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parte do governo
211

                                                 
208
 SECRETARIADO DO APOSTOLADO DOS LEIGOS. Circular. Brasília: mimeo, 26/03/1962, p. 1. 
209
 No Boletim Nacional da JEC, nº 2, 1962, p. 10, sobre a campanha de popularização da Encíclica Mater et 
Magistra, lemos: “a atuação da JEC na Campanha foi intensa; houve pichação nas ruas de quase todos os 
bairros de São Paulo. Concentrações nos bairros, uma atuação total de todas as zonas, palestras nos colégios 
católicos para o estudo da M.M. Noites sociais em alguns bairros. Folhetos de todos os tipos. Explicando a 
M.M. a Oração Social, foram distribuídos nas Zonas. Faixas foram pregadas nas zonas e nas ruas principais 
da cidade”. 
210
 No Boletim Nacional da JEC, nº 7, 1963, p. 14, lemos: “O Grupo de Trabalho de Política Estudantil, 
dirigido pelos jecistas Paulo Luiz Vieira e Waldemar Bastos Cunha, está funcionando no Rio no sentido de 
coordenar as atividades de militantes jecistas na política estudantil. Escrevam narrando as novidades”. Há 
poucos registros das regiões que mandaram correspondências ao Grupo de Trabalho, mas as correspondências 
existentes nos mostram um crescente envolvimento da JEC com o meio estudantil chegando com algumas 
regiões a terem representantes na UBES e na UNE e, em alguns casos, presidentes destes diretórios. 
211
 Em um documento intitulado Carta à Equipe Nacional (03/04/1965,  p. 1) escrito pela Equipe Regional 
Sul, os dirigentes externavam que “também já estamos pensando numa publicação para assistentes e 
militantes sôbre Pastoral Estudantil...está sendo bolada a nossa ‘Carta aos Conselhos Nacionais de JECM e 
JECF... nela vamos falar um pouco das nossas experiências: realização dos Conselhos Regionais, união das 
equipes masculina e feminina, e algo sôbre o serviço de coordenação”. Vê-se aí  


 
Em uma carta ao Conselho Nacional da JEC escrita pela Equipe nacional
212
 a 
Equipe se mostra preocupada com o que parece o fim iminente do movimento como era 
conhecido: 
Na reunião da Comissão Central da CNBB D. Vicente Sherer 
propõe a redução das equipes nacionais com o fim de fortalecer 
mais os regionais, encarregando-o a comissão central do estudo do 
assunto, juntamente conosco. Como d. Vicente já tinha de voltar 
para o Brasil, encarregou D. Edmundo, seu auxiliar na Diocese de 
Porto Alegre, de representa-lo em uma outra reunião que haveria 
sôbre a Ação Católica e, passando pelo Rio, em contato com as 
equipes nacionais, coloca como deliberado o problema da redução 
dos nacionais, que a seu ver deveria constar apenas de um 
elemento de cada movimento, um assistente e essa equipe ligada 
diretamente à CNBB (1966, p. 1) 
 
Em 1966 a CNBB com uma coordenação nova e que desde 1964 via a JEC com 
outros olhos e com certa preocupação. Em 1966 a CNBB decide pela “descentralização” da 
JEC e dos outros movimentos da ACB especializada, ainda que movimentos como a JEC e 
JIC não estivessem no mesmo nível de envolvimento político como a JEC e a JUC. Na 
iminência desta decisão já era sabido que a estrutura do movimento seria mudada, o que 
afetaria a JEC como um todo. Em uma carta às Equipes regionais os membros do Conselho 
Nacional da JEC expunham sua preocupação com o movimento
213

Estivemos neste primeiro semestre, envolvidos em uma 
problemática interna da Igreja. Problemática, aliás, não procurada 
por nós, mas que exigia uma definição de nossa parte. Preocupados 
em não prejudicar com isso a própria coordenação e a reflexão 
interna do movimento, demos, em conjunto com todo o Conselho 
Nacional da ACE, os passos necessários, procurando interpretar da 
melhor maneira o pensamento do Conselho... Soubemos que na 
reunião da Comissão Central ficou votada a “descentralização” da 
Ac e a transferência da maior responsabilidade de coordenação aos 
Regionais em ligação com os Regionais da CNBB... Ficou claro 
também, por afirmação textual de Dom Vicente, que o problema 
todo é com JEC e JUC. Chegou mesmo a querer uma decisão 
diferente a nós e quanto aos outros setores. Mas, como no último 
documento afirmávamos comum experiência, foi tomada uma 
única decisão. (CONSELHO NACIONAL DA JEC , 1996, p. 1) 
 
                                                 
212
 Carta ao conselho nº 3. Rio de Janeiro: mimeo. Março/1966. 
213
 CONSELHO NACIONAL DA JEC. Carta às Equipes Regionais, 01/07/1966, 2 p.. 


 
Se lembrarmos que uma nova Equipe nacional era eleita todo o ano, podemos crer 
que a intenção dos autores quando diziam que a problemática não “fora procurada por nós” 
pode estar correta. No entanto, mesmo que estes não tivessem envolvimento desde o início 
de 1966 com a política estudantil (e, no entanto, estiveram) acabaram pagando por mais de 
três anos de envolvimento das Equipes anteriores e de atritos com a hierarquia. Além disso, 
e mais importante, a hierarquia, que tem o poder de decisão de mudança estrutural segundo 
os estatutos, acaba por transferir a responsabilidade da coordenação das Equipes de Base 
para as Equipes regionais subordinadas à CNBB e aos bispos locais. Ora, neste momento a 
hierarquia finalmente acaba com o vazio existente na falta de sacerdotes junto às Equipes 
nacionais, mas também tira das Equipes regionais a capacidade de agirem sós, e acabando 
com a liberdade de ação do movimento. 
 
Com a estrutura do movimento mudada, também a hierarquia sinaliza para o 
governo militar brasileiro um maior controle sobre os jovens “rebeldes” e sinaliza para os 
jovens da ACE que uma fase da história dos leigos na Igreja do Brasil havia acabado. Já 
que o apoio financeiro ao movimento passaria também a vir das arquidioceses, as 
publicações da JEC começariam a escassear, o que diminuiria consideravelmente a 
capacidade de mobilização do movimento. 
 
Descontentes, muitos jovens da JEC e JUC simplesmente abandonaram o 
movimento ou se juntaram a grupos como a AP. Incapazes de aceitarem suas experiências 
com a política estudantil como negativas, a separação foi muitas vezes a única resposta. O 
ano nem havia acabado e a Equipe Nacional da JUC, por exemplo, já nem se considerava 
mais ACE
214

 
No famoso Documento de Juiz de Fora
215
 escrito pela Equipe Nacional e dirigida às 
Equipes Regionais, a Equipe Nacional publica a sua decisão frente ao fim do movimento: 
                                                 
214
 Em um documento intitulado Circular da Equipe nacional a todos os militantes. Rio de Janeiro: mimeo, 
11/08/1966, 2 p. a Equipe Nacional deixava claro que “... não nos reconhecemos como Ação Católica ou 
qualquer forma de organização que se defina como extensão do Apostolado Hierárquico, mas nos propomos a 
assumir nossa missão de cristãos, homens do mundo, engajados e comprometidos numa vivência teologal, e é 
em função desta missão que o movimento se organiza” (Idem, p. 2). Ao se negarem a voltar para as suas 
Equipes Regionais e tentar continuar o seu trabalho nesse nível a Equipe Nacional da JUC parece usar de sua 
saída para atacar também a hierarquia, discordando da atitude tomada por esta última em 1966. Essa Equipe 
não anuncia o fim de suas atividades como cristãos, mostrando que acreditavam na proposta que criaram para 
a JUC, apenas se apartando de qualquer representatividade como apóstolos leigos. 
215
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. Documento de Juiz de Fora. Juiz de Fora: mimeo, 04/12/1966,  10 p. 
Neste documento a Equipe Nacional da JEC realiza um esforço de compreensão histórica da JEC 
apresentando como ênfase a opção pela política estudantil no fim da década de 1950 e as conseqüências para 


Ante os dois impasses (interno e com relação à hierarquia) tornou-
se claro e evidente para nós a impossibilidade de uma definição “de 
movimento”. É por isso que nos pareceu como melhor solução 
DESLIGARMO-NOS DO MOVIMENTO e tentar, dentro de tôdas 
as limitações, refletir junto com a faixa dos militantes engajados, 
dando continuidade e acentuando a busca que... já iniciávamos... 
Não nos recusamos a dialogar com os quadros institucionais da 
Igreja, no Brasil e muito menos queremos considerar-nos fora da 
Igreja que, pela fé, sabemos ser também institucional.
216
  
 
 
Da mesma forma que a Equipe Nacional da JUC a Equipe Nacional da JEC se 
desliga da ACE antes de terminar o ano. É também um recado à hierarquia: não podemos 
continuar o que fazíamos antes até por que a nova Equipe não poderá continuar o nosso 
trabalho. 
Mas existiam muitas diferenças entre as equipes da JUC e JEC. No mesmo 
documento os membros da Equipe Nacional perguntavam aos “militantes” do movimento, 
àqueles que se dedicavam como eles à política estudantil quais as opções existentes? Eles 
mesmos apresentavam três. As duas primeiras seriam relativas a permanecer na Igreja 
continuando ou não os trabalhos da JEC ou “Há uma terceira possibilidade: a de se formar 
grupos ecumênicos com a preocupação de uma abertura maior, com uma visão mais 
totalizada ou globalizada da Igreja”.
217
 
Esta terceira proposta, em se tratando de um movimento tão integrado na instituição 
ICAR, parece tão radical que nos intriga. Na verdade, nem parece vinda de um movimento 
católico. Mas se formos analisar melhor, veremos que ela se encaixa perfeitamente em uma 
proposta de movimento social, que precisando aumentar suas forças, faz alianças com 
outros movimentos ou associações ainda que diferentes de sua natureza, mas que tenham 
um mesmo propósito. Nos parece um posicionamento bem parecido com o movimento de 
Diretas-Já da década de 1980 que unira pessoas de classes bem distintas e também partidos 
distintos a favor das eleições diretas, por exemplo. 
O fato é que a JEC entre 1962 e 1966 passou a ter uma estrutura de mobilização um 
pouco diferente da do período até 1958: a continuação e ampliação das publicações, a 
                                                                                                                                                     
o movimento dessa escolha, incluindo uma reflexão sobre o fim da própria Equipe Nacional e o futuro de seus 
membros. 
216
 Idem, p. 9. 
217
 Idem, p. 10. 


criação do propagandista permanente, a criação do Grupo de Política Estudantil, a criação 
da Comissão JEC-JUC e a unificação das equipes nacionais da JEC e JECF deram suporte a 
uma mudança da JEC para ser um movimento social atuante, ainda que estatutariamente a 
JEC fosse dependente da hierarquia para a continuação dos seus trabalhos. 
A JEC também tinha uma representação dentro da estrutura latino-americana da 
AC. Participavam em 1966 do Secretariado Latino Americano da JEC (SLA) os seguintes 
países: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia. Em 1966 o SLA 
encaminhava-se para se definir quanto ao tipo de coordenação que teria e suas motivações e 
objetivos, mas a JEC do Brasil pouco participou destas ações já que o SLA se reuniu 
apenas duas vezes naquele ano: uma no primeiro semestre e outra no segundo, quando a 
CNBB já havia se decidido pelo fim das Equipes Nacionais. Como eram estas que 
representavam o Brasil no SLA, ficara comprometida a participação da JEC do Brasil nesta 
instituição. 
Mas o SLA teria uma grande importância da coordenação das ações da JEC na 
América Latina na década seguinte, coordenando eventos e propondo linhas de ação 
voltadas para o meio estudantil, idéia que fora muito defendida pelos jecistas brasileiros no 
início de 1966.
218
 
Em 1966 a hierarquia usou o seu poder estatutário para mudar esta situação. A JEC 
fora diminuída em seu tamanho, e as Equipes Nacionais foram demitidas, sendo permitido 
apenas as coordenações em nível regional e ligadas aos bispos locais e a CNBB. Ou seja, o 
movimento estava praticamente proibido de se organizar novamente em nível nacional e 
aos poucos o envolvimento com a política estudantil fora deixado de lado pelas Equipes 
Regionais, agora responsáveis maiores pelo movimento em cada uma das cinco regiões do 
Brasil em que a JEC estava presente. 
 
 
3.6. Os marcos referenciais do movimento de 1958 a 1966 
                                                 
218
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. Reunião do comitê Latino Americano. Rio de Janeiro: mimeo, 1966, 3 p. 
Neste documento a Equipe Nacional expõe às Equipes Regionais as dificuldades de coordenação do SLA da 
JEC frente aos problemas de uma falta de coordenação sacerdotal e de falta de permanentes para o SLA. 
Interessante que a mesma equipe da JEC brasileira já defendia uma “uma possibilidade de se chegar a uma 
autonomia de coordenação de seus movimentos” (p. 1), possivelmente prevendo um possível fim do 
movimento no Brasil. 


 
 
 
 
Como vimos anteriormente, a introdução do pensamento de Maritain, Marx e 
Mounier foram importantes na JEC, pois trouxe o debate político que estava em uma esfera 
de partidos políticos e faculdades para dentro da ICAR. O resultado deste debate nós 
podemos ver nos conteúdos das publicações do movimento, que passam a ter um conteúdo 
mais crítico frente à hierarquia, à política estudantil, ao meio secundarista, a realidade 
brasileira e outros temas. 
 
Seus marcos referenciais continuavam os mesmos explicitados anteriormente, mas 
com uma tendência em negar as atividades somente evangelizadoras partindo para a ação 
em termos práticos, procurando criar o Reino de Deus ainda na Terra, típico do humanismo 
cristão de Maritain. 
 
A estratégia de ação do movimento também muda: não é apenas necessário 
evangelizar o meio, mas sim também fazer a sua parte enquanto estudante para que o meio 
mude, e para melhor. Ou seja, o debate não é mais tanto sobre quais métodos seriam usados 
para trazer os jovens ao movimento, e, portanto, à Igreja, mas também de como o 
movimento pode mudar o Brasil. 
 
É uma mudança significativa, pois transcende o papel reservado ao leigo na 
instituição. Na verdade, será considerada uma afronta a instituição já que aos poucos haverá 
um distanciamento entre o temporal e o espiritual que se tornará irreconciliável. O 
ultramontanismo é deixado de lado, bem como o plano de romanização até por que as 
equipes nacionais da JEC sequer mencionam em seus planos a Doutrina Social da Igreja 
como base de ação, como veremos. 
 
Uma estratégia proposta pela JUC em 1961 e adotada fortemente pela JEC (talvez 
pela influência do grupo JEC-JUC formado no ano seguinte) era a ocupação sistemática de 
cargos políticos. Segundo o Frei Romeu Dale (1961, p. 1):  
A equipe nacional tomando consciência mais viva da importância e 
da urgência da ação política, achou que devia estimular os seus 
dirigentes e militantes a uma ação sistemática e coordenada no 
plano da militância política estudantil desde qu para isso se 
sentissem com gosto e aptidões. Visando mesmo a ocupar cargos 
políticos do meio estudantil, e a própria UNE. 
 


 
Neste documento escrito pelo Pe. Romeu Dale este expunha a Dom Hélder Câmara 
a sua preocupação com os rumos da JUC e da ACB Especializada. O mesmo documento na 
mesma página ainda aponta para uma mudança da proposta da JUC “de maneira orgânica, 
para a dimensão social do catolicismo, de um modo bastante vigoroso”. Ora, o marco 
referencial da JUC, e logo após também a da JEC por tendência, mostra que está sendo 
mudado em seu objetivo e estratégia: os militantes tem a liberdade agora de dedicar-se 
também à ocupação de cargos políticos desde que se sintam capazes disso em detrimento 
dos trabalhos de evangelização. 
 
Enquanto o método Ver-Julgar-Agir foi usado como estratégia de mobilização dos 
militantes ele dividia opiniões. Depois ele fora substituído pelo método da Revisão de Vida. 
No entanto, o método servia como sugestão de trabalho para o tema que iria dominar os 
assuntos a partir de 1962: a política estudantil. Já em 1959 a Equipe Regional Sul pedia aos 
seus militantes (através de correspondência)
219
 que usassem o método para se perguntarem: 
Como é o meio estudantil em sua cidade: no colégio- no bairro-? 
Há organizações estudantil (clubes recreativos, culturais, etc. de 
estudantes) ?- há política estudantil? Qual tem sido o trabalho da 
JEC nos diversos setores?-Fizeram campanha da Páscoa? –Semana 
do Estudante?Quais os resultados para o meio? E para a JEC? 
Pontos positivos e negativos das duas campanhas.
220
 
 
O método Ver-Julgar-Agir próprio do movimento e base de sua identidade frente a 
hierarquia e a outros movimentos da ACB ia sendo cada vez mais esquecido e não ensinado 
para as equipes de base nos colégios. Em um documento elaborado pela Equipe nacional da 
JEC e enviado às equipes regionais e federativas
221
 fica patente que o método próprio da 
JEC estava sendo esquecido e substituído por uma nova estratégia: 
Aos poucos êle (o método Ver-Julgar-Agir ) foi deixando de ser 
utilizado, afirmando-se que na prátca as três fases confundiam-se. 
Nesta época que estamos analisando, ele parecia citado nas 
publicações como esquema de elaboração de estudos. Na Equipe 
de Base não era utilizado... Não parando numa reflexão profunda o 
militante deixava de aproveitar todos os elementos vividos na sua 
ação. Tanto no aspecto de sua educação pessoal como no de sua 
                                                 
219
 EQUIPE REGIONAL SUL. PREPARANDO O III ENCONTRO REGIONAL DA JEC. São Paulo: mimeo, 
01/1959, 1 p. 
220
 Idem. 
221
 SECRETARIADO NACIONAL DA JEC. Sinopse da Visão Histórica do movimento. Rio de Janeiro: 
mimeo, junho/1964, p. 8. 


santificação, o que também criou um certo dualismo entre 
espiritualidade e engajamento. 
 
 
 
O método que substituiria o Ver-Julgar-Agir estava adaptado à nova proposta de 
ação jecista. A Revisão de vida era também composto de três passos e levava o militante a 
pensar concretamente na ação e de certa maneira, “desviava” a atenção do militante para o 
seu 3º item: 
A Revisão de Vida vem a ser o esforço de reflexão, em equipe, 
para descobrir, nos fatos da vida, os apelos de Deus. Processa-se 
naturalmente em três etapas: 
1-  analisa-se determinando fato concreto da vida (individual ou 
coletivo) numa visão de unidade e objetivando a universalização 
pela comunicação das consciências a que conduzir a vida de 
Equipe; 
2-  reflete-se nos sinais de Graça e nos de pecado (valores e contra 
valôres) apontados nêste determinado fato concreto nos quais o 
militante facilmente identifica seu momento de conversão para a 
realidade e para Deus; 
3-  confronta-se o militante diante de sua missão de cristão no 
mundo, e em face aos apelos de Deus que a Revisão de Vida lhe 
apresenta, a sua resposta se exprime na dinamização da Caridade 
que o engajamento do “aqui’ e “agora” está a exigir dele, da equipe 
e do meio (Idem, p. 11). 
 
Da mesma forma o ultramontanismo é deixado de lado Apesar da boa intenção de 
alguns dirigentes da JEC deixarem claro que o seu interesse pela transformação da 
realidade brasileira através da mobilização do meio estudantil e da ocupação de cargos no 
meio estudantil seja em prol do bem comum, isso não tem nada a ver com a proposta 
ultramontana da ACB de seguimento papal e de interiorização da fé. Na verdade é o 
movimento oposto de descoberta dos problemas através da Revisão de Vida e ação em 
grupo independente da vontade da hierarquia e em total liberdade. 
 
 
3.6.1 . Estratégias de ação da JEC no meio estudantil 
 
 


 
Não poderíamos falar da JEC como movimento social sem falarmos de como o 
movimento pretendia transformar o meio estudantil e o mundo. Desta forma vamos tratar 
um pouco das estratégias utilizadas pelos jecistas para chegarem às coordenações das 
entidades estudantis e do comportamento do militante nestas. 
 
Com a criação do Grupo de Política Estudantil em 1962 a JEC cuidava da 
estruturação das suas estratégias de grupo e delegava a responsabilidade da sua criação a 
alguns dirigentes que tinham essa incumbência. Como desde a metade da década de 1950 a 
JEC vinha se familiarizando com o meio estudantil, não vai nos parecer estranho que o 
referido Grupo tenha elaborado em 1962 um documento
222
 com uma proposta de ação de 
politização dos militantes do movimento e como politizar o meio estudantil. 
 
Para o Grupo a politização é entendida como o “despertar a consciência do 
estudante para os problemas do meio para que êle possa sar uma participação ativa à 
promoção do bem comum”.
223
 E a necessidade da JEC em envolver-se em tal tarefa está no 
fato de que “a classe estudantil tem sido até hoje, um instrumento e não fim  dos 
movimentos promovidos por suas cúpolas”.
224
 
 
A intenção da JEC está colocada em termos de mudança da maneira como a política 
estudantil estava sendo feita. Em primeiro lugar a mudança é tarefa de todos os estudantes, 
e em segundo lugar, esta mesma massa de estudantes não pode servir apenas de massa de 
manobra para alguns que apenas alguns líderes de partidos ou agremiações se beneficiem, 
mas deve ser o motivo da ação de qualquer cúpula. Esta “denúncia” é também uma 
estratégia de ação na medida que desmerece o trabalho realizado no meio estudantil por 
UBES, UNES e outros grupos regionais liderados até aquele momento por jovens oriundos 
de partidos como a UJC e o PCB. É nesse sentido que podemos ver outra denúncia do 
documento onde o Grupo expõe que no meio estudantil se verifica que há “atividades 
controladas por gente estranha ao meio estudantil, às vezes com finalidade eleitoreira, às 
vezes com finalidade paternalista”.
225
 
                                                 
222
 GRUPO DE POLÍTICA ESTUDANTIL DA JEC. JEC 1962: 1ª campanha pelo meio estudantil: 
politização. Campina Grande: mimeo, 03/1962, 9 p.  
223
 Idem, p. 1. 
224
 Ibidem.  
225
 Ibidem. 


Segundo o Grupo de Política Estudantil, na prática a politização dos jovens da JEC 
se dá, segundo uma instrumentalidade pessoal e uma instrumentalidade coletiva.
226

primeira se trata de um aprofundamento feito pelo próprio militante nos seus estudos e da 
sua reflexão procurando apreender a realidade além das experiências, “não se contentando 
com a mediocridade em nada. Ter medo das aparências, das fachadas, da vaidade”. A 
segunda instrumentalidade se trata da aplicação da primeira instrumentalidade no âmbito 
coletivo. É também o aumento da presença da JEC nas bases, que seriam os estudantes da 
estrutura estudantil. 
Mas devemos nos perguntar se os jecistas procuraram seguir ao pé da letra as duas 
instrumentalidades. Mesmo que seja louvável que a instrumentalidade pessoal proposta seja 
também um aprofundamento do conhecimento do estudante, e por isso, como jecistas, 
também de sua espiritualidade, já vimos anteriormente e veremos mais adiante que a 
espiritualidade do movimento fora deixada de lado pela maior parte dos militantes, 
escanteada para o segundo plano. Mas quanto a segunda, de fato os jecistas a partir de então 
nunca estiveram tão dentro das estruturas estudantis e de suas coordenações, possivelmente 
fruto de iniciativas como a da Campanha pelo meio estudantil. 
Não podemos deixar que um aspecto tão forte como a espiritualidade do movimento 
até então tenha sido modificada pelo Grupo de Política Estudantil. Esta era uma atitude 
também muito pessoal de cada jecista, mas de fato fora sugerido por estes que  
Dos contactos pessoais (equipe de irradiação) e das atividades no 
colégio é que deve nascer à necessidade de crescimento na vida 
espiritual. Quanto mais responsável se sente o militante pelo outro 
e pelo meio, no sentido do amor gratuito, maior é o impulso que o 
atrai para Deus e para o contacto com os instrumentos da graça, os 
sacramentos.
227
 
 
 
 
A intenção destes, possivelmente, era ligar a ação à reflexão, ou seja, um bom 
jecista não fica apenas rezando: faz algo em prol do bem comum, que deve ser o seu 
principal motivador de ação, tanto no colégio como na família, Igreja, etc. Mas ao ler estas 
linhas também temos a impressão de que acaso o (a) jecista não se envolva com atividades 
no colégio a sua vida espiritual nunca crescerá! Idéias como essa, provavelmente, não 
                                                 
226
 Idem, p.4. 
227
 Idem. Observação: os erros de português do texto original foram mantidos na citação. 


foram as únicas desmobilizadoras de uma procura pelo lado espiritual dos jecistas em troca 
do lado da ação, mais prático. Mas podemos afirmar que uma boa parte de seus dirigentes 
negligenciaram este lado de sua vida como cristãos e talvez tenham até caído em alguns 
vícios que tentavam se desvencilhar neste primeiro momento para criar algo novo e 
revolucionário. 
Por fim, os instrumentos de ação sobre a estrutura estudantil apontados pelo Grupo 
de Política Estudantil estão “1º a representação da turma; 2º grêmios coordenados com as 
bases; 3º entidades supra-colegiais também coordenadas com as bases”.
228
E o método para 
se chegar em cada um destes instrumentos de ação sobre a estrutura estudantil é o da 
influência, direta ou indireta dos jecistas nestas, que viria através dos destaques individuais 
segundo as normas citadas anteriormente. 
Não podemos negar que se trata de um plano de ação que abrange todos os aspectos 
da vida secundarista, desde o “primeiro degrau” até as entidades supracolegiais como a 
UNE. E devemos salientar que na continuação deste planejamento está também um projeto 
de mudança do caráter dos Grêmios estudantis como principal plataforma da JEC a ser 
discutida em seminários dentro das equipes de base jecistas e nos colégios em cinco 
etapas.
229
 
Lançada a Campanha pelo meio estudantil, logo a Equipe Nacional da JEC 
vislumbrava a possibilidade de atuação no meio social também: 
É evidente que a JEC brasileira está... entrando em uma linha de 
ação bacana, espetacular e que tem dois aspectos que poderiam 
parecer distintos e separados, mas que estão intimamente unidos e 
dependentes. Êstes dois aspectos de que estamos nos referindo são: 
um gremialista e um social... O estudante está inserido em duas 
comunidades. Uma comunidade Colegial e uma Universal. Nós 
queremos exatamente abrir o estudante para estas duas realidades, 
de tal modo que êle se sinta participante da comunidade universal 
dos homens, responsável como privilegiado, consciente como 
homem, redentor como cristão. Neste trabalho de abertura para 
estas duas realidades a JEC e seus militantes correm perigos, 
lançam-se em riscos... De nada valeria convulsionar o meio se não 
lhe damos uma resposta cristã... e mais ainda, se não 
                                                 
228
 Idem.  
229
 Idem, p. 5-9. 


“convertemos”... No meio estudantil, a presença da JEC não se 
opõe a nenhum grupo.
230
 
 
Esta publicação do Boletim Nacional da JEC era especial por vários motivos: o 
Grupo de Política Estudantil ainda não havia colhido respostas da proposta lançada e não 
tinha o devido feedback de sua ação. A hierarquia pressionava no plano das idéias em um 
recado a todas as Equipes Regionais da JEC a não defenderem o castrismo e tampouco às 
alternativas econômicas como o liberalismo e o comunismo e contrárias às da Doutrina 
Social da Igreja por decisão do Conselho Nacional da ACE.
231
 Enfim, era um período de 
incertezas aquele primeiro trimestre de 1962! 
Mas logo no Boletim Nacional da JEC seguinte
232
, novas notícias dão conta do 
sucesso da empreitada lançada no início do ano pelo Grupo de Política Estudantil: a JEC 
em Belo Horizonte comemorava dez anos de presença direta ou indireta no meio estudantil 
de Minas Gerais; notícias sobre eventos da UNE e a UBES eram postadas; um Caderno de 
Estudos da JEC (de nº 10) estava sendo planejado e o tema seria apenas sobre Grêmio 
estudantil e o Grupo de Política Estudantil começava a fazer suas primeiras viagens ao 
Norte e Nordeste do Brasil para divulgar sua proposta a JEC da região.
233
 
Enfim, tudo indicava pela publicação mais importante da JEC no 2º semestre que a 
proposta havia sido um sucesso. E também esta pode ter sido uma estratégia da Equipe 
Nacional para incentivar alguns grupos de jecistas que não haviam se decidido pela 
proposta a adotarem-na definitivamente. 
Mas pode nos surpreender a Circular às Equipes Regionais do Grupo de Política 
Estudantil: o documento dá conta do grande número de jecistas envolvidos com grêmios e 
entidades de representação de forma que se pensa na criação de um grupo em separado 
apenas com os jecistas que exerçam alguma representatividade nestas instituições.
234
Este 
grupo de trabalho “nortearia” as atividades no meio estudantil no Brasil todo. 
                                                 
230
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. Boletim Nacional da JEC, nº 1.Rio de Janeiro: Secretariado Nacional da 
JEC, 1962, p. 6-7. 
231
 Idem, p. 2-3. 
232
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. Boletim Nacional da JEC, nº 2. Rio de Janeiro: Secretariado Nacional da 
JEC, 1962, 40 p. 
233
 Idem, p. 21-25 
234
 GRUPO DE POLÍTICA ESTUDANTIL. Circular às Equipes Regionais, nº 01, Rio de Janeiro: mimeo, 
1963, 3 p. 


Apesar de alguns “insucessos” iniciais como a perda da eleição da UBES em 
Pelotas, Rio Grande do Sul no fim de 1962, muitos dirigentes jecistas começaram a 
colecionar vitórias: 
Conseguimos infiltrar em novas áreas e ganhar eleições 
importantíssimas, como foi o caso da vitória que obtivemos na 
AMES da Guanabara, a entidade de maior representatividade 
política do país. Porém, sabemos... a coordenação do Grupo de 
Trabalho ... deixou de cumprir as suas obrigações de costume, 
passando a se preocupar mais com a situação guanabarina cujo 
desfêcho se deu em outubro. Assim, perdemos o pulso do plano 
nacional e ficamos um pouco indiferentes às atividades da nova 
diretoria da UBES. Nos Estados, os militantes prosseguiam 
preocupados com a situação local, preparando-se para os próximos 
congressos, isolados e ignorando o que se passava no resto do 
país.
235
 
 
E para a eleição da diretoria da UBES o mesmo Grupo de Política Estudantil 
planejava uma articulação nacional para tentarem na eleição do fim do ano de 1963 a 
presidência da instituição. A estratégia de articulação nacional traria mais efeitos práticos 
para o futuro do poder de influência da JEC enquanto movimento social nas próximas 
eleições. De qualquer forma, ao passar para esta estratégia de articulação a JEC dá um 
passo que a diferencia de outros movimentos da ACE, além de passar a ter um 
envolvimento mais profundo com o meio onde atua. 
Logo que a JEC procurou se envolver mais com o seu meio de forma efetiva em 
1962 aos poucos também passou a levar uma mensagem de busca do bem comum e de 
transformação social, como vimos. 
E em um ambiente de luta ideológica mundial entre o capitalismo e socialismo, e 
com a hierarquia da Igreja Brasileira dividida em setores que tanto defendiam a Doutrina 
Social da Igreja como resposta ao modelo sócio-econômico, quanto o capitalismo e alguns 
até mesmo viam com simpatia o socialismo (ainda que raros), a JEC começava a ter de 
defender suas opiniões acerca do assunto. 
Embora possivelmente dentro do movimento o pensamento sobre o assunto fosse 
igualmente dividido em diversas opiniões, a Equipe Nacional da JEC respondia por todos. 
                                                 
235
 Idem, p. 2. 


Com o Golpe de 1964 a JEC passou a ser mais um alvo do governo militar. Seus 
posicionamentos ambíguos entre o capitalismo e o socialismo e o envolvimento de muitos 
dirigentes com as entidades estudantis a credenciaram para isso. 
Em um documento confidencial intitulado Relatório da JEC para Dom Cândido 
Padim
236
 a Equipe Nacional relata a Dom Cândido a situação em cada região do país após a 
perseguição militar, concluindo que o movimento perdera muitos militantes. A 
conseqüência principal para o movimento teria de ser a revisão de sua presença no meio 
estudantil. Uma maior presença de assistentes para o movimento fora solicitada (veja 
anexos nº 2a, 2b e 2c). 
A estratégia aqui parece ser a aproximação da hierarquia por esta ser talvez um 
“braço mais forte” nesta hora e que talvez ajude a alguns dirigentes perseguidos e ao 
movimento como um todo. No entanto ao mesmo tempo em que a Equipe Nacional pede 
uma intensificação da presença dos assistentes a JEC passará por uma “inquisição” da sua 
“protetora”, a hierarquia. Com a eleição de novo presidente e de novas lideranças para a 
CNBB parece-nos que a situação frente a hierarquia para a JEC como movimento da ACE 
só piora. 
  
Em 1964 o Secretariado Nacional da JEC elaborara uma Sinopse da Visão História 
do Movimento
237
 aonde os autores chegam à conclusão de que “o Movimento foi 
descobrindo e aprofundando a vivência da faixa missionária de ação pastoral, levando o 
cristão, que vive em contínua reconversão, a assumir seu papel na comunidade humana”.
238
 
Esse “papel na comunidade humana” se refere a preocupação quanto ao aspecto social: em 
um Brasil com uma situação educacional de altos índices de analfabetismo, de altos índices 
de pobreza nas décadas de 1950-60 qualquer grupo com pretensões políticas tinha que estar 
sensível a esta questão. Talvez por isso a adoção dos dirigentes de mais este campo de ação, 
transformando a JEC em um movimento com preocupações com o aspecto social, mas um 
grupo diferenciado pelo seu tamanho e organização. 
 
                                                 
236
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. Relatório da JEC para Dom Cândido Padim. Rio de Janeiro: mimeo, 
1964, 4 p. 
237
 SECRETARIADO NACIONAL DA JEC. Sinopse da Visão História do Movimento. Rio de Janeiro: 
Secretariado Nacional da JEC, 06/1964, 12 p. 
238
 Idem, p. 11. 


 
 
3.7. A JEC: opção por ser um movimento social 
 
 
 
Fica claro que a partir de 1962 a Equipe Nacional da JEC está preocupada em 
transformar a proposta do movimento. Desde 1958 as Equipes Nacionais vinham 
associando cada vez mais o seu trabalho com a política estudantil. Essa mesma política 
estudantil vinha crescendo em importância e vinha desempenhando um importante papel de 
sustentação política do governo “reformista” de João Goulart e era (e ainda é) ligada a 


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