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Estatística das Associações Cristãs de Moços no Brasil – Ano de 1909



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Estatística das Associações Cristãs de Moços no Brasil – Ano de 1909 
 
Número de Sócios 
Matrícula em 
Aulas Noturnas 
Matrícula em 
Aulas Bíblicas 
Ativos 
Auxiliares 
Total 
Rio de Janeiro 
200 
510 
710 
178 
46 
São Paulo 
81 
161 
242 
151 
12 
Pernambuco 
46 
271 
317 
105 

Porto Alegre 
54 
135 
189 
82 
28 
Fonte: Adaptação de uma tabela da Associação Cristã de Moços (1910b, [s.p.]). 
 
Os  números  de  matrículas  nas  aulas  noturnas  variavam  nas  diferentes  sedes, 
perfazendo  aproximadamente  53%  dos  associados  na  sede  paulistana  e  33%  na  sede 
pernambucana. Entretanto, as adesões às aulas bíblicas, nessas sedes, eram substancialmente 
menores  do  que  a  participação  dos  sócios  nas  aulas  noturnas:  12  matrículas 
(aproximadamente 8%) na ACM de São Paulo e nenhuma na de Recife. Parece que o número 
reduzido de sócios ativos na sedes – aproximadamente 40% no Rio de Janeiro; 50% em São 
Paulo;  17%  em  Recife  e  40%  em  Porto  Alegre  –  seja  o  indício  para  a  compreensão  do 
esvaziamento nas aulas bíblicas, as quais eram uma das ações essenciais da formação moral-
religiosa.  Isso  sugere  que  o  discurso  insistente  em  prol  da  formação  religiosa  era  uma 
estratégia  com  propósito  de  aumentar  a  adesão  dos  associados  ao  projeto  religioso  da 
instituição.  Instigante  ainda  é  observar  a  ausência  de  matrículas  nas  aulas  bíblicas,  na  sede 
pernambucana,  dois  anos  após  sua  criação,  o  que  pode  ser  lido  como  um  dos  fatores  que 
contribuíram para o seu fechamento.  
A despeito da secundarização dada pela ACM à formação intelectual, os elevados 
números de matrículas nas aulas noturnas sugerem que a centralidade da educação, presente 
nos debates sociais no final do século XIX e início do século XX, fazia-se notar, também, nas 
Associações  Cristãs  de  Moços.  Para  Souza  (1992,  p.  65):  “[...]  o  movimento  em  defesa  da 
educação  popular  no  início  do  século  fez  com  que  a  escola  passasse  a  fazer  parte, 


134 
 
   
concretamente, do existir das pessoas; mais um elemento a ser considerado no modo de viver 
nesta  sociedade”.  Assim,  diferentemente  da  afirmação  recorrente  na  história  tradicional  que 
desconsiderava  o  empenho  das  camadas  populares  pelo  ingresso  na  educação  formal, 
percebia-se a existência de um grande interesse do povo pela escola, inclusive com as classes 
populares lutando por educação de diferentes formas (SOUZA, 1992)
112

A  quantidade  de  associados  matriculados  nas  aulas  noturnas  da  ACM  é 
proporcional ao investimento financeiro da instituição na Comissão Intelectual, sugerindo que 
se  tratava  de  uma  ação  importante  na  efetivação  do  projeto  acmista.  Em  1911,  a  receita 
advinda  dessa  comissão,  na  ACM  carioca,  foi  de  “5:317$000”  em  matrículas  e  aluguel  de 
livros, contudo a despesa foi de “6:447$640”, somando-se o pagamento do corpo docente – 
que somou um gasto de “5:511$00” –, a compra de livros, a assinatura de jornais e revistas, 
dentre  outras  despesas  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1912a,  [s.p.]).  Em  1912, 
apesar  do  montante  de  receita  de  “10:980$600”,  ou  seja,  com  um  aumento  considerável  de 
arrecadação, a despesa, na mesma sede, foi de “11:264$180”, mantendo-se ainda em déficit 
(ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1912a, [s.p.]).  
Esse balanço negativo estendeu-se pelos anos de 1914 (receita = “14:811$400” e 
despesa  =  “19:520$940”)  e  1915  (receita  =  “14:583$700”  e  despesa  =  “19:418$220”) 
(ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1916a),  tornando-se  positivo  somente  em  1918 
(receita  =  “8.062$500”  e  despesa  =  “6.141$720”)  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS, 
1918a). Esses dados apontam que as atividades que compunham a formação intelectual não 
tinham  o  propósito  de  gerar  receita  para  sustentar  as  ações  da  formação  religiosa  – 
considerada  central  no  projeto  acmista  –,  mas  se  constituía  numa  aposta  da  instituição  na 
instrução como elemento aglutinador de sócios
113

Nesse  movimento  de  moldar  o  associado  por  meio  da  formação  intelectual,  a 
Associação  Cristã  de  Moços  colocava-se  como  uma  instituição  que  ocupava  uma  “posição 
muito  humilde  entre  as  instituições  de  educação  na  capital”  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE 
                                                 
112
  Souza  (1992),  ao  tratar  dos  estudos  da  historiografia  tradicional,  aponta  os  trabalhos  de  Beisiegel  (1974), 
Romanelli (1987) e Costa (1983). A autora ainda indica algumas formas utilizadas pelo povo paulistano na busca 
pelo espaço na escola, tais como: procura por vagas nas escolas públicas; apropriação de todas as oportunidades 
de  escolarização  voltadas  para  a  educação  escolar;  pagamento  de  escolas  particulares;  solicitações  de  vagas, 
encaminhadas diretamente aos poderes públicos, ou mediadas pessoalmente pelo político local ou pelo diretório 
do Partido Político. 
113
 Em outras sedes da ACM, parece que a situação era semelhante. Na ACM de Porto Alegre, em 1915, apesar 
de não haver os valores referentes à receita e à despesa, específicos da Comissão Intelectual, a receita das aulas 
noturnas  foi  de  “1:635$000”  e  um  montante  de  despesa,  com  todas  as  ações  institucionais,  na  ordem  de 
“14:741$400”,  o  que  indica  que  a  receita  das  aulas  noturnas  não  se  constituíam  em  um  valor  suficiente  para, 
além dos gastos com as aulas, contribuir de fato com outras ações na instituição (MOCIDADE, nº 258, ago. de 
1915, p. 02). 


135 
 
   
MOÇOS,  1918a).  Mas,  foi  através  dessas  ações  formativas  que  alguns  associados  tiveram 
acesso  às  primeiras  letras,  e  outros,  ao  Curso  Comercial  ou  à  preparação  para  inserção  no 
Colégio Pedro II, além dos muitos moços que participaram do estudo de matérias isoladas, as 
quais, mesmo não fazendo parte específica de um curso, tinham a função de contribuir com a 
melhoria da posição do associado no emprego, ascendendo-o de cargo
114
.  
O  discurso  acmista  enfatizava  o  “perigo”  que  rondava  a  vida  da  mocidade  nos 
momentos  de  ociosidade.  Entre  uma  jornada  de  trabalho  e  outra,  havia  um  conjunto  de 
atividades do cotidiano que poderiam, na concepção da instituição, desviar o jovem de uma 
vida cristã (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1918a). Assim, o caminho seria aderir-se 
à  “forma  protestante  de  viver”.  Era  um  investimento  na  racionalização  do  cotidiano. 
Reconhecia-se que o jovem tinha desejos e instintos, logo a função da ACM era a de mostrar 
a ele os caminhos para controlá-los, sendo as aulas noturnas uma das formas de substituição 
das atividades consideradas, pela instituição, “impróprias” pelas atividades “úteis”. 
Envolvida  pela  ideia  de  que  os  moços  deveriam  manter-se  ocupados  nos 
momentos de folga, a ACM planejava-se para: “[...] oferecer aos moços um lugar onde eles 
podem  passar  horas  da  noite,  anteriores  ao  sono,  em  distração  inofensiva,  convivência 
edificante  e  ocupação  proveitosa”  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1918a,  p.  02). 
Como,  para  o  projeto  acmista,  o  associado  dificilmente  ascenderia  no  trabalho  se  não 
estivesse preparado para resistir às “tentações” do cotidiano, as ações da Comissão Intelectual 
eram  algumas  das  formas  utilizadas  para  ajudá-lo  no  controle  do  corpo,  dos  instintos  e  da 
racionalização do tempo.  
Não  havia  uma  garantia,  por  parte  da  instituição,  de  que,  aproveitando  as  horas 
vagas para se dedicar aos estudos, o indivíduo começasse a “dar ordens”, ao invés de “receber 
ordens”.  Mas,  fazia  parte  do  discurso  acmista  que  uma  boa  formação  intelectual  era  um 
poderoso instrumento de ascensão social. Souza (1992), embora considere que esse não era o 
único caminho, afirma que a educação possibilitava, no início do século XX, condições reais, 
ainda  que  limitadas,  de  ascensão  social.  Assim,  para  as  camadas  populares,  a  educação 
poderia  estar  articulada  com  o  projeto  de  melhoria  das  condições  de  vida,  oferecendo 
condições para o exercício de atividades de maior prestígio, de caráter não manual, como: o 
serviço público, o trabalho em escritórios, as carreiras políticas e liberais.  
Nesse processo de formação do associado, a ACM colocava-se como mediadora 
entre o indivíduo “sem rumo” e o caminho para a regeneração dele. Um material produzido 
                                                 
114
 O relatório da VII Convenção das ACMs do Brasil, publicado em 1929, ressalta que alguns alunos da ACM 
carioca foram aprovados no Colégio Pedro II. 


136 
 
   
pela ACM, que circulou pelas diferentes sedes, informava que a aquisição de bons empregos 
dependia do preparo do candidato, sendo que o sucesso ou o fracasso dependeriam do uso que 
cada  um  fizesse  de  suas  oportunidades  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1911a). 
Portanto, caberia ao aluno, a partir da sua escolha, procurar a ajuda da Associação, sendo ela 
uma portadora das oportunidades. 
 
Por  si  só  é  difficil  o  moço  empregar  proveitosamente  o  seu  tempo;  elle 
necessita do estimulo dos outros. [...] A Associação Christã de Moços  visa 
contribuir para a formação do caracter do jovem, ajudando-o no seu preparo 
para  ser  bom  cidadão,  fiel  empregado,  e  exemplo  de  chefe  de  família. 
(ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1910a, p. 02). 
 
A formação intelectual caminhava articulada com a formação moral-religiosa nas 
ACMs. Para Francisco de Souza (1917), membro da Igreja Evangélica Fluminense e ministro 
do evangelho, a instrução não era sinônimo de regeneração, apesar de ser necessária. Em uma 
de  suas  conferências  na  ACM  carioca,  ele  afirmava  que  o  primeiro  investimento,  no 
empregado, deveria ser na formação do caráter, que se daria pela formação moral-religiosa. 
Com o caráter formado segundo os princípios da “forma protestante de viver”, os empregados 
seriam fiéis aos patrões, bons cidadãos e exemplares chefes de família.  
É nessa linha de pensamento que a ACM atuava, incentivando a formação moral-
religiosa,  necessária  a  qualquer  funcionário  idealizado  pelo  projeto  acmista,  assim  como 
ofertando  uma  formação  intelectual  que  o  habilitasse  à  ascensão  social.  Nesse  caso,  seja 
alfabetizando-se ou aprofundando-se nos estudos, o associado fortaleceria seu vínculo com a 
instituição.  Um  pré-requisito  para  os  investimentos  no  alinhamento  à  “forma  protestante  de 
viver”. 
 
 



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