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A apuração jornalística como propulsora da função referencial



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2. A apuração jornalística como propulsora da função referencial 

 

Dentro desse contexto, o rigor do método da investigação jornalística é de 



fundamental importância. A apuração de informações no jornalismo, aos moldes de como 

ficou tradicionalmente conhecida, 

surge 

lado-a-lado com 



o recurso da entrevista 

pela imprensa popular. Um dos primeiros usos desse expediente em 'espaço nobre' de que se 

tem notícia foi a realizada por James Gordon Bennet, proprietário do New York Herald, em 

1836. A conversa com uma cafetina, publicada no veículo, mudou o rumo da investigação 

sobre o assassinato da prostituta Helen Jewett (Pereira Junior, 2006). Somente no final do 

século 18 é que a imprensa inglesa obteve o direito oficial de apurar, passando a assistir aos 

debates do Parlamento (Cornu, 1994). 

 

Wolfe (2006) ressalta que, mesmo na pouco distante década de '60 do século passado, 



nos EUA, ainda era raro a repórteres e colunistas saírem às ruas para apurar informações com 

as fontes. O Brasil, mesmo com a chegada da imprensa oficial em 1808, só viria efetivamente 

a contar com o trabalho jornalístico calcado nas entrevistas e na observação, com base na 

escola americana de produção noticiosa, após a segunda metade do século passado – e ainda 

assim não totalmente, como ressalta Lage (2001).  

 



 

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Contudo, o método de conversar com as pessoas e observar o cotidiano nas cidades já 

dava suas mostras em solo nacional no fin-de-siècle, especialmente através de João do Rio 

(pseudônimo de Paulo Barreto) e suas crônicas baseadas no comum das gentes e no 

andamento da vida na então capital brasileira.  

 

Ainda que relativamente recente no jornalismo, a apuração com foco na presença do 



repórter nos locais dos fatos e nas entrevistas, herança do periodismo norte-americano, faz 

parte do imaginário e do ideário em torno da atividade jornalística. E é justamente essa tarefa 

que faz surgir o repórter, figura que entra na história do jornalismo não antes do século 19, 

mas que marcou o jornalismo ocidental do final do século 19 e por todo o século 20.  

 

Lage (2001, p.16-17) lembra que a reportagem e o seu principal instrumento, o 



repórter, “colocou em primeiro plano novos problemas, como discernir o que é privado, de 

interesse individual, do que é público, de interesse coletivo; o que o Estado pode manter em 

sigilo e o que não pode”.  

 

Apesar de a apuração de informações ainda figurar como a base do jornalismo 



contemporâneo, fatores como a profusão de assessorias de imprensa, acesso mais facilitado a 

informações e redações enxutas, acabam sendo um ‘incentivo’ à redução da investigação e da 

pesquisa própria dentro dos jornais. (Santana, 2005). O rigor do método de investigação, 

força-motriz do lugar de referência ocupado pelo jornalismo, é enfraquecido, diminuindo, 

assim, também a própria legitimidade do campo. 

 

 



 

Incluímos, entre o rol de preocupações de um método de investigação criterioso, a 

preocupação com a contextualização. Desprezar o contexto no qual o fato está inserido 

poderia levar, em primeira instância, a dificuldades de compreensão do acontecimento. 

Contextualizar poderia ser classificado como colocar o máximo possível de peças no quebra-

cabeça noticioso, contribuindo para que o fato faça parte de uma história, e não visto de 

forma isolada do mundo que o cerca. A contribuição de se expor o contexto que envolve um 

fato continua a ter importância nas suítes noticiosas, as quais, não é raro, não inserem o 

leitor/público/audiência às explicações necessárias ao entendimento da seqüência dos 

acontecimentos. 




 

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Kunczik (2001, p.17) chega a afirmar que “o trabalho jornalístico genuíno, de 

investigação, de redação e de edição, praticamente já não existe na atualidade”. Não é 

incomum, em redações de veículos online atrelados a outras mídias do mesmo grupo, os 

repórteres da Web ‘aproveitarem’ o conteúdo da apuração realizada por jornalistas de 

impresso e audiovisual, especialmente no que tange às matérias factuais.  Machado (2003, 

p.30) ressalta que a redação do jornal digital, por não ter a necessidade de os jornalistas 

estarem nos locais onde ocorrem os fatos, “ocupa o lugar de um centro de gravidade para 

onde converge o fluxo de matérias enviadas pelos profissionais, colaboradores e usuários do 

sistema.” 

 

Essa redução da presença dos repórteres na rua caminha em descompasso com o 



estereótipo comumente associado aos ‘homens de notícia’ e a efetiva atuação desses 

profissionais, que vêm adotando uma persona que pode vir a explicar, em partes, esses passos 

em dissonância.   

 

De um lado, o senso comum que vincula o jornalista ao artífice da palavra que escava 



os fatos obscuros e escondidos, com vistas a trazê-los à superfície, ao ‘paladino’ da justiça, à 

figura que ocupa um papel social que faz valer a sua função de ‘divulgador’ para garantir o 

cumprimento das regras mais basilares do processo democrático, e de, por isso mesmo, 

funcionar como um fiscalizador dos poderes públicos e, ainda, moralizador da esfera privada.  

 

Essa visão, apesar de modificada e acrescida de características desde a solidificação da 



figura do jornalista no mundo ocidental, não teve alterações significativas, essenciais, ao 

longo dos últimos três séculos. Quer seja no seu caráter valorativamente negativo 

(intromissão, arrogância, simplismos e reduções, parcialidade velada) ou positivo (senso de 

justiça, fiscalização do poder público, catalisação das mudanças sociais, erudição), o fato é 

que o estereótipo do jornalista, especialmente o do repórter, tem se mantido relativamente 

estável ao longo dos últimos tempos.  

  

Em contrapartida, uma persona adquirida (mesmo que auto-rechaçada) por 



profissionais do jornalismo contemporâneo vem se distanciado, sobremaneira, do ainda 

vigente senso comum acerca do repórter. Por fatores diversos e causas ainda não 




 

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extensamente investigadas – deficiências infra-estruturais nas redações, corpo funcional 

enxuto, dificuldades no processo de formação educacional, facilidade no acesso remoto a 

fontes, profusão de informações ‘prontas’, ‘acabadas’, produzidas por estratégias da tríade de 

assessorias de imprensa, marketing e relações públicas, descaso ou raquitismo com as técnicas 

de apurações, barreiras editoriais, influência das limitações editoriais (interesses político-

econômicos) entre outros constrangimentos -, uma parcela significativa dos jornalistas dos 

dias atuais pode se encaixar numa categoria dissonante da tradicional.  






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