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partir desta mudança até o Golpe de 1964



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partir desta mudança até o Golpe de 1964. 
 
 
3.8. O fim da JEC como movimento social: um conflito da hierarquia contra o laicato 
 
 
 
Um longo conflito de idéias se deu entre os dirigentes jecistas e a hierarquia até a 
tomada de decisão por parte da última de pôr fim às Equipes Nacionais. Durante este 
conflito a JEC não parou de se envolver com a política estudantil (sinalizando que aceitava 
o pedido da hierarquia para se envolver apenas com os projetos de evangelização) nem de 
                                                 
241
 Temos que lembrar que todo o ano milhares de jovens em idade apropriada entravam no movimento por 
convite de colegas, pais, professores ou até por influência de colegas. No período de 1962 a 1966 este 
movimento de renovação continuou existindo, ainda que os novos membros da JEC nestes anos tivessem de 
conviver com uma proposta de politização do meio já bem avançada. 


elaborar planos de ação social e aumentar a sua influência em várias instituições 
supracolegiais. 
 
Já a hierarquia estava dividida, como veremos entre o apoio desta “nova JEC” e a 
volta a um projeto bem menos ambicioso no sentido da ação, como era feito anteriormente. 
Mas com a eleição para os cargos diretivos da CNBB feita em pleno Concílio Vaticano II, a 
balança pendera para um lado da hierarquia que via com muito menos simpatia estas 
iniciativas da JEC. 
 
A hierarquia sempre pedira explicações sobre o que acontecia no movimento, como 
vimos e veremos a seguir, mas podemos chamar de inquisição o processo que se realizou a 
partir de 1962 com a opção da JEC pelo envolvimento com o meio estudantil e social. 
Inquisição no sentido de inquirir, perguntar freqüentemente como não era feito antes, para 
onde o movimento estava sendo levado. Lembremos do caráter anticomunista 
predominante da instituição ICAR no século XX. 
 
 
3.8.1. O projeto da hierarquia para os leigos - diretrizes 
 
 
 
Frente ao envolvimento dos seus dois principais movimentos jovens com a política 
estudantil e o meio social, a hierarquia lança já em1961 as diretrizes de ação para a JUC (o 
que também serviu de exemplo de diretrizes de ação para outros movimentos da ACB, 
como a JEC e JOC).
242
 
 
É importante salientar que o que se pede a JUC não é o fim de suas ações no meio 
estudantil e sim a adequação do discurso dos jovens ao discurso da hierarquia e um pedido 
de respeito aos estatutos no que oca às pessoas que fazem parte das ações. 
 
Ainda no mesmo ano o Assistente Frei Romeu Dale, um dos maiores pensadores da 
ACB e autor do único manual sobre a JEC escrito até hoje, fez um extenso relatório 
confidencial a pedido de Dom Helder Câmara sobre a situação da JUC e endereçado a 
ele.
243
 Segundo Dale “a equipe nacional tomando consciência mais viva da importância e 
                                                 
242
 Veja os anexos nº 3 a, 3b, 3c e 3d contendo as diretrizes de ação para a JUC e, conseqüentemente, se 
constituía em uma espécie de “aviso” para os outros movimentos da ACB. 
243
 DALE, Frei Romeu. Relatório sobre a situação da JEC. Rio de Janeiro, 02/08/1961, 6 p.  


da urgência da ação política, achou que deve estimular os seus dirigentes e militantes a uma 
ação sistemática e coordenada no plano da militância política estudantil... visando mesmo a 
ocupar os cargos políticos do meio estudantil e a própria UNE” (DALE, 02/08/1961, p. 1). 
 
Frei Romeu Dale acredita na boa vontade dos jovens, crendo que no plano doutrinal, 
muitos jovens fazem uma confusão entre o que é e o que não é o pensamento da Igreja, 
sugerindo que a hierarquia tome providências no sentido de educar os jovens.
244
 
Provavelmente, em função da idade dos jovens, a “culpa” do surgimento de idéia marxistas 
no movimento é dos adultos e sacerdotes que insuflam-nas no movimento. Frei Dale relata 
a Dom Helder para o problema do “mal entendimento” da encíclica Mater et Magistra ser 
mal interpretada pelos jovens como que sustentando uma posição pró-comunista pela 
ICAR, quando na verdade esta prega uma superação do liberalismo
245
. Mas Dale vê no 
interesse dos jovens pela política estudantil como uma oportunidade de “liquidar com a 
influência preponderante da UJC nas cúpulas da política universitária”.
246
 Ele ainda 
acredita que desautorizar a JUC a atuar no meio estudantil naquele ano e no momento em 
que a JUC estava bem preparada para vencer as eleições da UNE naquele ano seria um ato 
a favor da UJC socialista, e um contra-senso.
247
 
 
Ou seja, possivelmente podemos explicar por que a hierarquia da CNBB pré-1964 
não agira sobre os movimentos da ACB ligados à política estudantil os desautorizando: por 
que era interessante que a ICAR tivesse uma representatividade neste âmbito, apesar da 
hierarquia na ter pedido por isso. E apesar de em termos doutrinários os jovens da JUC (e 
da JEC e da JOC) não a “entenderem” perfeitamente (ou eles entendiam e estavam 
propondo algo diferente?), ainda assim estavam agindo de certa maneira dentro do 
movimento ultramontano. 
 
Preocupados com a questão doutrinária a hierarquia organizou nos anos seguintes 
encontros com os assistentes e as Equipes Nacionais de todos os movimentos da ACE para 
tratar desta questão, reafirmando a visão da ICAR (veja os anexos nº 4
 
a, 4b, 4c).  
                                                 
244
 Idem, p. 1-2. 
245
 Idem, p. 2. 
246
 Idem. 
247
 Idem, p. 4-5. 


 
No entanto, como já vimos, nem isso impediu que alguns “excessos” fossem 
cometidos, e já conhecemos o fim da JEC e da JUC como movimentos com coordenações 
nacionais. 
 
Ainda que uma parte da hierarquia visse com bons olhos a iniciativa política dos 
movimentos especializados, não havia comentários dos sacerdotes sem uma crítica negativa 
a algum ponto, freqüentemente o doutrinário. A insistência destes movimentos (e 
principalmente, no nosso caso, a JEC) em prosseguir nesta linha de ação sem se preocupar 
com a hierarquia teria conseqüências graves.
248
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                 
248
 Para uma crítica da hierarquia aos movimentos da ACE leia DIDONET, Dom Frederico. Luzes e Sombras 
nos Movimentos Especializados. In: Revista Eclesiástica Brasileira. Petrópolis: Editora Vozes, 
setembro/1964.Também veja SECRETARIADO NACIONAL DA ACB. Documento Base – sentido, linha de 
ação e método dos movimentos especializados. Rio de Janeiro: Livraria DOM BOSCO Editora, 1964, 32 p. 
Para uma defesa da JEC como movimento social, leia o Boletim Nacional da JEC, ano 3, nº 11, Rio de 
Janeiro: Livraria DOM BOSCO, 1964; também a Síntese da Experiência atual da Ação Católica 
Especializada como Movimento de Leigos para a Evangelização no Brasil, Rio de Janeiro: mimeo, 06/1966, 
escrita pela Equipe Nacional da JUC; também a Carta ao Conselho nº 3 –março 1966, escrita pela Equipe 
Nacional da JEC e por último um documento chamado Bases para uma reflexão do movimento –maio 1966 
escrito pela Equipe Nacional da JEC e endereçado às Equipes Regionais como base de reflexão da 
experiência da JEC até 1966. 


 
 
 
 
 
CONCLUSÃO 
 
 
 
 
 
 
Através do estudo da história da JEC no Brasil podemos ver que pouca atenção se 
deu a este objeto, sempre sendo ligado a ACB e pouca se vendo sobre as realizações da JEC 
como movimento. A JEC foi um espaço aberto a jovens de todas as faixas sociais para que 
se tornassem uma elite católica a serviço da hierarquia. Elementos altamente treinados e 
subordinados aos seus assistentes que tinham a missão de evangelizar e se aperfeiçoarem 
como seres humanos em uma sociedade em movimento, de acordo com a Doutrina 
Católica. 
 
Por meio de uma abordagem interdisciplinar, tentamos mostrar: 1) o valor da JEC 
como formadora dos primeiros leigos engajados na faixa etária do ensino secundarista 
brasileiro; 2) a JEC enquanto movimento social, que, propondo um novo tipo de liderança 
no meio secundarista, tentou trazer uma abordagem cristã ao meio político estudantil 
secundarista, junto com a JUC, apesar de estar estruturalmente ligada à ICAR. 
 
A JEC fora um movimento que ultrapassou a proposta de movimento institucional, 
criando um movimento preocupado com a questão social e política da sociedade. Os 
dirigentes da JEC usaram da estrutura da ICAR a partir de 1962 para outras finalidades, 
fora do movimento ultramontano, criando um movimento novo, com novas direções. 
 
A partir da análise da documentação exposta, chegamos às seguintes conclusões: 
 
•  A ACB surgira em um contexto de mudança estrutural da ICAR e de reajuste a uma 
nova realidade com o fim do padroado. Inserida dentro do projeto ultramontano a 
ICAR, dentro de seu projeto de romanização adota a ACB por todo o Brasil com 


uma adaptação difícil, mas que aos poucos vai tendo sucesso na medida em que a 
sua influência sobre as instituições e “meios” onde os seus membros leigos atuam se 
alargam. Esses mesmos leigos surgem pela primeira vez como trabalhadores no 
serviço evangélico a serviço e a mando da hierarquia, conforme mostramos nos 
estatutos da ACB; 
 
•  A ACB na década de 1930-40 foi uma instituição que aprendeu que seria 
interessante adaptar-se à realidade brasileira. Continuando ACB ela ainda estaria 
dentro do movimento ultramontano se adaptando de acordo com o modelo de AC 
proposto pelo Cardeal Cardjin: o modelo belga e francês admitia que os 
movimentos deveriam se dividir na AC de acordo com o meio em que atuavam, e se 
dividiram de acordo com os estatutos de 1946 e 1950; 
 
•  A JEC foi um movimento (dividido entre JECF e JECM) que após a reforma dos 
Estatutos da ACB em 1946 fora se aproximando cada vez mais do seu “meio” 
específico, o meio estudantil. A relação da JEC com o meio determinou o 
aprofundamento de certas questões concernentes à realidade social do Brasil que 
impulsionou seus dirigentes a mudanças na maneira como viam a JEC como 
movimento dentro da ICAR; 
 
•  A estrutura interna da JEC propiciava aos seus militantes exercitarem uma 
liderança através de trabalhos em grupo e execução de ações e programas feitos por 
eles mesmos com a ajuda de sacerdotes. Esta dinâmica de ação fazia com que a JEC 
fosse um movimento que se diferenciava de uma simples associação, na medida em 
que os seus membros primavam pela liderança e ação conjunta. As atividades dos 
programas eram feitas em grupo e a busca do lado espiritual, apesar de muitas vezes 
vir do grupo, era uma opção bem pessoal do jecista. Portanto, a JEC, como em uma 
empresa ou um partido, era um movimento que dava aos jovens a oportunidade de 
liderar ações e exercitar essa liderança, apesar destas ações serem supervisionadas 
por sacerdotes, já que a JEC era um movimento da ACB e a ACB era o laicato a 
serviço da hierarquia; 


 
•  Segundo a nossa abordagem, além da história do movimento, analisamos também 
sobre a ótica da Teoria das Oportunidades Políticas como o movimento se formou e 
o que possibilitou a mudança em seu caráter de movimento institucional para 
movimento social. Segundo esta abordagem, a JEC principiara suas atividades nas 
décadas de 1930-40 dentro de um marco referencial influenciado pelo 
ultramontanismo e dentro da estratégia de romanização da ICAR, utilizando-se de 
método próprio: o método do Ver-Julgar-Agir; 
 
•  A oportunidade política que fizera a JEC existir enquanto movimento fora a 
abertura dos governos brasileiros das décadas mencionadas à influência da 
hierarquia que soube utilizar-se de mecanismos de pressão, como a Liga Eleitoral 
Católica para tanto. Da mesma forma a oportunidade surgida com o fim do 
padroado e o projeto ultramontano da ICAR; 
 
•  As estruturas de mobilização da JEC foram mudando com o tempo, mas 
destacamos as suas publicações, as campanhas estudantis, os seus propagandistas 
permanentes e a sua estrutura interna formada por todas as suas instâncias, desde o 
nível colegial (Equipes de Base) até a Equipe Nacional; 
 
 
•  E por fim, o marco referencial da JEC fora o aspecto da nossa abordagem que mais 
mudara com o tempo e um dos principais motivos apontados para a mudança de 
caráter do movimento: notamos que ao longo da década de 1950 a Equipe Nacional 
da JEC fora se distanciando do movimento ultramontano e se aproximando cada vez 
mais da política estudantil e elaborando sua própria visão de mundo e dos 
problemas da realidade brasileira como a pobreza e o analfabetismo. Mostramos que 
o Humanismo Cristão (de Maritain), o Personalismo (de Mounier) e o Materialismo 
Histórico (de Marx) influenciaram alguns dirigentes tanto da JUC quanto da JEC 
que não conseguiram se manter neutros perante estas idéias. Para estes, era um 
dever dos cristãos ir além do projeto de evangelização proposto pela hierarquia, pois 


o país vivia um momento em que a ICAR poderia dar uma contribuição maior como 
instituição organizada do que apenas no plano religioso. A idéia era que se poderia 
construir um mundo melhor (um Paraíso na Terra) no tempo presente. E os agentes 
desta ação seriam os mesmos que antes apenas evangelizavam. E para isso a JEC 
deveria fazer um trabalho mais intenso de conhecimento do seu meio e partir para a 
politização do meio estudantil; 
 
•  Em 1962, com a Campanha de politização do meio estudantil, a JEC se colocava na 
vanguarda dos movimentos da ICAR. Não só elaborara um plano próprio de ação 
(ainda que profundamente cristão e destinado ao bem comum), mas se distanciara 
com isso da sua natureza de movimento como a ACE: a Equipe Nacional 


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