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Entre o rigor e a frouxidão metodológica



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3. Entre o rigor e a frouxidão metodológica 

 

A ‘nova’ face do jornalista revela uma burocratização no trato com a informação, uma 



‘quebra’ no ‘instinto de repórter’ comumente associado a esses profissionais, uma ausência ou 

diminuição na produção original de conteúdos, uma dependência crescente e excessiva de 

material gestado em assessorias de comunicação, a pouca ou insuficiente investigação.  

 

Algo que tratamos como ‘jornalismo cordial’ (SANTANA, 2005), uma conceituação 



em constante processo de revisão e tomada de empréstimo do “homem cordial” (BUARQUE 

DE HOLANDA, 1995), mas que vislumbra uma atividade jornalística dissociada do conflito, 

do confronto com as fontes e com os discursos oficiais (sejam públicos ou privados), de 

repetição dos enunciados produzidos no interior das empresas e instituições (novamente, quer 

seja de caráter público ou privado), e da apuração como base de todo e qualquer produto 

noticioso. Cordialidade que não deve ser entendida como postura de submissão, e sim de 

acomodação e frouxidão dos laços éticos, bem como do enfraquecimento do método de 

investigação.  

 

A metáfora mais simples para retratar essa conceituação é a do ‘repórter sentado’, o 



jornalista que não traz das ruas os fatos que serão transformados em notícias, pois que eles já 

chegam com as próprias pernas às redações. 

 

O “cão rastreador”' (KUNCZIK, 2000) é visto cada vez menos nas redações, tem saído 



das universidades com menor freqüência e paulatinamente vem sendo substituído por um 

funcionário burocrático, acomodado e que beira a apatia, que não traz no repertório a vontade 




 

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e urgência em descobrir o novo, vasculhar os fatos – recônditos ou não – ou mesmo reportar 

os acontecimentos.    

 

Marcondes Filho (2000) chega mesmo a não duvidar da desintegração in praesentia 



do repórter. Tencionamos discutir se e de que modo essa, talvez, involução da prática 

jornalística - responsável pela substituição da matéria pelo release, da apuração na rua pela 

Internet, da entrevista pela pesquisa 'preguiçosa' no Google, da pauta pela 'sugestão de pauta' 

das assessorias, da postura incisiva e questionadora pela acomodação desmedida – está 

redesenhando o modo de se fazer jornalismo nos dias atuais. Mais: como associar o 

jornalismo realizado a esses moldes com o nosso conceito de referência?  

 

Saliente-se que essa acomodação não se refere apenas a um modo diverso de se 



realizar o jornalismo, e nem é fruto de uma suposta nostalgia a respeito do jornalismo de 

reportagem iniciado no Brasil com João do Rio (MEDINA, 1988), e sim deve ser entendida 

como uma forma completamente avessa a tudo que até o presente momento tem se 

convencionado mundialmente por jornalismo.  

 

Este trabalho parte com a hipótese de que o próprio dia-a-dia dos jornalistas e a 



dinâmica de trabalho - aliados à formação universitária, ao descompromisso e falta de zelo 

para com a informação por parte do jornalista, bem como ao pouco investimento das empresas 

na constante capacitação profissional e na qualidade de trabalho - estão dando origem à 

burocratização do jornalismo. Por sua vez, essa 'nova face' da profissão está criando um novo 

personagem: a persona do 'jornalista cordial', que tende a enfraquecer o caráter referencial 

ocupado pela atividade jornalística. 

 

A preocupação com o rigor do método já trouxe propósitos de aproximações do 



jornalismo com o fazer científico. Kunczik (2001, p.24) lembra que, destacadamente na 

Alemanha do século 19, os jornalistas apresentavam “a tendência de aplicar um enfoque e um 

método científico ao seu trabalho”, com a utilização dos termos “jornalista” e “doutor” com o 

mesmíssimo sentido.  

 



 

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Foi também a Alemanha palco de pelo menos três importantes estudos científicos 

sobre a atividade jornalística. Enquanto Peucer (1690), autor da primeira tese doutoral sobre o 

jornalismo, já pretendia uma teoria própria para o periodismo, Weber, em 1910, defendia um 

“estudo genuinamente científico” sobre a imprensa e Groth (data) levantava a bandeira de 

uma ciência dos jornais (Zeitungswissenschaft).  

 

Nos Estados Unidos, Robert Park, que havia atuado como jornalista profissional antes 



de embarcar para a carreira acadêmica como sociólogo e professor, desenvolve extensa 

pesquisa sobre o jornalismo (MACHADO, 2005), com destaque para a tese doutoral Crowd 



and Public, defendida em 1903, na Alemanha. Meyer (1973), com o seu “jornalismo de 

precisão”, advogava a prática de um jornalismo próximo à busca por exatidão encontrada nas 

ciências sociais, trazendo as técnicas estatísticas como auxiliares eficazes para uma apuração 

criteriosa. A reportagem com auxílio por computador (RAC) tem sido, desde a década de ’80,  

utilizada como forma de não apenas conseguir dados com mais facilidade, bem como 

importante no cruzamento de informações e conseqüente possibilidade de se encontrar 

recorrências que valham uma investigação.  

   


Para Rodrigo Alsina (2002), há que se reconhecer as limitações do sistema produtivo 

do qual a profissão/atividade/disciplina faz parte, uma vez que nem é propósito do jornalismo 

um método  tal qual o utilizado em teses científicas. 

 

Como Gomis (1987) entendemos que o jornalismo, antes de ciência, é sim um método 



de interpretação sucessiva da realidade social. Mesmo não defendendo o modus operandi 

científico como aplicável ao jornalismo – especialmente pelo fator tempo atuar como 

impeditivo ao método de comprovação e refutação de hipóteses -, acreditamos que a falta de 

rigor no método de apuração pode acarretar riscos altos e extremamente parecidos com os 

mesmos erros que vêm se repetindo há pelo menos três séculos de jornalismo - incorreções, 

marcas na reputação, destruição de carreiras, falácias -, quando se deixa a ética a segundo e 

terceiro planos no exercício do jornalismo. Uma ética que começa e termina por uma 

apuração criteriosa, avessa às “negligências na verificação das informações” (CORNU, 1998) 

 



 

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Antes de exigir a rigidez da ciência, preferimos defender a desconfiança como 

principal linha metodológica adotada na atividade, estratégia que Pena (2005, p.58) define não 

como pecado, mas “norma de sobrevivência”. A reportagem, trabalho que “pode ser tedioso, 

confuso, fisicamente sujo, cansativo, até perigoso”, na ferina descrição de Wolfe (2005, p.72), 

tem por base e princípio a apuração com rigor.  

 

E se não há rigor, certamente a qualidade da informação é comprometida



comprometendo também aquela que consideramos uma das funções centrais do Jornalismo, 

que é a pedagógica. As notícias devem ter a preocupação de contribuir para o entendimento 

do mundo da vida. Verón (1983) vê o jornalista como um “enunciador pedagógico”, que pré-

ordena o universo do discurso visando ao leitor, que procura orientar, responder-lhe às 

questões, em suma, informar, sempre guardando uma distância do objetivo dele. 

 

Essa função pedagógica é trabalhada diariamente pelos jornalistas na redação através 



de uma operação/construção que denominamos de didática (VIZEU, 2008), (VIZEU e 

CORREIA, 2008). É resultado de uma série de enquadramento culturais, das práticas sociais, 

da cultura profissional, dos constrangimentos organizacionais e do campo da linguagem que 

os jornalistas mobilizam para produzirem notícias. 

 

Vejamos um exemplo para deixar mais clara essa preocupação didática. Uma notícia 



de jornal, ao tratar de um exame que não é de conhecimento da maioria do público, terá que  

explicar o que pretende informar, como é ilustrado no excerto a seguir: “Os médicos ficaram 

surpresos com o resultado do exame que registra a atividade linfocitária de um paciente 




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