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4.2
 
A guerra como lugar de conversão: o Triângulo Vermelho 
 
 
A revista Mocidade transcreveu trechos de cartas escritas nos campos de batalha, 
na  Primeira  Guerra  Mundial,  publicadas  inicialmente  na  revista  Monthly  News  Circular 
(MOCIDADE,  nº  252,  fev.  de  1915,  p.  04-05).  Esses  trechos,  escritos  por  indivíduos  de 
                                                 
102
 O candidato a sócio deveria ser indicado por um sócio conhecido, o qual enviaria à ACM uma proposta e se 
tornaria um corresponsável pelas ações daquele na instituição. 


116 
 
   
diferentes  partes  do  mundo  e  transcritos  pelas  ACMs,  tinham,  em  comum,  o  propósito  de 
informar  que,  mesmo  durante  uma  situação  de  eminente  perigo  de  morte,  há  tempo  para 
“mudar  de  rumo”.  A  religião,  nesses  casos,  é  apresentada  como  uma  companheira 
fundamental. 
 
A  gente  acostuma-se  a  esta  vida.  Quando  as  balas  zunem,  quando  as 
granadas  passam  por  cima  de  nossas  cabeças,  o  meu  coração  mantem-se 
firme. Deus sustenta-me e protege-me. (MOCIDADE, nº 252, fev. de 1915, 
p. 05). 
 
A guerra, assim como outros espaços ocupados pela Associação Cristã de Moços, 
também  se  constituiu  em  um  local  de  conversão.  Ajudar  os  evangélicos  que  lutavam  pela 
sobrevivência e contribuir para a transformação dos indivíduos “incrédulos” fizeram parte das 
ações da ACM na Primeira Guerra Mundial. 
 
Uma cousa me tem impressionado, e que eu não hesito em divulgar: é que 
tenho  visto  esses  mesmos  homens  que  se  annunciam  atheus  reconhecerem 
nas  linhas  de  fogo  que  Deus  existe!  Posso  affirmar  que  todos  com  quem 
tenho  conversado  depois  de  uma  refrega,  e  são  muitos,  unanimemente 
confessam que no campo de batalha ergueram bem alto a sua ‘ultima prece’. 
(MOCIDADE, nº 252, fev. de 1915, p. 05). 
 
Ser  cristão  numa  guerra,  nas  palavras  de  um  combatente:  “[...]  é  fortuna,  é 
confortável  estar  sempre  apto  para  tirar  da  oração  a  força  moral  necessária  para  resistir  e 
esperar” (MOCIDADE, nº 252, fev. de 1915, p. 05). A religião foi, para muitos, na guerra, 
uma  companheira  na  tarefa  de  combater.  Percebe-se  que  os  posicionamentos  presentes  nas 
cartas são confirmatórios de que todos os envolvidos na guerra desejavam ouvir a palavra de 
Deus, mesmo os indivíduos considerados descrentes.  
Cabe  atentar  para  o  fato  de  que  esses  são  trechos  retirados  de  um  periódico 
estrangeiro e traduzidos “um ou outro por edificantes” (MOCIDADE, nº 252, fev. de 1915, p. 
04), portanto, escolhidos propositalmente para veicularem, na comunidade acmista brasileira, 
a importância da religião nas frentes de combate. Tratava-se de um período de guerra, no qual 
se  buscavam  voluntários  para  ingressar  no  projeto  humanitário  da  ACM,  nos  campos  de 
batalha.  
A  Associação  Cristã  de  Moços,  como  uma  instituição  parceira  das  igrejas 
evangélicas, inseriu-se na Primeira Guerra Mundial, por meio do “Triângulo Vermelho”. Essa 
ação  acmista  foi  instituída  pela  ACM,  em  períodos  de  guerra,  para  auxiliar  os  diversos 


117 
 
   
sujeitos  presentes  nos  campos  de  batalha.  A  Associação  refere-se  ao  Triângulo  Vermelho 
como  sendo  a  ACM  na  sua  feição  militar  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1918a). 
Ela, ao citar um depoimento de um repórter europeu, afirma que: “O Triângulo Vermelho é 
para  os  soldados  com  saúde,  o  mesmo  que  a  Cruz  Vermelha  é  para  os  soldados  doentes” 
(ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1918a,  p.  10).  O  Triângulo  Vermelho  e  a  Cruz 
Vermelha,  na  visão  da  instituição,  eram  dois  exemplos  brilhantes  da  aplicação  prática  do 
ideário cristão, que se faziam sentir nas situações mais difíceis. 
 
O emblema distinctivo das Associações Christãs de Moços é um circulo, que 
representa  o  mundo,  porque  a  instituição  é  internacional  em  suas 
ramificações, dentro do qual se acha traçado um triangulo, que symboliza as 
três  partes  da  natureza  do  homem,  alma,  corpo  e  mente,  cujo 
desenvolvimento simetrico essas Associações se propõem promover. Dahi é 
que vem o nome de Triangulo Vermelho, pois em todos os barracões se acha 
pintado a tinta vermelha esse emblema. (CLARK, 1916, p. 16). 
 
O  emblema  institucional  representa,  para  a  ACM,  os  investimentos  em  duas 
frentes, consideradas fundamentais para a Associação, nos primeiros anos do século XX: a da 
expansão,  materializada  na  implantação  de  sedes  em  diversas  cidades  de  diferentes  países, 
visando a disseminação de uma cultura acmista, no caso norte-americano, contribuindo com o 
cumprimento  do  Destino  Manifesto;  e  a  da  formação  ampla,  substanciada  nas  ações 
projetadas para proporcionarem uma formação intelectual, física e moral do indivíduo. Assim, 
esse emblema simbolizou as aspirações e as ideias da instituição, sendo difundido nos espaços 
do campo de batalha, na guerra, e nas diferentes sedes, no Brasil. Materializava-se numa das 
formas de propagar o projeto acmista. 
 
A  Associação  Christã  de  Moços,  a  que  se  acha  filiada  a  nossa  Federação 
Mundial Christã de Estudantes, com o seu maravilhoso dom de organisação, 
tratou logo após a declaração de guerra de alistar esses academicos altruistas 
em  uma  grande  campanha  de  bem-fazer  nos  acampamentos  de  soldados  e 
prisioneiros.  Rapazes  já  experimentados  como  socios  nas  suas  respectivas 
universidades, e com alguma pratica em instituições de serviço social, foram 
contratados  para  servir  como  diretores  nesse  emprehendimento.  (CLARK, 
1916, p. 15-16). 
 
A  Associação  Cristã  de  Moços,  na  guerra,  atuava  auxiliando  as  pessoas  nos 
momentos difíceis, entre os combates. Como forma de otimizar o contato com os indivíduos, 
foram  construídos  postos  específicos  de  ação  do  Triângulo  Vermelho,  denominados  de 
YMCA  hut”  ou  “Barracão  da  ACM”,  em  diferentes  acampamentos.  A  posição  privilegiada 


118 
 
   
assim  como  um  corpo  de  diretores  com  experiência  no  projeto  acmista  foram  estratégias 
utilizadas  pela  Associação  Cristã  de  Moços  para,  a  partir  de  suas  ações,  contribuírem  na 
transformação  dos  indivíduos  que,  para  ela,  se  encontravam  desalinhados  do  “verdadeiro 
cristianismo” (CLARK, 1916, p. 16).  
Para o projeto acmista, o auxílio da instituição no campo de batalha representava a 
manutenção  da  fé  para  aqueles  que  já  estavam  no  caminho  correto  –  os  protestantes  –  e  a 
conversão para os demais indivíduos que ainda não haviam encontrado o rumo de sua vida. 
Nesse intuito, para contribuir com o Triângulo Vermelho nos campos de batalhas, estiveram 
presentes os acmistas que atuavam no Brasil, Myron Augusto Clark, H. J. Sims
103
 e Antônio 
Lemos
104
, os quais serviram às tropas portuguesas. 
Para  aquele  indivíduo  que  estava  na  guerra,  a  instituição  ainda  contribuía  para: 
“[...] distraí-lo, acariciá-lo, proporcionar-lhe um pouco de bem estar e um tanto de sentimento 
que  sirva  como  que  um  antídoto  à  educação  rude  e  à  vida  deprimente  das  trincheiras” 
(ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1918a,  p.  10).  As  ações  proporcionadas  pela 
Associação Cristã de Moços eram as mais diversas: 
 
Nesses  barracões  os  directores  instalam  mesas  proprias  para  a 
correspondencia, fornecendo aos rapazes papel e envelopes,  animando-os a 
escreverem  ás  suas  familias,  e  servindo  de  repartições  de  correio  para  o 
acampamento.  Instalam  varios  jogos  e  passa-tempos,  com  que  ajudam  as 
praças  a  distrahirem-se  nas  longas  horas  após  os  exercicios.  Distribuem-se 
revistas  e  livros  que  são  avidamente  acolhidos  pelos  soldados.  Organizam 
classes em varias linguas e assuntos praticos que serão de utilidade para os 
soldados  depois  da  guerra  quando  regressarem  á  vida  civil.  Promovem 
concertos e gramofone, sessões de cinematógrafo e conferencias ou palestras 
por  homens  competentes  que  se  oferecem  para  este  serviço.  E  com  os 
conhecimentos  adquiridos  nas  classes  gimnasticas  nas  universidades, 
dirigem o recreio dos soldados, organizando torneios de foot-ball e de outros 
sports.  Emfim,  o  seu  trabalho  abrange  um  vasto  programa  de  serviços 
praticos  para  aliviar  a  monotonia  da  vida  e  para  melhorar  a  sorte  dura  do 
soldado. (CLARK, 1916, p. 16).  
 
Ao atuar junto aos combatentes, a Associação Cristã de Moços primava pelo bem-
estar do indivíduo, consubstanciada no espírito de humanidade, de “dedicação aos princípios e 
por  amor  ao  seu  semelhante”,  sem  furtar-se  à  expectativa  de  conversão.  Nesse  caso,  não 
havia, para a instituição, uma obrigatoriedade de o indivíduo ser um cristão e uma imposição 
para que “mudasse o rumo” de sua vida. Acreditava-se que a vontade deveria partir de dentro 
                                                 
103
 No momento da guerra era Diretor de Educação Física da ACM do Rio de Janeiro. 
104
 Sócio e ex-Diretor de Educação Física da ACM. 


119 
 
   
dele,  portanto  a  função  da  Associação  era  fazer  brotar  nele,  por  meio  da  persuasão,  do 
exemplo de vida, o desejo de se “regenerar” e de seguir os caminhos propostos por ela.  
 
[...]  Sr  Sherwood  Eddy,  que  viaja  entre  os  acampamentos  realizando 
conferencias, escreve a respeito das suas experiencias deante de um auditorio 
de algumas centenas de praças no campo de concentração: ‘depois de varias 
canções populares e alegres, com o auxilio do gramofone, consegui prender-
lhes  a  atenção,  perguntando  logo  qual  era  o  embate  mais  renhido  em  que 
tinham tomado parte, ao qual alguns gritaram: Liege, Mons, o Marne, Yprés 
e  o  Somme.  Depois  perguntei  se  não  tinham  sentido  também  o  rigor  do 
combate com as proprias paixões; disse-lhes que agora, nesta crise mundial, 
era mister combater os vicios que enfraquecem a vitalidade moral da nação; 
que tal a bebida alcoolica, é vosso amigo ou inimigo? Que tal o jogo, ajuda-
vos a guerrêa-vos? Que tal a impureza, vos faz homens mais varonis ou vou 
depaupera as forças? Expandi-me em considerações sobre estas cousas, com 
a  maxima  atenção  da  tropa.  Terminada  a  reunião  procuraram-me  para 
conversar  sobre  as  suas  lutas  intimas:  um  pobre  viuvo,  que  acabara  de  ter 
noticia da perda de uma sua filha; um rapaz atheu, que procura convencer-
me  que  esta  guerra  é  a  prova  final  da  não-existencia  de  Deus;  um  actor, 
desanimado de todo por reconhecer-se victima do álcool, de que quer livrar-
se; um jovem protestante, que me agradece as minhas palavras de exhortação 
e de bom animo; um jockey, que quer endireitar a sua vida passada, cheia de 
iniqüidade;  um  rapaz  catholico  romano,  sem  amigos,  sem  recursos  e  que 
precisa de quem o conforte no seu desanimo; um judeu, que quer argumentar 
sobre  a  religião.  Ah!  quantos  não  estão  satisfeitos  consigo  mesmos,  e 
aproveitam com empenho a oportunidade de conversar com quem parece ser 
um conselheiro amigo! (CLARK, 1916, p. 19-20). 
 
Uma  das  formas  encontradas  pela  ACM,  na  Primeira  Guerra  Mundial,  para 
colocar em evidência o ideal acmista, almejando fazer surgir nos indivíduos o desejo de serem 
membros  de  uma  ACM,  de  seguirem  o  cristianismo,  foi  através  de  conferências,  nas  quais 
eram  reveladas  situações  que  tratavam  de  levar  o  indivíduo  a  refletir  sobre  sua  posição  no 
mundo.  É  assim  que  se  percebe  a  publicação  do  artigo  Os  estudantes  na  presente  guerra
escrita  por Myron  Augusto Clark e  apresentada numa  conferência  em Coimbra,  nos fins  de 
1916.  
A  guerra  era  caracterizada,  por  Myron  Clark,  como  sendo  um  lugar  horrendo, 
traiçoeiro  e  perverso,  no  qual  o  risco  iminente  de  morte  era  superior  ao  da  vida  cotidiana. 
Como  forma  de  definir  os  indivíduos  que  ocupavam  os  campos  de  batalha,  o  missionário 
utilizou-se  do  depoimento  de  um  estudante,  membro  da  Associação  Cristã  de  Moços  da 
Áustria,  que  se  fez  presente  na  guerra,  por  meio  do  serviço  humanitário.  No  relato  do 
estudante, os combatentes eram classificados da seguinte forma: 
 


120 
 
   
[...]  1.º,  os  que  se  tornam  mais  materializados  do  que  nunca,  pelo  horror 
desta  infame  preocupação  de  matar,  dos  quaes  todo  o  vestigio  do  bem 
desaparece  e  tudo  quanto  é  baixo  e  brutal  se  estimula;  2.º,  os  que  ficam 
encharcados  no  lodaçal  do  vicio  e  da  degeneração  moral,  pelas  facilidades 
que  encontram  nos  paizes  invadidos  para  a  satisfação  dos  seus  apetites 
carnaes;  3.º  os  que,  devido  á  manifestação  ostensiva  de  toda  a  forma  de 
maldade humana, descrêem na bondade do homem e na existencia de Deus, 
tornando-os meros fatalistas; e 4.º, os que, pela fé diamantina que possuem, 
não  se  deixam  levar  por  estas  influencias,  mas  cuja  fibra  moral  é  antes 
fortalecidas por estas provações. (CLARK, 1916, p. 14). 
 
Parece  que  a  guerra,  para  Myron  Clark,  não  apresentava  apenas  resultados 
negativos.  Apesar  de  toda  guerra  ser  considerada  “diabólica”  (CLARK,  1916,  p.  15),  era 
também  no  campo  de  batalha  que  se  percebia  as  alterações  na  vida  do  indivíduo,  de  forma 
que:  “[...]  transformadora  do  caráter  a  guerra  tem  se  revelado  ser”  (CLARK,  1916,  p.  06). 
Pelo  que  se  pode  perceber,  as  “transformações  de  caráter”  dos  combatentes  nem  sempre 
estavam alinhadas às expectativas da ACM, isto é, por meio de uma conduta de vida guiada 
pelo  cristianismo.  Portanto,  é  nesse  espaço  transformador  que  a  ACM  deveria  se  inserir, 
estendendo  aos  combatentes  parte  de  seu  projeto  formador.  Nas  palavras  de  um  estudante 
acmista francês no campo de batalha: 
 
Creio poder distinguir tres qualidades de homens entre os que aqui estão nas 
linhas  de  batalha.  Ha  em  primeiro  logar  os  que  antes  da  guerra  já  tinham 
reflectido  ao  ponto  de  formar  um  ideal  mais  ou  menos  estavel  e  perfeito; 
estes, após ter surgido a guerra, continuaram a reflectir, e os acontecimentos 
aperfeiçoaram  esse  ideal...  Ha,  em  seguida,  os  que  antes  da  guerra  eram 
indiferentes  a  tudo,  que  não  tinham  encarado  francamente  os  grandes 
problemas  da  vida,  e  que,  debaixo  do  fogo,  sob  as  balas  e  as  granadas, 
sentem o terrivel vacuo dos seus corações, e procuram alguma cousa que os 
satisfaça....  E  ha,  finalmente  os  que  continuam  aqui  a  sua  pequena  vida 
banal, vasia e cheia de tedio, cujos habitos variam entre o dormir, o comer, 
as leituras tolas e as ocupações militares. São os indolentes que não querem 
comprehender  a  lição  da  guerra,  e  que  não  se  esforçam  por  meditar  sobre 
ella. Estes constituem a grande maioria, e depois da guerra continuarão a ser 
os mesmos voluveis de sempre. (CLARK, 1916, p. 13).  
 
Para aqueles os quais a guerra não foi suficiente para levá-los a uma “mudança de 
rumo”, a Associação Cristã de Moços passaria a atuar na transformação deles, contribuindo 
para que saíssem da indolência, da vida desregrada, e encontrassem o caminho da salvação. 
Mas, a Associação ainda se dedicava aos que já seguiam uma vida cristã e que, com a ajuda 
da  instituição,  manteriam  acesa  a  crença  na  fé  reformada.  Assim,  para  a  ACM,  a  guerra, 
caracterizada  como  um  local  propício  à  perdição  do  indivíduo,  especialmente  no 


121 
 
   
desvirtuamento moral, constituiu-se num local estratégico de atuação da extensão humanitária 
de suas ações, consequentemente, um importante campo de conversão.  
 
 



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