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Matérias do Curso Comercial 
Curso Comercial: guarda-livros ou estenografia 
1º ano 
2º ano 
3º ano 
Português 
Português 
Português 
Francês, Inglês ou Alemão 
Francês, Inglês ou Alemão 
Francês, Inglês ou Alemão 
Aritmética 
Aritmética 
Rudimentos do Direito Comercial 
Datilografia 
Geografia 
Geografia 
Escrituração Mercantil e 
Caligrafia ou Estenografia 
Escrituração Mercantil e 
Caligrafia 
Escrituração Mercantil e 
Caligrafia 
 
Estenografia ou Datilografia 
Estenografia ou Datilografia 
Fonte: Adaptação de um quadro da ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1913, [s.p.]. 
 
A  organização  das  disciplinas  reporta  para  uma  formação  em  dois  eixos:  uma 
formação geral do indivíduo, representada pelo ensino das línguas portuguesa e estrangeira, e 
da  geografia;  e  uma  formação  específica,  com  disciplinas  de  caligrafia,  datilografia, 
escrituração  mercantil,  estenografia  e  direito  comercial.  Tanto  a  formação  geral  quanto  a 
formação específica eram compostas por conteúdos que tinham, para o projeto acmista, uma 
aplicação  prática  no  comércio,  seja  no  atendimento  ao  cliente,  seja  na  organização  e  na 
administração  do  estabelecimento  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1911a;  SOUZA, 
1917). 
O  Curso  Comercial  possibilitava  também  a  formação  em  outras  áreas  além  da 
função  de  guarda-livros  e  estenografia,  como  os  cursos  de  correspondente  e  de  gerente, 
ofertados  pela  Associação  Cristã  de  Moços  do  Rio  de  Janeiro,  ainda  no  final  do  século 
XIX
122
.  
                                                 
121
  O  Relatório  da  ACM  carioca  apresentado  na  VII  Convenção  Nacional  das  ACMs,  em  1929,  mostra  a 
presença do Curso Comercial, Preparatório e das Aulas avulsas acontecendo no período diurno, fato que indica a 
existência de um público variado, diferente daquele dos momentos anteriores, nos quais, por trabalharem durante 
o dia, os sócios necessitavam de estudar no período noturno. 
122
  Não  encontrei  indícios  do  programa  curricular  desses  cursos  nas  fontes  pesquisadas,  possivelmente  pela 
ausência da oferta deles em anos posteriores. Clark (1903) indica que a Comissão de Instrução era responsável 
por  estudar  as  necessidades  dos  associados  e  estabelecer  as  classes  daqueles  assuntos  que  seriam  da  utilidade 
deles.  Portanto,  acredito  que  a  criação  ou  a  extinção  de  um  curso  pela  Associação  Cristã  de  Moços  eram 


142 
 
   
Em  muitas  Associações  ha  cursos  elaborados  para  tres  ou  quatro  annos  e 
quando o socio completa o curso recebe um diploma que o habilita a exercer 
varios  empregos  como  guarda-livros,  tachigrapho,  correspondente,  ou 
mesmo  gerente,  e  algumas  associações  garantem  collocação  para  os  socios 
que  completam  o  curso.  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1898,  p. 
39). 
 
No relatório da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro, no ano de 1912, 
dentre  os  diversos  serviços  prestados  pela  instituição,  pode-se  observar  o  acolhimento  e  o 
encaminhamento  dos  indivíduos  recém-chegados  à  cidade,  a  favor  dos  quais  a  ACM 
intercedia  em  prol  de  uma  “colocação  em  alguma  casa  comercial”,  como  empregado.  Se  o 
resultado dessa ação não fosse imediato, a Associação afirmava que “vintenas” conseguiram 
empregos por seu intermédio.  
As  ACMs  propagavam  a  ideia  de  que  havia  posições  boas  que  aguardavam  os 
moços  preparados,  e  que  aquele  moço  que:  “[...]  deixa  de  se  preparar  não  tem  segurança 
mesmo numa posição superior” (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1918b, p. 10). Se o 
caminho da ascensão no trabalho era apontado pela instituição, a vontade de ter uma formação 
mais aprofundada deveria partir do associado, o qual, ao procurar a ACM, receberia dela “[...] 
os meios de ajudar o moço a achar um lugar que corresponde à sua competência, e facilitar 
aos  patrões  a  descoberta  de  empregados  competentes”  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE 
MOÇOS, 1918b, p. 06). Competência que, no discurso acmista, era atestada pela instituição 
quando  o  associado  completava  um  de  seus  cursos,  especialmente  aqueles  do  Curso 
Comercial,  propagado como  o  indicado  para  preparar “o  moço  para  as  posições  mais  altas” 
(ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1918b, p. 10).  
O  investimento  institucional  em  prol  de  empregar  os  associados  pode  ser 
observado no relatório da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro, apresentado na VII 
Convenção  Nacional  das  ACMs,  em  1929,  no  qual  havia  uma  iniciativa  de  se  criar  uma 
Secção  de  Empregos,  que,  mesmo  ainda  em  fase  de  organização,  empregou,  em  1925,  “40 
moços”. Ao empregar pessoas, a ACM possibilitava que esse público, ao começar a receber 
seus ordenados, ingressasse nas ações dela, contribuindo para a consolidação do seu projeto 
de  formação.  Quanto  mais  pessoas  estivessem  empregadas  e  quanto  mais  elas  estivessem 
preparadas  para  ascender  de  função  no  emprego,  seria  melhor  para  a  instituição,  pois  isso 
poderia  influenciar  diretamente  no  aumento  da  receita  da  instituição,  seja  no  acréscimo  de 
associados, seja no maior volume de donativos.  
                                                                                                                                                      
definidos pela demanda. 


143 
 
   
Ao  pensar  no  Curso  Comercial  como  um  instrumento  que  possibilitaria  ao 
associado  melhorar  sua  posição  no  emprego,  uma  estratégia  utilizada  pela  instituição  para 
aglutinar o maior número de sócios matriculados foi a flexibilização do programa do curso. 
Assim, para o aluno que não pudesse frequentar as aulas todos os dias da semana, era possível 
a  matrícula  em  matérias  isoladas.  Porém,  como  forma  de  incentivá-lo  a  cursar  todo  o 
programa,  se  o  aluno  optasse  pelas  disciplinas  isoladas,  era  cobrado  dele  o  valor  de  cada 
disciplina  separadamente,  o  que  resultaria  em  um  montante  bem  acima  do  valor  da 
mensalidade para cursar todas as matérias do programa.  
Os  alunos ainda  poderiam cursar  as matérias  durante  o ano e  submeterem-se  ao 
exame somente quando se considerassem aptos, podendo, inclusive, não realizar o exame. E 
tudo indica que a aprovação nesses exames era criteriosa, sendo que, em 1912, de 20 alunos 
que  prestaram  o  exame  na  sede  carioca,  apenas  09  foram  aprovados  para  ingressarem  no 
segundo ano do Curso Comercial (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1912a). 
Essa  possibilidade  de  cursar  as  matérias  isoladas  indica  a  valorização  de  um 
conhecimento utilitário que o aluno poderia adquirir através delas, seja isoladamente, seja em 
todo  o  programa.  Assim,  o  aluno  poderia,  nessa  perspectiva,  cursar  as  disciplinas  sem  o 
objetivo  de  ter  um  certificado,  podendo  escolher  aquelas  que  mais  lhes  seriam  úteis  no 
emprego.  Isso  era  veiculado  nos  canais  de  informação  da  ACM  como  forma  de  inserir  o 
trabalhador  nas  ações  da  Comissão  Intelectual,  o  qual,  mesmo  não  tendo  a  pretensão  ou 
oportunidade de cursar todo o Curso Comercial, poderia participar de algumas disciplinas que 
o qualificariam para se ascender no emprego (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1898; 
ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1913).  
 
[...]  daí  a  eliminação  dos  privilégios  escolares,  dos  diplomas  e  dos  títulos, 
deixando que cada qual procure o estudo pelo que ele tem de alto e digno, e 
não  com  o  intuito  subalterno  da  conquista  de  um  pergaminho  que  lhe  dê 
descabidas  e  injustas  prerrogativas  na  competição  social.  (CORRÊA,  1912 
apud
 CURY, 2009, p. 726). 
 
A flexibilização do acesso aos conteúdos de interesse do aluno estava presente nos 
debates educacionais, naquele momento, sendo incorporada na Reforma Rivadávia Corrêa, de 
1911.  A  Associação  Cristã  de  Moços,  em  1898,  já  caracterizava  o  Curso  Comercial  como 
propagador de um conhecimento de utilidade prática. A procura de um diploma não deveria, 
para  a  instituição,  ser  o  guia  para  se  interessar  pelo  aprofundamento  nos  estudos  mas,  sim, 
para  a  compreensão  da  necessidade  de  se  preparar  em  diferentes  matérias,  especialmente 


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naquelas que: “[...] o moço precisa na sua vida comercial”. O diploma seria uma consequência 
do caminho percorrido (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1898, p. 39). 
 
 



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