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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL 
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA DAS SOCIEDADES 
IBÉRICAS E AMERICANAS 
MESTRADO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EDER COELHO PAULA 
 
LEIGOS ENGAJADOS NA POLÍTICA: UM OLHAR INTERDISCIPLINAR 
SOBRE A JUVENTUDE ESTUDANTIL CATÓLICA ENQUANTO MOVIMENTO 
SOCIAL (1958-1966) 
 
 
Prof. Dr. Emil Albert Sobottka 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Porto Alegre, 2007 


EDER COELHO PAULA 
 
 
 
LEIGOS ENGAJADOS NA POLÍTICA: UM OLHAR INTERDISCIPLINAR 
SOBRE A JUVENTUDE ESTUDANTIL CATÓLICA ENQUANTO MOVIMENTO 
SOCIAL (1958-1966) 
 
 
Dissertação  apresentada  como  requisito  para 
obtenção do grau de Mestre, pelo Programa de 
Pós-Graduação  em  História  das  Sociedades 
Ibéricas 

Americanas 
da 
Pontifícia 
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 
 
Orientador: Prof. Dr. Emil Albert Sobottka 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Porto Alegre 
2007 


EDER COELHO PAULA 
 
 
 
LEIGOS ENGAJADOS NA POLÍTICA: UM OLHAR INTERDISCIPLINAR 
SOBRE A JUVENTUDE ESTUDANTIL CATÓLICA ENQUANTO MOVIMENTO 
SOCIAL (1958-1966) 
 
 
Dissertação  apresentada  como  requisito  para 
obtenção do grau de Mestre, pelo Programa de 
Pós-Graduação  em  História  das  Sociedades 
Ibéricas 

Americanas 
da 
Pontifícia 
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 
 
Orientador: Prof. Dr. Emil Albert Sobottka 
 
 
 
 
Aprovado em 16 de março de 2007, pela Banca Examinadora 
 
 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 
Prof. Dr. Emil Albert Sobottka 
 
 
 
Prof. Dr. René Ernaini Gertz 
 
 
 
Prof. Dr. Érico João Hammes 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico esta tese a Hezir Coelho, mãe 
querida  e  à  Michele  Saraiva  Carilo, 
meu  eterno  amor,  que  nunca  deixou 
de  apoiar  a  continuidade  das  minhas 
pesquisas. 
 
Aos  professores  Luiz  Dario  Teixeira 
Ribeiro  e  Enrique  Serra  Padrós  por 
seus exemplos de como ser um ótimo 
professor 
de 
história 

suas 
maravilhosas aulas. 
 


 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
 
 
 
Agradeço a todos aqueles que colaboraram para a realização deste trabalho, de um 
modo ou outro, e em especial: 
 
 
A CAPES, pela concessão de bolsa flexibilizada de mestrado, sem a qual não teria 
sido possível realizar a pesquisa; 
 
Ao Prof. Dr. Emil Albert Sobottka, pelo incentivo e orientação e pela proposta de 
uma abordagem interdisciplinar; 
 
Ao Prof. Dr. Helder Gordim da Silveira pelo apoio e incentivo a pesquisa; 
 
Aos funcionários da PUCRS, que permitem o funcionamento dessa grande 
estrutura, e em especial aos funcionários Carla e Davi; 
 
Aos demais professores do curso de Pós-Graduação em História; 
 
À Administração do IPJ – Instituto da Pastoral da Juventude (Casa Padre Jorge) que 
conservou os arquivos sobre a JEC que foram trazidos pelo Pe. Hilário Dick em suas 
viagens por várias partes do Brasil e do mundo; 
 
Aos meus familiares que me apoiaram durante a realização da pesquisa: minha mãe 
Hezir e meus irmãos Édison, Elton e Heloísa; 
À colega Cláudia Tomazoni por ter ajudado na revisão final os meus sinceros 
agradecimentos; 
 
E por fim à minha noiva e futura esposa Michele Saraiva Carilo que me incentivou a 
concorrer ao mestrado e me deu todo o suporte emocional necessário. 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando  Frei  Mateus  falava  que  o  cristão  é 
revolucionário,  ele  estava  dizendo  que  o 
cristão  é  um  radical.  Era  a  coisa  que  mais 
nos  encantava:  ser  radical.  Nesse  sentido, 
creio  que  a  Ação  Católica  não  morreu  em 
mim.  Hoje,  quando  recupero  o  sentido  da 
democracia e da vida e da morte, enfim, das 
coisas que eu estou falando (é o que vem do 
fundo)  o  que  eu  recupero  é  a  questão  da 
radicalidade. A liberdade de ser radical num 
mundo 
que 
está 
organizado 
fundamentalmente 
para 
administrar, 
reprimir, submeter e aterrorizar. Eu acho que 
vivemos o contrário nessa geração. 
 
 
JEC no Brasil – uma proposta que não 
morreu 
Herbert de Souza (depoimento) 


 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
 
 
 
Nesta dissertação buscamos lançar um olhar interdisciplinar para entender como a 
Juventude Estudantil Católica no período entre 1958 a 1966 passa de movimento 
institucionalizado da Igreja Católica Apostólica Romana a movimento social engajado na 
política estudantil e que luta por mudanças sócio-estruturais no Brasil.  
O objetivo maior é mostrar que novas oportunidades políticas surgem para a Equipe 
Nacional da Juventude Estudantil Católica na década de 1950 que tornam possível 
transformar o movimento institucionalizado em um movimento social através de estruturas 
de mobilização e novos marcos referenciais entre 1958-1966. 


 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
 
 
 
In this work, we aim to give an interdisciplinary view in order to understand how 
the Catholic Student Youth, during the period from 1958 to 1966, changes from a Roman 
Catholic Church institutionalized movement to a social movement, engaged to student 
politics and that fights for social-structural changes in Brazil. 
The greatest aim is to show that new political opportunities appear to the National 
Team of  Catholic Student Youth in the 1950s which make the transformation from an 
institutionalized movement to a social movement possible, through structures of 
mobilization and new framing process dated from 1958-1966. 
 


 
 
 
LISTA DE SIGLAS 
 
 
AC – Ação Católica 
ACB – Ação Católica Brasileira 
ACE – Ação Católica Especializada 
AMES – Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas 
AP – Ação Popular 
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil 
HAC – Homens da Ação Católica 
ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana 
IPJ – Instituto de Pastoral da Juventude 
JECI – Juventude Estudantil Católica Internacional 
JAC – Juventude Agrária Católica 
JACF – Juventude Agrária Católica Feminina 
JEC – Juventude Estudantil Católica 
JECF - Juventude Estudantil Católica Feminina 
JFC – Juventude Feminina Católica 
JFC – Juventude Feminina Católica 
JIC - Juventude Independente Católica 
JICF - Juventude Independente Católica Feminina 
JMC – Juventude Masculina Católica 
JOC - Juventude Operária Católica 
JOCF - Juventude Operária Católica Feminina 
JUC - Juventude Universitária Católica 
JUCF - Juventude Universitária Católica Feminina 
LAC – Liga Agrária Católica 
LEC - Liga Eleitoral Católica 


LEC – Liga Estudantil Católica 
LFAC – Liga Feminina Agrária Católica 
LFEC – Liga Feminina Estudantil Católica 
LFIC – Liga Feminina Independente Católica 
LFOC - Liga Feminina Operária Católica 
LFUC – Liga Feminina Universitária Católica 
LIC – Liga Independente Católica 
LOC- Liga Operária Católica 
LUC – Liga Universitária Católica 
PCB – Partido Comunista Brasileiro 
PTB – Partido Trabalhista Brasileiro 
SAC – Mulheres da Ação Católica 
SLA – Secretariado Latino Americano 
UBES – União Brasileiras dos Estudantes Secundaristas 
UE – União Européia 
UJS – União da Juventude Socialista 
UNE – União Nacional dos Estudantes 


 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
INTRODUÇÃO
..............................................................................................................12 
 
 
CAPÍTULO 1 – UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR PARA OS 
MOVIMENTOS SOCIAIS E A HISTÓRIA DA JEC
......................................17 
1.1 A teoria dos Movimentos Sociais e a História em uma abordagem sócio-histórica ......17 
1.2 Revisão Bibliográfica .....................................................................................................31 
 
 
CAPÍTULO 2 – A AÇÃO CATÓLICA E A JEC NO MOVIMENTO DE 
ROMANIZAÇÃO BRASILEIRO
............................................................................41
 
2.1 A “Romanização” da ICAR no fim do século XIX e início do século XX....................43 
2.2 A ACB Geral e a ACB Especializada.............................................................................46 
2.3 A reforma dos Estatutos da ACB de 1946......................................................................51 
2.4. A reforma dos Estatutos da ACB em 1950 e suas conseqüências para o movimento...54 
2.5 A Estrutura interna da JEC (1955-1962).........................................................................66 
2.5.1. Estrutura do Movimento.............................................................................................68 
2.5.2. A expansão do movimento..........................................................................................72 
2.5.3. A espiritualidade do movimento.................................................................................74 
2.6. Os marcos referenciais da JEC nos anos de 1950..........................................................76 
2.7. A JEC na ACB: um movimento em busca de novas oportunidades..............................81 
 
 
CAPÍTULO 3 – A EQUIPE NACIONAL DA JEC E O MOVIMENTO 
INTERNO DE POLITIZAÇÃO ESTUDANTIL NA IGREJA 
CATÓLICA (1958-1966): DO INÍCIO AO FIM DA JEC COMO 
MOVIMENTO SOCIAL
.............................................................................................84 
3.1. As novas oportunidades políticas (1958-1962)..............................................................86 
3.2. As estruturas de mobilização do movimento na década de 1950 até 1958....................89 
3.3. Os marcos referenciais da JEC (até o ano de 1958).......................................................90 
3.4. As novas oportunidades políticas (de 1962-68).............................................................96 
3.5. A estrutura do movimento entre 1958 a 1966................................................................97 
3.6. Os marcos referenciais do movimento de 1958 a 1966...............................................104 


3.6.1 . Estratégias de ação da JEC no meio estudantil........................................................107 
3.7. A JEC: opção por ser um movimento social................................................................114 
3.8. O fim da JEC como movimento social: um conflito da hierarquia contra o laicato....117 
3.8.1. O projeto da hierarquia para os leigos – diretrizes....................................................118 
 
 
CONCLUSÃO
...............................................................................................................121 
 
 
ARQUIVOS E FONTES CONSULTADOS
.......................................................129 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
.................................................................131 
 
 
ANEXOS
.........................................................................................................................139 


 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
 
Esta tese de mestrado é a conclusão de um projeto iniciado em 2001 quando da 
confecção da monografia obrigatória do fim de curso de Licenciatura Plena em História da 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre o primeiro movimento de jovens 
(adolescentes) a inserir o apostolado leigo no Brasil: a Juventude Estudantil Católica 
(doravante chamada JEC). Na época o meu interesse pelo assunto se deu por eu ser um 
curioso da história da Igreja que eu freqüentava, a paróquia São Pedro em Porto Alegre e 
pela vontade de escrever sobre um material quase inédito e que considero importante, 
devido à formação de quadros de renome nacional como Herbert de Souza, Frei Betto e 
tantos outros envolvidos na política e ligados à Igreja Católica por este movimento e outros 
movimentos inseridos na Ação Católica Brasileira. 
 
Minha primeira monografia sobre o assunto explorava o problema das causas do fim 
deste movimento, responsável pelo crescimento em número de católicos e 
comprometimento com a hierarquia católica destes jovens brasileiros e alunos do ensino 
secundário. No entanto minhas conclusões eram difíceis de serem confrontadas, pois eram 
quase todas baseadas em fontes secundárias como o Jornal Correio do Povo e Última Hora, 
além do testemunho encontrado em um dos poucos livros que abordam o assunto
1
. Na 
minha segunda tentativa de escrever sobre o assunto foi importante o achado de dois 
centros de documentação contendo fontes quase inéditas sobre a JEC. Um deles era o 
arquivo histórico do IPJ – Instituto Pastoral da Juventude e o outro o arquivo da CNBB em 
Porto Alegre. Graças ao material encontrado pude rever a minha monografia e escrever 
                                                 
1
 
 Refiro-me ao livro do Frei Mateus Rocha, Jec – o evangelho no colégio, de 1958. 


com mais propriedade sobre a JEC, além de obter subsídios para elaborar uma proposta de 
tese de mestrado que acabou se realizando no ano de 2005. 
 
A proposta de tese era trabalhar não só a JEC como também o desenvolvimento de 
todos os movimentos da Ação Católica Brasileira (doravante chamada ACB). Esta proposta 
logo foi abandonada, pois demandaria o tempo superior aos dois anos em que eu devo 
obrigatoriamente entregar meu texto. Voltei, portanto a trabalhar unicamente com a JEC no 
período de 1958 a 1966, pois é um período em que se evidencia a história que eu quero 
discutir. 
 
A quase inexistência de trabalhos acadêmicos sobre o assunto e o resgate de uma 
parte importante da história da Igreja Católica no Rio Grande do Sul e no Brasil também 
foram fatores motivadores para a realização deste projeto. 
 
A maior parte das fontes de pesquisa se encontrava no Instituto da Pastoral da 
Juventude em Porto Alegre. Neste local há um acervo montado pelo Pe. Hilário Dick e 
pelas equipes que passam pelo IPJ ano após ano e acrescentam fontes e conservam-no. Até 
a fase de finalização desta tese o IPJ ainda se localizava nos fundos do Colégio Anchieta, 
na chamada Casa Padre Jorge. No entanto, hoje, no ano de 2007, o IPJ está de mudança 
para a cidade de Canoas, para um antigo Colégio Católico desativado. Até o presente 
momento os livros do acervo estavam catalogados, mas as fontes de pesquisa como as 
revistas e jornais da JEC e de outros movimentos da AC estavam sem catalogação, o que 
dificultou em parte as citações desta tese. 
 
Outra parte das fontes se encontra na sede regional da CNBB, em Porto Alegre. Este 
acervo não conta com uma estrutura de catalogação e tem sido acrescido e conservado pelas 
equipes que trabalham no local há mais de quarenta anos. 
 
A ACB, e dentro dela a JEC, é adotada pela Igreja Católica como uma forma de 
inserção do leigo no trabalho de apostolado a partir de 1930, e desde então adota um 
modelo de trabalho que está de acordo com a proposta ultramontana da Igreja do início do 
século XX. A coordenação nacional da JEC a partir da metade da década de cinqüenta 
questionará a hierarquia em vários aspectos, inclusive quanto à proposta ultramontana
2
.  de 
                                                 
2
 O Ultramontanismo refere-se à doutrina e política católica que busca em Roma a sua principal referência 
em termos de linha de ação política e doutrinal. Este movimento surgiu na França na primeira metade do 
século XIX. Reforça e defende o poder e as prerrogativas do papa em matéria de disciplina e fé. Destacaram-
se como líderes deste pensamento Joseph de Maistre, Lamennais, Louis Veuillot, dentre outros. No seu livro 


obediência à hierarquia papal, de forma que se criará aí uma situação insustentável para o 
laicato e bispos.  
 
O desenvolvimento desta transformação é o assunto que trataremos nas próximas 
páginas. 
 
Há várias formas de abordagem história para um objeto como a Juventude 
Estudantil Católica. Assim, poderíamos trabalhar um aspecto apenas do movimento
3
 JEC 
ou optar por uma abordagem ampla da história do movimento. 
 
Em função de existir tão poucos textos sobre o movimento, decidi por abordar o 
objeto de forma a colocar em evidência um momento decisivo em sua história, já quase no 
seu final (a partir de 1958) quando acontece a chamada ‘radicalização’ do movimento e o 
envolvimento dos seus líderes com outros movimentos políticos seculares, como a UNE, 
UBES e PCB.  
Entendo por decisivo, portanto, o mesmo momento em que outros autores, como 
Muraro
4
, chamam de “radicalização” do meio e que se caracteriza pelo debate político feito 
internamente pela JEC e outros movimentos da AC sobre vários assuntos não-interessantes 
à hierarquia como a situação brasileira no mundo, sobre a participação da juventude na 
solução dos problemas daquele contexto, o comunismo, etc. Veremos adiante que tipos de 
problemas este envolvimento dos jecistas com a política trouxe para o movimento e como 
este debate ou até mesmo as ações jecistas eram realizadas. 
 
A intenção com isto é mostrar que a despeito de um movimento ultramontano da 
mais alta hierarquia católica, da qual faz parte a ACB e tantas outras instituições como a 
Liga Eleitoral Católica (a LEC) da década de 1930
5
 acontecerá por diversos motivos um 
movimento interno na ACB (nos movimentos jovens) contrário ao ultramontanismo e 
que tem diversas causas como veremos mais adiante, que subverte o sentido do movimento 
original pressionando a hierarquia a repensar todo o trabalho feito através dos leigos no 
                                                                                                                                                     
O Papa de Hitler – a história secreta de Pio XII, John Cornwell nos lembra que a expressão ultramontano 
refere-se ao poder papal “além das montanhas” (CORNWELL, 2000, p. 17) e que foi sacramentado no I 
Concílio Vaticano, em 1870, época em que o papa perde seus domínios na Itália, mas também foi declarado 
infalível em questões de fé e moral assim como o primaz – o líder administrativo e espiritual de toda a Igreja.
 
 
3
 Como fez Mainwaring (1983) na maior parte do seu texto com respeito à transformação do pensamento 
político no tempo de existência da JOC e a relação deste com o ‘legado’ da JOC para a Igreja. 
4
 MURARO, Valmir Francisco. Juventude Operária Católica. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. p. 43. 
5
 A Liga Eleitoral Católica é criada junto com a JEC em Porto Alegre em 1942, por exemplo, mas ambas 
estavam presentes no território nacional desde a década anterior.
 


Brasil, dando origem a vários grupos novos (como os Cursilhos da Cristandade) que 
tivessem como foco principal a salvação da alma e não o mundo terreno, a realidade de 
vida dos indivíduos e até uma certa ênfase no afastamento dos cristãos do debate político e 
filosófico sobre a instituição.  
Assim, mostraremos neste trabalho primeiramente como se deu este movimento 
ultramontano e após como e porquê do surgimento do movimento contrário por parte dos 
leigos. Para isso utilizamos a Teoria da Oportunidade Política que é mais precisamente uma 
atualização da Teoria da Mobilização Política, uma teoria com raízes nas Ciências Sociais 
norte-americanas. Em uma tentativa de unir o que havia em comum nas teorias dos 
movimentos sociais européias e americanas, foi realizada uma conferência em 1992 no Life 
Cycle Research Institute na Universidade Católica da América em Washington, sob o título 
de “Opportunities, Mobilizing Structures and Framing Processes” a qual sintetizava o 
trabalho conceitual aperfeiçoado em dois grandes encontros acontecidos antes, de 1986 a 
1990, sendo o mais importante o de Berlim, em 1990. 
Para McAdam
6
, sua obra de 1996 é a síntese dos trabalhos transnacionais realizados 
no período pelos conferencistas. Nela chega-se a conclusão de que três conceitos estão na 
base da teoria de todos os movimentos sociais. Tais conceitos são: 
•  Oportunidades Políticas: os movimentos sociais e revoluções são realizados 
e moldados pelo conjunto de condições políticas e oportunidades únicas ao 
contexto nacional na qual eles estão circundados
7

•  Estruturas de Mobilização: são aqueles vínculos coletivos, tanto informais 
quanto formais, através dos quais as pessoas se mobilizam e se engajam em 
uma ação coletiva
8

•  Processos de Rede ou Marcos Referenciais da Ação Coletiva
9
: é o complexo 
dinâmico psicológico que mostra a ausência ou presença das percepções da 
                                                 
6
 McADAM, Doug; McARTHY, John D.; MAYER, N. Zald. Comparative Perspectives on Social Movements 
– political opportunities, mobilizing structures, and cultural framings. New York: Cambridge University 
Press, 1996. 
7
 Idem, p. 2-3. 
8
 Idem, p. 3-4. 
9
 Este termo é a tradução aproximada para a expressão framing process, e refere-se basicamente aos 
referenciais culturais e conceituais que os movimentos se utilizam das mais diversas formas na mobilização 
em grupo. Referem-se a costumes, obras escritas, conceitos, etc. 


atribuição coletiva ou da construção social do movimento
10
. É a dimensão 
cognitiva da ação coletiva. 
A partir de agora vamos tratar mais detalhadamente destes três aspectos que 
permearão o texto sendo a base de sustentação da argumentação. 
                                                 
10
 Idem, p. 5. 


 
 
 
 
 
CAPÍTULO 1 – UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR PARA OS 
MOVIMENTOS SOCIAIS E A HISTÓRIA DA JEC 
 
 
 
 
 
Neste capítulo desenvolveremos uma revisão bibliográfica e conceitual sobre a 
abordagem interdisciplinar e o nosso objeto de pesquisa, a JEC. 
 
Em um primeiro momento, em “A teoria dos Movimentos Sociais e a História em 
uma abordagem sócio-histórica” indicaremos os conceitos que fazem parte de nossa 
abordagem sócio-histórica, em especial a Teoria da Oportunidade Política de McAdam, 
McCarthy e Zald. 
 
Em um segundo momento, na “Revisão Bibliográfica” analisaremos a “origem 
histórica” da JEC e como este movimento tem aparecido na bibliografia da ICAR. Nosso 
objetivo é partir do particular para o geral iniciando no assunto JEC em si para chegar à 
história da ACB na ICAR. 
  
 
1.1 A teoria dos Movimentos Sociais e a História em uma abordagem sócio-histórica 
 
 
 
Esta é uma obra interdisciplinar. Isso porque ela se baseia não só em conceitos 
históricos como também em conceitos existentes em paradigmas das Ciências Sociais, mais 
precisamente da “Teoria das Estruturas de Oportunidade Política”. 


 
Por história eu entendo a narrativa do passado feito com o maior rigor científico 
possível garantindo a máxima aproximação com a realidade e, conseqüentemente, com a 
veracidade. Segundo Pesavento
11
 “mesmo que se tenha em conta que é impossível atingir a 
veracidade absoluta do acontecido... os historiadores mantêm a meta de chegar lá”
12
. É 
narrativa também, pois “é representação que se coloca em textos que falam sobre algo que 
não é possível reconstruir pela experiência”
13

 
Para DIEHL
14
, as operações da pesquisa histórica se realizam em três passos 
operativos: inicia com a Heurística, o segundo passo surge com a Crítica e o terceiro passo 
é a Interpretação. Apesar de eu me deter mais adiante no paradigma interpretativo 
interdisciplinar, vou falar um pouco mais sobre os dois primeiros processos-metodológicos. 
 
Diehl nos mostra que a “heurística será então o procedimento do buscar as fontes, 
cuja estrutura e teor de informações devem ser necessários e satisfatórios para a resposta ao 
questionamento histórico proposto e para a solução do próprio problema histórico”
15
. Dessa 
forma a procura pelas fontes vem antecedida por uma questão ou questões. A fonte é o 
documento onde o historiador buscará a resposta através de suas perspectivas e 
possibilidades encontradas nas próprias fontes. O nosso objeto de estudo, a JEC enquanto 
movimento social carecia de fontes que viessem de seus protagonistas. Desta forma 
procurei ao máximo encontrar relatos, testemunhos, revistas escritas pelos (as) jecistas, 
documentos da Equipe Nacional, etc. Como veremos, até hoje, a maior parte dos textos 
escritos sobre a JEC vinha de membros do clero. É claro que teremos uma história, uma 
narrativa, uma memória sobre a JEC vinda também destes textos. Mas teremos a “voz” das 
pessoas leigas que fizeram parte da JEC presentes nestes? Podemos dizer que a história dos 
movimentos de jovens do século vinte já foi contada e não há mais nada a dizer sobre eles? 
Penso que não, já que, das obras em que pesquisei, pouquíssimos historiadores e sociólogos 
tiveram a oportunidade de trabalhar com o mesmo material. 
 
Já a crítica de fontes, para Diehl, “é o procedimento de pesquisa histórica com o 
qual se garimpam as informações sobre o passado. Essas informações devem ser testáveis e 
                                                 
11
 PESAVENTO, Sandra J. “Que história é esta? Uma incursão nos desafios do presente”. In: Projeto – 
Revista de Educação: História. Porto Alegre: Editora Projeto, v 2, nº 2, 2000. 
12
 Idem, p. 12. 
13
 Idem, p. 13. 
14
 DIEHL, Astor Antônio. Do Método Histórico. Passo Fundo: EDIUPF, 1997, p. 20-27. 
15
 Idem, p. 34. O grifo foi feito por mim. 


seguras sobre o que, quando, como e, em determinadas situações, também o porquê do fato 
ter ocorrido”
16
. Esta crítica é externa quando determina o valor do documento (crítica da 
autenticidade) e é crítica interna por examinar a qualidade das informações contidas na 
fonte. A crítica interna tem a ver com o tempo presente e a proposta da pesquisa. É a crítica 
das fontes “com seus procedimentos técnicos (que) garante que se chegue próximo à 
plausibilidade da exposição histórica, que se assenta, por sua vez, sobre o conteúdo factual 
das histórias”.
17
 
Sobre a interpretação, Diehl nos mostra que “é a operação histórica que une a 
intersubjetividade testável, componente dos fatos do passado, com a dimensão do tempo. 
Essa relação pode ser representada a partir de então como histórica”
18
. Diehl faz uma ótima 
analogia para o papel da interpretação no processo de construção histórica: a crítica arranja 
as “pedras” enquanto que a interpretação as rearranja “conforme determinados planos de 
construção teórica da realidade histórica”
19
 ou conforme perspectivas orientadoras do 
passado. Essas perspectivas são as teorias históricas, como o marxismo, o positivismo, o 
realismo, o historicismo, a nova história, a micro-história e tantas outras. 
Falamos de teorias da história. Então, qual a teoria que está presente neste trabalho e 
onde podemos situá-la na historiografia? 
Esta não é apenas uma tese histórica. Poderia ser uma obra histórica sobre um 
movimento religioso da Igreja Católica do século XX, mas não a é apenas. Penso que nesta 
tese nos aproximamos da teoria que costumamos associar à Terceira Geração dos Annales
20
 
no referente ao tema (um movimento social da ICAR que tem sua “voz” mostrada nesta 
obra, uma história vista de baixo, por tanto) e do que José Carlos Reis chamou de “duas 
posições fundamentais: a adoção do ponto de vista temporal das ciências sociais, isto é, a 
estruturação do evento, e a prática da interdisciplinaridade”
21
, que são as posições que 
ligam todas as gerações dos Annales. 
                                                 
16
 Idem, p. 35. 
17
 Idem, p. 38. 
18
 Idem, p. 39. 
19
 Idem, p. 39-40. 
20
 Se é que podemos falar em uma “geração” ou  “escola dos annales”. Naturalmente, este não é o espaço 
apropriado para a discussão teórica cabível. Para uma melhor compreensão da História dos Annales veja 
CARDOSO, C. e VAINFAS, R.(orgs.) Domínios da História. Rio de Janeiro: Camus, 1997 e DOSSE, 
François. A história em migalhas. São Paulo: Ensaio/Ed. Unicamp, 1992. 
21
 REIS, José Carlos. Da “história global” à “história em migalhas”: o que se perde, o que se ganha. In: 
GUAZZELLI, César Augusto Barcellos; PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz; SCHMIDT, Benito Bisso; 


Pensamos que, talvez, as similaridades com os Annales terminam aqui, talvez. 
Nosso objetivo não é o de fazer uma história global, ou uma história política do 
movimento, mas, narrar a história da JEC na década de cinqüenta e sessenta sob o ponto 
de vista da teoria da oportunidade política, mostrando que a JEC não era nessa época um 
movimento institucional, porém um movimento social. Discordamos, no entanto, de que 
essa seja uma história fragmentada. Como veremos, a perspectiva interdisciplinar liga o 
objeto ao contexto político brasileiro e mundial dando a oportunidade de conhecermos a 
história do objeto em particular e a sua ligação com o entorno, ao mesmo tempo em que 
tem a qualidade de possibilitar uma visão histórica “vinda de baixo”. Estamos longe no 
entanto de uma proposta de história global ou total
22
. Entendemos que este trabalho pode 
contribuir para a história deste movimento, assim como para outros futuros trabalhos. Além 
disso, poderá ser corrigido e reinterpretado, de maneira que todo o material escrito sobre ele 
nos dará uma compreensão melhor da “realidade” histórica do movimento. 
Segundo Dumoulin podemos considerar a interdisciplinaridade como a “fusão das 
ciências do homem” que tende a se manifestar “antes por uma justaposição das abordagens, 
como nos area studies, do que mediante uma verdadeira integração tendente à criação de 
uma Ciência do Homem”.
23
 Em seu artigo Dumoulin nos mostra que esse fenômeno 
cultural teve uma intensidade maior no século XX onde o diálogo universitário entre as 
disciplinas foi variado, já que  
a antropologia é, a partir da década de 1950, uma referência para os 
historiadores britânicos, enquanto a sociologia inglesa, pouco 
valorizada na universidade, em nada inspirou os ingleses antes do 
fim da década de 1960... Em compensação, a história econômica 
francesa se desenvolve à distância das faculdades de direito e da 
economia teórica, enquanto a história econômica americana... 
Dobra-se às normas da econometria.
24
 
 
                                                                                                                                                     
XAVIER, Regina Célia Lima. Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre : Ed. 
Universidade/UFRGS, 2000, p. 193. 
22
 História global aqui entendida como uma abordagem holística de uma sociedade, ou como propõe REIS 
(2000, p. 198) “a história total pode ser compreendida como tudo ou todo e os textos dos fundadores 
(Annales) podem sustentar as duas interpretações”. 
23
 DUMOULIN, O. Interdisciplinaridade. In: BURGUIÈRE, André (Org.). Dicionário das Ciências 
Históricas; tradução de Henrique de Araújo Mesquita. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1993, p. 453. 
24
 Idem. 


Por se tratar de um novo paradigma dentro da sociologia, a Teoria da Oportunidade 
Política proposta por McAdam, Tilly, McCarthy, Zald, Sidney Tarrow (e outros) ainda não 
foi suficientemente testada, entretanto apresenta uma série de aspectos que levamos em 
consideração ao adotá-la para o nosso objeto de estudo, em especial, o fato de ser uma 
teoria que se adapta a qualquer atividade de mobilização de indivíduos na sociedade que 
tem interesses em comum, o que é o caso da JEC no período que analiso.  
Tais atributos foram levados em questão na nossa escolha. Também esta teoria nos 
ajuda a explicar a motivação para o surgimento do movimento, a sua estruturação e o papel 
da hierarquia e dos leigos na história da ICAR do século passado. Daí a sua adoção e o 
caráter interdisciplinar desta tese que já não é apenas histórica. 
A base desta teoria está no significado do conceito de “oportunidade política”, que 
já vimos no subtítulo anterior. 
Para McAdam, é importante que delimitemos o termo oportunidade política para 
que os acadêmicos não façam uso do termo de uma forma diferente à proposta. Para isso, 
ele especifica as (quatro) dimensões da oportunidade política, resgatando o trabalho de 
quatro autores que procuraram delinear o conceito
25
. São elas: 
1.  A relativa abertura ou fechamento do sistema político 
institucionalizado; 
2.  A estabilidade ou instabilidade daquele amplo cenário de 
alianças da elite que tipicamente enfraquecem a política; 
3.  A presença ou ausência de elites aliadas; 
4.  A capacidade do estado e a propensão para a repressão 
(política)
26

 
Para McAdam, a primeira dimensão enfatiza a importância da estrutura formal e 
institucional dos sistemas políticos. As segundas e terceiras dimensões tratam das relações 
de poder e da importância anexa da estrutura informal de poder. Já a quarta dimensão da 
oportunidade política é destacada por McAdam (ainda que muitas vezes ignorada por 
alguns autores que vêem a repressão como uma expressão do estado) por fazer parte da 
                                                 
25
 McADAM, Doug; McARTHY, John D.; MAYER, N. Zald, 1996, p. 26-29. 
26
 Idem, p. 27. 


natureza repressiva do estado, a exemplo da revolta estudante chinesa de 1989, quando 
divisões nas elites chinesas abriram um precedente para a ação dos estudantes dentro de um 
estado que normalmente repeliria a mobilização
27

Além disso, McAdam ressalta que o conceito de oportunidade política vem sendo usado 
como chave explicativa para muitos pesquisadores com respeito a duas variáveis: o 
sincronismo e os resultados da mobilização política
28
. No entanto, essas duas variáveis 
referem-se ao início do movimento e às conseqüências para si e para os movimentos 
vindouros. 
Poucos trabalhos na área até o fim dos anos oitenta e início dos noventa tratavam da 
importância do contexto internacional sobre a oportunidade política. Daí o valor dos 
recentes trabalhos de Layton, McAdam e Wang que, analisando respectivamente a 
expansão das oportunidades políticas em nível mundial a partir dos movimentos dos 
direitos civis norte-americanos, criou novas oportunidades políticas para as comunidades 
do leste europeu nos planos da proto-EU, além das que surgiram a partir da visita do 
presidente Nixon à China em 1969 as quais motivaram as elites tailandesas a pressionar o 
governo chinês. Tais fatos nos mostram uma outra dimensão da oportunidade política.
29
 
Mas  quando  falamos  de  oportunidades  políticas  não  estamos  dizendo,  como  alguns 
críticos, que os  movimentos sociais só  atuam quando outros personagens sociais  como as 
elites  ou o  governo lhes  dão o espaço para  a ação.
30
 Como nos  mostra  McAdam e outros 
teóricos como Della Porta, Tarrow, Zald, também os movimentos são capazes de produzir 
as  suas  próprias  oportunidades  políticas,  e  isso  não  foi  diferente  com  a  JEC,  como 
veremos mais adiante
31

                                                 
27
 Idem, p. 28. 
28
 Idem, p. 29. 
29
Idem, p. 36-37. 
30
 Para uma crítica a Teoria da Oportunidade Política e à Teoria da Mobilização Política leia GOHN, Maria da 
Glória. Teorias dos Movimentos Sociais – paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Edições 
Loyola, 1997, p. 69-120. Segundo Gohn, “A crítica principal é que a MP… vê dinamismo apenas num dos 
pólos da sociedade… o das elites dominantes, atuando por políticas públicas ou outros mecanismos 
sistêmicos” (Idem, p. 112).  Esta crítica não confere com a atualização da Teoria da Mobilização Política e 
teremos a oportunidade de ver mais adiante que também a JEC foi capaz de criar suas próprias oportunidades 
políticas. 
31
 Os ensaios destes teóricos citados podem ser encontrados em McADAM, Doug; McARTHY, John D.; 
MAYER, N. Zald. Comparative Perspectives on Social Movements – political opportunities, mobilizing 
structures, and cultural framings. New York: Cambridge University Press, 1996. 


Tendo falado do conceito de oportunidade política e procurado demonstrar suas 
características, vamos retomar as características de outro conceito chave na teoria da 
oportunidade política, que é a estruturação das oportunidades políticas, ou seja, a 
mobilização de recursos que o movimento tem a sua disposição (ou os seus adversários) 
para pôr o movimento em funcionamento ou mantê-lo funcionando. 
Aqui o significado de estrutura dentro da Teoria da Oportunidade Política será mais 
bem explicado adiante. No campo das ciências humanas, no entanto, o conceito é bem 
conhecido. Para Braudel
32
 (1978, citado por AYMARD, p. 309. In: BURGUIÈRE, André 
(Org.). Dicionário das Ciências Histórica, 1993), o significado de estrutura, apreendido 
das ciências sociais indica “uma organização, uma coerência, relações bastante fixas entre 
realidades e massas sociais. Para nós, historiadores, uma estrutura é, sem dúvida, reunião, 
arquitetura, porém, mais ainda, uma realidade que o tempo usa mal e veicula muito 
longamente”. Segundo Aymard, algumas estruturas, “tornam-se elementos estáveis de uma 
infinidade de gerações: elas obstruem a história, atrapalhando-a, orientando assim seu 
fluxo. Outras se desfazem com mais rapidez. Mas todas são ao mesmo tempo sustentáculos 
e obstáculos”
33
. Como analisaremos, essa noção de estrutura visto pela historiografia 
(principalmente a francesa) tem uma tendência evolutiva que remete a “durações” mais 
longas, o que não é o nosso caso, por isso a definição do conceito explicitada abaixo. 
Para Tarrow
34
, a estrutura de oportunidade política é um termo do qual ele se refere 
como sendo um “consistent but not necessarily formal, permanent or national – signals to 
social or political actors wich either encourage or discourage them to use their internal 
resources  to form social movements”.
35
 Para Braudel, o significado de estrutura, 
apreendido das ciências sociais indica “uma organização, uma coerência, relações bastante 
fixas entre realidades e massas sociais. Para nós, historiadores, uma estrutura é, sem dúvida, 
reunião, arquitetura, porém, mais ainda, uma realidade que o tempo usa mal e veicula muito 
longamente”.
36
 Segundo Aymard, algumas estruturas, “tornam-se elementos estáveis de 
uma infinidade de gerações: elas obstruem a história, atrapalhando-a, orientando assim seu 
                                                 
32
 BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre história. São Paulo: Perspectiva, 1978, 289 p. 
33
 AYMARD, Op. Cit. p. 309. 
34
Idem, p. 41-61. 
35
Idem, p. 54. Tradução: “consistente – mas não necessariamente formais, permanentes ou nacionais – sinais 
para os atores sociais ou políticos os quais encoraja-os ou desencoraja-os a usar os seus recursos internos para 
formarem movimentos sociais”. 
36
 
BRAUDEL, Op. Cit. p. 132.
 


fluxo. Outras se desfazem com mais rapidez. Mas todas são ao mesmo tempo sustentáculos 
e obstáculos”.
37
 Como veremos, essa noção de estrutura visto pela historiografia 
(principalmente a francesa) tem uma tendência evolutiva que remete a “durações” mais 
longas, o que não é o nosso caso, por isso a definição do conceito explicitada abaixo. 
Posteriormente Tarrow aponta quatro destes sinais que aparecem como ajudando os 
movimentos ou aos seus inimigos a estruturar oportunidades políticas. São estes: 1- a 
abertura do acesso ao poder; 2 – as mudanças de alinhamento; 3 – a disponibilidade de 
aliados influentes e; 4 – ruptura dentro e entre as elites
38

Quanto ao primeiro sinal, Tarrow nos explica que nem sempre a presença ou existência 
da oportunidade política cria automaticamente movimentos sociais. Mas, de fato, quando 
esses se formam, encorajam a ação coletiva. Ele traz à tona a pesquisa de Beisinger (1991) 
sobre a glasnost e a Perestroika como motivadores da ação política na União Soviética por 
certos movimentos sociais que procuravam uma maior abertura política para terem acesso 
ao poder, ou para terem suas reivindicações atendidas, em um período inicial de liberação e 
democratização
39
.  
O segundo sinal se refere às alianças instáveis. Tarrow traz os exemplos das eleições 
dos EUA em 1930 e 1960, em que o desequilíbrio das forças eleitorais fez com que os 
partidos eleitorais dessem força e representatividade inéditas aos movimentos de operários, 
negros e direitos civis. Coincidentemente, esses movimentos de 1930 produziram os ciclos 
de protesto de 160 pelos direitos civis. Mas não só a instabilidade eleitoral é apontada por 
Tarrow como um fator de encorajamento da ação coletiva. Ele aponta também o exemplo 
da revolta camponesa espanhola que procurou ter suas reivindicações por terras atendidas 
no meio de uma luta de elites na capital. O mesmo ocorrendo na luta dos camponeses da 
Calábria que redimensionaram as suas terras na Revolução de 1848.
40
 
O terceiro fator é o que Tarrow chama de aliados influentes. Para ele, “allies can act as 
a friend in court, as guarantors aganst brutal repression, or as acceptable negotiators on 
                                                 
37
 AYMARD, Op. Cit. p.309. 
38
 Idem. 
39
 Idem. 
40
 Idem, p. 55. 


behalf of constituencies which – if left a free hand – might be far more difficult for 
authorities to deal with”.
41
 
Neste caso, Tarrow nos traz dois exemplos em que os aliados políticos fizeram toda a 
diferença na evolução dos seus movimentos: o primeiro exemplo é o do Movimento dos 
Fazendeiros Americanos (do período entre 1940-1960), que tiveram três fases diferentes 
nas assembléias constituintes do período mencionado: primeiramente foram prejudicados 
pelos liberais urbanos que boicotaram os produtores de alface e uva; na segunda fase o 
movimento recebeu o apoio da Organização dos Operários que deu suporte a eles na 
legislatura da Califórnia. Atualmente o grupo tem recebido o apoio de uma nova geração de 
administradores simpatizantes do Departamento de Agricultura. Tarrow também traz o 
exemplo da Igreja Católica, que apoiou o fim do comunismo na Polônia de forma definitiva 
assim como a Igreja protestante na Alemanha Oriental.
42
 
O quarto e último sinal da estrutura da oportunidade política apontado por esse teórico é 
a divisão das elites. Para ele, uma elite dividida abre mais espaço para a ação de grupos 
fora do sistema do poder. Além disso, tais divisões encorajam porções da elite a se 
colocarem como “tribunos do povo”, defensores dos direitos de grupos e movimentos. Foi 
o caso do extenso ciclo de protestos italiano, onde foi determinante o papel do Partido 
Socialista Italiano em se colocar como “tribuna do povo” dentro do governo
43

Dos autores que vimos até agora, Tarrow é quem melhor nos detalha a forma como os 
movimentos fazem suas próprias oportunidades. Novamente de forma didática, o autor nos 
aponta quatro “making opportunities”
44
 que os grupos têm a sua disposição: 
                                                 
41
 Idem. Tradução: “Aliados podem agir como amigos na Côrte, como Garantidores contra a repressão brutal, 
ou como negociantes aceitáveis no interesse de círculos eleitorais os quais – quando deixado uma mão livre – 
podem ser muito mais difíceis para as autoridades lidar com”. 
42
 Idem, p. 56. Como veremos, a existência de aliados influentes dentro da hierarquia foi um dos fatores 
decisivos para o inicio da JEC enquanto movimento social. E a desistência da hierarquia em apoiar, em dar 
suporte a JEC, principalmente depois do golpe militar de 1964, foi um dos motivos pelos quais a JEC 
enquanto movimento social e como movimento institucional teve um fim. Fim em nível nacional decretado 
pela hierarquia em 1966, que se comportou na maior parte da história do movimento como aliada. 
43
Idem, p. 56. 
44
Uma tradução literal do termo seria “fazendo oportunidades”. Aqui o autor se refere às ações dos 
movimentos sociais no sentido de criarem novas estruturas através de suas próprias ações, através de sua 
vontade. A tentativa aqui é a de desvincular a teoria da oportunidade política das críticas de alguns autores 
que apontavam falhas na mesma por ligar as oportunidades políticas dos movimentos sociais como eventos 
que só aconteceriam se as elites deixassem, ou se acaso se abrissem brechas no estado que permitissem essas 
ações. Tarrow, assim como McAdam e outros autores já citados, procuraram demonstrar que a força de 
mudança também está no movimento, também está na ação coletiva. 


1º: Expansão das oportunidades do próprio grupo: um grupo pode observar mudanças na 
sua estrutura de oportunidades em função de suas oportunidades. Tarrow cita o exemplo de 
um grupo de protesto que aumenta as suas oportunidades através da expansão de seu 
próprio repertório de ação coletiva em novas formas. Em outras palavras, a inovação das 
ações de um grupo pode aumentar suas chances de sucesso e sua estrutura de 
oportunidades
45

2º Expandindo as oportunidades para os outros: para Tarrow, a segunda característica da 
ação coletiva, relativa a força de mudança vinda do próprio movimento, corresponde à 
capacidade de um movimento em expandir oportunidades de outros movimentos. Ele usa 
como exemplo o caso dos movimentos de protesto pelos direitos civis norte-americanos do 
início da década de sessenta, que colocaram novas formas de compreensão na agenda 
política própria, mudando inclusive a noção tradicional de “direitos”, o que aumentou ou 
mudou as reivindicações de muitos movimentos
46
. Da mesma forma, as oportunidades 
podem ter conotações negativas quando um movimento ofende outro, podendo gerar um 
contra-movimento, às vezes até violento; 
3º Criando oportunidades para os oponentes: grupos de protesto podem criar oportunidades 
políticas aos seus oponentes. Segundo Tarrow, isso pode acontecer, por exemplo, quando 
os ganhos conseguidos pelo primeiro grupo produzem custos ou impressão de custos ao 
segundo
47

4º Criando oportunidades para as elites: segundo Tarrow, os movimentos podem criar 
oportunidades para as elites em um sentido negativo (quando as ações dos revolucionários 
dão motivo para a repressão) ou em um sentido positivo (quando os revolucionários criam 
oportunidades que as elites podem usar para se atribuírem o papel de “tribunos do povo” ou 
“representantes do povo”). 
O terceiro e último conceitos chaves da Teoria da Oportunidade Política é o 
conceito de MacAdam para Marco Referencial ou framing process
48

                                                 
45
 Idem, p. 58-59. 
46
 Idem, p. 59. 
47
  Idem,p. 59-60. 
48
 O conceito de framing process é de difícil tradução para o português. Mas, como veremos, por estar ligado 
aos referenciais teóricos aos quais os movimentos baseiam seus ideais, ou sua cultura de grupo, uma tradução 
aceitável adotada aqui e também por outros acadêmicos é o de marco referencial. 


Para Zald
49
 frames, ou marcos referenciais do movimento, como chamaremos 
daqui em diante são “the specific metaphors, symbolic representations, and cognitive cues 
used to render or cast behavior and events in evaluative mode and to suggest alternative 
modes of action”.
50
 Zald ainda diferencia o conceito de marco referencial dos conceitos de 
cultura e de ideologia. Para Zald, cultura são as “shared beliefs and understandings, 
mediated by and constituted by symbols and language, of a group or society”.
51
 E ideologia 
“is the set of beliefs that are used to justify or challenge a given social-political order and 
are used to interpret the political world”.
52
  
Zald procura diferenciar o conceito de marco referencial de cultura e de ideologia, 
de forma a ligar o conceito ao estudo dos movimentos sociais. Como veremos, marcos 
referenciais podem ser absorvidos e usados por uma sociedade inteira, como slogans ou 
imagens, tornando-se parte de seu “estoque cultural”. Mas marco referencial não é cultura 
apenas. Além disso, simplificar marco referencial como ideologia traria o problema da 
simplificação do uso apenas político do conceito, empobrecendo-o. Os marcos referenciais, 
como veremos, estão inseridos em um “processo competitivo” dentro de seus movimentos 
que os diferencia da ideologia dos partidos, por exemplo. 
Como os movimentos sociais são construídos dentro das sociedades, as estratégias 
de ação e os marcos referencias são construídos dentro dos limites de cada cultura. Desta 
forma, Zald aponta que a os slogans do movimento feminista contemporânea sobre o 
aborto, como, por exemplo, “o corpo da mulher é dela”, faz muito sentido dentro de uma 
sociedade como a americana, onde há uma luta pelo espaço das mulheres e por sua 
liberdade, mas menos sentido ou quase nenhum sentido em uma sociedade onde a mulher é 
dependente , principalmente dos homens
53
. Também dentro do estoque cultural de uma 
sociedade, os movimentos ensinam às pessoas como protestar e como se organizarem. 
Existe uma troca neste estoque cultural entre movimentos sociais, sociedade e sistema 
estatal. 
                                                 
49
 McADAM, Doug; McARTHY, John D.; MAYER, N. Zald, 1996, p. 261-274. 
50
 Idem, p. 262. Tradução: “As  metáforas específicas, as representações simbólicas e as sugestões cognitivas 
usadas para fornecer ou moldar comportamentos e eventos em modo evolutivo e para sugerir modos de ação 
alternativos”. Grifo meu. 
51
 Idem, p. 262. Tradução: “Crenças e compreensões compartilhadas, mediadas e constituídas por símbolos e 
linguagem, de um grupo ou sociedade”.  
52
 Idem. Tradução: “É o conjunto de crenças que são usadas para justificar ou desafiar uma ordem sócio-
política e é usada para interpretar o mundo político”. 
53
 Idem, p. 267. 


Assim, repertórios como o uso de barricadas por movimentos sociais podem ser 
empregado por pessoas não ligadas aos movimentos sociais quando houver a necessidade, 
assim como o estado pode apreender alguns desses repertórios para poder agir como em 
ações contra os movimentos. É por isso que o estoque cultural de uma sociedade vive em 
constante variação, assim como as estratégias de ação. Zald cita, por exemplo, o aumento 
do número de marchas a Washington como uma estratégia que vem crescendo ao longo das 
décadas devido à importância da cidade e dos atores sociais que lá vivem ou trabalham
54

Sobre o estoque social, Zald destaca que nem todos os movimentos sociais têm 
acesso a realização de todas as estratégias de um estoque cultural. Os movimentos e seus 
líderes usam os repertórios disponíveis e compatíveis com as suas características. Assim, 
em 1993 e 1994, grupos hispano-americanos usaram a tática da greve de fome para 
reivindicarem cotas étnicas em programas de bolsas
55
. Da mesma forma, não parece 
violência demais aos grupos antiaborto bombardearem uma clínica; todavia, para os grupos 
pró-aborto, essa tática não é considerada apropriada. 
Zald atribui um papel importante à cultura e ao marco referencial dentro da história 
do estudo dos movimentos sociais. Segundo ele, as contradições culturais podem levar à 
mobilização quando dois ou mais temas que são contraditórios são trazidos a uma 
contradição por força dos eventos ou quando a realidade dos comportamentos é vista como 
substancialmente diferente
56
. Com o acidente de Chernobyl, por exemplo, a percepção da 
sociedade sobre a energia nuclear mudou, tirando força política dos simpatizantes do uso 
dessa energia e credenciando os ativistas de movimentos antinucleares a pedirem 
emergência para a ação
57

Para Zald, contradições culturais e rupturas culturais criam oportunidades e 
contextos para mobilização, como acabamos de ver; porém os atores sociais como 
jornalistas, políticos, líderes, escritores, lutam em um processo ativo de enquadramento de 
ideologias, questões, definir a culpa, definir símbolos e definir táticas
58
. É a construção da 
cultura. A geração destes marcos mestres pode ser usada por outros, pois geram 
interpretações curtas do mundo, culpam, sugerem linhas de ação. Zald traz o exemplo de 
                                                 
54
 Idem. 
55
 Idem, p. 268. 
56
 Ibidem. 
57
 Ibidem. 
58
 Ibidem. 


Rosa Parks, que, ao se negar, por ser negra, a se dirigir ao fundo do ônibus, gerou um 
exemplo de enfrentamento que virou exemplo para sua comunidade, o qual logo passou a 
ser usado por outras pessoas ajudando no sucesso do movimento pelos direitos dos negros 
nos EUA. 
Esses processos competitivos de construção dos marcos referenciais que Zald e 
outros autores destacam não apenas se dão externamente (por exemplo, na luta de pontos 
de vista entre um movimento e seu contramovimento para, por exemplo, persuadir 
autoridades e simpatizantes a apoiarem a sua causa) como internamente (dentro dos 
movimentos há competições pela definição de quais são as melhores táticas de ação ou de 
quais são os principais objetivos do movimento. Isso os pesquisadores têm de levar em 
conta.)
59
. Dessa forma, Zald nos mostra que não existe a opinião dos líderes do movimento 
sobre o marco referencial, mas opiniões externas sobre ela, que podem leva ou não a 
mudanças posteriores. 
E não apenas o próprio movimento pode mudar o seu marco referencial, como a 
mídia pode manipular a mensagem que os movimentos passam. A causa dos movimentos é 
debatida em vários lugares, desde uma roda de amigos em um bar a uma mídia de massa 
como um jornal, por exemplo. Mas a mídia pode, além de transmitir esta mensagem, 
transforma-la. Os interesses dos patrocinadores, a posição política dos donos do veículo e 
outros fatores mais podem influir na mensagem que os movimentos querem passar. 
Ao discutir o impacto dos movimentos sociais na sociedade, Zald nos lembra que 
estes podem adicionar elementos ao estoque cultural da sociedade. Marcos referenciais 
vencedores costumam virar slogans e símbolos da cultura geral, já os símbolos dos 
movimentos perdedores costumam ser marginalizados. Movimentos vencedores têm suas 
estratégias e marcos referenciais apropriados por outros movimentos. 
Estes três fatores (a oportunidade política, a estrutura das oportunidades políticas e 
o marco referencial ou framing) formam a base da teoria usada nesta dissertação. 
Há muitas formas de se abordar a história de um movimento católico de jovens 
como a JEC. No entanto, ao escolher esta abordagem, estamos reconhecendo que a JEC 
também foi um movimento social, ainda que apenas em uma parte de sua história. Daí a 
minha escolha. Também pensamos que esta é a melhor abordagem, pois destaca os fatores 
                                                 
59
 Idem, p. 268-269. 


que tornaram possível um movimento institucionalizado e preso a regras que limitavam a 
ação do laicato fora do ambiente eclesial (falo dos Estatutos da Ação Católica Brasileira) e 
que não abriam margem de forma alguma a ações políticas que não aprovadas pela 
hierarquia
60
.  
E entendemos que foi a oportunidade política do contexto político-social do fim da 
década de cinqüenta e do início da década de sessenta que forneceu o ambiente de debate 
propício aos dirigentes da JECM e JECF, além de outros movimentos católicos como a 
JOC e a JUC a envolverem-se diretamente na política. Além disso, o uso da estrutura 
institucional possibilitou o crescimento do movimento, ainda que distante dos princípios 
estabelecidos nos Estatutos da ACB de 1946 e 1950. E foi essa mesma estrutura 
institucional que, com a eleição de 1964, e, antes, a partir de 1962 causou o fim do 
movimento, justamente pelo distanciamento dos dirigentes da hierarquia. 
Os marcos referenciais que já vinham sendo criados desde a década de cinqüenta, 
traziam as raízes de uma prototeologia da libertação: o ideal do Paraíso Terrestre (ou 
Paraíso na Terra). O homem deveria lutar pelo bem de todos agora. E a influência 
comunista e de esquerda vinda do Partido Comunista e de elementos engajados na UNE e 
UBES mudou a concepção de muitos dirigentes, que já não consideravam o comunismo 
(tão combatido pela Igreja por causa do seu ateísmo e pela perseguição religiosa, além da 
defesa do sistema capitalista, ainda que a Doutrina Social da Igreja apontasse para um meio 
termo entre os dois sistemas antagônicos) um problema. Talvez até fosse para muitos um 
exemplo, já que um considerável número de ex-membros da JUC e JEC estiveram 
envolvidos em guerrilhas ou treinamento em Cuba
61

 
 
                                                 
60
 Naturalmente as ações políticas estavam intimamente ligadas à Ação Católica. A própria criação da Liga 
Eleitoral Católica é um exemplo escandaloso do uso do laicato para favorecer a ICAR. Mas, como veremos 
adiante, o uso da instituição para fins políticos e pessoais e também o envolvimento de dirigentes católicos 
com a política eram proibidos nos estatutos da ACB. 
61
 Vale lembrar que Herbert de Sousa, preso político, liderou tanto a JEC quanto foi um dos líderes criadores 
da Ação Popular. Também GASPARI (2002) aponta (ainda que não claramente quem) que “nos primeiros 
meses de 1965 o governo desbaratou tramas de paraguaios ligados à esquerda católica em São Paulo” (p. 
190). Até mesmo certas ordens estavam envolvidas com movimentos de contra-revolta, como podemos 
encontrar em BETTO (1983), onde o Frei nos conta o envolvimento dos Dominicanos com o 
“acobertamento” da presença de certos indivíduos, como o próprio Carlos Marighela, conhecido perseguido 
político. 


1.2 Revisão Bibliográfica 
 
 
 
Há uma bibliografia (ainda que escassa) sobre a ACB. Ela existe. Mas não podemos 
dizer que o mesmo aconteça com a JEC: o livro do Frei Mateus Rocha
62
 é um dos únicos 
livros escritos em português sobre o assunto. E ele pouco fala do trabalho realizado pelos 
jecistas no Brasil. Na verdade a obra é a compilação de textos adaptados ao português de 
como se criam as unidades da JEC nas escolas e sobre o “tipo ideal” de jecista: um jovem 
apóstolo (moço ou moça), ciente da autoridade eclesial e que queira ajudar ao mundo em 
que vive. É uma obra datada, portanto, e remonta à época do movimento de maior 
crescimento em número de membros e tinha o objetivo de “uniformizar” a JEC pelo Brasil, 
fazendo que tanto a JEC do Norte como a do Sul se parecessem, tomando por base as 
diretrizes impostas pela obra. 
 
Há, no entanto, grande quantidade de obras que tratam sobre a história da Igreja e de 
seu envolvimento com a juventude e com a política no Brasil. É dela que trataremos agora. 
Frei Betto
63
, em sua obra de 1981, escreve sobre a importância da ACB como o 
primeiro movimento católico de inserção do leigo que obteve sucesso nesta empreitada. 
Mas é Carvalheira
64
 o primeiro a escrever um resgate de memória da JEC e outros 
movimentos pertencentes a ACB, na década de oitenta. Entretanto, por tratar-se de um 
artigo, os limites de espaço e a função do escritor dentro da Igreja não permitiam um 
aprofundamento do assunto. 
 
A melhor aproximação do trabalho que apresentaremos trata-se do livro do Pe. 
Hilário Dick
65
, um pesquisador com ampla experiência no objeto, além de filósofo e 
historiador da juventude mundial. Em seu livro, escrito com base em ampla bibliografia 
coletada por ele de documentos de época das coordenações regionais e nacionais, o Pe. 
Hilário escreve uma história da JEC desde o seu surgimento na década de trinta, sua 
história como movimento católico e apresenta alguns testemunhos de jecistas. É uma obra 
indispensável para quem quer trabalhar com o movimento. O esforço de Dick em copiar os 
                                                 
62
 ROCHA, Frei Mateus. JEC: o evangelho no colégio. São Paulo: Editora Duas Cidades, 1958. 
63
 BETTO, Frei. O que é Comunidade Eclesial de Base? 3ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981. 
64
 CARVALHEIRA, Dom Marcelo Pinto. Momentos Históricos e Desdobramentos da Ação Católica 
Brasileira.In: Coleção Teologia Orgânica, nº 9, Rio de Janeiro, 1982. 
65
 DICK, Pe. Hilário. JEC no Brasil – uma proposta que não morreu. São Paulo: CCJ, 1992. 


manuscritos da JEC e guardar alguns documentos elaborados pelos próprios jecistas em 
seus encontros como os “Cadernos da JEC” e os “Planos de Estudo” deram origem a um 
dos mais completos, senão o mais completo arquivo histórico do movimento, o arquivo 
histórico do IPJ (da Casa Padre Jorge, em Porto Alegre). 
 
É conhecida também a produção bibliográfica dos chamados “brasilianistas” 
(estrangeiros que escrevem sobre o Brasil) sobre a história da ICAR no Brasil. Dois desses 
se destacam na produção bibliográfica sobre a história da Igreja no Brasil: Ralph Della 
Cava e Scott Mainwaring. Suas análises políticas sobre a Igreja Católica do Século XX, já 
famosas, estão presentes em diversos artigos, livros e outras publicações. Mas como o 
próprio Della Cava escreve: “Não existe nenhum estudo de conjunto sobre a extinção dos 
grupos especializados de ação católica ou sobre a ação por ‘ensaio e erro’ dos catequistas 
neste período”.
66
 Até 1988 não havia ainda uma publicação sobre um dos maiores 
movimentos da Ação Católica Especializada brasileira: a JEC. O primeiro livro seria o livro 
do Pe. Dick
67

 
Ambas análises dos brasilianistas não se prestam a uma análise detida nos detalhes 
de funcionamento dos grupos especializados. O foco está na história política da Igreja 
Católica e sua estruturação no século passado, bem como na sua ligação com as diversas 
camadas sociais. 
 
Suas conclusões a respeito dos movimentos da AC, apesar de, particularmente, 
considera-las muito próximas do que está presente na documentação escrita pelos próprios 
leigos, nem sempre, como veremos, estão completas. Isso só será possível pelo estudo de 
caso de cada um dos movimentos especializados, da análise de sua ligação com a hierarquia 
e com a administração nacional e regional e tendo a opinião dos próprios militantes, que, 
esperamos, surjam com o tempo através das mãos de novos pesquisadores. 
 
Assim, quando Della Cava atribui uma grande importância à eleição dos candidatos 
“conservadores” ao Secretariado Nacional da CNBB e ao apoio dado à Santa Sé às suas 
posições na dissolução dos movimentos especializados da ACB em 1968, temos aí uma 
                                                 
66
 DELLA CAVA, Ralph. A Igreja e a abertura, 1974-1985. In: STEPAN, Alfred (org.). Democratizando o 
Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 267. 
67
 Desde então, apenas quatro pesquisadores publicaram na Plataforma Lattes até o ano de 2007 alguma 
publicação que tivesse alguma ligação com o tema desta pesquisa, incluindo a mim. Dos outros três, dois 
haviam participado de uma mesma pesquisa sobre levantamento de fontes sobre o tema JEC e ACB, e outro 
havia escrito um artigo sobre o assunto, não publicado por editora. Maiores detalhes em http://lattes.cnpq.br, 
que é o sítio da Plataforma Lattes no Brasil. 


informação incompleta. Como é mostrado em um estudo monográfico sobre o assunto,
68
 
nós não podemos falar de fim do movimento nem em termos de Brasil, nem de mundo. A 
AC italiana possui até um sítio de informações ainda hoje. A JOC, em Porto Alegre, possui 
ainda reuniões anuais e um centro histórico. E o Pe. Hilário Dick
69
 mostra em seu livro que 
os jecistas, mesmo tendo seu secretariado nacional deposto pela Secretaria da CNBB em 
1968, continuaram se encontrando e tentando se reorganizar em nível regional, mesmo sem 
apoio da hierarquia. Isso talvez demonstre algumas tensões internas entre padres e bispos 
que devam ser mais bem analisadas. 
 
Giovanni Semeraro faz uma análise primorosa da Igreja no século XX, em sua 
obra
70
, dando especial atenção a ACB e aos seus desdobramentos, entre eles a Ação 
Popular e os Movimentos de Educação de Base, um dos últimos movimentos católicos de 
caráter francamente políticos
71
 e de “esquerda”. No entanto, o foco de sua análise está em 
um dos movimentos da ACB especializada: a JUC
72
 e a Ação Popular
73

 
O objetivo de nosso trabalho é delinear e mapear o processo de rompimento com o 
projeto de neocristandade (o ultramontanismo) através da JEC nos anos cinqüenta pela 
análise da documentação dos próprios jecistas da época. Este processo se dá de forma lenta, 
                                                 
68
 PAULA, Eder Coelho. O FIM DA JEC COMO MOVIMENTO NACIONAL E A SOBREVIVÊNCIA DO 
MOVIMENTO NA REGIÃO SUL. Porto Alegre: mimeo, 2002. 
69
 DICK, Op. Cit. 
70
 SEMERARO, Giovanni. A primavera dos anos 60 – a geração de Betinho. São Paulo: Edições 
Loyola/Centro João XXIII, 1994. 
71
 O último movimento notadamente politizado e voltado para uma mudança social através do envolvimento 
da ICAR, Estado e sociedade são as CEB’s. Pensado por sacerdotes e leigos para ser um movimento de 
renovação social e cultural, as CEB’s tem suas raízes na ACB. Os movimentos religiosos atuais, como a 
Renovação Carismática, o Regnum Christi, os movimentos de primeiro anúncio baseados nos Cursilhos da 
Cristandade, são movimentos voltados para o não-questionamento hierárquico e social. Para maiores detalhes, 
uma sugestão é o livro de Frei Betto: O que é Comunidade Eclesial de Base? 3ª ed. São Paulo: Editora 
Brasiliense, 1981. 
72
 JUC é a sigla de Juventude Universitária Católica que era o “braço” da hierarquia nas faculdades. Era 
responsável pelo recrutamento e formação de quadros da ACB nas universidades, e o destino de todos os 
jovens jecistas que passavam no vestibular ingressavam nela, em princípio. Na década de sessenta, 
principalmente após o golpe, era um dos alvos preferidos da repressão. No entanto, não podemos esquecer da 
JEC, perseguida pela presença de jecistas em órgão como UBES e UNE. 
73
 A Ação Popular era uma associação de jovens ligados anteriormente a ACB (principalmente) e que devido 
às tensões com a hierarquia resolveram se desvincular da igreja para criarem uma organização própria. Desta 
forma pessoas ligadas a partidos políticos como o PCB e sem vínculo religioso puderam também dar sua 
contribuição através da Ação Popular, conhecida como AP. Suas contribuições se deram principalmente no 
campo da educação e política. Pessoas como José Serra e Herbert de Souza fizeram parte de seus quadros. 
Para maiores detalhes sobre a AP, leia SEMERARO, Giovanni. A primavera dos anos 60 – a geração de 
Betinho. (1964-1984). 7ª ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2000. 


mas evidente nesta década. Todavia, para Semeraro, este rompimento só se dará na década 
de sessenta: 
... em ambos os planos (Plano Pastoral de Conjunto - PPC, e o 
Plano de Emergência da CNBB), os bispos rompiam 
explicitamente com a concepção de missão da Igreja da 
neocristandade, reivindicando muitas inovações, inclusive melhor 
planejamento e coordenação pastoral, um papel mais ativo para o 
laicato, a renovação paroquial, um sentido de comunidade mais 
forte, práticas episcopais menos autoritárias.
74
 
 
 
Como veremos, a partir do momento em que os leigos quiseram utilizar-se da 
estrutura “igreja” para a mudança social ou agir em nome desta, indo além do imposto 
desde o início da ACB pela hierarquia, de forma tácita ou claramente, temos aí uma 
superação da missão da Igreja ultramontana. Afinal, apenas o papa e, no máximo, a 
hierarquia, teriam primazia sobre o assunto.  Quando o laicato se mostra disposto a 
ultrapassar esta barreira, a questão ultramontana é esquecida. É esse item que até agora não 
está claro, na nossa opinião, nos textos destes autores, ainda mais se tratando de estudos de 
caso, como veremos. 
 
Em política, temos um termo para os católicos do mundo que, desde o início do 
século passado no mundo e desde a década de vinte e trinta adotavam esta postura de 
questionamento (de certa forma) ao poder papal: católico liberal. Após o advento da 
República nos países ocidentais, “o termo... católico liberal... ressurgiu... para indicar o 
católico que como tal se comporta na sua vida religiosa, mas não aceita as diretrizes 
emanadas pelas hierarquias eclesiásticas no sentido de votar por um determinado partido 
que garanta os interesses da Igreja”.
75
 De certa forma, o termo se aplica ainda hoje aos 
católicos que adotam tal postura. Porém poderíamos extrapolar esta barreira política e 
talvez usarmos o termo “católico liberal” para os católicos da JEC analisados aqui, ou, pelo 
menos, compará-los aos católicos liberais, já que estes adotam esta postura de 
questionamento há muito mais tempo (desde a década de vinte) do que a década de 
sessenta. 
                                                 
74
 SEMERARO, Op. Cit., p. 37. 
75
 BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política/Norberto Bobbio, Nicola Matteuci e gianfranco Pasquino; 
tradução Carmen C. Varriale... [et al]; coordenação da tradução João Ferreira; revisão geral João Ferreira e 
Luís GuerreiroPinto Cascais. 5ª ed. – Brasília : São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2000, p. 
156. 


 
Em seu livro Cristianismo, sociedade e revolução
76
, Charbonneau expõe alguns 
aspectos do catolicismo do início do século XX, como o anticomunismo, a questão 
ultramontana e o aspecto da moral cristã, importantes para que entendamos o ideal de 
formação cristã católica. Mas novamente não temos um foco sobre os movimentos 
especializados. Para Charbonneau, ”o socialismo... se é verdadeiro socialismo... não pode 
conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente 
avesso à verdade cristã”.
77
 Mesmo sendo um texto pró-hierárquico, não podemos esquecer 
que na Igreja do final da década de sessenta havia inúmeras tensões desta com o laicato. 
Muitos padres questionavam a distância entre o socialismo e o cristianismo. O texto de 
Charbonneau fica próximo, portanto, da hierarquia. Hierarquia esta que será 
majoritariamente anticomunista no Brasil até o fim da Guerra Fria. 
 
O livro de Frei Mateus Rocha
78
 JEC – o evangelho no colégio é uma das únicas 
obras que fala diretamente sobre a JEC: seu funcionamento, parte de sua história mundial, 
da sua estrutura e dos pré-requisitos para tanto. Por ser uma obra de época e voltada para os 
jovens e sacerdotes que os acompanhavam, será de extrema importância no decorrer deste 
trabalho para compararmos a proposta contida na obra fornecida pela hierarquia com a que 
foi proposta que foi sendo desenhada durante as décadas de cinqüenta e sessenta por estes 
mesmos jovens que leram ou foram orientados pela obra de Rocha. O conteúdo de sua obra 
poderia ser considerado dentro do conjunto do “ideal jecista”. Veremos no decorrer deste 
trabalho outras obras de época, desta vez escritas pelos próprios jecistas, como os Cadernos 
da JEC nas quais será possível fazermos tais comparações. 
 
Há muitos artigos e livros escritos por pessoas ligadas ou não à Igreja revisando o 
período de fundação ao “fim” da ACB. Alguns já foram revistos neste trabalho. Uma 
revisão de destaque é feita por um sacerdote: Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Carvalheira 
nos explica de forma sintetizada o desenvolvimento da ACB, que, segundo ele, pode ser 
dividida em duas partes: antes e depois da especialização por meios de atuação
79
. Mas 
devido a problemas de espaço (o texto trata-se de um artigo) e da profissão do escritor, 
nenhum aspecto é aprofundado, apenas a causa do fim da JEC, apontado por ele como 
                                                 
76
 CHARBONNEAU, Charles. Cristianismo, sociedade e revolução. 2ª ed. São Paulo: Editora Hérder, 1967. 
77
 CHARBONNEAU, p. 230. 
78
 ROCHA, Frei Mateus. JEC – o evangelho no colégio. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1958. 
79
 CARVALHEIRA, Dom Marcelo Pinto. Momentos Históricos e Desdobramentos da Ação Católica 
Brasileira. In: Coleção Teologia Orgânica, nº 9, Rio de Janeiro, 1982, p. 10. 


tendo sido quase exclusivamente culpa dos jovens. Por não ser uma análise de toda isenta, 
faz-se necessária ainda mais hoje, quase quarenta anos após o decreto da Secretaria 
Nacional da CNBB, publicações de revisões mais atualizadas sobre o assunto. 
 
Uma das únicas obras que trata da história de um movimento da ACB especializada 
e que se aproxima do nosso objeto de estudo tanto historicamente como por ser um 
“movimento irmão” da JEC é o artigo de Scott Mainwaring
80
, que trata da Juventude 
Operária Católica. Através da análise de documentação de época presente no Instituto de 
Pastoral do Rio de Janeiro e de entrevistas com alguns ex-membros da JOC do período de 
1958-1970, o autor apresenta em formato de artigo um resgate da importância histórica de 
um dos mais importantes movimentos de leigos da ACB até então atuantes. 
 
Através do estudo dos jornais e das cartas produzidas no período, Mainwaring 
descreve a trajetória do pensamento político dos operários católicos, que chegaram a um 
número de membros maior que vinte e um mil na década de sessenta até o golpe. A JOC, 
assim como a JEC, como veremos, tem nesta trajetória do pensamento político muitas 
semelhanças. Uma delas é que no início do movimento (na década de 1940) havia uma 
preocupação dos líderes do movimento em alinhar o discurso da ação do movimento com a 
proposta da hierarquia de apenas aumentar o número de operários cristãos nas fábricas, sem 
se preocupar com a realidade em que este operário vivia. Mas na medida em que vários 
grupos forem se dando conta da importância, da realidade em que vivem e de sua ‘missão’ 
como cristãos, haverá uma cisão entre os membros do movimento e dos padres que os 
assistem com a hierarquia que os comanda
81

 
Para Mainwaring, a realidade econômica e política têm um papel importante nas 
transformações que a JOC sofrerá com o tempo, incluindo aí a radicalização de algumas 
lideranças para a ação política, para o envolvimento em ações de apoio ao governo (até 
1964) contra a repressão (após 1964).
82
 Por se tratar de um movimento operário, porém, a 
JOC terá, talvez, uma perseguição política diferente da JUC e da JEC, como veremos. No 
entanto, apesar disso, a JOC terá uma sobrevida muito maior que esses dois movimentos 
apesar disso, inclusive porque se distanciou da hierarquia a ponto de não se envolver nem 
                                                 
80
 MAINWARING, Scott. A JOC e o Surgimento da Igreja na Base (1958-1970). In: Revista Eclesiástica  
Brasileira, vol. 43, fasc. 169. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1983. 
81
 MAINWARING, Op. Cit., p. 43-74. 
82
 Idem, p. 87-90. 


com os Círculos Operários
83
, mantendo até hoje um caráter de contestação bem mostrado 
por Mainwaring no artigo.  
Outra semelhança entre a obra de Mainwaring e esta tese e meus trabalhos 
monográficos anteriores é o desenvolvimento desta consciência política que acontece com 
alguns líderes da JOC (assim como acontece com os jovens jecistas) ocasionando a cisão 
interna entre os próprios líderes do movimento, a cisão interna entre os padres que apóiam 
ou não ações políticas que possam acontecer sob a ‘bandeira’ da ACB especializada e o fim 
das comissões nacionais dos movimentos especializados após 1968 sob ordem da 
hierarquia. 
Mas a obra de Mainwaring sobre a JOC, apesar de sua importância por ser um dos 
poucos textos sobre a ACB especializada já merecia uma revisão dado que novos 
documentos surgiram e outros trabalhos já a atualizaram. Desta forma, em alguns pontos 
não podemos mais concordar com o autor. Vemos isso particularmente em alguns erros 
históricos não corrigidos como quando o autor apresenta a dissolução das coordenadorias 
nacionais da ACB em 1966, sendo que, na realidade, isso aconteceu em 1968
84
, quando 
este supervaloriza o exemplo de contestação e política progressista da JOC
85
 para com a 
estrutura institucional hierárquica. 
                                                 
83
 Os Círculos Operários são a resposta da Igreja Católica no Brasil para o aumento do número de sindicatos 
no Brasil. Eles surgiram no início do século XX em resposta ao comunismo e à diminuição do número de 
católicos entre os operários em função do avanço dos partidos socialistas. Os Círculos existem até hoje e são 
organizações assistencialistas e de discussão política. Uma boa obra sobre os Círculos Operários e seu caráter 
anticomunista é a obra de DIEHL, Astor Antônio. Os círculos operários: um projeto político da Igreja 
Católica no Rio Grande do Sul(1932-1964). Porto Alegre: EDIPUCRS, 1990. 131 p. Mainwaring mostra 
muito bem esta separação política entre os Círculos e JOC após a década de 1940 no episódio em que os 
jocistas se negam a realizar um Congresso juntos com os circulistas na década de 1960. MAINWARING, Op. 
Cit., p. 89-90. 
84
 MAINWARING, Op. Cit., p. 73-74. “Esta (JOC) escapou do ataque da instituição nos dois momentos em 
que ele seria mais provável: em 1966, quando a hierarquia fechou a Ação Católica, e em 1969, quando o 
governo fez pressão sobre os bispos para que usassem de represália contra a JOC”. Como veremos, a 
informação está incorreta. A JOC pertencia a ACB tanto quanto a JEC e JUC e a hierarquia não ‘acaba’ com a 
ACB. Simplesmente extingue as coordenadorias nacionais, enfraquecendo as regionais (estaduais) causando a 
morte do movimento de forma lenta e cuidando para que novos movimentos, como os Cursilhos da 
Cristandade de caráter notadamente ‘apolíticos’, cresçam e sejam favorecidos. Na verdade, os movimentos da 
ACB continuam existindo. Apenas não tiveram mais o apoio essencial da hierarquia. Mas movimentos como 
a JOC e JEC tem encontros e grupos que existem até hoje. 
85
Segundo Mainwaring (MAINWARING, Op. Cit, p. 29): “... através de seu corajoso testemunho, 
desempenhou também (a JOC) o papel de estimular a Igreja inteira a mudar. Numa época em que a maior 
parte da Igreja estava ainda estreitamente ligada ao Estado e às classes dominantes, a JOC ajudava a Igreja a 
entender as necessidades e os valores da classe trabalhadora”. Mesmo se considerarmos que a JOC tivesse 
100 padres a assistindo, num universo de 15 mil padres vivendo no Brasil, sendo que poucos destes eram 
bispos, temos de minimizar esta frase do autor. Como veremos, outros fatores além das palavras e ações dos 


Em virtude do que foi apresentado aqui, percebemos que, por ser um assunto de tal 
importância para a Igreja Católica no século XX, e por ser a Igreja Católica uma das mais 
significativas instituições do século XX (e de hoje), uma revisão do assunto “JEC” e da sua 
importância política ao lado de instituições como a JUC, JOC, JIC e JAC, especializações 
da ACB é muito relevante. Não há publicações de “fôlego” sobre o assunto que levem em 
conta as especificidades destes movimentos, tampouco o seu funcionamento. Mas há 
muitas publicações sobre os partidos políticos da época e os partidos posteriores, que 
possuem muitos quadros que se formaram na ACB ou nos movimentos “derivados” da 
ACB, como as CEB’s o Movimento de Educação de Base. 
 
Como já havíamos falado, a obra de Muraro é uma das poucas que trata do assunto 
ACB. Por se tratar de um livro dirigido ao grande público, Muraro não inclui citações 
bibliográficas. Além disso, é um livro baseado na sua monografia de mestrado defendida na 
USP, a qual não se encontra facilmente disponível, mas que, pelo livro, revela algumas 
carências de informação, talvez devido ao não acesso a algumas fontes não-disponíveis nos 
anos oitenta, como, por exemplo, o desconhecimento do início da ACB já na década de 
vinte em fase experimental no Brasil e a sua implantação em vários estados a partir da 
década de trinta, já com uma força evidente
86
. É um livro também ligado à importância dos 
movimentos operários da década de setenta e oitenta e que liga a Igreja Católica (e 
principalmente à antiga Pastoral Operária) a estes. Se trata de uma as únicas obras que 
abordam a ACB e a Igreja Católica e ainda é dirigida ao grande público. Isso transforma o 
livro em um pequeno manual sobre a ACB, já que faz referência também a outros 
movimentos e explica a estrutura básica da ACB. 
 
O livro de Betiato
87
 faz uma ligação da história da ACB à atual Pastoral da 
Juventude. A tese se resume ao fato de que a Pastoral da Juventude veio após a Ação 
Católica, que foi a primeira organização de apostolado leigo ligada diretamente à hierarquia 
e ao seu serviço e da Igreja. Para esta tese, o mérito de Betiato é o de analisar a situação da 
JEC em seu chamado “momento decisivo” a partir já do ano de 1958
88
, resumindo o que 
                                                                                                                                                     
jocistas influenciaram realmente a hierarquia que, por sinal, após o Concílio Vaticano II, não apostará mais 
nos movimentos da Ação Católica e sim em outros movimentos de leigos que não tivessem esta capacidade de 
evolução política que a JOC e outros movimentos tiveram. 
86
 MURARO (1985), p. 34-43. 
87
 BETIATO, Mário Antônio. Da Ação Católica à Pastoral da Juventude. Petrópolis: Editora Vozes, 1985. 
88
 Idem, p. 38. 


estava sendo realizado pela JEC na data
89
 e creditando ao fim do apoio da hierarquia à 
ACB às contestações de idéias entre as equipes nacionais e a hierarquia (assistentes) quanto 
ao futuro do movimento
90
. No entanto, por se tratar de um livro que foi escrito sobre a 
história da Pastoral da Juventude do Paraná e que se detalha nesta região, que não foi tão 
importante para a ACB como foi, por exemplo, a AC do Rio Grande do Sul, o seu valor 
para esta tese é restrito. Mas ainda é uma das poucas obras que trata do assunto ACB que 
estão disponíveis ao grande público. 
 
Outro importante livro sobre a ACB (e mais especificamente sobre a continuidade 
da JOC mesmo após o decreto de fim das equipes nacionais da ACB) é Os jovens 
trabalhadores conquistando trabalho e justiça
91
.  Assim como o livro de Muraro é um 
texto que foi escrito na metade da década de oitenta e alude à importância do movimento 
operário e da JOC dentro deste. Neste livro, os integrantes da JOC fazem uma “análise da 
juventude trabalhadora” e contam o resultado do 3º Congresso Nacional de Jovens 
Trabalhadores, promovido e organizado pela JOC em 1983. A simples existência de tal 
Congresso e a organização deste pela JOC mostra o poder de organização que esta tinha 
ainda no início da década de oitenta. No livro há um pequeno histórico do movimento e 
uma análise da importância da JOC dentro da ACB
92
. Mas faz pouca alusão a JEC. De fato, 
a importância desta obra para esta tese está no fato de mostrar a influência da ACB na 
sociedade brasileira na formação de lideranças, principalmente as sindicais. 

  O próprio IPJ de Porto Alegre tem publicações próprias sobre a AC.  Em uma 
destas publicações, na verdade um livreto intitulado História da Igreja
93
, vários autores 
(como o Pe. Oscar Beozzo e o ainda Frei Leonardo Boff) foram convidados a dar a sua 
contribuição no sentido de elencar os fatos mais importantes da história da Igreja Católica 
no país, desde 1500 até 1984. A ACB merece destaque na obra, devido a sua importância 
no século XX. Para Beozzo, a explicação do fim da ACB era que esta foi “extinta pela ação 
                                                 
89
 Ibidem, p. 41. 
90
 Ibidem. 
91
 JOC – JUVENTUDE OPERÁRIA CATÓLICA. Os jovens trabalhadores conquistando trabalho e justiça. 
Caxias do Sul: Edições Paulinas. 1985. 
92
 Idem, p.22-25. 
93
 INSTITUTO DE PASTORAL DE JUVENTUDE. História da Igreja. Porto Alegre: Instituto de Pastoral de 
Juventude, 1984. 


conjugada do Estado, de elementos conservadores dentro ad Igreja, pela desagregação e 
desarticulação interna dos próprios movimentos”
94

 

Em linhas gerais, devemos concordar com Beozzo sobre o fim da JEC. No entanto, a 
forma e a motivação de como isso se deu não é explicada por Beozzo, o que torna a obra 
incompleta e passível deste tipo de crítica. Além disso, por se tratar de um livreto escrito 
por um setor da hierarquia que em 1984 era defensor de uma Igreja popular, que ainda 
questionava a autoridade papal frontalmente e abertamente (como fazia Leonardo Boff, um 
dos mais influentes teólogos da libertação no país), podemos dizer que esta obra está 
carregada de uma crítica interna muito forte, e é uma das últimas obras na década de oitenta 
que fará isso. A tônica desde então será o não-questionamento hierárquico, o que a torna 
uma rara obra neste sentido.
 
 
 
                                                 
94
 Idem, p. 73. 


 
 
 
 
 
CAPÍTULO 2 – A AÇÃO CATÓLICA E A JEC NO MOVIMENTO DE 
ROMANIZAÇÃO BRASILEIRO 
 
 
 
 
 
O entendimento da JEC e sua história não poderia ser feito sem a compreensão da 
JEC como movimento da Ação Católica Brasileira (ACB). Com início no final do século 
XIX, motivada pelo Papa, a AC é a responsável pela inclusão cada vez maior do leigo nas 
ações da Igreja em um mundo que se negava a sacralizar. Devemos estudar a AC devido ao 
seu caráter histórico no mínimo pelo seu valor como movimento formador cristão e político 
na sociedade do século XX e pela falta de estudos neste sentido. O futuro da ICAR está 
ligado profundamente na relação da hierarquia católica com os seus leigos, e este 
relacionamento tem sido, desde a AC cada vez mais intenso e vem se dando na maior parte 
das vezes de forma verticalizada. 
Este capítulo versará sobre a estrutura da ACB a partir de uma visão histórica desta 
iniciativa eclesial inserida dentro do plano de romanização da Igreja Católica Apostólica 
Romana (ICAR). Depois falaremos mais aprofundadamente da estrutura da JEC a partir de 
sua história como movimento nacional (de 1950 a 1954), comentando aspectos principais 
como estrutura hierárquica, publicações, eventos, locais de atuação, etc. 
Procuraremos caracterizar a JEC enquanto integrante da ACB e inserida dentro de 
uma proposta de trabalho para os leigos e adaptada às propostas da hierarquia. Desta 
maneira, cabia à Direção Nacional da JEC cumprir as diretrizes aprovadas pela AC na 
década de trinta (e revistas na década de cinqüenta do século passado) a obediência estrita à 
hierarquia e o trabalho voltado ao apostolado do leigo “no seu próprio meio” de 


convivência familiar, no seu círculo de amizades ou de trabalho. Não que nunca houvesse 
nenhum atrito com a hierarquia católica, longe disso, mas esta fase de 1950 a 1954 que 
estudaremos se resume como um período de bom entendimento entre as partes e de serviço 
apostólico quase sem questionamentos de obediência por parte dos leigos, o que não os 
motivou a propor nem executar mudanças contra a vontade desta hierarquia. 
Mas com o desenvolvimento dos trabalhos e através dos momentos proporcionados 
pelo próprio movimento, os jecistas e outros membros da ACB refletirão sobre sua ação e 
desenvolverão um movimento contrário ao da proposta da hierarquia. Este movimento 
(movimento agora no sentido de ação) transformará a JEC em um movimento de jovens 
voltado para a transformação social do Brasil. Com esta mudança (que, como veremos, 
parte diretamente dos jecistas influenciados tanto por leituras de mundo feitas por eles 
mesmos do momento político nacional e da análise da capacidade de mudança possível 
através de sua ação sobre esta realidade como por influência intelectual vinda da Europa 
por diversos autores católicos que estão desenvolvendo trabalhos que vão de encontro ao 
que Roma prega) a JEC passará a ser um movimento de jovens de certa forma 
“inconveniente” à hierarquia católica a partir, principalmente, do ano de 1958-1964. Com o 
Golpe de 1964, estes posicionamentos e esta “mudança” serão pretexto para ações da 
hierarquia que deixarão o movimento sem amparo em alguns momentos difíceis e acabarão 
em 1968 com o fim do apoio da hierarquia à estrutura nacional da ACB, inclusa aí a JEC. 
Mas para entendermos a JEC como movimento integrante da ACB e como estas 
mudanças aconteceram, passaremos a caracterizar o que foi a ACB e a sua ligação com o 
movimento original de “romanização” imposto por Roma no início do século XX. 
Para tanto, veremos quais oportunidades políticas tornaram possível a JEC como 
movimento, quais estruturas o movimento tinha a sua disposição para mobilizar a seu favor, 
bem como os seus adversários, para criar novas oportunidades políticas (e se tinham-nas) e 
qual o marco referencial do movimento no período entre o início da JEC até o ano de 1958. 
O ano de 1958 se trata de um marco para o movimento no meu ponto de vista e também de 
outros escritores, e por isso a escolha da data. 
Este capítulo, portanto, trata do que chamo dessa 1ª fase da JEC como movimento 
especializado da ACB. Alguns autores também fazem a distinção dentro da história da JEC 


em momentos
95
. O capítulo seguinte tratará do que eu chamo de 2ª fase da JEC enquanto 
movimento especializado e a transformação da proposta de JEC em movimento social e 
politizado, que eu considero como o momento onde a JEC se torna um movimento 
institucional e social, contrariando a hierarquia, principalmente a CNBB e a ACB. Nas 
próximas páginas veremos a ACB como movimento integrado dentro do projeto de 
romanização da ICAR. 
Paradoxalmente, é quando a ICAR é mais prejudicada com a mudança política para 
a República no Brasil do fim do século XIX e início do XX o período de seu 
restabelecimento político e recuperação do número de fiéis. Bem como um período onde a 
ICAR tenta responder aos desafios da modernidade como o comunismo, o liberalismo, o 
movimento sindical, o desemprego, etc. 
Cabe aqui também explicar a qual JEC estamos nos referindo. A JEC era um 
movimento dividido em um setor masculino e um feminino. Quando falamos de JEC, 
portanto, estamos nos referindo ao setor masculino da JEC. Escolhi trabalhar apenas com a 
JEC masculina em função do seu maior envolvimento político e pela produção documental 
mais intensificada sobre política estudantil. Mas também fazemos referência à união entre 
as duas JEC’s e a conseqüência para ambas da decisão da hierarquia em 1966. 
A ACB no projeto de romanização brasileiro, a oportunidade política e a sua 
estruturação e os marcos referenciais que a tornam possível são os assuntos das próximas 
páginas. 
 
 
2.1 A “Romanização” da ICAR no fim do século XIX e início do século XX 
 
 
                                                 
95
 DICK (1993) é um dos autores que distinguem a JEC em momentos: antes e depois da politização do 
movimento, sendo que para ele, a data do envolvimento da JEC com a política é um pouco posterior, já no 
início da década de sessenta. No meu caso, dividi a história do movimento em duas fases. Não para mostrar 
uma politização do movimento, difícil de provar já que a falta de documentação e testemunhos suficientes 
parecem nos impedir de afirmarmos tal coisa, mas sim para ficar claro que, na minha opinião, a JEC a partir 
de 1958 cria condições através de seus dirigentes e apoiados por alguns membros da hierarquia para se 
estabelecer como um movimento não só católico, mas também social. Esta oportunidade política,, sua 
estruturação e a criação do seu marco referencial são os assuntos das páginas que se seguem. 


Em boa parte a reconquista de poder político da ICAR se deveu ao apoio de Roma e 
ao projeto de criação da ACB e o seu crescimento real nas décadas de 1930-1960. Em sua 
obra intitulada O Catolicismo Brasileiro em época de transição Thomas Bruneau nos traz 
uma ótima análise política da história da Igreja Católica no fim do século XIX e início do 
XX
96
.  
Bruneau nos mostra que a ICAR vivia em constante litígio com o Estado em função 
da falta de poder que tinha por estar inserido no que hoje chamamos de “máquina pública”. 
Quando o Estado Brasileiro se torna uma república e extingue este regime de padroado
97
 a 
ICAR  finalmente  tem  uma  oportunidade  de  adquirir  a  importância  que  almejava.  No 
entanto,  a  hierarquia  da  época  no  início  procurou  fazer  isso  tentando  voltar  ao  antigo 
regime  de  subserviência  ao  estado,  inserido  neste.  E  foi  apenas  com  a  assim  chamada 
romanização (aqui entendida como a aproximação política da ICB com Roma no sentido de 
estabelecer com o estado que rege o catolicismo no mundo uma relação que voltasse a ser 
verticalizada  e  não  horizontalizada,  praticamente  dependente  em  certo  sentido  de  tomada 
de  decisões  e  planejamento  de  apostolado,  bem  diferente  do  que  o  fora  na  época  do 
padroado  do  imperador  Dom  Pedro  II)  que  a  ICB  passou  a  crescer  com  o  financiamento 
romano direto. 
Em troca, todos os bispos nomeados no Brasil deveriam ser escolhidos por Roma e 
aprovados pelo Papa. A ICB também deveria entrar em um período de busca de formação 
intelectual de alto nível, de padrão europeu. Os padres passariam a ter uma formação bem 
mais  completa  do  que  o  vulgo  “saber  ler  e  escrever”  e  “conhecer  algumas  palavras  em 
latim” apenas para a missa. Os bispos deveriam ir a Roma ao menos uma vez a cada cinco 
anos para a entrevista obrigatória com o Papa
98

Até  então,  nunca  fora  feito  um  investimento  tão  grande  na  ICB.  O  número  de 
seminários aumentara em mais de 900% de 1900 a 1960 e só não havia mais seminários por 
                                                 
96
 BRUNEAU, Thomas. O Catolicismo Brasileiro em época de transição. São Paulo: Edições Loyola, 1974. 
97
 O padroado régio, segundo MORAES (2004, p. 01) pode ser entendido como uma delegação da Igreja ao 
rei que “o habilitava a propor a criação de novas dioceses, escolher os bispos e apresentá-los ao Papa para 
serem confirmados. Na realidade, apesar de suas intenções iniciais, o Padroado terminou sendo usado como 
instrumento de poder da Coroa para subordinar aos seus os interesses da Igreja católica”. 
98
 BRUNEAU, p. 69. 


falta de vocações. O número de sacerdotes no país crescera, principalmente os que vinham 
da Europa, quase um quinto do que havia no país até 1960
99
. Enfim, Bruneau nos prova que 
a  romanização  trouxe  benefícios  evidentes  para  a  instituição.  E  é  também  a  romanização 
que  fará  a  hierarquia  nacional  a  instituir  a  ACB  e  a  inserção  do  leigo  nos  trabalhos 
pastorais, a partir do Papa Pio X, o Papa da AC. 
Mas são os leigos, o último elo integrado nesta corrente formada no início do século 
XX que inverterão o movimento de romanização, se organizando de forma independente ao 
que a hierarquia lhe propunha e entrando em conflito direto com esta em função de seus 
interesses, como veremos. 
Como já vimos, os movimentos sociais e revoluções são realizados e moldados pelo 
conjunto de condições políticas e oportunidades únicas no contexto nacional o qual eles 
estão inseridos
100
. A inserção do Brasil no projeto de romanização é a oportunidade política 
para a criação dos primeiros movimentos católicos de leigos. É a oportunidade também 
para a inserção dos leigos enquanto “mão-de-obra” a serviço da hierarquia. É também a 
oportunidade de inserção da Igreja, entre as décadas de vinte e trinta, no cenário político 
com uma força renovada. 
Para tanto, a hierarquia conta com uma estrutura
101
 de mobilização renovada no 
início do século: novos investimentos estrangeiros através do Vaticano (para a criação dos 
já mencionados seminários, igrejas, paróquias e santuários) e uma formação dos padres 
melhor formulada com o objetivo de formar pensadores diplomados
102
. Um novo tipo de 
relacionamento com o Vaticano, um relacionamento que apesar de ser verticalizado 
permitiu a ICAR no Brasil uma espécie de “renascimento” dentro do projeto ultramontano 
e o estabelecimento de uma política interna de romanização. 
Em um segundo momento, na década de trinta, após a Revolução e com a retomada 
de um certo prestígio e importância política da Igreja ratificada na Constituição de 1937, 
                                                 
99
 Idem. 
100
 McADAM, Doug; McARTHY, John D.; MAYER, N. Zald. Op. Cit. p. 2-3. 
101
 E aqui a palavra estrutura leva o significado de estrutura de mobilização, ou seja, os vínculos coletivos 
formais ou individuais através das quais as pessoas se mobilizam. 
102
 Lembremos que era muito comum no século XIX que os padres tivessem uma educação “deficiente” para 
o seu posto e para as exigências da função: alguns padres eram semi-analfabetos, devido ao patriarcado não 
estudavam além do exigido para realizar o serviço público, sabiam o significado do latim da missa apenas e 
freqüentemente haviam denúncias de padres que tinham descendentes. 


mais uma estrutura de mobilização da Igreja é colocada em funcionamento. Após anos de 
discussão sobre a sua adaptação em território nacional, a hierarquia brasileira adota, a 
pedido do Papa Pio XI a AC. A base desta instituição vem do modelo italiano, incluindo 
suas regras, mas a sua adoção também faz parte do projeto ultramontano. A AC é não só 
um instrumento importante de inserção do trabalho apostólico leigo na ICAR. É uma 
estrutura a serviço da hierarquia. É uma instituição de elite, onde os seus membros e 
dirigentes prestam juramento de lealdade ao Papa e aos Bispos. Onde só católicos 
convidados entram, como veremos através do estudo dos Estatutos da ACB mais adiante. 
Seu marco referencial, portanto, é o projeto ultramontano da ICAR. O ideal 
proposto para os novos movimentos leigos era baseado em uma renovação teológica que já 
vinha sendo realizada na Europa e foi “copiada” ou “trazida” para o Brasil. Esta nova 
teologia trazia uma mudança no papel do leigo e da Igreja em um mundo cada vez mais 
dessacralizado (proposta esta não perfeitamente definida, mas que trazia um caráter 
antiliberal e anticomunista). Segundo alguns jecistas, a ACB trazia até uma mudança da 
imagem de Deus frente ao homem
103
. A estratégia da Igreja era a reconquista do poder 
político com o tempo através da consolidação da importância da Igreja e do uso dos leigos a 
serviço da hierarquia. Era uma estratégia em longo prazo, mas que deu bons resultados, 
apesar dos problemas financeiros da CNBB e das arquidioceses não serem superados, nem 
na fase de maior crescimento da Igreja, na década de cinqüenta do século XX. 
 
 
 
2.2 A ACB Geral e a ACB Especializada 
 
 
                                                 
103
 Em entrevista editada no livro de PAIVA, Vanilda (Org.). Catolicismo, Educação e Ciência. São Paulo: 
Edições Loyola, 1991, Herbert de Sousa declara que, na sua passagem pela JEC, um dos pontos mais fortes 
para a sua permanência no movimento era a espécie de relação que ele tinha com Deus e com a hierarquia. 
Neste ponto, tudo era uma novidade para os católicos brasileiros. E apesar do sentimento de culpa pelos 
pecados que perseguia os fies também naquela época, a pessoa de Jesus Cristo trazida como um exemplo para 
os jovens adolescentes das décadas de cinqüenta e sessenta era muito positivo. Segundo Herbert de Souza, 
“tudo na JEC era positivo. Deus, por exemplo, era Jesus Cristo. Para o Frei Mateus, Jesus era uma pessoa 
espetacular, era um homem forte” (p. 192). Havia, portanto uma dissociação da imagem de Deus apenas na 
figura do Pai Todo-Poderoso e punitivo, para outras figuras sagradas também, como Jesus, o Espírito Santo e 
a Virgem Maria. 


Segundo Carvalheira
104
 podemos dividir a história da ACB em duas partes 
fundamentais: antes e depois da “especialização no meio”. Mas antes, devemos falar sobre 
o que é a AC.  
Neste trabalho especificamente, onde propomos trabalhar com o momento em que 
as lideranças leigas realizam um “movimento oposto” ao movimento de romanização, 
fomos obrigados a trabalhar com um corte temporal estrito, deixando de fora ou apenas 
fazendo uma breve menção ao período da história da JEC que vai de 1930 a 1949. Isto 
porque neste período a ICAR adota como modelo para a ACB o “modelo italiano” de AC. 
A AC se estruturava até então em quatro ramos, como o modelo de AC belga e francês, da 
seguinte maneira: na Juventude Feminina Católica (JFC), para as moças; na Juventude 
Católica Brasileira (contendo setores do operariado, estudantes e universitários) para os 
moços; nos Homens da AC, para os adultos; e a Liga Feminina Católica, para as mulheres 
adultas.  
Tais divisões evoluirão para uma divisão mais especializada dos ramos, não só por 
sexo, mas pelo meio também, como no modelo francês e belga, principalmente a partir da 
década de 1950, havendo espaço também para outras manifestações de leigos como a LEC 
(Liga Eleitoral Católica) que terá grande importância política até a Constituição de 1834. A 
LEC era responsável por listar os candidatos a cargo político como sendo favoráveis ou não 
a ICB. O candidato que não fosse favorável por algum motivo à doutrina católica não 
deveria receber votos por parte dos católicos. 
Nas palavras do Papa Pio XI, a AC é uma resposta às ideologias vigentes em fins do 
século XIX e início do XX (como o Liberalismo, Capitalismo, Comunismo, e os 
totalitarismos de direita) que ameaçavam a influência da fé na vida das pessoas. Ou seja, é a 
“participação dos leigos no apostolado hierárquico”.
105
 Os leigos, colocando-se “a serviço” 
da hierarquia eclesiástica, ajudam esta a cumprir integralmente o seu apostolado. 
Portanto, toda a iniciativa de trabalho realizado pelo leigo a mando da hierarquia 
entrava no conceito de “ação católica”. O caso é que este serviço se institucionalizou 
criando departamento próprio (e que ainda existe em muitos países, não é o caso do Brasil) 
                                                 
104
 CARVALHEIRA, Dom Marcelo Pinto, PB. Momentos Históricos e Desdobramentos da Ação Católica 
Brasileira. In: Revista Eclesiástica brasileira, vol. 43, fasc. 169. SP: 1983. p. 10. 
105
 Idem, p. 11. 


nos bispados e secretarias diocesanas, nacionais e regionais. O nome “ação católica” no 
início do século passado, tornou-se o conceito então de uma instituição para leigos que 
queriam servir à Igreja, e que era organizado por departamentos. Bem, esta iniciativa na 
década de trinta veio acompanhada por uma expansão da AC graças ao trabalho de 
“missionários”, como Christine de Hemptine, uma belga que dirigira cursos de formação 
sobre AC no Rio. Em Recife, Dom João Batista Portocarrero implanta uma matriz da AC 
desde 1928, que ganha impulso com a expansão da AC a partir de 1932 no país. 
Tal idéia de “apostolado no meio” é a essência da AC desde o início, criado na 
Europa da década de 1920 do século XX por Cardjin que “pensou que só os jovens 
operários, feitos apóstolos, haviam de realizar esta tarefa”
106
 onde trabalhavam, a fim de 
restituir a Cristo a sociedade operária. 
 
No Documento da I Semana de Estudos da AC em Porto Alegre
107
, ficou claro que 
os bispos e sacerdotes da capital optaram pelo mesmo modelo implantado nacionalmente, 
mas abrindo uma possibilidade de experimentação quanto à especialização do meio. Além 
disso,  fica  patente  que  há  um  “atrelamento”  do  apostolado/magistério  leigo  à  hierarquia 
eclesiástica, ficando claro que a missão dos leigos “consiste numa autorização especial por 
parte da Jerarquia... para, em nome deles e sob sua direção e responsabilidade, exercerem 
algum apostolado”.
108
 Ou seja, ao menos no começo, apesar da AC ser de qualquer forma 
um  movimento  progressista,  que  dá  ao  leigo  uma  liberdade  de  ação,  mesmo  que  com 
“ajuda” da hierarquia, no sul fica patente que as ações serão controladas por esta. Este será 
um  dos  futuros  fatores  pelos  quais  será  impossível  na  década  de  sessenta,  sustentar  um 
movimento como a JEC. 
 
Logo,  até  a  criação  e  manutenção  a  partir  da  década  de  1950  de  uma  estrutura 
nacional,  podemos  dizer  que  a  ACB  era  uma  experiência  que  tinha  diversas  experiências 
pelo  país.  E  apesar  do  modelo  a  ser  adotado  em  todo  o  Brasil  ser  o  italiano,  no  sul,  em 
                                                 
106
 Idem, p. 269. Aqui, nós devemos levar em conta não a quantidade de pessoas que o movimento operário de 
Cardjin conseguiu engajar, mas a sua idéia revolucionária, que, dando certo na prática, incentivou outros 
movimentos de maneira a criar um apostolado eficiente e um método próprio usado até hoje (Ver-Julgar-
Agir). 
107
 Primeira Semana de Estudos da Ação Católica do clero da Arquidiocese de Porto Alegre. Porto Alegre: 
Tipografia do Centro S/A, 1940. 
108
 Idem, p. 69. 


Porto  Alegre,  a  hierarquia  já  trabalhava  com  a  idéia  de  uma  AC  mais  parecido  com  o 
francês  e  belga,  considerados  mais  revolucionários.  Enquanto  isso,  no  nordeste,  antes  de 
qualquer  estruturação  prévia,  já  era  implantada  a  JECF  nos  colégios  católicos  através  da 
coordenação inicial de religiosas e depois dos próprios leigos formados no movimento com 
o passar dos anos. Isto torna difícil falarmos em uma ACB neste período, o que determinou 
em parte nossa escolha de recorte temporal. 
Já  a  ACB  Especializada  (que  veremos  em  detalhes  logo  em  seguida)  é  a  fase  de 
adaptação da iniciativa da AC no mundo onde se parte para uma experiência (que se tornará 
a mais adotada) ou tendência de dividir as pessoas no serviço do apostolado não mais por 
sexo  e  idade  (o  que  ocasiona  atritos  e  não  muita  motivação  pessoal  até  pelo  fato  da 
colocação  na  mesma  turma  de  pessoas  classes  diametralmente  opostas)  mas  sim  por 
interesse em um meio onde atuam. Assim, as juventudes (maior parcela da AC no mundo) 
podiam ser divididas em Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Agrária Católica 
(JAC),  Juventude  Operária,  Juventude  Universitária  e  independente,  e  dentro  destas,  uma 
divisão por sexo (JEC Masculina, JEC Feminina, por exemplo).  
Como novidade trazida por esta iniciativa vemos a utilização de um método próprio 
(o VER-JULGAR-AGIR, que se trata de três etapas para resolução de problemas ou pontos 
de partida para início de um plano onde o VER é a etapa em que se dá um “olhar cristão” 
ao objeto. O JULGAR trata-se da formulação de um pensamento que pressupõe um “julgar 
o VER” de forma a se aproximar do julgamento de Cristo à luz do evangelho. E o AGIR é o 
resultado do JULGAR, ou seja, tendo todas as informações acima, como Jesus agiria) e do 
estabelecimento  de  núcleos  especializados  de  operários,  estudantes  secundaristas  e 
universitários graças a ajuda de padres canadenses, em 1942
109
.  
É em  1947 que  se  cria um  Secretariado  Nacional da  AC, responsável por diversas 
divisões  da  ACB,  com  o  apoio  dos  bispos.  Em  1950  a  organização  da  AC  pelos  meios 
sociais  são  tornadas  experiências  por  todo  o  país  e  em  1954,  o  episcopado  do  país  as 
aprova,  consagrando  um  modelo  que  durará  e  evoluirá  até  a  década  seguinte.  A 
arquidiocese  de  Porto  Alegre  ainda  terá  grande  participação  na  ACB,  dando  à  instituição 
                                                 
109
 Idem, p. 18. 


sua  contribuição  através  de  seus  bispos,  assistentes  e  jovens  de  vários  movimentos, 
inclusive a JEC. 
A AC, como vimos, foi criada no final do século XIX e teve sua adoção em vários 
países  no  início  do  XX  através  da  iniciativa  pioneira  de  Pio  XI.  Criado  em  função  da 
necessidade  de  afastar  as  pessoas  do  caminho  das  ideologias  políticas,  a  AC  será  sempre 
anticomunista, antitotalitarista e até anticapitalista, apesar de muitas vezes enxergarmos as 
ações  da  hierarquia  como  muito  próximas  das  da  elite  dominante.  Encontramos  em 
Charbonneau  uma  posição  católica  diante  do  socialismo,  onde:  “O  socialismo...  se  é 
verdadeiro  socialismo...  não  pode  conciliar-se  com  a  doutrina  católica,  pois  concebe  a 
sociedade  de  modo  completamente  avesso  à  verdade  cristã”.
110
  Da  mesma  forma,  por  se 
tratar  uma  “ideologia”  que  trata  a  religião  como  “ópio  do  povo”  e  dirige  o  povo  ao 
“ateísmo”, não pode ser o comunismo um exemplo para a Igreja Católica e para a religião 
cristã
111

Na  chamada  fase  da  ACB  Geral  (de  1933  a  1950)  alguns  movimentos  já 
demonstravam  uma  grande  evolução  e  crescimento  no  número  de  membros  e  de 
organização.  Em  outubro  de  1946,  em  um  documento  endereçado  à  hierarquia  da 
Coordenação Nacional da ACB
112
 a Secção Masculina da JUC através do seu secretariado 
nacional  apresenta  um  relatório  de  suas  atividades  no  ano  de  1946  no  período  de  maio  a 
outubro do mesmo ano. O documento relata o início das atividades da JUC, ressaltando os 
objetivos da JUC enquanto “braço” da Ação Católica nas universidades. Este secretariado, 
a pedido da hierarquia, relata ainda as suas dificuldades de apostolado e dá sugestões para a 
melhoria dos seus serviços. Mas o que surpreende mesmo no relatório são as intenções de 
difusão  do  movimento,  pois  elas  realmente  acabaram  se  concretizando.  A  tal  ponto  que a 
JUC teve grande importância política graças a sua presença na política estudantil da década 
de sessenta e fim dos cinqüenta: “No plano nacional pretende-se intensificar a articulação 
entre  os  diversos  centros  diocesanos,  estando  programada  uma  semana  de  Estudos  para 
                                                 
110
 CHARBONNEAU, Paul-Eugène. Cristianismo, sociedade e revolução, 2ª ed. São Paulo, Editora Hérder, 
1967. p. 230. 
111
 Idem, p. 1-100. 
112
 SECÇÃO MASCULINA DA JUVENTUDE UNIVERSITÁRIA CATÓLICA (JUC), Relatório das 
Atividades da Juventude Universitária Católica (maio a outubro de 1946). Rio de Janeiro: mimeo, 1946. 


fevereiro  próximo,  na  colônia  de  férias  da  J.U.C.  de  São  Paulo:  espera-se  assim  tornar  a 
J.U.C.  um  movimento  nacional  com  grande  influência  dentro  e  fora  dos  meios 
universitários”.
113
 
 
2.3 A Reforma dos Estatutos da ACB de 1946 
 
Desde a adoção da ACB no início da década de trinta do século XX no Brasil como 
principal  movimento  de  organização  do  laicato  como  apóstolo  a  serviço  da  hierarquia,  os 
bispos sempre tiveram papel central na sua adoção e desenvolvimento. 
Simplesmente os bispos decidiam se dariam apoio ou não ao movimento e se iriam 
adota-la ou não, de qual maneira, quando, etc. Isso explica muitos aspectos do sucesso ou 
fracasso da ACB em certas áreas como o Norte e Centro-Oeste Brasileiro, onde os bispos 
estavam  menos  preocupados  com  a  inserção  de  leigos  no  serviço  do  apostolado  e  mais 
preocupados  com  a falta de vocações e recursos, e o  sucesso da ACB em  regiões como a 
Sul, Sudeste e Nordeste, onde alguns bispos que haviam entrado em contato com a idéia de 
Ação  Católica  já  em  1916,  como  Dom  Leme,  que  viajou  para  o  Vaticano  nesta  época  e 
conheceu de lá o modelo italiano. 
Na Arquidiocese de Porto Alegre, por exemplo, os bispos já pensavam na adoção da 
AC no início da década de vinte, ainda que a adoção oficial da AC datasse de 1933 apenas, 
com  o  primeiro  núcleo  constituído  na  Igreja  que  cedeu  lugar  à  atual  Catedral 
Metropolitana
114

Em 1946, a Comissão Episcopal da ACB, tendo conhecimento dos resultados da s 
atividades da AC por todo o país e chegando ao conhecimento da ACB de outros tipos de 
                                                 
113
 Idem,p. 7. 
114
 ARQUIDIOCESE DE PORTO ALEGRE. Primeira Semana de Estudos da Ação Católica do clero da 
Arquidiocese de Porto Alegre. Porto Alegre: Tipografia do Centro S/A, 1940. 


Ação  Católica  que  ocorriam  no  mundo,  a  Comissão  redigiu  novos  estatutos,  aprovados 
neste ano. 
Basicamente os Estatutos conservavam os Quatro ramos fundamentais da ACB: 
1.  Homens da Ação Católica (H.A.C.) 
2.  Senhoras da Ação Católica (S.A.C.) 
3.  Juventude  Masculina  Católica  (J.M.C.),  contendo  as  “especializações”  JEC, 
JOC, JUC 
4.  Juventude  Feminina  Católica  (J.F.C.),  contendo  as  “especializações”  JECF, 
JOCF E JUCF. 
Mas  a  maior  inovação  dos  estatutos  era  a  criação  de  oito  departamentos  nacionais 
destinados a cuidar de problemas apostólicos
115

1.  Departamento Nacional de Vocações Sacerdotais; 
2.  de Ensino de Religião; 
3.  de Educação e Cultura; 
4.  de Ação Social; 
5.  de Imprensa, Rádio e Informações; 
6.  de Defesa da Fé e da Moral; 
7.  de Cinema e Teatro; 
8.  de Orientação Política. 
                                                 
115
 MIELE, Pe. Bernardo. A Ação Católica no Brasil – traços históricos. São Paulo:mimeo, 1960, p. 9. Este 
texto produzido pelo Pe. Bernardo visava a uma reflexão das ações da ACB até então. Mesmo tendo sido 
produzido para a leitura da Secretaria da ACB em São Paulo, trata da história não apenas desta região, mas do 
Brasil inteiro onde a ACB estava presente. 


Houve  sugestão  de  adoção  destes  departamentos  também  em  nível  regional.  A 
novidade  dos  departamentos  “integrados  por  elementos  capazes  de  todos  os  ramos” 
116
 
segundo  o  Pe.  Bernardo  Miele,  estava  no  ataque  aos  grandes  problemas  apostólicos  do 
catolicismo de forma planejada e em longo prazo. 
Após a adoção dos Estatutos,  
continuou  ...  o  trabalho  de  fundação  e  consolidação  da  A.C.  nas 
dioceses.  Sucederam-se  também  muitas  Semanas  ou  Tríduos  de 
Estudos.  Algumas  de  informação  sobre  a  A.C....  realizaram-se 
também  as  Semanas  Nacionais  para  toda  a  A.C.B.  e  para 
Assistentes
117

O  clero  brasileiro  foi  convidado  a  adotar  a  ACB  de  forma  coordenada  em  nível 
nacional a partir de então. Os eventos em nível nacional e regional como os acima citados 
tinham a função de propagandear a ACB e inteirar os religiosos interessados do conceito do 
movimento e sua natureza, da mesma forma com os leigos. 
Após  quatro  anos  de  propaganda  por  todo  o  país  a  coordenação  das  secretarias  de 
todas  as  regiões  onde  a  ACB  estivesse  presente  entenderam  que  pela  característica  do 
Brasil, a melhor organização da instituição seria a divisão dos quatro ramos por meios. 
Prova disso era o sucesso parcial de certos ramos, principalmente os de jovens, e o 
insucesso do ramo dos adultos. Segundo Miele,  
os estatutos de 1946 ainda não atendiam suficientemente o campo 
de  ação.  Tentaram-se  experiências  no  meio  rural  que  levaram  à 
formação  de  grupos  de  JAC  (Juventude  Agrária  Católica),  na 
Paróquia  de  Santa  Maria  Madalena  (Diocese  de  Campos).  As 
organizações estudantis secundárias (JEC e JECF) firmavam-se por 
toda  a  parte.  A  JOC  e  a  JOCF  prosperavam.  Iniciavam-se  grupos 
de  adultos  operários  (LOC  e  LOCF).  JUC  e  JUCF  também  se 
espalhavam  com  bons  resultados;  e  paralelamente  iam  surgindo 
grupos de LUC para adultos
118

                                                 
116
 Idem. 
117
 Idem. 
118
 Idem, p. 10. 


Os  problemas  de  adaptação  da  ACB  para  a  realidade  brasileira  foram  trazidos  na 
QUARTA  SEMANA  NACIONAL  DA  A.C.B.,  no  Rio  de  Janeiro,  em  julho  de  1950.  A 
decisão  tomada  nas  reuniões  foi  o  de  enfrentar  o  problema  da  evangelização  aplicando  a 
“especialização”, enfrentando cinco mundos, ou cinco meios bem distintos uns dos outros, 
muito  embora  entrosados  e  interdependentes:  1º  Meio  RURAL;  2º  Meio  ESTUDANTIL 
(secundarista);  3º  Meio  INDEPENDENTE;  4º  Meio  OPERÁRIO;  5º  Meio 
UNIVERSITÁRIO”.
119
 
Ainda  segundo  Miele,  a  adoção  dos  novos  estatutos,  assim  como  tudo  o  que  era 
relativo  a  ACB,  seria  livre  de  acordo  com  cada  diocese  e  da  decisão  de  cada  bispo.  Mas 
para esta adaptação, os novos estatutos teriam de ser mais específicos quanto à organização 
do movimento. 
 
 
2.4. A reforma dos estatutos da ACB em 1950 e suas conseqüências para o movimento 
 
 
A partir de agora veremos que, pelo estudo dos estatutos da ACB, este movimento 
se  inseria  perfeitamente  dentro  do  processo  de  romanização  e  interesse  da  hierarquia 
brasileira  para  um  apostolado  leigo  submisso  a  hierarquia.  Aos  leigos  cabia  o  papel  de 
suprir a falta da presença da hierarquia nas mais diversas áreas de atuação humana. 
O “Estatuto da Especialização” legalizava e oficializava o modus operandi da ACB, 
e, nesta, a JECF e JECM. Paradoxalmente, é esta mesma reforma que dará mais liberdade 
de  ação  aos  leigos,  liberdade  esta  que  permitirá  à  JEC,  JOC  e  JUC,  principalmente,  a  se 
desviarem significativamente do que a hierarquia  estabelecia nos mesmos estatutos, como 
veremos. 
                                                 
119
 Idem. 


Os  cristãos  católicos  eram  convidados,  dentro  da  ACB,    a  conhecer  melhor  a 
doutrina  católica,  sua  teologia
120
,  sua  organização,  sua  “mística”  e  ser  exemplo  dela  no 
mundo.  Com  isto,  se  esperava  que  o  número  de  católicos  aumentasse  já  que  os  próprios 
leigos  seriam  os  “propagandistas”  da  fé  e  que  a  ICB  recuperasse  o  seu  espaço  no  mundo 
descristianizado,  terceiro-mundista  e  subdesenvolvido  do  Brasil.  Era  a  primeira  vez,  pelo 
menos  no  Brasil,  em  que  a  Igreja  Católica  apostava  tão  alto  no  trabalho  leigo. 
Principalmente  na  época  da  Igreja  Primitiva  do  século  I  e  II  o  serviço  do  leigo  esteve  no 
mesmo nível do apostolado hierárquico. Mas desde que o cristianismo se tornou a religião 
oficial de Roma e depois do ocidente isto se perdera. 
A ACB, de onde a JEC e JECF eram um ramo, publicaram em 1950 seus estatutos 
em  nível  nacional
121
.  Tais  estatutos  eram  uma  reforma  dos  estatutos  de  1946  e  traziam 
como  novidade  principal  à  especialização  no  meio  de  apostolado.  Tal  especialização 
consistia na divisão da ACB não mais em 4 ramos, mas uma divisão mais ampla da ACB 
para que a Igreja Católica atingisse uma maior número possível de “meios de atuação”. Boa 
parte da decisão tomada pela hierarquia deveu-se ao sucesso registrado nos estados e países 
no mundo que adotaram tal modelo, muito parecido com o modelo francês e belga. 
É  importante  dizer  ainda  que  desde  a  criação  da  CNBB  (Comissão  Nacional  dos 
Bispos  do  Brasil)  e  da  criação  do  Secretariado  do  Apostolado  Leigo  dentro  da  CNBB,  a 
ACB  deixou  de  ser  um  movimento  independente  dentro  da  ICB  e  passou  a  integrar  e 
responder  através  de  seus  movimentos  diretamente  à  Hierarquia  Brasileira  e  à  Comissão 
Episcopal da ACB através de Coordenações Nacionais de seus Movimentos de Juventude, 
como a JECF e JEC
122
. Também é importante dizer que a partir de então os movimentos da 
juventude  da  ACB  terão  um  financiamento  para  ações  em  nível  nacional  e  passarão  a  ter 
um crescimento espetacular, como veremos. 
                                                 
120
 Como teologia a ser conhecida pelo leigo consideramos o estudo da filosofia ligada a Deus e às religiões. 
121
SECRETARIADO NACIONAL DA ACB. Ação Católica Brasileira – Estatutos- Regulamento Geral – 
Regulamentos Especializados.Rio de Janeiro: Livraria DOM BÔSCO, 1956. 
122
 Segundo o Art. 2 dos Estatutos da ACB, a “A.C.B integra o Secretariado Nacional de Apostolados dos 
Leigos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como organismo distinto e irmão dos organismos 
constituídos pelas Associações Religiosas”, p. 5. 


Segundo  os  Estatutos,  a  ACB  visa  a  “a)  como  fim  último:  dilatar  e  consolidar  o 
reino de Jesus Cristo... b) como fim próximo: ao apostolado dos católicos e à formação que 
êste apostolado reclama.”
123
. Temos aqui uma proposta de trabalho aos leigos que envolve 
dois  problemas:  a  sua  formação  como  objetivo  próximo  (e  nisso  o  estudo,  os  retiros  e 
outras  atividades  como  cursos,  etc)  e  o  apostolado  no  meio  em  que  este  leigo  apóstolo 
exerce alguma atividade. 
Quanto  à  organização,  a  principal  mudança  ao  modelo  anterior  é  a  adoção  da 
especialização nas quatro divisões principais da ACB. No estatuto estabelecia-se que  
São organizações fundamentais da A.C.B: 
a)  Homens da Ação Católica (H.A.C.) para maiores de 30 anos e 
casados  de  qualquer  idade:  conjunto  das  especializações:  Liga 
Agrária Católica (L.A.C.), Liga Independente Católica (L.I.C.) 
Liga  Operária  Católica  (L.O.C.)  e  Liga  Universitária  Católica 
(L.U.C.), setores autônomos em seus respectivos campos; 
b)  Liga Feminina de Ação Católica (L.F.A.C.) para maiores de 30 
anos e casadas de qualquer idade, admitindo a dupla secção de 
casadas e solteiras: conjunto das especializações . Liga Agrária 
Católica  Feminina  (L.A.C.F.),  Liga  Independente  Católica 
Feminina  (L.I.C.F.),  Liga  Operária  Católica  Feminina 
(L.O.C.F.)  e  Liga  Universitária  Católica  Feminina  (L.U.C.F.), 
setores autônomos em seus respectivos campos; 
c)  Juventude Masculina Católica (J.M.C.), para moços de 15 a 30 
anos, conjunto das especializações: Juventude Agrária Católica 
(J.A.C.);  Juventude  Estudantil  Católica  (J.E.C.);  Juventude 
Independente  Católica  (J.I.C.);  Juventude  Operária  Católica 
(J.O.C.),  Juventude  Universitária  Católica  (J.U.C.),  setores 
autônomos em seus respectivos campos; 
d)  Juventude  Feminina  Católica  (J.F.C.),  para  moças  de  15  a  30 
anos, conjunto das especializações: Juventude Agrária Católica 
Feminina 
(J.A.C.F.); 
Juventude 
Estudantil 
Católica 
Feminina  (J.E.C.F.);  Juventude  Independente  Católica 
Feminina    (J.I.C.F.);  Juventude  Operária  Católica  Feminina 
                                                 
123
 Idem. 


(J.O.C.F.), 
Juventude 
Universitária 
Católica 
Feminina 
(J.U.C.F), setores autônomos em seus respectivos campos.
124
 
O novo estatuto, portanto divide todas as faixas etárias da ACB pelo meio de atuação 
dos  leigos,  aumentando  os  campos  de  apostolado  e  a  possibilidade  de  sucesso  de 
apostolado. A partir de então a ACB e principalmente a JECF e JEC experimentarão uma 
fase  de  sucesso  e  aumento  no  número  de  participantes  leigos  nunca  visto  antes  pela  ICB. 
 
Boa  parte  desse  sucesso  se  devia  a  estrutura  de  apoio  que  respaldava  as  ações  das 
equipes  nacionais,  federativas  (ou  regionais)  e  diocesanas  da  JEC.  Estas  equipes 
participavam  de  ações  de  nível  nacional  propostas  pelo  Secretariado  Nacional  da  ACB  e 
também  dos  planos  de  estudo  e  ação  propostos  e  discutidos  anualmente  pelas  equipes  já 
citadas em um conselho nacional que se realizava no fim de ano e que estabelecia diretrizes 
nacionais para o ano próximo. 
No que se refere à JEC,  dividia-a  em duas seções:a JECM (JEC Masculina) e JECF 
(JEC Feminina) devido ao caráter “psicológico” do adolescente, e para facilitar o trabalho 
de coordenação e aconselhamento dos Conselheiros e Assistentes. 
O Regulamento para a JEC dentro do Estatuto da ACB de 1950 nos diz que o trabalho 
da  JEC  visava  a  “restaurar  o  Reino  de  Deus  no  meio  estudantil,  isto  é,  a  ajudar  os 
estudantes a compreenderem e a viverem intensamente seu dever de estado”
125

Estabelecia ainda três categorias de membros : jecistas (estudantes que iniciaram no 
movimento  e  começam  a  aprender  a  sua  linha  de  ação  e  começam  a  seguir  a  sua 
orientação),  os  militantes  (“jecistas  que  tomaram  consciência  de  sua  responsabilidade 
cristã,  despertaram  para  os  problemas  de  seu  meio  e  aí  exercem  influência”
126
)  e  os 
dirigentes  (“militantes  que  assumem  cargo  de  direção  nos  planos  colegial,  e  (Arqui) 
Diocesano, Regional e Nacional”
127
). Estas divisões também funcionavam como distinção 
no  serviço  de  apostolado,  já  que  os  jecistas,  que  eram  os  mais  novos  no  movimento, 
                                                 
124
 Idem, p. 7-8. Os destaques em negrito foram realizados por mim. 
125
 Idem, p. 31. 
126
 Idem. 
127
 Idem. 


geralmente passavam por um estágio obrigatório de um ano e não participavam das maiores 
“ações” como organização de eventos, retiros, etc. 
O  Estatuto  ainda  detalhava  como  deveria  ser  a  “captação”  ou  “conquista”  de  novos 
membros para o movimento:  
... pelo trabalho pessoal do militante que tem influência sobre ele.. 
pela sua participação nas atividades do  movimento... pelo apôio e 
orientação  contínua  do  militante,  do  Assistente,  do  Adjunto  ou 
Adjunta,  levando-o  a  conhecer  o  movimento  e  a  tomar  posição 
diante dele.
128
 
Como  o  movimento  se  destinava  a  ser  praticamente  um  elo  de  passagem  entre  a 
formação  básica  brasileira  para  a  faculdade,  ou  seja,  destinava-se  a  líderes  de  elite, 
católicos,  que  possivelmente  fariam  a  faculdade,  os  próprios  redatores  do  movimento 
estipularam os tipos de atividades que deveriam ocorrer de acordo com o engajamento de 
seus membros. Esperava-se assim que os membros engajados do movimento participassem 
e realizassem “reuniões de militantes” (onde os militantes trariam seus problemas pessoais 
e  de  grupo  e  aplicaria  o  método  próprio  da  ACB,  o  VER-JULGAR-AGIR,  procurando 
sempre  uma  resposta  cristã  aos  seus  questionamentos).  Nas  “assembléias”,  os  jecistas 
procuravam  difundir  no  meio  estudantil  (incluindo  aí  os  estudantes  convidados  a 
participarem  do  movimento)  os  assuntos  dos  programas  (já  discutidos  anteriormente  nas 
reuniões  de  militantes  através  de  círculos  de  estudos)  mensais.  As  “campanhas”  são 
“atividades  transitórias  que  visavam  a  transformar  sucessivamente  determinados  aspectos 
da  mentalidade  estudantil”
129
.Os  “retiros,  manhãs  ou  tardes  de  formação”  e  os 
“acampamentos  cristãos”  visavam  complementar  a  formação  espiritual  e  o  caráter 
apostólico da ação jecista. Os “cursos” são aulas que completam a formação dos militantes, 
geralmente dados sob a supervisão de religiosos ou adultos
130

Complementada  com  as  reuniões  e  assembléias  em  níveis  nacional,  regional  (ou 
federal), (arqui) diocesana e paroquial, este era todo o envolvimento que se esperava de um 
membro  da  JEC.  Através  desta  proposta,  a  hierarquia  pretendia  envolver  o  jecista  em  um 
                                                 
128
 Idem, p. 32. 
129
 Idem, p. 33. 
130
 Idem, p. 32-33. 


conjunto de formação e apostolado que o ligasse a doutrina católica e a proposta da ACB de 
criação de líderes altamente qualificados para o serviço de apostolado. Os próprios jecistas 
tinham a liberdade nestes eventos de cria-los, arrumar meios de financia-los, estruturá-los, 
lhes  dar  significado,  elaborar  seus  temas,  etc.  Aparentemente,  isto  dava  um  caráter  de 
responsabilidade  e  liberdade,  novamente,  de  ação.  No  entanto,  simplesmente  por  se  tratar 
de  algo  já  previsto  pela  hierarquia,  por  estar  dentro  dos  planos  de  ação,  não  era  uma 
atividade totalmente livre ou nova. Por isso, quando os jecistas passaram, a partir de 1958, 
a  propor  novas  atividades,  novas  orientações,  muitas  críticas  foram  feitas  por  parte  da 
hierarquia que parecia temerosa sobre o futuro do movimento em relação a sua adequação 
estatutária. Preocupações que se revelaram fundadas. 
Mas foi a própria organização do movimento estabelecida nos Estatutos de 1950 que 
possibilitaram a difusão de novas idéias contrárias à hierarquia e que determinaram o “fim” 
do movimento em caráter nacional em 1966. 
No artigo 12º ao 22º do Regulamento da Juventude Estudantil Católica do Estatuto da 
ACB  estabelecia-se  essa  organização  em  cinco  planos:  organização  nacional,  regional, 
(arqui) diocesana, paroquial e colegial. 
No plano nacional a JEC era dirigida por uma Equipe de Direção e um Conselho. A 
Equipe de Direção  
se compõe de um ou mais Assistentes, presidente, vice-presidente, 
secretário,  tesoureiro  e  encarregado  de  serviços,  que  funcionam 
também  como  propagandistas  permanentes  ou  não.  O  Conselho  é 
formado  pelo  Assistente,  presidente  e  vice-presidente  de  cada 
Confederação Regional (da JEC)
131

Os membros desta equipe de direção nacional da JEC eram indicados pelos próprios 
Assistentes Nacionais e pelos jovens, o que possibilitou muitas vezes uma continuação das 
idéias e de trabalhos dos anos anteriores, e outras vezes não. 
No plano regional a JEC era dirigida por uma Equipe de Direção e um Conselho que 
funcionavam nas mesmas bases da Equipe e Conselho Nacional. Da mesma forma repete-se 
                                                 
131
 Idem, p. 34. 


a organização nos planos (arqui) diocesano e paroquial. A organização nos colégios já foi 
detalhada acima. 
Outro  fator  importante  de  desenvolvimento  dos  movimentos  da  ACB  estava 
discriminado no seu estatuto: o financiamento do movimento. Pela primeira vez na história 
da  ICB  um  movimento  de  leigos  tinha  um  plano  de  financiamento  e  custeio  de  suas 
atividades,  revelando  uma  impressionante  organização  e  a  intenção  da  hierarquia  em 
mantê-lo por tempo indeterminado. 
No plano nacional e regional, a JEC deveria se manter  
pelas  contribuições  dos  Centros  Diocesanos....  por  outras 
contribuições  mencionadas  no  art.  28º  do  Estatuto  da  Ação 
Católica  (este  artigo  menciona  que  o  Secretariado  Nacional  da 
Ação  Católica,  com  consentimento  da  CNBB,  se  mantém  com 



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