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entre os moços
. (CLARK, 1903, p. 20). 
 
Em  alguns  momentos,  percebe-se  a  materialização  das  ideias  de  Clark,  como 
quando,  em  junho  de  1920,  o  periódico  da  ACM  divulgou  a  fundação  de  uma  Associação 
Cristã Feminina no Rio de Janeiro (MOCIDADE, nº 317, jul. de 1920, p. 01), caracterizando 
um  investimento  na  formação  de  moças,  que  se  instituiu  separadamente  da  organização  da 
ACM.  Porém,  ao  se  constatar  a  criação  da  comissão  de  menores  na  sede  paulistana  e  a 
presença  de  pessoas  adultas  e  de  algumas  com  idades  avançadas  em  diferentes  ACMs 
brasileiras,  pode-se  observar  que,  às  vezes,  o  projeto  pensado  pelo  missionário  norte-
americano não se desenhou como planejado.  
 
Apezar  desta  Associação  ser  expressamente  fundada  para  proveito  dos 
moços, ella tem também em seu seio muitos anciãos respeitáveis, e folga de 
receber  como  associados  pessoas  de  idade  já  avançada  para  se  poder 
aproveitar  de  seus  conselhos,  de  sua  longa  experiencia  e  de  sua  madura 
reflexão. (TRAJANO, 1898, p. 21).  
 


97 
 
   
Um  sócio  da  ACM,  o  professor  Antônio  Trajano,  ao  proferir  um  discurso  na 
inauguração da ACM do Rio de Janeiro, em 1898, mostra que a Associação, em específico a 
sede carioca, abrigava pessoas das mais diferentes idades. Deve-se considerar que o terreno 
que a ACM se inseria no Brasil, provavelmente, era muito diferente do existente nos Estados 
Unidos. Aqui, Myron Clark não contava com uma adesão em massa, um número elevado de 
sócios  que  permitiria  rapidamente  a  autonomia  do  projeto  acmista,  o  que  talvez  tenha 
contribuído para o alargamento do público a ser atendido, assim como ele pode ter percebido 
que  a  formação  proporcionada  pela  ACM  precisava  ser  estendida  a  um  público  mais 
heterogêneo.  Assim,  mais  uma  vez,  percebe-se  a  adaptação  do  projeto  norte-americano  às 
necessidades do Brasil. 
Voltando à  questão da  idoneidade moral, a  preocupação  com a formação  moral, 
expressa  na  obrigatoriedade  para  o  ingresso  do  sócio  na  instituição,  não  deve  estar 
desvinculada  da  questão  religiosa.  Na  concepção  da  instituição:  “[...]  exige-se  que  os 
candidatos sejam pessoas de boa moral, entendida esta palavra como entende o cristianismo, 
sob cujos princípios fundamentais a associação é guiada” (MOCIDADE, nº 257, jul. de 1915, 
p.  04-05).  Ao  pensar  no  cristianismo  como  lócus  da  boa  moral,  a  instituição  referia-se  a 
valores  como  fraternidade,  altruísmo,  verdade,  justiça,  igualdade,  entre  outros  que  eram 
veiculados frequentemente nas suas publicações
90

O  discurso  do  cristianismo  como  eixo  articulador  das  ações  passou,  então,  a 
constituir-se como um pano de fundo para a efetivação dos padrões protestantes que guiavam 
a formação dos jovens, uma vez que a palavra “cristianismo” podia não apresentar o mesmo 
significado para católicos e protestantes, sendo que, enquanto os primeiros se consideravam 
cristãos  seguidores  convictos  do  evangelho,  os  segundos  consideravam  os  primeiros,  no 
mínimo, como seguidores imperfeitos, incompletos. 
A  própria  estrutura  da  diretoria  era  representativa  do  alinhamento  com  a  fé 
reformada.  A  diretoria  das  ACMs  brasileiras  era  composta,  basicamente,  dos  seguintes 
cargos:  presidente,  vice-presidente,  secretário  arquivista,  secretário  geral  e  tesoureiro. 
Contudo, nem sempre os cargos, descritos acima, representavam o número total de membros 
da diretoria, pois, enquanto eles eram denominados cargos “oficiais”, existiam outros cargos 
paralelos  com  a  denominação  de  “vogais”  (ESTATUTO  DA  ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE 
MOÇOS  DO  RIO  DE  JANEIRO,  1898).  Os  vogais  apresentavam-se  como  consultivos, 
                                                 
90
 Cf. CLARK, 1903; revista Mocidade; SOUZA, 1917; TRAJANO, 1898. 


98 
 
   
cumprindo  suas  funções,  quando  acionados  pelos  oficiais,  na  tomada  das  decisões 
consideradas importantes para a instituição
91
.  
Uma  estratégia  que  a  instituição  apresentava  nos  estatutos,  referente  à  estrutura 
administrativa da instituição, era a que dizia respeito à definição de um número máximo de 
pessoas da mesma ordem religiosa que poderiam fazer parte da composição da diretoria. Na 
maioria dos Estatutos, como na ACM carioca, em 1893, não seria permitido que mais de três 
pessoas  pertencessem  “à  mesma  igreja”  (MODELO  DOS  ESTATUTOS  DE  UMA 
ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS DO RIO DE JANEIRO, 1893, p. 05). No Estatuto de 
1898 da sede carioca, foi substituída a expressão “igreja” por “denominação”, representando a 
preocupação da instituição com a criação de uma diretoria que não fizesse da Associação uma 
extensão da igreja evangélica, mas uma auxiliar aos seus serviços.  
A redação de um Estatuto possibilitando a presença de três integrantes da mesma 
igreja  possibilitou  que,  se  houvesse  mais  de  uma  igreja  de  determinada  ordem  religiosa  na 
cidade, como a presbiteriana, a diretoria fosse composta apenas por membros de uma mesma 
ordem  religiosa.  Ao  se  referir  à  “denominação”  religiosa,  restringia-se  a  entrada  de,  no 
máximo, três pessoas de uma mesma denominação, como a presbiteriana, evitando que essa 
ordem religiosa se tornasse maioria na diretoria da instituição.  
Para  ser  membro  da  diretoria,  o  sócio  deveria  ser  membro  ativo  da  instituição, 
demonstrando, novamente, o intuito da Associação em estabelecer, dentro dela, dois espaços: 
o daqueles que organizavam as ações, caracterizados como membros das igrejas evangélicas; 
e o daqueles que recebiam os projetos elaborados pelos primeiros, articulados com os ideais 
de  conversão  e  regeneração  do  jovem  brasileiro.  As  alterações  presentes  nos  Estatutos  das 
ACMs  brasileiras  representaram  mudanças  substanciais  no  que  tange  à  presença  acmista 
como  orientadora  do  projeto  da  instituição,  revelando  um  movimento  de  adaptabilidade  à 
realidade  brasileira.  Determinados  recuos,  quando  considerados  a  partir  do  projeto 
protestante, levaram às reformulações dos Estatutos das Associações, os quais deram origem a 
um  projeto  que  diferiu  daquele  originalmente  pensado
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.  Dessa  forma,  esses  Estatutos 
representam  o  resultado de  uma complexa  relação  de forças  que fez  parte  da construção  do 
projeto acmista no Brasil. 
                                                 
91
 Vale ressaltar que o número dos membros da diretoria alterou entre os diversos Estatutos das ACMs. Se, nos 
Estatutos da ACM do Rio de Janeiro (1893, 1898) e de Porto Alegre (1901 e 1904), era encontrada uma diretoria 
formada por 9 membros (sendo 4 vogais), no Estatuto da ACM do Rio de Janeiro, de 1907, havia a presença de 
15 membros (sendo 10 vogais), assim como, no Estatuto da ACM de São Paulo, a diretoria era formada por 12 
membros. 
92
 Quando me refiro às alterações que permitem perceber recuos, avanços, estou tomando, como base, o Modelo 
de  Estatutos  de  Associações  Cristãs  de  Moços  do  ano  de  1893,  que  Myron  Clark  construiu  a  partir  de  sua 
vivência nas ACMs norte-americanas. 

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