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parte  da  quota  anual  que  cada  Circunscrição  Eclesiástica  remete



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parte  da  quota  anual  que  cada  Circunscrição  Eclesiástica  remete 
para o Secretariado Geral da mesma)... por doações de pessoas ou 
sociedades de direito público ou privado
132

Além  disso,  a  própria  CNBB  reservava  em  seu  edifício  no  Rio  de  Janeiro  salas 
reservadas a ACB e financiava as publicações da JEC e de outros movimentos, publicações 
que eram compradas pelos membros da JEC, além de garantir salário a membros da Equipe 
Nacional, que eram chamados de “liberados”. Enfim, era um movimento com um sistema 
complexo de financiamento que funcionava. Prova disso é a existência de publicações (das 
quais  veremos  algumas  a  seguir)  e  o  trabalho  dos  “liberados”  realizados  desde  então  até 
1966 e o crescimento do movimento desde então. 
No  plano  diocesano  a  JEC  se  mantinha  “pelas  contribuições  das  secções  colegiais... 
por outras contribuições mencionadas no art. 29º dos Estatutos da A.C.B.... por doações de 
pessoas ou sociedades de direito público ou privado... pelo fruto das tarefas a que se dedicar 
com  finalidade  de  obter  numerário...  da  mensalidade  dos  membros  das  Secções  colegiais 
deverá ser subtraída a contribuição para as equipes diocesanas”
133

                                                 
132
 Idem, p. 36. A frase dentro do parêntese não é original e foi feita por mim a fim de facilitar a compreensão 
das pessoas que não teriam como acessar o art. 28º dos estatutos. 
133
 Idem, p. 37. 


No  plano  colegial,  era  cobrada  uma  mensalidade  dos  seus  membros  para  a 
manutenção da mesma e da Secção Diocesana. 
Mas qual o resultado desta renovação de Estatutos de 1950? 
Em  um  estudo  realizado  a  pedido  da  Arquidiocese  de  São  Paulo  sobre  a  história  da 
Ação  Católica  até  o  ano  de  1960
134
,  Pe.  Miele  atesta  os  benefícios  trazidos  pela 
especialização do meio, a partir dos novos Estatutos de 1950: 
A  QUINTA  SEMANA  NACIONAL  DA  A.C.B.,  realizada  no 
Recife, de 11 a 16 de julho de 1951, veio bem provar o rumo certo 
adotado em 1950. Praticamente todas as dioceses que tinham Ação 
Católica adotaram os Estatutos e as experiências de “especialização 
intensiva” eram bem sucedidas...
135

No entanto, alguns movimentos ressentiam-se de um objetivo claro e na definição por 
meios especializados, acabaram prejudicados. Assim  
JAC  e  JUC  davam  mais  certo  como  movimentos  mistos,  não 
separando  o  movimento  em  dois:  masculino  e  feminino.  A  JIC 
masculina,  salvas  raríssimas  exceções,  não  existia  e  parecia 
inadequada  ao  Brasil,  pois  os  elementos  que  poderiam  formá-la 
encontravam-se  integrados  em  JUC  ou  nos  movimentos 
apostólicos  de  juventude  fora  dos  quadros  da  Ação  Católica 
Especializada (A.C.E.)
136

O  grande  problema  da  A.C.B.,  segundo  o  Pe.  Miele,  estava  nos  meios  rural  e 
independente.  No  primeiro,  a  natureza  da  atividade  agrária  impedia  um  maior 
envolvimento, principalmente dos adultos, com a A.C.B. Já o segundo tinha o problema de 
definição do meio: o meio independente era simplesmente o resto. A sobra de pessoas que 
não se encaixasse nas outras quatro definições de meio (estudantil, universitário, agrário e 
operário) se encaixariam automaticamente no meio independente. O problema é que havia 
uma falta de  identificação entre  os  membros do  meio independente que impossibilitaram-
nos  de  crescer  como  o  meio  estudantil,  universitário  e  operário.  O  Pe.  Miele  ainda  nos 
aponta  um  problema  que  se  agravaria  com  o  tempo  e  que  surge  em  benefício  da  JUC:  a 
                                                 
134
 MIELE, Op. Cit. 
135
 Idem, p. 11. 
136
 Idem. 


separação  por  meios  liberou  os  jovens  membros  da  ACB  a  se  reunirem  por  interesses 
mútuos, o que fomentou discussões que saíram da órbita da ACB e levou alguns dirigentes 
nacionais como os da JUC a ações tão radicais quanto à criação da AP – Ação Popular. 
Após a criação dos Estatutos de 1950 algumas correções foram feitas e muito do que 
fora  proposto  foi  discutido  entre  a  hierarquia  e  especialistas.  Parte  destas  discussões 
encontra-se  na  Revista  Eclesiástica  Brasileira
137
  (revista  criada  em  1941,  principal  órgão 
teológico-pastoral  do  clero  até  então)  nas  suas  edições  de  época,  em  cartas,  apreciações, 
relatórios  internos,  orientações  da  ACB,  etc.  Fórum  de  discussão  da  hierarquia,  a  revista 
tratou  mais  de  uma  vez  do  assunto  “ACB”,  do  início  ao  seu  fim,  e  ainda  carece  de  um 
estudo apropriado a seu respeito. 
Em um artigo de 1952, Sartori
138
 tenta ampliar a perspectiva do que pode se esperar 
da  ACB  apresentando  outros  exemplos  de  funcionamento  da  AC  pelo  mundo,  trazendo 
principalmente  os  modelos  de  funcionamento  da  AC  na  França,  na  Bélgica,  nos  Estados 
Unidos, na Argentina, Inglaterra, na Austrália e Canadá
139
, e propondo uma otimização  da 
proposta de especialização dos estatutos de 1950 em torno de três “frentes”, onde todos os 
movimentos  “operários  e  agrários”  fariam  parte  da  Frente  Operária,  os  movimentos 
estudantis  e universitários fariam parte da  Frente  Estudantil e os restantes fariam parte da 
Frente  Independente
140
.  Suas  sugestões  não  foram  aceitas,  apesar  de  fazerem  bastante 
sentido,  mas  Sartori  em  seu  texto  elabora  quatro  causas  constituintes  da  ACB  que  a 
justificam, e que a deveriam embasar, e estar presente em todas as ações de seus membros: 
a causa eficiente, onde “o apostolado legítimo só é aquele causado, nascido da Hierarquia, 
a  única  que  possui  por  si  e  formalmente  a  missão  e  o  poder  de  apostolado”
141
;  a  causa 
formal, que vem  “da concessão ao laicato  por  parte da Hierarquia  da  participação no seu 
apostolado, ou a concessão do mandato”
142
 (grifo meu); a causa material “são as Verdades 
da  Fé  que  devem  ser  levadas  ao  conhecimento  de  todos  como  matéria  necessária  para  a 
                                                 
137
 Atualmente pode-se achar informações detalhadas, o histórico e números antigos da REB no site 
http://www.itf.org.br/index.php?pg=revistas2&id=6. 
138
 SARTORI, Pe. Sugestão de Bases para a A.C.B. In: Revista Eclesiástica Brasileira, vol.12, fasc. 1, 
Petrópolis: Editôra Vozes, 1952. 
139
 Idem, p.11-33. 
140
 Idem, p. 53-63. 
141
 Idem, p.45. 
142
 Idem, p. 46. 


consecução da propagação do Reino de Cristo”
143
; e a causa final que são os fatores que a 
distinguem  de  outros  movimentos  que  começam  a  surgir  e  a  se  organizar  na  Igreja,  entre 
eles o fato da AC ter um fim geral e ser “um lugar para a reunião para onde convergem e 
onde  se  organizam  os  católicos  de  ação”  e  não  ser  como  as  associações  com  um  fim 
particular e específico que funcionam “como que um eixo fixo em torno do qual gravite o 
mecanismo de uma organização qualquer”
144
.  
Sartori começa a escrever sobre um assunto que será central até o fim da ACB: se a o 
apostolado  leigo  é  “concedido”  pela  hierarquia,  esta  sim  digna  de  fé  pelo  mandato  feito 
pelo próprio Cristo  aos sacerdotes, ou seja, uma  permissão de confiança,  cabia  aos leigos 
não deturparem esta concessão, se adequando e se formando a sua altura, com a ajuda desta 
hierarquia.  Mas  a  evolução  do  movimento  mostrará  o  contrário:  a  liberdade  da  ação  do 
apostolado  permitirá  a  muitos  leigos  “deturparem”  este  “sentido”  de  movimento.  Como 
veremos, na JEC, tais causas serão completamente desvirtuadas. E apesar dos interesses dos 
dirigentes jecistas serem profundamente humanísticos, trairão a teologia e regras impostas 
desde o início pelos estatutos da ACB desde então. 
Em outro artigo da REB o Pe. José Fernandes Veloso escreve sobre as Variedades de 
Formas e Métodos da Ação Católica
145
. O texto procura resolver um equívoco que começa 
a  tomar  conta  do  apostolado  leigo  sobre  a  AC.  Muitas  pessoas  achavam  que  a  outros 
movimentos  de  leigos  da  época,  como  os  movimentos  marianos,  não  poderiam  ser 
considerados “válidos” por não estarem ligados de uma forma ou de outra á ACB. O termo 
ação católica, para Veloso, tem dois sentidos: um sentido estrito que se refere à instituição 
AC e um sentido lato, que se refere a qualquer apostolado leigo. O autor ainda propõe que a 
AC  evite  “destruir,  absorver  ou  dominar  as  associações  irmãs;  todas  devem  amparar-se  e 
ajudar-se mutuamente”, já que a AC existe para ajudar a hierarquia no propósito de levar a 
Cristo  a  todos  os  lugares,  nada  mais  natural  que  não  houvesse  concorrências  entre  os 
movimentos.  Sobressai  nestas  palavras  a  força  que  já  toma  a  ACB  no  país:  o  número  de 
paróquias  e  dioceses  que  adotaram-na  é  tão  grande  e  o  movimento  estava  tão  organizado 
                                                 
143
 Idem, p. 47. 
144
 Idem, p. 49. 
145
 VELOSO, Pe. José Fernandes. Variedades de Formas e Métodos da Ação Católica. In: Revista 
Eclesiástica Brasileira, vol. 13, fasc. 1, Março de 1953. Petrópolis: Editora Vozes, p.41-62. 


que havia o perigo da ACB suplantar novas iniciativas e novos movimentos que surgiam. 
Alguns membros da ACB até começavam a questionar se poderia existir ação católica fora 
da  ação  católica!  Mas  de  fato  havia,  prova  disso  é  que  a  ACB  acabou  no  país  e  outros 
movimentos a suplantaram, até mesmo pela pressão da hierarquia, como veremos. 
Mas  se  a  ACB  era  um  sucesso  de  integração  do  leigo  nas  atividades  pastoral  e 
apostolar,  não  quer  dizer  que  fosse  uma  unanimidade  entre  a  hierarquia  de  que  isto  fosse 
algo bom para o futuro da ICAR. Também em artigo publicado na REB por ocasião da tese 
apresentada  ao  III  Congresso  Brasileiro  de  Teologia  pelo  Cônego  Agnelo  Rossi,  o  autor 
discutia a função do leigo na ACB e os problemas causados por suas ações
146

Para Rossi, as atribuições atuais dos leigos estava na colaboração “com a Hierarquia 
na  “difusão  dos  princípios  católicos  na  vida  individual,  familiar,  e  social”...  no  setor 
político  a  A.C.B.  defende  os  princípios  e  direitos  de  Deus  e  da  Igreja,  através  da  Liga 
Eleitoral  Católica,  seu  órgão  especializado...  podendo  seus  membros,  não  como 
representantes da A.C., mas individualmente, militar nas fileiras partidárias”
147
. Para isso o 
leigo deveria adquirir uma formação, já que os Estatutos da ACB  
exigem  aos  seus  quadros:  vida  moral  exemplar  e  prática  dos 
sacramentos...  um  estágio  obrigatório,  com  duração  de  um  ano  e 
nunca inferior a 6  meses, com  reuniões,  ao  menos, quinzenais... e 
que visa formar consciências primorosamente cristãs mediante um 
adequado  conhecimento  da  doutrina  cristã,  intensificação  da  vida 
interior  e  adestramento  dos  futuros  membros  em  eficiente  técnica 
do apostolado
148

Entretanto, os leigos, até então, formarão na Igreja uma ordem subordinada, apesar de 
também serem membros do Corpo Místico da Igreja e cada vez mais conscientes de serem 
Igreja.  Mas,  para  Rossi,  há  um  problema  profundo  na  ICAR  por  existirem  alguns 
sacerdotes que achavam um excesso ou ingerência a iniciativa dos leigos nas ICAR “como 
uma  ingerência  em  campo  unicamente  reservado  ao  sacerdócio,  ou  se  alarmam  com  a 
                                                 
146
 ROSSI, Cônego Agnelo. As Atribuições dos Leigos na Atual Ação Católica Brasileira e a Formação que 
Supõem. In: Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 13, fasc. 1, Março de 1953. Petrópolis: Editora Vozes, p. 62-
73. 
147
 Idem, p. 63. 
148
 Ibidem.  


sempre  mais  crescente  atividades  dos  leigos...  uma  vez  que  os  leigos...  jamais  lograrão  a 
formação adequada para as tarefas árduas e delicadas do apostolado”.
149
 
Surpreende-me aqui dois pontos do discurso de Rossi: em primeiro lugar o ataque a 
alguns colegas que aparentemente não dão o devido valor ao trabalho dos leigos e nutrem 
até  uma  certa  desconfiança,  afinal  é  uma  defesa  sem  citar  nomes  e  denota  que  há  um 
problema grave de acusações que começam a aparecer contra os leigos e em segundo lugar 
o crédito dado aos leigos pelo autor. Se contarmos que no país a ACB tem à época pouco 
mais  de  vinte  anos,  sendo  apenas  sete  destes  com  uma  organização  em  nível  nacional,  a 
instituição é por demais jovem para tirarmos quaisquer conclusões. Aliás, Rossi defende os 
leigos  sem  saber  que  cinco  anos  depois  alguns  movimentos  da  ACB  agiriam  totalmente 
contrários ao que ele esperava. Rossi aponta um caminho, que não será trilhado no futuro, 
para que os movimentos da ACB continuem se construindo dentro de uma base de apoio à 
hierarquia: a formação de apóstolos.  
Rossi propõe três tipos de formação: a formação espiritual (onde o apóstolo deveria 
se unir cada vez mais a Cristo em seus sacramentos para se aproximar do Mestre) para que 
a ACB sem essa formação não se torne “um esporte, uma agitação, um tremendo consumo 
de energias”; uma formação doutrinária por que “o apóstolo precisa conhecer a fundo sua 
religião, da qual será propagandista e defensor” onde “sem crenças sólidas não há ardor da 
propaganda,  coragem,  virilidade  de  caráter  e  sacrifício”  e  a  formação  técnica,  que  é  o 
“complexo dos conhecimentos teóricos e práticos necessários para atuação de determinada 
forma de apostolado”
150

A  razão  para  o  otimismo  em  relação  ao  trabalho  dos  leigos  e  sua  força,  para  Rossi, 
está  na  compreensão  de  que  “com  o  clero  diminuto  e  com  as  congregações  religiosas 
insuficientes  quanto  ao  número  de  seus  membros,  as  únicas  forças  que  restam  ser 
aproveitadas,  entre  nós,  são  as  leigas.  Há  reservas  leigas  incalculáveis,  e  efeitos 
imprevisíveis. E os leigos serão o que nós fizermos deles. Pois, gostava de repetir Pio XI, a 
                                                 
149
 Idem, p. 64. 
150
 Idem, p. 67. 


sorte  da  A.C.  está  nas  mãos  do  Assistente  Eclesiástico.  Por  que  não  canalizar  essa  força 
leiga para tudo que um leigo possa fazer no apostolado?”
151
 
Rossi  acreditava  realmente  que  os  leigos  que  se  dispusessem  ao  serviço  apostolar 
poderiam ser realmente dirigidos para qualquer ação.  Isso transformava as  possibilidades 
de uso do serviço leigo em quase infinitas, já que qualquer pessoa no mundo poderia tornar-
se leiga  e,  assim,  estar  a serviço da hierarquia A solução para o contraste entre a falta de 
mão-de-obra religiosa e a quantidade disponível de leigos, para Rossi, significava que valia 
a  pena  apostar  na  ACB  como  solução  para  os  problemas  apostólicos  do  país  e  até  quem 
sabe  de  outros  problemas,  como  o  problema  econômico  da  ICAR.  “Sem  deixar  seu 
emprego  e  sua  condição  civil  e  social,  eles  consagrariam  algumas  horas  por  dia,  ou,  no 
mínimo,  por  semana,  ao  apostolado  externo  de  doutrinação  e  assistência  apostólica  às 
populações ou grupos necessitados, dos quais assumiriam certas responsabilidades”.
152
 
Além  disso,  e,  mais  importante  talvez,  “manteriam  as  despesas  do  seu  próprio 
apostolado,  teriam  suas  reuniões  periódicas,  retiros  especializados,  assistência  com 
fornecimento  de  material  catequético  e  de  apostolado,  por  parte  de,  pelo  menos,  um 
sacerdote  da  Diocese”.
153
  Enfim,  seu  texto  é  uma  exortação  ao  acolhimento  do  trabalho 
leigo por parte de uma parcela relutante de sacerdotes. Esta parcela continuará existindo, e 
podemos  dizer  que  na  década  de  sessenta,  quando  os  movimentos  de  jovens  de  leigos  da 
ACB, incluindo a JEC, iniciarem uma batalha com a hierarquia por mudanças na AC, esta 
parcela  aumentará  e  apoiará  o  fim  destes  mesmos  movimentos.  Algumas  idéias  do  Padre 
Rossi  no  entanto,  foram  muito  usadas  na  época  e  até  hoje  os  leigos  são  fundamentais  no 
trabalho apostólico, graças ao apoio dado de pessoas como ele. 
 
 
2.5 A Estrutura interna da JEC (1955-1962)  
                                                 
151
 Idem, p. 68. 
152
 Idem, p. 69. 
153
 Idem. 


 
 
Como  dissera  na  Introdução  deste  trabalho  poucos  livros  que  encontrei  em  minha 
pesquisa  tem  como  tema  central  a  JEC.  Segundo  o  Pe.  Hilário  Dick
154
,  boa  parte  da 
documentação  que  pertence  à  história  da  ACB  se  encontra  na  sede  da  CNBB  no  Rio  de 
Janeiro e no MIEC-JECI do SECLA (Secretariado Latino Americano da JEC Internacional) 
em Montevidéu. Sem a cópia deste material por parte do Pe. Dick,  qualquer pesquisa sobre 
a ACB e a JEC seria impossível sem a visita a estes locais.  
Felizmente,  o  mesmo  Pe.  Hilário  viajou  por  todo  o  Brasil  e  América  Latina 
coletando dados e depois de 1993, criou um banco de dados e guardou todas as cópias das 
fontes que encontrou na Biblioteca do IPJ em Porto Alegre. Recentemente eu tive acesso a 
estes  documentos  que  ainda  não  se  tornaram  públicos  por  sites  ou  publicações 
especializadas em bibliografia. 
 
Tais  fontes  trazem  de  volta  as  “vozes”  de  jovens  que  levam  boa  parte  da  “culpa” 
pela  dissolução  das  equipes  nacionais  dos  movimentos  da  ACB  (assunto  tratado  adiante) 
em 1966, e que continuam sem serem ouvidas. 
Por estrutura interna eu me refiro a organização considerada nas suas relações 
recíprocas das várias seções às quais eram compostas a JEC em seus níveis paroquiais, 
diocesanos, regionais e nacionais e que eram responsáveis pelo seu funcionamento e 
ligação com a hierarquia. Ou seja: as equipes dos colégios, os Conselhos, as bibliotecas, 
etc. 
A  JEC  era  formada  por  jovens  católicos  na  faixa  etária  do  colegial  e  científico, 
preferencialmente. Ou seja, o que seria hoje o final do nosso ensino fundamental e o ensino 
médio preparatório para a faculdade ou o técnico (jovens de 11-18 anos, ainda que alguns 
dirigentes costumassem ficar no movimento trabalhando como “liberados” até muito mais 
tarde.  Alguns  chegavam  a  ficar  até  os  28,  30  anos  de  idade).  Com  o  tempo  foi  sendo 
altamente recomendada a sua implantação nos colégios católicos (a pedido da hierarquia) e 
                                                 
154
 DICK, Op. Cit. p. 3. 


nas principais cidades do país até 1962, graças ao serviço da Equipe Nacional e de muitos 
sacerdotes entusiasmados. 
Segundo as Bases Comuns – Carta de Dakar
155
, documento que tem como 
finalidade “dar uma unidade aos movimentos da JEC... (ajudando) aos movimentos que 
começam a situar-se dentro da Ação Católica estudantil”
156
 e portanto, fixando objetivos e 
pontos em comum para uma ação internacional da JEC internacionalmente, a JEC é um 
movimento  estudantil integrado na proposta de Ação Católica e cujo “apostolado se exerce 
no conjunto do meio estudantil”
157

 
 
2.5.1. Estrutura do Movimento 
 
 
A JEC, por ter nascido de uma iniciativa européia, mais precisamente italiana e 
francesa, foi adaptada a partir da experiência católica nestes países para outros países que 
tiveram de cumprir tais diretrizes, como o Brasil e outros países da América Latina. 
No Brasil, temos desde o início da ACB uma estrutura baseada neste modelo. Mas a 
partir da década de cinqüenta a direção da ACB apoiada por Dom Hélder Câmara muda o 
modelo estrutural da ACB dividindo os movimentos de acordo com o que chamaram de 
“meios de apostolado”. A partir desta mudança temos o que eles chamaram de 
“especialização” do movimento. Desta forma, as “juventudes” da ACB foram divididas de 
acordo com o local onde os jovens trabalhavam ou estudavam, e onde podiam ser fatores de 
influência sobre o ambiente. 
                                                 
155
 SECRETARIADOS NACIONAIS DE JEC, JECF E JUC. Dakar 58. Rio de Janeiro: Secretariado 
Nacional da ACB, 1958. 
156
 Idem, p. 34. 
157
 Idem, p. 37. 


Basicamente todos os movimentos de juventude da ACB tinham a mesma estrutura 
descrita abaixo, assim como a JEC. A diferença estava no tipo de encontro que era 
promovido por cada movimento, a produção literária e algumas diretrizes voltadas para o 
meio próprio de atuação. 
Como nos mostrou Muraro (1985), a causa do “progresso” da ACB era a sua 
organização em nível nacional (Secção Local, Conselho Nacional, Serviços Jecistas, 
Estudos e Campanhas), com a distribuição de responsabilidades (Militantes, Assistente 
Eclesiástico, Permanente Propagandista, responsável pela difusão da JEC numa 
determinada região), com atividades programadas (Dias de Recolhimento, Assembléias 
Gerais, Serviços, Campanhas, Encontros Nacionais e regionais)
158

A seguir, passarei a análise mais detalhada destes mecanismos de funcionamento da 
JEC focalizando a importância destes dentro da mudança de orientação interna do 
movimento de romanização da ICB. Esta análise é um aprofundamento da proposta contida 
nos Estatutos da ACB de 1950: 
- A Secção Local da JEC era a escola onde o movimento era implantado. Como 
veremos, no início do movimento eram locais como salas de aula onde os alunos jecistas 
tinham a permissão dos padres ou irmãs das congregações que administravam a escola 
católica para se reunir. Era o local de reunião por excelência do grupo local de jecistas. 
Podemos citar como exemplo de Secção Local em Porto Alegre a Secção do Colégio Bom 
Conselho. Os militantes jecistas se reuniam na Secção Local pelo menos uma vez por 
semana e discutiam o programa de reuniões enviado anualmente pela equipe diretiva 
nacional da JEC. Também elaboravam atividades como acampamentos, a maneira de 
aumentar o número de jecistas no grupo, entre outras atividades. No início da JEC, estes 
grupos eram formados por padres ou irmãs (JECF) que faziam o trabalho de nucleação 
inicial dos jovens. Depois os jovens desenvolviam o trabalho jecista por si mesmos, 
deixando aos religiosos o serviço de orientação espiritual apenas e o de patrocínio às 
Secções. 
                                                 
158
 MURARO, 1985, p. 34. 


- Conselho Nacional: criado em 1955 no Rio de Janeiro após alguns anos de 
sucesso da experiência com a JEC no país. Era a Equipe Nacional que, “se responsabiliza 
para que ... (a)  expansão do movimento seja feita em todo o Brasil, orgânica e 
estruturalmente”
159
. Segundo o mesmo documento, ainda saíam em “viagem pelo Brasil 
procurando converter elementos para o Movimento”. Era composto por jovens que estavam 
em vias de concluir o seu curso secundário (ou seja, os mais velhos, os mais experientes) ou 
jovens que dedicavam um ano de suas vidas para este serviço nacional, geralmente antes de 
entrarem para uma faculdade. Eram responsáveis pela organização dos encontros nacionais.  
A Equipe Nacional de Jecistas, assim como as equipes nacionais de outros 
movimentos da ACB como a JUC e JOC (principalmente), recebiam verbas da hierarquia, 
principalmente da CNBB, nesta época, para a realização de seus planejamentos, programas 
editoriais, etc. É importante dizer a importância da hierarquia neste momento. Como 
veremos, é esta hierarquia que investe nos movimentos da ACB nesta época, e apesar de 
aparentemente poucas influencias nas decisões finais dos jovens, realiza todo o serviço de 
suporte financeiro e estrutural, através da CNBB. 
Por isto podemos dizer que fora um golpe duro aos movimentos da ACB, 
principalmente a JEC, a mudança de liderança da CNBB em 1964, através das eleições dos 
novos membros em pleno Concílio Vaticano II e as suas novas orientações a estes 
movimentos no sentido de “corrigirem” suas atitudes quanto à hierarquia (especialmente o 
alinhamento de alguns líderes da JUC, JEC e JOC com o Partido Comunista Brasileiro).  
Era um sinal claro de mudanças que prenunciaria o fim dos Conselhos Nacionais e o fim do 
apoio da hierarquia a estas organizações, o que aconteceria em definitivo em 1966. 
- Encontros Nacionais: Eram encontros anuais onde se procurava agrupar a maior 
quantidade de membros da JEC do país (com representantes de cada região onde a JEC 
estava presente) a fim de expor a “linha do movimento e o programa para o ano 
seguinte”
160
 e ao mesmo tempo debater as idéias deste programa.  
                                                 
159
 SECRETARIADO NACIONAL DA JECM. Sinopse da Visão Histórica do Movimento. Publicação do 
Secretariado Nacional da JECM: Rio De Janeiro, 1964.  
160
 Idem, p.2. 


Aqui está um caráter importante da JEC: o debate era feito pelos jovens que eram 
auxiliados pelos religiosos em diversos aspectos como a situação da Igreja no Brasil, no 
mundo, etc. No entanto, existia muita liberdade de propostas de ação aqui. Esta liberdade, 
como veremos, se deu pela ineficiência da hierarquia em controlar estas reuniões. O 
resultado foi um processo de “integração” do movimento com o debate político brasileiro, 
como o papel do jovem na revolução social, as responsabilidades da juventude perante a 
educação, a situação política brasileira e outros temas que “fugiam” ao que a hierarquia 
proponha como tema de discussão para o movimento. Estes encontros foram também a base 
para uma proposta de mudança de ação do movimento. Com a JUC acontecera algo 
parecido. Seus membros se afastaram tanto da orientação política da hierarquia que 
acabaram fundando uma instituição não-religiosa, a Ação Popular
161
. Não tardaria,no 
entanto, para a hierarquia também tomar suas atitudes em relação a estas diferenças de 
orientação política e até mesmo religiosas. 
- Publicações da JEC: as publicações da JEC são os Cadernos da JEC (que vão do 
número 1 ao 11 e que pretendiam divulgar o movimento bem como noticiá-lo), os Boletins 
Nacionais (que eram o órgão de imprensa oficial da Equipe Nacional responsável pela 
divulgação do programa do ano, notícias eventuais, propostas de subsecretariados da 
nacional, etc). Em 1958 destaca-se o grande manual de JEC escrito pelo Frei Mateus 
Rocha
162
, que nos mostra o alcance e a organização do movimento, bem como o interesse 
da hierarquia no assunto. Mas os livros lançados pelos padres brasileiros ou europeus sobre 
a JEC tinham a função clara de uniformizar o pensamento dos jecistas em relação às 
propostas de ação da hierarquia para a JEC e à formação espiritual do jecista. 
- Equipes Regionais: variação da Equipe Nacional em nível estadual e que era a 
responsável mais direta pela integração das dioceses com a nacional. Expedia também 
cartas, circulares, divulgando tanto notícias como o próprio movimento. Exemplo: área Sul 
II (era integrada pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). Apesar da 
JEC estar presente (com alguma expressão no número de membros) na maior parte das 
                                                 
161
 Para uma compreensão do papel da Ação Popular no desentendimento da JUC e de outros movimentos da 
ACB com a hierarquia, recomendo o livro de SEMERARO, G. A. A primavera dos anos 60: a geração de 
Betinho. SãoPaulo: Edições Loyola, 1994. 
162
 ROCHA, Op. Cit. 


regiões brasileiras, ela era mais forte nas regiões Nordeste, Sul II e Sul I (Rio de Janeiro, 
Espírito Santo e São Paulo); 
- Equipe Diocesana: variável da equipe regional e que tinha a função principal de 
fazer o contato com os núcleos da JEC nas escolas onde a equipe regional não tinha acesso. 
-  Assistentes:  podiam  ser  adjuntos  (temporários)  ou  permanentes.  Os  permanentes 
tinham dedicação total ao movimento. Segundo o documento de Dakar, “sua função é ... de 
animar  a  vida  espiritual  da  equipe,  através  de  um  aprofundamento  na  fé  e  de  suas 
exigências  concretas,  e  levar  o  apoio  espiritual  a  cada  militante”
163
.  Mas  não  podemos 
esquecer que os assistentes tinham uma importância vital para o movimento. Sendo o elo de 
ligação entre a hierarquia e as equipes, era a sua função tanto dar pareceres regulares sobre 
a secção local ou diocese sob sua responsabilidade quanto orientá-los espiritualmente. 
Sabemos que muitos teólogos de oposição à Roma entraram na vida de comunidade 
da JEC através de indicações destes assistentes.  É necessário ainda um estudo do tipo de 
influência que os assistentes tiveram sobre a ACB, mas de fato, muitos apoiavam os grupos 
de liderança jecista como as equipes nacionais para que estes se envolvessem com questões 
que  não  fariam  parte  da  “agenda”  da  hierarquia.  Um  exemplo  claro  é  a  pressão  jecista  e 
jucista pelas reformas na educação brasileira que ocorreram em 1962. Graças a um extenso 
estudo  das  propostas  políticas  trazidas  pela  Equipe  Nacional  e  seus  assistentes,  o 
movimento  se  organizou  de  tal  forma  que  a  Igreja  saiu  da  reforma  fortalecida.  E  os 
membros da JEC mais interessados em política, conseqüentemente. 
 
 
2.5.2. A expansão do movimento 
 
 
                                                 
163
 SECRETARIADOS NACIONAIS DA JEC, JECF E JUC, Op. Cit, p. 47. 


Com  a  criação  da  Equipe  Nacional,  dá-se  um  precioso  passo  em  direção  do 
crescimento  dos  núcleos  nas  cidades.  Em  meio  a  um  mundo  onde  se  pregava  a  “ameaça 
comunista”, a influência da Igreja como instituição conservadora de uma moral que faltava 
era  muito  grande,  e  se  o  fim  do  padroado  fora  um  baque  muito  grande  para  a  hierarquia, 
esta  soube  aproveitar-se  bem  da  AC  e  de  muitas  oportunidades  para  desvencilhar-se  dos 
problemas que ameaçavam a sua existência. Além disso, os colégios católicos eram muito 
procurados  pelas  famílias  abastadas,  até  porque  a  educação  pública  e  de  massa  era  uma 
realidade recente demais na época e ainda em construção. Os colégios com uma educação 
razoável até bem pouco tempo atrás eram os confessionais, e hoje ainda são uma referência. 
Portanto,  este  meio  estudantil  tinha  tudo  para  dar  certo  pela  iniciativa  da  Igreja.  Só  eram 
necessárias iniciativas capazes de cativar os jovens a se juntarem ao movimento e pessoas 
capazes de leva-lo adiante pelo menos no seu início. Como vimos, no Brasil existiam desde 
colaboradores nacionais até internacionais desde a década de trinta.  
A  JEC  era  sobretudo  um  movimento  da  elite  brasileira.  Era  voltado  para  pessoas 
que poderia influenciar a sociedade brasileira em seus diferentes meios: estudantil, político, 
universitário, operário, industrial, etc. Com isso a Igreja Católica conseguira desde a década 
de  1930,  graças  a  Getúlio  Vargas  e  à  hierarquia,  uma  reconquista  de  espaço  político  tão 
necessário e objetivado desde o fim do século XIX. 
 
 


2.5.3. A espiritualidade do movimento 
 
 
Com o nos mostra Herbert de Souza 
 a  JEC  através  de  Frei  Mateus  Rocha  vinha  carregada  de  uma 
altíssima  dose  de  mística  e  eu  diria  até  de  positividade;  tudo  na 
JEC era positivo. Deus por  exemplo, era Jesus  Cristo. Para o  Frei 
Mateus  Rocha,  Jesus  era  uma  pessoa  espetacular,  era  um  homem 
forte... o Cristianismo vinha para ser nada mais nada menos do que 
uma  revolução.  Cristo  era  revolucionário,  o  cristianismo  era 
revolucionário  e  o  cristão  deveria  ser  um  revolucionário  sem 
limites
164
.   
Este  depoimento  forte  de  Herbert  de  Souza  ganha  mais  peso  ainda  quando 
lembramos  da  pessoa  que  ele  fora.  E  se  lembrarmos  que  a  JEC  também  formou 
espiritualmente  e  na  ação  este  e  outros  homens  (como  Frei  Betto,  Henfil,  etc)  que  os 
militares  tiveram  de  extraditar  do  país  pela  “ameaça”  que  estes  eram  a  seu  regime,  e  se 
lembrarmos que a sua formação se deu basicamente pelo movimento, veremos que muito se 
disse sobre a JUC e Ação Popular, mas pouquíssimo pela JEC. 
Por  espiritualidade  entenderemos  daqui  pra  frente  o  conjunto  de  posições 
aprendidas  pelo  estudante  a  fim  de  se  tornar  um  cristão  mais  “completo”  segundo  o 
catolicismo. 
Dependendo  do  nível  em  que  se  encontravam  os  núcleos  do  colégio,  os  alunos 
poderiam  se  assemelhar  tanto  ao  caso  do  Betinho  (que  acordava  as  seis  da  manhã  para 
assistirem a uma missa, passavam fins de semana nas férias em acampamentos da JEC, etc) 
como  em  níveis  mais  baixos,  se  prestando  apenas  às  reuniões  normais  durante  a  semana 
como mandam os cadernos de formação. 
                                                 
164
 Depoimento sobre a participação na JEC. In: PAIVA, Vanilda. (Org.) Catolicismo, Educação e Ciência. 
São Paulo: Edições Loyola, 1991. p. 191-202. 


Nenhum livro era pesado demais para os adolescentes lerem e se aprofundarem na 
fé. Pelo menos é o que mostram os quadros de sugestões de livros nas seções de notícias de 
vários  boletins  nacionais.  E  poucos  livros  em  português  eram  recomendados  também
165

Isto  porque  o  movimento  era  muito  recente  no  Brasil  ou  por  um  costume  europeizante? 
Dúvidas às quais não obtivemos respostas. Mas o caso é que em outras sugestões de livros 
notamos a falta de bibliografia brasileira. 
Mas esta tendência de leitura mais “religiosa” sofrerá com o tempo e a radicalização 
do  movimento  para  o  meio  estudantil  uma  mudança,  e  encontraremos  cada  vez  mais  ao 
lado de sugestões de livros religiosos livros sobre história, sociologia e política. Livros que 
não chegam a ser estranhos a grupos que queriam estar bem informados, mas cujos temas 
muitas  vezes  deveriam  levar  muitos  padres  conservadores  a  não  relevar  a  importância  da 
existência  do  movimento  posteriormente.  É  o  caso  por  exemplo  dos  textos  “Pluralismo, 
Tolerância  e  Liberdade”  (sobre  o  ecumenismo  e  a  posição  do  católico  frente  a  este), 
“Blocos  Políticos  e  Econômicos  no  mundo  de  hoje”  (que  não  deixa  de  ser  um  texto  anti-
comunista, mas também não é a favor do capitalismo ou totalmente solidário!), ou “Ainda 
podemos  confiar  na  democracia?”  (que  questiona  o  caráter  “participativo”  deste  regime  e 
atenta para algumas falsidades de não fácil identificação)
166
.  
Mas  não  nos  enganemos,  no  mesmo  Boletim  encontramos  uma  pérola  do 
conservadorismo  e  do  machismo.  É  o  texto  “Senhoras,  deixais  sair  vossos  maridos”
167

onde o autor defende a ‘liberdade plena dos homens” já que os mesmos “foram feitos para a 
ação”, ação cristã, claro. Assim, ficar presos ao lar ao lado de suas esposas seria o fim para 
um homem cristão, que deveria ter também tempo para Deus. Ora, o que o texto quer dizer 
é que nenhum homem deve se sentir preso a família para deixar de se realizar como cristão. 
Mas o lugar que reserva às mulheres... Denota todo o valor que o autor (Joseph Templier) 
conota às mulheres. Por esse “europeísmo” (por assim dizer) o texto torna-se assim mais do 
                                                 
165
 No Boletim Nacional da JUC, 1969, há, por exemplo, três sugestões de livros, sendo que os temas 
católicos são todos em francês (Poemas para rezar (traduzido por Frei Lucas Moreira das Neves!) de Prières 
e Suicide ou Survie de L’Occident de Lebret) e “A Moratória” de Jorge Andrade, que é uma peça de teatro 
feita por um brasileiro.  
166
 Todos os textos encontrados no Boletim Nacional da ACB, 1962.  
167
 Boletim Nacional da ACB, 1962, p. 19-21. 


que inválido, até porque no Brasil, a Igreja até hoje se caracterizou por ser composta quanto 
aos leigos por uma maioria feminina. 
Entretanto,  em  1962,  a  Equipe  Nacional  do  movimento  inicia  um  trabalho  através 
da criação do grupo de Política Estudantil que mudará o caráter da JEC a partir de então até 
o  fim  da  JEC  como  movimento  nacional  em  1966  no  seu  trabalho  de  engajamento  nos 
meios laicos (grêmios e entidades estudantis) e na ICAR. 
 
 
2.6. Os marcos referenciais da JEC nos anos de 1950 
 
 
Para  entendermos  a  proposta  da  JEC  dentro  do  projeto  de  romanização  da  ICAR, 
não  podemos  deixar  de  falar  dos  marcos  referenciais  utilizados  para  a  mobilização  neste 
período. 
Como  mostramos  no  capítulo  introdutório,  marcos  referenciais  dizem  respeito  a 
visões de mundo, conceitos teológicos ou políticos, estratégias de combate, slogans, e uma 
série de parâmetros no mundo das idéias que ajudam a pôr um movimento em ação. 
Dissemos  anteriormente  que  a  Ação  Católica  é  um  movimento  e  um  conceito  de 
movimento “importado”, e que se encontra dentro do movimento de romanização da ICAR. 
Ele  se  adequou  ao  momento  da  Igreja  no  Brasil  do  início  do  século  XX  quando  a  Igreja 
precisava de todo o apoio financeiro e humano possível. Importados eram o movimento e 
as “idéias sobre o movimento”. Por isso, quando da implantação da AC no Brasil em escala 
nacional, poucos padres e bispos conheciam o que era a ACB. Para uma maior divulgação 
do movimento foram criadas publicações e eventos de divulgação pela ACB. 


As  publicações  contêm  importantes  informações  sobre  as  intenções  da  hierarquia 
com os leigos, o seu  maior  propósito. Uma desta obras é o  Pequeno Catecismo da  Acção 
Catholica
168
. Pe. Ortiz anuncia no preâmbulo de sua obra o seu propósito: 
Precisa-se  dar  a  centenas,  a  milhares  de  catholicos,  uma  idea 
prompta, rápida e precisa, de seus deveres de apostolado social, de 
seus compromissos com Christo e  coma  Igreja.  Muitos delles não 
terão  tempo  ou  ensejo  de  aprofundar  o  assumpto  em  compêndios 
castos e completos... Talvez possa esse trabalhinho ser útil a mais 
de  um  parocho  zeloso,  preocupado  com  ser  obediente  á  Voz  de 
Roma, que nos  manda formar apóstolos leigos,  que vão á  caça de 
almas para Christo
169

 
A “novidade” aludida por Pe. Ortiz está, evidentemente, no fato de que nunca antes 
no  país  foi  pedido  aos  leigos  para  exercerem  o  seu  apostolado  como  leigos 
sistematicamente. Para os católicos o apostolado é natural dentro da religião por que essa é 
uma das “missões” dos batizados. Mas nada havia sido feito de forma parecida antes. Esta 
tarefa  era  função  reservada  a  hierarquia.  A  evangelização  também  era  a  desculpa  dos 
bandeirantes  para  a  remoção  forçada  dos  índios  dos  seus  povos  para  a  introdução  nos 
trabalhos forçados. Outra idéia presente na AC é a obediência a Roma. A novidade desta 
idéia  é  a  da  centralização  do  poder  de  decisão  que  passa  a  vir  de  Roma.  Em  função  do 
padroado,  como  vimos,  o  Imperador  Brasileiro  tinha  poderes  de  decisão  muito  grandes 
dentro  da  ICAR  no  Brasil.  Com  o  fim  da  monarquia,  a  obediência  à  Roma  através  do 
processo de romanização vai tomando  um caráter novo. Pio XII, o primeiro Papa  a viajar 
pelo  mundo  divulgando  a  figura  papal,  acrescentará  à  obediência  papal  um  caráter 
carismático à figura do próprio Papa, lhe trazendo maior popularidade
170

O Catecismo do Pe. Ortiz é um livro didático, na forma de perguntas e respostas, é 
em uma das questões respondidas por ele que vemos como os leigos ficaram à margem da 
tarefa apostólica nos últimos anos: 
-A Acção Catholica é uma novidade da Igreja Catholica? 
                                                 
168
 ORTIZ, Pe. Carlos. Pequeno Catecismo da Acção Catholica. Rio de Janeiro: Cruz da Boa Imprensa, 1936. 
169
 Idem, p. 3. 
170
 Para um relato das viagens de Pio XII pelo mundo veja CORNWELL, 2000, Op. Cit. 


-Não.  Com  quanto  o  nome  seja  novo,  a  Acção  Catholica,  porém, 
existiu sempre na Igreja. 
-Podes  citar-me  na  História  da  Igreja  nomes  de  leigos  da  Acção 
Catholica? 
-Com  muito  prazer.  Foram  leigos:  Hermas,  Athenagoras,  Justino, 
Clemente de Alexandria, Arnobio, Lactancio, etc. Foram apostolas 
no meio do paganismo romano as santas: Euphemia, Cecília, Ignez, 
Eulália, Emerenciana, Felicidade, etc. Foi leigo São Sebastião, que 
converteu Cromacio, prefeito romano, com seus 400 escravos... 
-Mas haverá hoje em dia necessidade da A.C.?... 
-Sim.  Mesmo  mais  do  que  em  outros  tempos.  Por  que  hoje  a 
apostasia  é  maior.  Os  inimigos  de  Deus  lutam  com  audácia 
satânica.  Só  mesmo  disciplinados,  cohesos  em  uma  grande  acção 
conjuncta,  poderão  os  catholicos  RESTAURAR  TUDO  EM 
CHRISTO
171

 
Lendo essas palavras e prestando atenção aos nomes apontados por Pe. Ortiz vemos 
que os “leigos” apontados por ele tem, no mínimo, dez séculos de separação entre o autor e 
a época em que existiram... A dificuldade do Pe. Ortiz em encontrar leigos apóstolos mais 
contemporâneos  mostra  a  “novidade”  da  ACB.  Pe.  Ortiz  tem  que  retroceder  até  Justino  e 
Clemente de Alexandria, personagens da Antigüidade para trazer exemplos de apóstolos. A 
ACB  tem  um  elemento  de  novidade  como  também  de  importância:  é  função  também  do 
leigo  juntar-se  à  hierarquia  e  combater  os  “males”  da  apostasia  que  Pe.  Ortiz  apontará 
depois. 
 
O  Pequeno  Catecismo  do  Pe.  Ortiz  trazia  a  idéia  de  apostolado  leigo  como 
obrigação  dos  católicos.  É  uma  das  idéias  que  sobreviverão  ao  fim  da  ACB  enquanto 
organização nacional em 1966 e que continua até hoje. 
 
Como vimos, a AC traz a idéia da recuperação do dever apostólico dos leigos, que, 
apesar de estar presente  no batismo  e na crisma,  não vinha  acompanhada  de uma pressão 
em séculos por parte da hierarquia para que os leigos a fizessem de forma sistemática. Nós 
podemos ter uma ótima noção do porquê da importância do apostolado leigo no início do 
                                                 
171
 ORTIZ, Op. Cit., p. 7-8. 


século XX: apenas o apostolado leigo poderia alentar uma recuperação da ICAR no mundo 
contemporâneo. 
 
Quanto ao papel do leigo, o estudo dos estatutos no próximo capítulo nos dará uma 
ótima  noção  do  papel  reservado  ao  leigo  na  ICAR  pela  hierarquia.  Mas  vejamos  o  que  o 
Pequeno Catecismo nos diz sobre isto: 
-Poderias explicar-me a constituição hierarchica da Igreja? 

Sim. “A Igreja – diz Pio X – é uma sociedade desigual, isto é, 
comprehende duas categorias de pssoas: os Pastores e o rebanho. 
Os que occupam uma posição nos differentes graus da hierarchia e 
a multidão dos fiéis...” 

E devem os leigos cooperar então com o apostolado 
hierarchico? Por que título? 

Sim. Os leigos devem cooperar com o apostolado sacerdotal. 
E isso pela obrigação que lhes impõem os caracteres sacramentaes 
do baptismo e da chrisma, que lhes receberam
172
 
Esta passagem nos mostra  outro conceito que está por trás da proposta da ACB: a 
idéia de subserviência. É a hierarquia quem “acorda” o leigo para o serviço apostólico. É a 
hierarquia quem tem a iniciativa de chamar o rebanho para cuidar do rebanho! Mas, nesta 
“sociedade  desigual”  que  pretende  Pio  X,  é  a  hierarquia  quem  manda,  quem  mostra  as 
regras  do  jogo  e  cobra  dos  jogadores  os  resultados.  A  saturação  perante  esta  posição 
“intransigente” a qual a hierarquia se coloca quando lança esse propósito de ação será um 
dos  fatores  que  gerarão  descontentamento  por  parte  de  movimentos  jovens  da  ACB  nos 
anos sessenta que terão dificuldades em propor suas idéias e em serem aceitos. 
A estratégia de ação usada pela Igreja fora a da identificação dos leigos com o seu 
propósito  de  vida  trazido  pelo  batismo:  todo  o  batizado  e  crismado  é  um  apóstolo  em 
potencial. As pessoas só precisavam ser conscientizadas disso! Através de campanhas de 
“conscientização” os leigos foram aderindo aos movimentos da ACB aos poucos. 
                                                 
172
 Idem, p. 9-10. 


Como quase ninguém sabia ao certo o que se deveria fazer enquanto a AC, muitos 
missionários estrangeiros ajudaram nesta tarefa. 
Na JEC, como nos mostra o Pe. Hilário Dick, em um primeiro momento, no início 
da década de 1930, o trabalho de evangelização e publicidade do movimento foi feito por 
religiosas ou leigos adultos envolvidos com a ICAR de alguma forma, o que não tornava o 
movimento muito “popular” entre as jovens:  
A ação era desenvolvida, em geral fora da escola, sendo as jecistas 
professoras  de  catecismo  e  animadoras  da  liturgia  das  paróquias. 
Não  existia  nucleação;  usava-se  o  método  do  “convite”,  atraindo 
um  grande  número  de  pessoas.  Todas,  porém,  consideravam-se 
JEC. A JEC, nesta etapa – assim como a JEC masculina – era um 
movimento  orientado,  pensado  e  realizado  por  adultos, 
especialmente  as  delegadas  ou  conselheiras  (que  eram  as 
encarregadas  da  Juventude  Feminina  Católica  pelo  meio 
estudantil)
173
  
 
Este problema estratégico da utilização de adultos para a criação de um movimento 
orientado  para  os  jovens  seria  resolvido  no  decorrer  das  décadas  de  1930  e  1940.  Como 
veremos, se a presença de alguns adultos fosse obrigatória na JEC, talvez a hierarquia não 
tivesse presenciado a separação das Equipes Nacionais da JEC da ACB em 1966. O fato é 
que  desde  então  a  hierarquia  vem  adotando  uma  estratégia  de  ter  adultos  presentes  nos 
movimentos  de  jovens  até  hoje.  Dificilmente  um  movimento  de  jovens  desde  o  nível 
paroquial  no  Brasil  não  tem  a  presença  de  um  adulto.  Logo  veremos  o  porquê  desta 
posição.  A  falta  de  um  sucesso  maior  na  criação  de  núcleos  fez  a  hierarquia  mudar  sua 
estratégia no Brasil. O clero do Brasil resolvera adotar a chamada “especialização do meio” 
(que  veremos  com  detalhes  no  próximo  capítulo),  e  que  tornava  o  jovem  estudante 
encarregado  pela  evangelização  no  seu  “meio”,  lhe  dando  ampla  liberdade  de  ação.  A 
especialização fora inventada pelo Pe. e depois Cardeal Cardjin, da Bélgica: 
Quem deu os primeiros passos numa linha de autonomia dos leigos 
foi  a  Juventude  Operária  Católica    da  Bélgica,  com  Cardjin.  Em 
1948 aprovava-se a JOC do Brasil.... uma figura que havia surgido, 
naqueles  anos,  era  a  figura  da  “propagandista”  da  JECF,  fazendo 
visitas  às  regiões  mais  diversas  para  implantar  a  JECF...  A  JECF, 
                                                 
173
 DICK, Op. Cit., p. 06. 


dispersa pelos colégios e dioceses, começava a ter uma articulação 
mais ampla, assumida pelas estudantes e coordenadas por elas
174

 
Desta forma a hierarquia adota uma estratégia inicial que não se torna eficiente em 
um primeiro  momento,  mas que terá sucesso  ao acrescentar  mais membros a JEC  em um 
segundo  momento.  E  ao  investir  nas  “propagandistas”  (que  tinham  a  mesma  idade  das 
pessoas  às  quais  a  ICAR  queria  que  participassem  do  movimento,  falavam  a  mesma 
‘linguagem” das jovens criando uma “identificação” com estas) começava a surgir a figura 
do “liberado”, que existe até hoje e é um jovem que dedica um período do seu tempo (seis 
meses,  um  ou  dois  anos)  para  o  movimento,  muitas  vezes  recebendo  salário  e  diárias  da 
ICAR
175

 
 
2.7. A JEC na ACB: um movimento em busca de novas oportunidades 
 
 
 
A JEC foi um movimento da ACB que sempre teve ótimas equipes nacionais 
diretivas desde que estas fossem criadas. Como veremos através dos estudos das 
publicações da JEC, podemos dizer que desde a década de 1940 quando as publicações da 
JEC mensais como a sua revista, ou as publicações anuais e trimestrais como os Cadernos 
da JEC e os Boletins mostram-se como sendo trabalhos em sintonia com a hierarquia
176

 
A própria documentação vinda das Equipes mostram uma vontade dos dirigentes 
em trabalhar de acordo com as propostas das Reuniões dos Conselhos anuais da ACB e que 
                                                 
174
 Idem, p. 03 
175
 O uso das “propagandistas” inicia-se no ano de 1953. 
176
 Veja o ANEXO 1.
 


valiam como sugestão de trabalho para todos os movimentos da ACB, não só a JEC, como 
a JUC, JOC, JAC, JIC, Homens da ACB, Mulheres da ACB, LEC e tantos outros. 
 
Mas com o tempo, com a falta de renovação das estruturas de mobilização da ICAR 
e com o que podemos de chamar de “consolidação da instituição” ACB (e nela a JEC), 
muitos dirigentes viram que muito mais poderia ser feito. No fim da década de 1950 mais 
especificamente, a ICAR realizava muitas ações sociais, e estava presente em muitos 
lugares onde o Estado mesmo não se fazia presente, como em localidades do interior, em 
favelas, formando talvez as estruturas mais organizadas para algumas populações
177

 
Alguns dirigentes da ACB já falavam a partir da metade da década de 1950 em usar 
a organização da ICAR, principalmente a ACB em si e seus movimentos de jovens em um 
plano de mudança do Brasil que visasse a correções nos problemas de distribuição de 
riqueza, do excesso de pobreza, da falta de educação básica, da saúde precária, . Muitos 
dirigentes da ACB dedicavam parte do seu tempo extra (que não fosse usada no trabalho, 
na paróquia ou em família) para fazerem trabalhos de evangelização neste sentido, 
motivando as pessoas dentro do seu meio para uma mudança social, como veremos mais 
adiante. 
 
O fato é que a JEC era um dos movimentos da ACB que buscava a superação da 
estrutura montada pela própria ICAR desde o início do século XX e revista no Brasil nos 
Estatutos de 1946 e 1950. Na verdade, foi graças à mudança dos Estatutos e a ampliação 
do meio de atuação dos jecistas (e de outros movimentos como a JOC e JUC) que os 
dirigentes da JEC puderam ter um contato maior com outras organizações políticas como o 
PCB, os dirigentes da UNE, da UBES e PTB que a JEC pôde, juntamente com a JUC, 
                                                 
177
 Temos de lembrar que ainda hoje a ICAR é responsável por mais de 70% de todos os serviços públicos de 
caridade dos mais variados tipos, que vão desde equipes de educadores e serviços religiosos a serviços de 
saúde (como as Pias Instituições e as Santas Casas). 


evoluir para um movimento político em franca oposição à hierarquia, o que levou-a a 
decretar o seu fim em 1966. 
 
E isso, provavelmente, tem a ver com o fato da proposta da hierarquia para o 
movimento ter ultrapassado qualquer proposta estabelecida dentro dos Estatutos da ACB. 
Resumindo: os dirigentes tinham ido longe demais dentro do proposto. Pior: eles 
carregavam o nome da Igreja, eram seus representantes em todas as associações que 
faziam, inclusive nas que a ICAR os havia proibido de participarem. O preço pago foi a 
extinção da experiência leiga, pelo menos através da ACB em nível de organização 
nacional, nos moldes da Ação Católica tradicional. Um novo modelo estava sendo criado 
respaldado pelas medidas do Concílio Vaticano II. 
 
A JEC do fim dos anos 1950 até o seu fim como movimento de organização 
nacional em 1966 através do estudo das oportunidades políticas, estruturas de mobilização 
e marco referencial é o assunto do próximo capítulo. 


 
 
 
 
 
CAPÍTULO 3 – A EQUIPE NACIONAL DA JEC E O MOVIMENTO 
INTERNO DE POLITIZAÇÃO ESTUDANTIL NA IGREJA 
CATÓLICA (1958-1966): DO INÍCIO AO FIM DA JEC COMO 
MOVIMENTO SOCIAL 
 
 
 
 
 
Os primeiros anos da década de cinqüenta, como vimos, foram muito importantes 
para a ACB, e principalmente para a JEC. Não só o número de membros ativos em todo o 
Brasil aumentou significativamente como o objetivo da hierarquia no país de aumentar ou 
reconquistar a importância política da ICAR já havia sido alcançado. 
 
Não só a Igreja foi consultada quando da aprovação de duas Constituições em 
pontos essenciais para os seus interesses como nenhuma Ordem religiosa foi expulsa do 
país por ordem do Executivo, como no século anterior, foi feita uma adição do trabalho 
leigo que agregou importante reforço ao serviço apostólico. Finalmente havia um ótimo 
clima de trabalho para a hierarquia no país e altamente favorável. Além disso, a ICAR era 
chamada a opinar em uma série de assuntos políticos. E um tratado diplomático fora 
assinado com o Vaticano aproximando a hierarquia católica do Brasil com a alta hierarquia 
de Roma, dentro do processo ultramontano promovido pela última desde o século XIX. 
 
Mas, no final da década de cinqüenta, uma série de mudanças políticas entrarão em 
cena e mudarão o equilíbrio conquistado até então. Alguns movimentos leigos questionarão 
diretamente a hierarquia e seu poder. A ACB virará apenas mais um entre outros 
movimentos católicos de organização leiga. Sua importância cairá de o movimento para um 
movimento leigo. 


 
Estes movimentos usarão da própria estrutura institucional católica para 
propagandear novos ideais que vão de encontro ao que a hierarquia sempre propôs em 
termos de ACB, criando algo novo, um contra-movimento dentro do movimento de 
romanização, vindo das Equipes Nacionais da ACB, em especial da JEC, JOC e JUC. 
Então, a partir de 1962, a partir de vários alertas que já vinham desde 1958, a hierarquia 
passa a realizar um processo de questionamento das referências usadas por estes 
movimentos revolucionários dentro da ACB. O rigor destes questionamentos chega muito 
perto de um processo inquisitório
178
. Mesmo assim, a proposta revolucionária das Equipes 
Nacionais consegue conquistar alguns simpatizantes dentro da hierarquia que as mantém, 
apesar de muitas críticas. 
 
Com o Concílio Vaticano II vieram também uma série de mudanças dentro da 
instituição e uma proposta mais ampla de trabalho apostolar com o leigo, sacramentando o 
sucesso da iniciativa do início do século com a AC, mas abrindo espaço para outros novos 
movimentos. Também dentro do Concílio veio a eleição para a CNBB. Uma aliança de 
bispos profundamente descontentes com o modo como a ACB vinha se comportando, 
elegeu um novo presidente para a CNBB, Dom Hélder Câmara. Estas novas condições 
políticas (ocorridas a partir de 1964) determinariam para sempre o fim de uma maneira de 
trabalhar já consagrada da ACB, levando ao fim dos Conselhos Nacionais em 1966, 
desarticulando os movimentos da juventude em um momento de profunda perseguição 
política, inclusive por parte do governo brasileiro. Isto causou o esvaziamento. 
 
Com o golpe militar de 1964 o governo brasileiro, a partir da criação da política de 
Segurança Nacional passaria a perseguir a todos os que considerassem inimigos do 
governo. Alguns destes inimigos eram os movimentos que faziam parte da política 
estudantil no ano de 1964, e todos os movimentos e partidos que ainda propusessem  
democracia. Aliado ao problema do governo brasileiro entrar numa fase de repressão 
militar e política, estava o problema da interpretação por parte da hierarquia recém eleita da 
                                                 
178
 Inquisição aqui é um termo que significa questionar, inquirir, perguntar, tirar dúvidas. Dentro desse 
processo “inquisitório” que passa a ocorrer, a hierarquia passará a pedir às equipes nacionais da ACB (e 
principalmente è JEC e JUC) um retorno Constante relativo ao que estas pensam sobre a função da JEC na 
sociedade, na ACB, e na Igreja. Questionarão o que as Equipes planejam para o ano, o que é feito relativo á 
política estudantil. Tudo isto de uma forma nunca vista antes. O resultado deste processo que começa em 
1962 e termina em 1966 é o desgaste das relações entre a hierarquia e as equipes. Não contentes com o 
resultado deste processo a hierarquia decretará o fim das equipes nacionais em função da perseguição do 
governo e do projeto revolucionário destas para a ACB, principalmente JEC, JOC e JUC. 


CNBB das idéias propostas por movimentos como a JEC para resolver os problemas do 
Brasil. Não eram liberais e também não eram as mesmas da Doutrina Social da Igreja. Na 
verdade, se aproximavam muito do comunismo, principalmente ao querer o bem comum e 
a divisão de riquezas na sociedade. 
 
Em 1966, encerrando um período de dois anos de perseguição por parte da 
hierarquia e do governo, as equipes nacionais não mudam seus projetos e alianças. 
Permanecem lutando por suas idéias e acreditando em uma derrota do governo pela 
organização estudantil e operária. Assim, a hierarquia decreta o fim das equipes nacionais 
da ACB, e passando a responsabilidade da organização dos movimentos para as equipes 
regionais, supervisionadas pelo arcebispo de cada região, e controlando os movimentos 
nacionalmente diretamente pela CNBB. É o início do fim ad JEC. 
 
 
 
 
3.1. As novas oportunidades políticas (1958-1962) 
 
 
 
Após a criação das equipes nacionais na década de quarenta e os estatutos da ACB 
de 1950, a JEC conseguira se firmar como um dos principais movimentos da AC. Seus 
membros eram jovens, se adaptaram muito bem ao plano de trabalho apostólico da 
hierarquia, trabalhavam dentro dos parâmetros impostos, discutiam temas internos da ICAR 
na maior parte do tempo dedicado ao estudo e formação. 
 
No Brasil, “o rápido aumento do número de eleitores e a crescente participação 
política diminuíram o raio de ação das operações de elite.”
179
. Isso proporcionou, segundo 
Skidmore, que a sociedade, principalmente a urbana e de classe “média”, buscasse os seus 
direitos devidos, onde podemos ver isso mais diretamente nessa década já que “os apelos 
diretos aos interesses classistas e setoriais tornaram-se mais freqüentes depois que Getúlio 
assumiu a presidência da República em 1951”.
180
 
Com muito sucesso a hierarquia brasileira havia conseguido no decorrer da década 
de cinqüenta perpetuar as conquistas da ICAR nas três décadas anteriores e aumentara sua 
                                                 
179
 SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco, 1930-1964. 7ª ed. Rio de Janeiro : 
Paz e Terra, 1982,  p. 308. 
180
 Idem. 


influência no estado brasileiro. Boa parte disto está na liderança de Dom Hélder Câmara na 
presidência da CNBB desde 1952 até 1964 quanto no tipo de apoio que o grupo de Dom 
Hélder exercia sobre a hierarquia desde então. Na historiografia, este grupo ficou conhecido 
com o grupo “progressista” da Igreja, em oposição ao grupo “conservador”. O primeiro 
estava ligado às mudanças sociais, a uma postura frente ao laicato de não condenar à 
primeira vista, às massas urbanas, etc. Já o segundo é freqüentemente ligado a sua aliança 
com os setores “tradicionais” da sociedade como os grandes latifundiários, a linha de 
políticos anterior ao golpe de 1930, a ortodoxia cristã mais arraigada, contrários a 
mudanças, etc. 
 
O interessante é que, como veremos, apesar do primeiro grupo perder as eleições de 
1964 da CNBB, este faz parte do grupo que mais fez sugestões e participou no Concílio 
Vaticano II pela descentralização da Igreja e outras reformas que a mudariam para sempre. 
Sua derrota nas eleições dará um fim a JEC como a conhecemos e a toda a ACB. 
 
Mas simplificações de conceito do tipo “progressista” e “conservador” em um grupo 
tão heterogêneo quanto o da CNBB talvez não sejam capazes, neste trabalho, de dar conta 
da explicação do por quê grupos como a JEC foram perseguidos pela hierarquia, 
principalmente a partir de 1964, como tenta nos mostrar Bruneau
181
. Isto fica mais claro 
quando consultamos a documentação e vimos uma “perseguição” da hierarquia ainda em 
1962, pela mesma coordenação da CNBB que perdera em 1964.  
A CNBB deixava clara sua intransigência com o comunismo. Numa Declaração dos 
Cardeais a CNBB de 1958
182
 o cardinalato brasileiro denuncia “a regra materialista dos que 
                                                 
181
 BRUNEAU, Op. Cit, p. 195-223. Thomas Bruneau no capítulo “Institucionalização das Estratégias de 
Mudança Social: a CNBB”, sobre a CNBB na década de 1950 e a mudança da direção política da CNBB na 
eleição de 1964 defende a tese de que a organização estava dividida entre estes dois pólos, o “progressista” e 
o “conservador” o que explica algumas ações na década de 1950 e início dos sessenta da CNBB, a favor de 
movimentos sociais e a um olhar mais brando aos movimentos jovens da ACB que se envolviam direta ou 
indiretamente com comunistas. Explica também o processo de eleição de 1964 onde o grupo “conservador” 
pressiona alguns bispos indecisos a favor de votos contrários a manutenção de Dom Hélder para a reeleição a 
presidente.Naturalmente que existia e existe uma diversidade de pensamentos na CNBB e na hierarquia 
católica, o que justifica até pensarmos na divisão da instituição entre “progressistas” ou “conservadores”, mas 
isso por si só não explica ou resolve algumas questões. Como concordarmos com Bruneau se Dom Hélder 
presidia a CNBB em 1962 quando a instituição passou a fazer um processo de inquérito sobre as ações da 
ACB? 
182
 CNBB. IV ASSEMBLÉIA ORDINÁRIA (3 A 11 DE JULHO). SUGESTÕES DA A.C.B. EM FACE DO 
DISCURSO DO SANTO PADRE PIO XII NO II CONGRESSO MUNDIAL DE APOSTOLADO LEIGO. 
Goiânia: Mimeo, 1958,  p. 1-8. 


se lançam aos empreendimentos econômicos com o intuito de lucros e mais lucros”
183
. A 
realidade brasileira, para os cardeais está errada por que a pessoa está abaixo do lucro. Os 
cardeais também denunciam o perigo comunista. Não está portanto nem o capitalismo 
inteiramente correto, como também o comunismo. “Nisto está tôda a formulação cristã de 
nossa posição contra o comunismo ateu que combatemos... mas que não confundimos com 
a aspiração legítima acalentada pela classe operária e por todo o mundo do trabalho”
184
 
Tais declarações vindas da mais alta hierarquia católica balizavam qualquer crítica 
aos movimentos da ACB ou outros acaso esses não se encaixassem nesta posição política.
 
Em 1958, com a morte de Pacelli, o Papa Pio XII (o que mais popularizou a AC) 
assume um novo líder da ICAR: João XXIII. Ele surpreenderá ao mundo e à Igreja com 
suas ações apesar da sua idade. Proporá um novo Concílio e tentará resolver vários 
problemas da ICAR ao tentar moderniza-la e democratizar seus movimentos, leis e sub-
instituições. 
 
A JEC brasileira participará de dois eventos internacionais entre 1956 e 1958 onde 
ocorrerá uma troca de conceitos e métodos com outros movimentos e experiências da JEC 
de outros países. O primeiro, realizado em 1956 no Rio de Janeiro, foi o 1º Conselho 
Mundial da JECI. E o segundo e mais importante foi a Sessão Mundial de Dakar, na África. 
Apesar da distância, o Brasil foi representado por uma comissão formada de seis jovens 
(quatro militantes da JECF e dois da JECM) e um assistente, o Frei Romeu Dale, autor do 
primeiro manual brasileiro da JEC, ensinando os conceitos básicos da JEC. E foi a partir da 
Sessão de Dakar que temas como política estudantil foram introduzidos de fato nos 
programas da JEC brasileira.  
Segundo Dick, “na sessão de Estudos de Dakar (de 23/7 a 2/8/1958) estudou-se a 
caracterização da escola e do estudante (em que Luiz Alberto Gómez de Souza deu uma 
contribuição), a espiritualidade estudantil e o método de ação”
185
. Entusiasmados com o 
novo campo de ação, estes membros dirigentes da JEC na Equipe Nacional influenciaram o 
Programa do ano posterior de 1959 para que houvesse ampla discussão da possibilidade da 
JEC assumir maiores responsabilidades no meio estudantil, como nunca tinha feito antes, a 
exemplo de países como a França, por exemplo. A JEC brasileira mereceu destaque ainda 
                                                 
183
 Idem, p. 5. 
184
 Idem. 
185
 DICK, op. Cit., p. 11. 


no evento, pois “Luiz Alberto Gómez de Souza... foi, além de presidente eleito do Conselho 
de Dakar, escolhido, no final, secretário geral da JECI de 1959 a 1961”
186

Uma nova inserção política iniciava a partir deste evento. Não só o maior país 
católico do mundo tinha um representante no Conselho Internacional da JEC como era o 
seu Secretário Geral. O fato de a hierarquia brasileira apoiar em um primeiro momento essa 
inserção internacional significa (possivelmente) a legitimação do apoio ao movimento até 
então e depois. Temos de lembrar a distância e o custo para freqüentar estes eventos 
internacionais e o que significa perante Roma a representatividade permanente de um 
brasileiro no Conselho Internacional da JEC. Há aí com certeza um cálculo de custo-
benefício que conta a favor da nossa hierarquia. 
 
 
 
3.2. As estruturas de mobilização do movimento na década de 1950 até 1958 
 
 
 
Como vimos, a Sessão de Dakar de 1958 foi muito importante para o futuro da JEC 
no país. Foi depois dela que o Frei Romeu Dale lançou o seu livro JEC – o evangelho no 
colégio
187
. O livro veio a atender a dois problemas básicos da época: a falta de um manual 
brasileiro para um movimento que crescia rapidamente no país e o problema da falta de 
unidade que poderia acontecer acaso não se impusessem regras e diretrizes para que o 
movimento fosse o mesmo tanto na Região Extremo-Sul como na Nordeste, enfim, o 
mesmo movimento em âmbito nacional. Este livro se caracterizava por ser portanto um 
instrumento de integração jecista, já que ditava algumas regras básicas e trazia consigo os 
estatutos da ACB e da JEC. 
 
Outro importante instrumento inovador surgido em 1958 que ajudou no processo de 
expansão do movimento foi o lançamento em todo o Brasil da “Semana do Estudante que, 
através de grandes assembléias estudantis procurava empolgar a massa de jovens presentes 
                                                 
186
 Idem. 
187
 DALE, Op. Cit. 


com palestras sôbre suas responsabilidades e vida cristã”
188
. Mesmo que as tentativas de 
engajamento de novos membros não dessem frutos com esta estratégia, pelo menos 
podemos dizer que era uma estratégia ousada, e que o movimento propunha uma mudança 
na maneira tácita de aumentar o seu número e membros por outras mais efetivas, talvez. 
Mas se engana quem acha que o objetivo da equipe diretiva da JEC seria se 
sobrepor a outros grupos presentes porventura no colégio, como partidos políticos ou 
representantes estudantis. No seu Caderno 3 – Comunidade Estudantil, de 1958 ainda e que 
era um roteiro para o cumprimento do Programa de ações anual da JEC e “visando 
estabelecer o espírito comunitário no colégio”
189

 
 
 
3.3. Os marcos referenciais da JEC (até o ano de 1958) 
 
 
 
Quando tratamos da Sessão Mundial de Dakar nas páginas anteriores eu destaquei a 
importância política do fato: a representatividade e participação brasileira no evento era 
importante para o país mostrar o seu esforço de apostolado, o grau de inserção do laicato 
neste e a importância da AC para a hierarquia. 
 
De Dakar os dirigentes jecistas trouxeram os conceitos de espiritualidade estudantil 
e o de ação, que serão trazidos para o Brasil e trabalhados no 3º Encontro Nacional da JEC, 
realizado o Rio de Janeiro. Aliado ao crescimento impressionante do movimento e o 
trabalho do Encontro Nacional, “novas perspectivas e novos campos de ação se abriam para 
os militantes. A técnica era melhor empregada, o método observado e a estrutura facilitava 
a formação de dirigentes, procurando acentuar os diversos aspectos de sua ação na JEC e no 
meio”
190

                                                 
188
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. VISÃO HISTÓRICA DA JEC BRASILEIRA. São Paulo: Mimeo, 1963, p. 4 
(grifo meu). 
189
 Idem. Para uma visão geral dos temas apontados em cada ano de funcionamento da JEC para que as 
Equipes de Base se baseassem durante o ano, veja os anexos nº 1
 
a e 1b. 
190
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. VISÃO HISTÓRICA DA JEC BRASILEIRA. São Paulo: Mimeo, 1963, p. 
4. Neste documento a Equipe Nacional da JEC (Masculina) faz uma breve história do movimento. Apesar da 
JEC estar presente no Brasil desde a década de trinta, e apesar de já haver uma articulação nacional do 
movimento na década de quarenta, é interessante que a Equipe comece a contar a história da JEC a partir de 
1956! Esta data é utilizada como “início” da JEC pela Equipe de 1963 por que só a partir de então a JEC 
passa a contar com equipes verdadeiramente nacionais, com uma articulação entre todos os estados. Este 


 
Além disso, o sentido do conceito de apostolado se transformara. Para a Equipe 
Nacional, até então apostolado significava a conversão ou a transmissão da mensagem 
cristã a outras pessoas (estudantes) que estivessem inseridas no seu meio de ação, no caso, 
a escola. Com a descoberta de que o meio estudantil não precisava ser apenas o objeto deste 
apostolado, a JEC “começa a se abrir para os problemas do meio, da sociedade e da 
Igreja”
191
. Desta forma a energia da ação jecista continuava no apostolado do meio mas 
também pensando nos problemas que tem esse meio: e então questões como porque o 
ensino secundário não chega a toda a sociedade, por que o ensino é deficitário, qual a 
razão do número de analfabetos no Brasil ser tão grande tiraram a JEC do mundo 
institucional católico e fizeram seus membros começar a pensar os problemas do país. 
 
É claro que quando falamos em marcos referenciais, temos de deixar claro as 
pessoas que trazem estas protoidéias ao movimento até que elas se tornam o marco 
referencial do movimento e de que idéias se tratam. É um consenso entre todos os autores 
que vimos até agora e que escreveram sobre a JEC que os jovens do movimento sofreram 
algum tipo de influência intelectual que os motivou à ação. 
 
Em um depoimento sobre a influência do filósofo Pe. Vaz aos jovens católicos da 
década de 1960 Herbert de Souza nos explica como se dava à relação dos jovens com a 
filosofia e a sua influência nos inexperientes jovens da ACB? 
Queríamos mais que uma lógica, um saber. Mais que um método, 
um conhecimento. Mais que uma ordem do pensar, um modo de 
produzir conhecimento e um norte para uma grande caminhada que 
pensávamos ser o nosso destino. Marítam e Mounier vieram dar 
movimento ao que pensávamos ter sido um encontro cabal com o 
que nos faltava: um pensamento capaz de colocar a história dos 
homens concretos no centro do pensar e a pessoa no eixo de uma 
ética que superava a dicotomia entre o indivíduo e a sociedade. 
Mais do que Marítam foi Mounier, com O Personalismo, que nos 
deu essa sensação de um encontro com uma filosofia do homem, 
da história e da ação
192

                                                                                                                                                     
processo de adonar-se do passado no mínimo revela uma intenção de desqualificar o trabalho realizado em 
termos de JEC anteriormente. E o que há para ser esquecido entre 1932 a 1955, além da desarticulação 
nacional da JEC? O fato de que até 1956 a JEC não trabalhava para resolver os problemas sociais através de 
seu engajamento no movimento político-estudantil. 
191
 Idem. 
192
 SOUZA, Herbert de. Padre Henrique Vaz: A filosofia de nossa práxis. In: PALÁCIO, Pe. Carlos. 
Cristianismo e História, Edições Loyola, 1982, p. 56. 


 
Se os membros da JEC da década de 1950 e início da década de 1960 eram muito 
novos para entender a amplitude da mensagem dos filósofos, era a questão prática e o que 
o pensamento de cada um destes filósofos poderia trazer para contribuir na ação: 
Mounier fazia a ligação entre o evangelho, que havíamos lido e 
praticado através dos dominicanos, e a realidade entre o 
pensamento e a humanidade, entre a teoria e a prática, o estar no 
Brasil e intervir em sua história. Mounier foi, portanto o elemento 
de ruptura com o nosso primeiro e precário aprendizado da 
filosofia e a abertura para uma nova etapa de busca
193

 
 
Neste caso, parece que para um dos principais nomes da Ação Popular, a 
contribuição de Mounier com o Personalismo foi a ligação entre a teoria e a prática 
apontando para algum tipo de ação no tempo presente e no espaço em que se vive: o Brasil. 
 
Outro autor apontado por Souza como influente na sua geração é Marx: 
Foi ainda através da filosofia que Marx se apresentou como 
desafio. Lemos Marx através de Yves Calvez (La Pensée de Karl 
Marx). Não o Marx do Capital, do 18 Brumário ou do Manifesto, 
mas o Marx da Ideologia Alemã. Não o da mais-valia e da luta de 
classes, mas o da Alienação
194

 
 
A principal discussão dessa juventude trazida por Marx era em torno do 
materialismo e da alienação em função da dificuldade de encontrar outras obras de Marx, 
sendo a leitura do autor indireta, se assim podemos dizer. Estas leituras acima citadas 
parecem ter sido a base da mudança de atitude frente a hierarquia no que tange ao 
pensamento político da ICAR, segundo Souza: 
A essa altura nossos problemas já eram mais urgentes e o conceito 
de ‘engajamento’ já havia perdido muito de seu sabor abstrato ou 
contemplativo.É neste contexto de engajamento, movido pela 
militância cristã da JEC e da JUC, que Marx apareceu para muitos 
de nossa geração como um desafio e um problema: participávamos 
da política movidos pelas exigências da fé cristã. Por que então 
deixar a fé que - nos levava à política - para poder encontrar Marx 
na política? Através da fé já não havíamos chegado à política? Por 
que aceitar o dilema entre fé (cristã) e política (marxista)?
195

 
                                                 
193
 Idem.  
194
 Idem, p. 57. 
195
 Idem. 


 
A pergunta final de Herbert de Souza tem sua resposta na criação da AP. Para 
muitos jovens a discrepância entre a posição “passiva” frente aos problemas nacionais 
como a educação, saúde e miséria (entre outros) por parte da hierarquia era um bom motivo 
para simplesmente desistirem dos planos de atuação como leigos engajados em 
movimentos católicos quando poderiam ajudar mais como políticos engajados em uma 
instituição com esse fim e que poderia crescer em um ambiente diferente. 
Além de Mounier, outro filosofo que inspira os cristãos engajados da década de 
1960 é Jacques Maritain. Maritain é um filósofo cristão engajado em criar uma filosofia 
que ligue o humanismo da Revolução Industrial com o cristianismo contemporâneo. 
Para Maritain, a filosofia cristã é 
Uma filosofia liberta (que) deve ser denominada de filosofia, 
tomada plenamente como tal.. que longe de reduzir-se ao exercício 
intelectual, toma consciência da imensidade de sua tarefa; ela 
torna-se maior num mundo maior, laica e integral ao mesmo 
tempo, no sentido de ser autônoma e contemporânea com relação 
às outras formas do saber: como a sabedoria coloca-se entre as 
ciências experimentais e as matemáticas de um lado, e a teologia  e 
a mística, de outro
196
 
 
 Tal visão crítica da filosofia em seu tempo também é uma crítica ao sentido “não-
prático” e abstrato do uso da filosofia até então. Esse pensamento influenciou uma política 
cristã que é uma política  
Cristãmente inspirada, chamando para si todos os não cristãos, que 
vêem justa e humana uma política que, mesmo inspirando-se no 
espírito e nos princípios cristãos, não obriga senão as iniciativas e 
as responsabilidades dos cidadãos que a praticam, sem ser 
absolutamente uma política ditada pela Igreja ou que obriga a 
responsabilidade desta
197
 
 
Esse caráter independente proposto por Maritain, onde é válida uma iniciativa pelo 
bem de todos, mesmo que não inspirada na política ditada pela hierarquia está presente com 
certeza nos atos da JEC na década de sessenta e seu posicionamento frente aos problemas 
do mundo e à realidade brasileira. O filósofo ainda escreve sobre a nova cristandade, o 
tomismo e o humanismo cristão. Mas no Brasil, a discussão entre os grupos católicos de 
                                                 
196
 MARITAIN, Jacques. Por um humanismo cristão: textos seletos (tradução Gemma Scardini). São Paulo: 
Paulus, 1999, p.20. 
197
 Idem, p. 21. 


esquerda parece ter ficado mais em torno do humanismo cristão e a política cristã. Para 
Maritain, a missão da Igreja é de ser  
encarregada não de gerenciar as coisas temporal, mas de conduzir 
os homens à verdade sobrenatural e à vida eterna, em sua vida e em 
sua missão espiritual, existe com o povo e sofre com ele e não pode 
existir sem ele. Se compreendêssemos mais o mistério da Igreja, 
colheríamos no meio de suas vicissitudes temporais o seu desejo 
eficaz e primordial, o de não estar separada do povo
198

 
 
Segundo Maritain, o papel da Igreja é o de dar suporte ao povo e sofrer com o este 
mesmo povo suas desventuras, quais sejam estas. Por isso compreendemos certa 
incompreensão dos seus leitores brasileiros da década de cinqüenta e sessenta em entender 
certo apoio e certa mudez da ICAR em se pronunciar frente à dura realidade sócio-
econômica do povo brasileiro. Mas Maritain não era uma unanimidade entre a hierarquia. 
Talvez por isso suas palavras tenham tido tal efeito de apoio aos jovens da JEC e JUC da 
época na criação de movimentos que fossem de encontro à hierarquia. 
 
O ideal proposto por Maritain no seu humanismo cristão é o de usar a razão e os 
valores cristãos, sempre respeitando ambos os lados, para criar o Paraíso ainda na Terra. É 
possível ao homem ser feliz antes de ir ao Céu? Através de uma Igreja formada de pessoas 
que amam verdadeiramente outras pessoas e que se preocupam com o seu bem-estar, é 
possível. Para isso, os cristãos deveriam atuar para reformar o mundo. 
Em depoimento escrito Vera Jaccoud (JACCOUD/POUCHARD, 1989, p. 1-2) nos 
relata a “formação jecista” dentro do marco referencial do movimento ultramontano entre 
1939-1941: 
As reuniões abrangiam: formação Doutrinária, Formação Espiritual 
e Formação Moral. Na Formação Doutrinária estudávamos os 
Evangelhos, as Encíclicas e Doutrina correspondente ou outra. 
Lembro o papel que teve, na minha vida, o estudo da missa, da 
Liturgia, do Corpo Místico de Cristo, da Eucaristia. 
Acompanhávamos a Missa (em latim, que estudávamos um pouco 
para melhor participar). Na formação espiritual eram desenvolvidas 
as tônicas sobre: Vida de oração, vida interior, terço diário, 
meditação do Evangelho, direção espiritual, manhãs de 
recolhimento, retiro anual... quanto ao papel dos membros da Ac 
como “fermento na massa” as conclusões eram, de um lado, 
bastante vagas, como seja a conversão do próximo pela nossa 
                                                 
198
 Idem, p. 62-63. 


maneira de “ser” e , de outro lado, através de atividades de grande 
porte, como organização, propaganda de Páscoa coletivas ou como 
“campanhas. 
 
 
Vemos que o foco da JEC em que a ex-militante participava no período de 1939 a 
1941 era voltado muito mais para uma “espiritualidade interiorizada” no sentido de 
descoberta da espiritualidade do militante por atividades de oração do que um foco na 
atividade de evangelização prática. A aplicação do método Ver-Julgar-Agir, próprio da 
ACB, não era amplamente aplicado e nem era entendido até então 
 
A companheira de JECF de Vera, a senhora Jeannette nos conta no mesmo 
depoimento escrito citado anteriormente que muitas transformações ocorreram desde 1941 
na JEC. Após a 2ª Guerra Mundial as duas moças na época foram enviadas a Roma no 
Congresso Mundial de Leigos e lá acabaram tendo uma experiência diferente de JEC que 
elas resolveram trazer para o Brasil: a ACB especializada. Agora Vera nos conta que: 
A essência da JEC especializada que nos cativou definitivamente 
foi: 
-  “ser” do próprio meio onde se vive e trabalha 
-  “assumir” esse meio, estudando suas características, riquezas e 
dificuldades 
-  permanecer nesse meio e trabalhar com ele e para ele 
O pessoal das JECs francesa e belga era bem mais novo do que nós 
que, nessa altura, já tínhamos 27 anos. Mas Jeannette e eu 
começamos a “maquinar” como abordar as transformações 
paulatinas aqui na nossa terrinha (Idem, p. 4) 
 
 
O fascinante na proposta de trabalho da JEC belga e francesa para as representantes 
brasileiras no Congresso era uma nova “liberdade” de ação para o jovem: sendo ele o ator 
da evangelização no meio próprio (a escola), o (a) militante teria a oportunidade de se 
aprofundar no estudo do meio trabalhando nele até quando fosse possível. No mesmo 
depoimento Vera fala sobre a dificuldade de aplicação do método Ver-Julgar-Agir pelo fato 
de não entenderem-no: 
Depois da nossa iniciação na JEC especializada, passamos, aqui, de 
forma bastante intuitiva, na maioria das vezes através de “tentativa 
e erro”, a tentar aplicar o método Ver-Julgar-Agir. Buscávamos 
orientação em publicações francesas e belgas e íamos adaptando 
(Idem). 
 
 
 
 


3.4. As novas oportunidades políticas (de 1962-68) 
 
 
O governo de João Goulart, de 1961-1963, passa por um momento delicado no que 
se refere à economia e à estabilidade política, em grande parte devido à maneira com que 
Jango “costura suas alianças”.  É assim que os movimentos católicos com a JEC e a JUC, 
principalmente, chegarão a ser base do governo através da UNE. “As lutas políticas em 
tôrno do programa San Tiago Dantas-Furtado de estabilização e reforma facilitaram aos 
extremistas a oportunidade de recrutar novos prosélitos”
199

 
Pela primeira vez tais organizações estudantis tinham tamanha importância no país. 
“Do lado da esquerda, organizações estudantis radicais como a UNE e a Ação Popular 
tomaram a si um ambicioso programa de organização política”
200
. E justo em uma área que 
necessitava mais investimentos por parte do governo: o ensino secundário, que era, e ainda 
o é, super deficitário. Ainda no governo Kubitschek a educação era uma área “... onde se 
verificava um enorme déficit de escolas em nível secundário”
201

 
Ameaçado com os fracassos no campo econômico-financeiro e no político, restou a 
Jango no fim de 1963 e inicio de 1964 o lançamento do seu programa de “Reformas de 
Base”. Apesar de contar com o apoio católico de “esquerda”, estes movimentos pediam que 
o presidente fosse além das reformas, terminando com o estado liberal, e propondo uma 
reforma no capitalismo burguês brasileiro, sendo assim uma base não confiável de apoio, 
com forte influência do PCB. “A verdadeira fôrça na esquerda vinha dos “jacobinos”. 
Algumas de suas organizações (UNE, AP, os sindicatos industriais) eram infiltradas de 
elementos do PCB, mas o próprio PCB mal podia ter-se em conta de organização bem 
disciplinada”
202
.  
 
Jango também virara alvo dos militares no mesmo ano, por suas alianças e, em 
breve seria deposto por estes. O executivo do Brasil já não seria um apoiador destes 
movimentos daí em diante. No 1º de abril de 1964 é o que acontece para os movimentos da 
ACB. 
                                                 
199
 SKIDMORE, 1982, p. 309. 
200
 Idem. 
201
 Idem, p. 229. 
202
 Idem, p. 343. 


 
Mas para os membros da JEC, o fim dos anos cinqüenta e início dos anos sessenta 
revelaram-se especiais. 
 
Nunca o movimento teve tamanha participação e crescimento em número de 
membros. Nunca houve tanta articulação, e pela primeira vez o movimento trabalhava junto 
ao movimento estudantil com tamanha representatividade. 
 
A Equipe Nacional da JEC de 1963 se mostrava muito otimista com a perspectiva 
de trabalho de política estudantil: sentiam como a JEC finalmente tivesse achado o seu 
lugar no mundo. Fazendo uma retrospectiva histórica do movimento para ser demonstrado 
no V Conselho Nacional em julho de 1963
203
, a Equipe Nacional procurava demonstrar o 
avanço que a JEC havia feito como movimento. Aliás, um dos poucos movimentos 
organizados da época e articulado em nível nacional, com apoio da hierarquia. 
 
 
3.5. A estrutura do movimento entre 1958 a 1966 
 
 
 
 
Como já vimos, membros da JEC estavam presentes nas bases de apoio do governo 
do presidente Jango. Em boa parte isto se deve ao número de sócios jecistas em todo o 
Brasil. Haveremos de discutir se o Brasil da década de sessenta, o maior país católico do 
mundo, tinha a maior porcentagem de católicos freqüentantes também
204
. Mas, sem dúvida, 
com o advento da ACB, a ICAR entrava novamente em um processo ascendente de 
recuperação de fiéis. E não qualquer fiel: mas fiéis formados para serem líderes no seu meio 
de atuação, no caso da JEC, o meio estudantil secundário. 
 
Como nos mostra Dick (1992, p. 21) “na 7ª Semana Nacional da JECF (1960), além 
de sabermos que existiam 70 dioceses onde a JECF estava articulada, pode-se ver que este 
processo do meio prosseguia”. Se juntarmos ao número de grupos da JECM aos da JECF 
veremos que o número possível de militantes jecistas até o Golpe de 1964 poderia ser 
                                                 
203
 EQUIPE NACIONAL DA JEC. VISÃO HISTÓRICA DA JEC BRASILEIRA, 1963, p. 4. 
204
 Para uma discussão sobre o Brasil ser o “maior país católico do mundo” e um índice percentual do número 
de católicos “praticantes” e os que se diziam católicos, mas que efetivamente não freqüentavam o culto 
católico no período da década de sessenta e setenta, veja SCHNEIDER, José Odelso; LENZ, Matias 
Martinho; PETRY, Almiro. Realidade Brasileira. 4ª ed. Porto Alegre: Livraria e Editora Sulina, 1977. 


considerável, bem perto ou maior que o número de membros da JOC à época, que era de 85 
mil membros
205

Além disso, a recuperação do poder da ICAR no país após o regime do padroado se 
deu através da inserção do leigo no serviço apostólico a mando da hierarquia. Este serviço 
apostólico era feito depois de um processo de aprendizagem (formação) que durava um 
ano, ou, no mínimo, seis meses, segundo o Estatuto da ACB de 1950. 
 
No caso da JEC nos anos pós-1958, a estrutura que os dirigentes dispunham para a 
trabalharem e os tipos de ação propostas eram completamente diferentes das do início do 
movimento na década de trinta: a JEC passara de um movimento que tinha em 1936 seis 
mil membros espalhados pelo país de norte ao extremo-sul e sem experiência alguma de 
movimento leigo especializado para um movimento presente em quase todas as capitais 
importantes do país em 1963 e liderados e organizados por uma Equipe Nacional que 
representava a todas as regiões do país pois tinha um membro de cada na sua composição. 
 
Um detalhe interessante e que explica boa parte da posterior desconfiança da 
hierarquia com o movimento é a ausência ou o pouco contato dos assistentes com as 
equipes nacionais. De 1960 a 1961, a Equipe Nacional da JECM, em função da falta de 
padres e religiosos aptos a lhes acompanhar, simplesmente ficara sem acompanhamento 
adulto! E todos os assistentes que tiveram de 1961 a 1966, ano da dissolução das Equipes 
Nacionais, foram muito receptivos às idéias dos dirigentes jecistas, inclusive a radical 
mudança de objetivo do movimento, contrariando os Estatutos da ACB e o movimento  
ultramontano
206
. Mas, como veremos, ambos lados perderam, e muito, com o fim destas 
organizações. 
 
A JEC contava com uma importante estrutura de mobilização que permitia a Equipe 
Nacional saber em detalhes através de relatórios a “realidade” do movimento em todas as 
                                                 
205
 Efetivamente não temos como estimar o número exato de militantes da JEC e JECF no Brasil no período 
de 1958 a 1966. Mas se levarmos em consideração que a maior publicação destes movimentos, o Boletim 
Nacional da JEC e JECF chegara a ter uma tiragem de dez mil exemplares para cada movimento, podemos 
estimar um número entre cinqüenta mil e cem mil militantes em todo o Brasil (se considerarmos que em cada 
Equipe de Base participavam entre cinco e dez jovens, aproximadamente). 
206
 Na página 8 do documento Visão História da JEC Brasileira (1963), a equipe nacional expressa o seu 
contentamento com o novo assistente eleito em 1961 e aprovado no ano seguinte pelo Secretariado Nacional 
da ACB: “um novo assistente nacional: Pedro Eduardo Boaik, assistente regional Centro-Leste e da JEC do 
Rio. Seu nome foi otimamente recebido pelos militantes e era um destes que mais trabalharam pela nova linha 
do Movimento”. Por nova linha entenda-se o abandono da idéia do apostolado estritamente evangélico da JEC 
no meio estudantil passando para atividades em todos campos sociais possíveis aos estudantes. 


regiões do país. Isto possibilitava diagnósticos precisos para a ação futura e freqüentemente 
dava certo. Segundo Miele (1960, p. 12) outros fatores contribuíam para o sucesso dos 
movimentos especializados como a JEC: 
A existência de permanentes, que consagram a totalidade de seu 
tempo, ou uma grande parte dele, à coordenação no plano nacional. 
Coordenação que comporta a publicação de Boletins e de 
programas, mas, sobretudo visita aos centros, de modo a permitir 
um conhecimento “in loco” do meio, dos seus problemas e 
aspirações. 
 
 
 
Ainda em termos de estrutura de mobilização podemos ver que a JEC contava com 
suas publicações como o Boletim Nacional, o Boletim Regional, os Cadernos da JEC e os 
Programas anuais da JEC e JECF. É através do estudo dos mesmos Boletins que podemos 
perceber uma mudança na estratégia de ação da JEC, onde as equipes nacionais de ambos 
os movimentos passam a se aproximar de temas como grêmios estudantis, política 
estudantil e problemas brasileiros, principalmente após 1957
207
. As publicações da JEC 
tinham o objetivo de trazer até aqueles militantes que não participavam das reuniões dos 
dirigentes encarregados das publicações o conhecimento dos debates realizados, as 
propostas de programas anuais, indicações bibliográficas, a composição das equipes 
nacionais e regionais entre outras funções. Mas a principal função das publicações era 
trazer as propostas de ação aos militantes e, no nosso caso da JEC pós 1962, a proposta era 
de dedicar-se ao meio estudantil, abandonando em boa parte o caráter predominantemente 
evangelizador do movimento e adotando uma nova postura. 
 
Um dos motivos de sucesso da mudança do caráter institucional para o social da 
JEC foi à impossibilidade de ação momentânea da hierarquia de descobrir e reprimir o 
movimento em 1961 e 1962. Neste período, nas reuniões do Conselho Nacional da ACE, 
poderia ter sido detectado a mudança que os jovens dirigentes da JEC estavam propondo, 
mas como o Conselho não estava funcionando normalmente, as reuniões não aconteciam e 
as idéias não eram debatidas. 
 
Frente a este “vácuo” de poder o Secretariado do Apostolado dos Leigos pedia a 
CNBB uma mudança: 
                                                 
207
 Segundo Dick (DICK, 1992, p. 20) “a nova postura diante do meio estudantil levou a JEC a ampliar a sua 
participação na vida do colégio. Tudo que podia atingir globalmente a vida da escola era utilizado... Foi em 
1959 que a JEC lançou oficialmente, por todo o Brasil, a Semana do Estudante”. 


Em caráter de revisão constatou-se a completa imobilidade do 
Secretariado do Apostolado dos Leigos, que realmente nunca se 
completou, e um desentrosamento completo entre os vários 
movimentos. Os contactos tiveram um cunho eventual. Sugere-se 
nêste particular uma revisão global dêste Secretariado, enquanto 
estrutura, finalidades, participação, atuação, para que possa a vir 
funcionar eficazmente.
208
 
 
 
Uma outra forma de mobilização a favor da JEC eram as campanhas ou Semanas de 
estudo. Elas tinham o objetivo de trazer a comunidade estudantil ou, na década de sessenta, 
as próprias comunidades de bairro ou paroquiais a terem contato com a JEC, de forma a 
tornar o movimento conhecido ao grande público e atrais novos membros
209
.  
 
Também a JEC contava desde 1962 com um grupo dentro da Equipe Nacional 
apenas para assuntos de política estudantil
210
. A existência deste grupo dentro da Equipe 
Nacional mostra importância dada a política estudantil pela JEC e a mudança na estrutura 
feita para se adequar à nova proposta. 
 
Em 1965, após o Golpe Militar, o movimento já havia sofrido uma grande perda no 
número de seus militantes. A equipe que assumira a Equipe Regional Sul da JEC estudara 
até a possibilidade de mudar a estrutura da Equipe, unindo a JECF e JECM em uma só para 
tentar resolver o problema da parada dos trabalhos devido a perseguição dos dirigentes por 


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