas dos nossos dias. Há setecentos anos, o jogral galego Martim Codax perguntava, assumindo a voz de um sujeito poético feminino: "Ondas do mar de Vigo,/ se vistes meu amigo?/ e ai Deus, se verrá cedo?".

Mas já na poesia medieval este mar próximo, costeiro, quase doméstico, cúmplice dos amores do poeta - "Ai ondas, que eu vin veer,/se me saberedes dizer/ porque tarda meu amigo/ sem min?", escreve o mesmo Codax -, podia também representar perigo e constituir um obstáculo à consumação do desejo, como acontece na notável cantiga de amigo de Mendinho, que abre com os versos "Sedia-m"eu na ermida de Sam Simiom/ e cercarom-mi as ondas que grandes som (...)". A donzela que fala no poema receia que o amado não venha resgatá-la e que, incapaz de voltar a terra, esteja condenada a morrer virgem: "Nom ei i barqueiro nem sei remar/ e morrerei eu fremosa no alto mar./ Eu atendend"o meu amigu"... e verrá?".

O mar, e por extensão toda a água, teve sempre um simbolismo ambivalente: é origem, fecundidade, vida, mas também é distância, desastre, morte. A água, escreve António Ramos Rosa, "(...) é um móvel túmulo e um berço errante/ em que a vida e a morte se consumam unidas/ numa pátria de metamorfoses incessantes".

No tempo das Descobertas, mais do que em qualquer outro período da história portuguesa, essa ambivalência tornar-se-ia uma realidade quotidiana, uma vivência colectiva. O mar que nos levava a novos mundos era o mesmo que separava famílias, amigos, amantes. O mar que nos trazia especiarias e riquezas várias era também o mar dos sucessivos naufrágios, que Bernardo Gomes de Brito depois compilaria na sua muito justamente intitulada História Trágico-Marítima. "Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu", resume lapidarmente Fernando Pessoa no célebre dístico final do poema Mar Português.

Sendo Portugal um país pequeno com uma costa extensa - "O meu país é o que o mar não quer", diz um verso de Ruy Belo -, não surpreende que o mar esteja obsessivamente presente em inúmeros poetas de sucessivas gerações. Mas o mesmo se poderia dizer, por exemplo, da lírica inglesa, que nos deu alguns dos mais notáveis poemas sobre o mar da literatura ocidental. Ou da grega, desde logo com a Odisseia, protótipo de todas as epopeias marítimas.

Se algo distingue o modo como a poesia portuguesa, no seu todo, se relaciona com o mar, essa singularidade talvez decorra, antes de mais, da "intromissão" do facto histórico dos Descobrimentos, decisivo não apenas ao nível material, mas também de consequências duradouras no plano identitário e simbólico. Sem a aventura da expansão marítima, não haveria grande diferença entre o mar de Martim Codax e Mendinho e o mar de poetas do século XX, como Sophia de Mello Breyner Andresen ou Eugénio de Andrade. Assim, e embora se trate sempre do mesmo "mar imenso solitário e antigo" evocado num dos primeiros poemas de Sophia, talvez seja lícito falar, na poesia portuguesa, de um mar anterior aos Descobrimentos e de um mar posterior aos Descobrimentos. E ainda, como a expansão foi um processo, e não um mero instante no tempo, do mar dos próprios Descobrimentos. Que não é apenas, ou nem sequer principalmente, o mar dos autores contemporâneos da expansão marítima. É sobretudo um mar lido a posteriori, na ressaca dessa aventura que levou o país, como escreve Camões, a mostrar "novos mundos ao mundo".

Escritos num momento já sentido como crepuscular, com a pátria "metida/ No gosto da cobiça e na rudeza/ Duma austera, apagada e vil tristeza", Os Lusíadas serão a referência inescapável de toda a poesia que, ao longo dos séculos seguintes, irá evocar de múltiplos modos o período da expansão marítima. O peso da epopeia camoniana - quer no cânone literário, quer na própria definição da língua - é tão avassalador que se torna difícil perceber se essa centralidade do mar dos Descobrimentos na poesia portuguesa se deve mais ao facto histórico da expansão marítima, simbolizável na viagem de Vasco da Gama, ou ao poema que sublimemente a relatou.



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