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3.2
 
Da expansão à consolidação  
 
 
As medidas tomadas na segunda Convenção Nacional priorizavam a consolidação 
das três Associações já organizadas (Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo) e previam a 
implantação  permanente  da  ACM  de  Recife.  Não  havia  um  investimento  consistente  na 
preparação específica de secretários para atuar na administração das sedes acmistas, no Brasil. 
Como  indício  dessa  defasagem,  a  ACM  de  Porto  Alegre  só  recebeu  um  Secretário  Geral 
internacional  em  1913,  sendo  considerada,  nesse  período,  como  uma  instituição  que  não 
cumpria  os  objetivos  mais  esperados  para  uma  sede  acmista  (MOCIDADE,  nº  343,  set.  de 
1922). 


78 
 
   
Consolidadas,  as  sedes  seriam  entregues  à  administração  dos  próprios  sócios 
brasileiros que possuíssem certa experiência na condução da instituição, conforme previsto na 
resolução  da  Comissão  Internacional  dos  Estados  Unidos  de  1889.  Na  segunda  Convenção 
Nacional, ficou definido que somente nesse momento, quando não se precisaria mais do apoio 
externo, o movimento de expansão seria retomado.  
 
Depois que eu tiver aprendido a lingua portugueza, espero reunir em volta de 
mim alguns moços, interessal-os pelo estudo da Biblia, começar uma reunião 
de  oração  [...],  e  depois  de  algum  tempo  e  por  meio  de  um  crescimento 
gradual,  organizar  uma  Associação  Christã  de  Moços.  Depois  disso  poder-
se-há alugar as accomodações necessarias e estabelecer culto evangelico. Por 
esse tempo algum moço estará habilitado para tomar a direcção do trabalho 
como secretário local, e eu ficarei livre para começar o mesmo processo em 
outra cidade. (CLARK, 1891, p. 03). 
 
Assim,  o  projeto  acmista  alinha-se  a  mais  um  traço  missionário,  o  do  caráter 
passageiro  dos  norte-americanos,  uma  vez  que,  após  contribuírem  com  o  enraizamento  de 
parte  de  sua  cultura  em  um  dado  país,  tendo  sua  missão  cumprida,  tornava-se  necessário 
investir em outros países, que, como o Brasil, fossem vistos como um lugar de extensão das 
ações da instituição. Já indiquei anteriormente que, para sustentar o projeto acmista no Brasil, 
eram  necessários  investimentos  financeiros,  principalmente  no  momento  da  implantação.  A 
falta  de  um  espaço  próprio,  gerando  gastos  com  aluguel,  somada  aos  investimentos  na 
construção  de  uma  sede  própria  constituíam-se  nos  principais  momentos  críticos  da 
instituição.  Portanto,  contribuições  internacionais,  donativos  de  brasileiros  que  possuíam 
vínculos com igrejas evangélicas e a ajuda das pessoas que estavam à frente de indústrias e 
comércios no país caracterizavam grande parte dos recursos arrecadados pelas Associações. A 
própria  fundação  da  ACM  do  Rio  de  Janeiro  indica  a  presença  de  pessoas  ligadas  às 
atividades de comércios e indústrias e à vertente evangélica: 
 
L.  C.  Irvine  (representante),  Domingos  A.  da  Silva  Oliveira  (Industrial), 
Antonio  Meirelles  (Commercio),  Myron  Clark  (actualmente  em  Coimbra, 
delegado da Commissão Internacional das A.C.M), Dr. Nicolau S. do Couto 
(Clinico em São Paulo), James L. Lawson (Capitalista na Escossia), José L. 
Fernandes Braga (Industrial), Rev. A. C. Tucker (Ministro Evangelico), Rev. 
Leonidas  da  Silva  (Idem),  Rev.  João  M.  G.  dos  Santos  (Idem),  José  L. 
Fernandes Braga Junior (Industrial), Manoel Fernandes Braga (Commercio), 
Luiz  Fernandes  Braga  (Industrial),  Joel  Antônio  Menezes  (Commercio), 
Emilio  Perestrello  da  Camara  (Commerciante),  Henrique  F.  da  Gama 
(Commercio). 
(MOCIDADE, nº 256, jun. de 1915, p. 06).
  
 


79 
 
   
Mais  do  que  participantes  da  fundação  da  ACM do  Rio de  Janeiro, tais pessoas 
eram mantenedoras da instituição, envolvendo-se ativamente no seu fortalecimento financeiro 
(ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1912a).  Outras  pessoas  e  empresas,  brasileiras  e 
estrangeiras, também contribuíram com a missão, dentre elas: Luiz Carpenter, John Warner, 
H.  J.  Sims,  Walter  Bros.  &  Co,  Rio  de  Janeiro  City  Improvements  Co,  British  Fleet 
Enterteinment Committee (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1912a). Se, mais de meio 
século depois de sua criação na Inglaterra, a instituição ampliou o seu campo de atuação, tanto 
de fontes de recursos, quanto de público atendido, boa parte ainda permanecia ligada ao ramo 
industrial e comercial.  
Na  ACM  do  Rio  de  Janeiro  de  1912,  os  1216  sócios  dividiam-se  em:  634 
empregados  no  comércio,  153  profissionais  letrados,  128  operários,  106  negociantes,  76 
empregados  públicos,  71  estudantes  e  48  mecânicos,  fato  que  comprova  a  vinculação  da 
instituição  com  pessoas  ligadas  ao  comércio  e  à  indústria,  sujeitos  esses  que  compunham  a 
maior parte do quadro de sócios da instituição (ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS, 1913). 
Parece que esse quadro não é casual. Tratava-se de possibilitar uma adaptação dos jovens aos 
interesses de um ethos protestante, no qual o trabalho apresenta centralidade. Adaptação essa 
que, para a Associação Cristã de Moços, era a de formar o caráter do jovem, alinhando-o aos 
princípios da escola de Cristo, constituindo-o, desta forma, em um bom funcionário (SOUZA, 
1917, p.24)
66
. Assim, o jovem deveria ser: “amigo do trabalho”, ativo, paciente, perseverante, 
previdente,  justiceiro,  honesto,  verdadeiro  e  escrupuloso,  ou  seja,  deveria  portar  qualidades 
que formam e dão forma ao caráter (SOUZA, 1917, p. 24).  
O projeto de formação da ACM para o jovem trabalhador remetia-se à circulação 
de valores, que, provavelmente, era vislumbrada por grande parte dos patrões, contribuindo, 
inclusive,  com a  aproximação  de  vários  donos de  comércios e  indústrias com  a  Associação 
Cristã  de  Moços,  podendo  ser  notadas  diversas  doações  de  diferentes  empresas,  como 
aconteceu na Associação Cristã de Moços de Porto Alegre. 
 
A  ACM  é  bem  cotada  no  meio  social  e  embora  este  anno  fosse  de  grande 
difficuldade  financeira  não  sofremos  muito,  e  bastou  apenas  trabalhar  um 
pouco  mais  para  obtermos  os  resultados  economicos  dos  annos  anteriores. 
Muitas  casas  comerciaes  que  estão  diminuindo  as  despesas  correntes  e 
cortando  outras  contribuições,  não  eliminaram  a  ACM  da  sua  lista  de 
                                                 
66
 Francisco de Souza era Ministro do Evangelho e realizou quatro conferências na Associação Cristã de Moços, 
no  Rio  de  Janeiro,  no  ano  de  1916,  que  foram  denominadas  de  “A  regeneração  nacional  pelo  indivíduo”.  O 
convite  para  as  palestra  foi  realizado  pelo  então  diretor  do  Departamento  Religioso  Miranda  Pinto,  e  a 
publicação  em  livro  foi  sugestão  do  acmista  Domingos  Antônio  da  Silva  Oliveira,  almejando  contribuir  na 
formação moral dos jovens. (Ver mais detalhes na Parte 4.). 


80 
 
   
donativos. Só o que precisamos para tomar Porto Alegre é um estado maior 
technico bem preparado e um edificio proprio. (MOCIDADE, nº 343, set. de 
1922, p. 20). 
 
Visando  ainda  suprir  as  necessidades  financeiras  da  instituição,  as  Associações 
Cristãs de Moços recebiam mensalidades por atividades oferecidas aos sócios. Nos momentos 
de  implantação,  as  mensalidades  recebidas  eram  insuficientes  para  cobrir  os  gastos, 
principalmente, levando-se em consideração que um dos primeiros movimentos da instituição 
era em direção à aquisição de uma sede própria.  
Na  estrutura  da  ACM  do  Rio  de  Janeiro,  em  1911,  as  fontes  de  recursos 
provinham, basicamente, das seguintes formas: trimestralidades (e “Jóias” de novos sócios), 
subscrições  anuais,  donativos,  sócios  mantenedores  e  matrículas  nas  atividades  ofertadas. 
Esses eram pagamentos realizados por pessoas físicas ou jurídicas, que davam direito ao sócio 
de  frequentar  a  instituição  e  de  participar  de  parte  das  atividades  oferecidas
67
.  O  montante 
desse recurso equivaleu, nesse ano, a 51% da receita anual da instituição. O restante da receita 
era  oriundo  das  diversas  ações  desenvolvidas  por  ela,  com  destaque  para  o  Departamento 
Intelectual, que significou 21% do montante arrecadado, demonstrando a centralidade dessa 
ação para a formação dos sócios, especificamente no curso comercial
68
.  
Um ponto estratégico para aumentar a receita da sede carioca foi a ampliação das 
atividades oferecidas nos seus primeiros oito anos. Verificou-se, nesse período, um aumento 
no  número  de  comissões,  o  que  consequentemente  elevou  as  atividades  pagas  ofertadas, 
possibilitando  uma  maior  arrecadação.  O  Departamento  Físico
69
,  inexistente  em  1903, 
contribuía, em 1911, com algo próximo de 6,5% da renda anual. 
Somado  às  atividades  oferecidas,  a  ACM  do  Rio  de  Janeiro,  em  1911,  recebeu 
recursos  de  diversas  empresas  estrangeiras,  tais  como:  C.  H.  Walker  &  CO,  London  & 
Brazilian Bank, London & River Plate Bank, British Bank of South America, John Moore & 
CO, Rio de janeiro T. Light & Power CO, Gourock Ropework Export CO, somente para citar 
                                                 
67
 Nas Associações Cristãs de Moços,  havia atividades que eram gratuitas, como oficinas de leitura, palestras, 
curso  primário.  No  entanto,  outras  atividades  eram  ofertadas  e  poderiam  ter  a  adesão  dos  sócios  através  de 
pagamento,  como  atividades  sociais  (boliche,  sinuca,  entre  outras),  atividades  intelectuais  (curso  comercial, 
disciplinas isoladas de preparação para curso superior, entre outras) e atividades físicas (classes de ginásticas e 
outras práticas). 
68
  O  departamento  Intelectual,  também  conhecido  como  comissão  de  instrução,  dentre  suas  atribuições,  era 
responsável  pela  organização,  funcionamento  e  manutenção  de  um  gabinete  de  leitura  e  pelas  aulas  noturnas. 
Ofertava curso primário, comercial, disciplinas isoladas, curso de línguas estrangeiras, entre outros. (Será mais 
bem trabalhado na Parte 5.). Cf. ESTATUTO DA ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS DE PORTO ALEGRE, 
1904, p. 09. 
69
  Havia  uma  comissão  do  departamento  físico  que  era  responsável  pela  “educação  física  dos  sócios, 
promovendo classes de ginástica, jogos atléticos e todos os esportes lícitos e convenientes”. Cf. ESTATUTO DA 
ASSOCIAÇÃO CRISTàDE MOÇOS DO RIO DE JANEIRO, 1914, p.13. 


81 
 
   
algumas  (ASSOCIAÇÃO  CRISTà DE  MOÇOS,  1912a).  Os  recursos  estrangeiros 
totalizaram  mais  de  50%  do  total  arrecadado  pela  instituição  através  da  contribuição  dos 
sócios,  demonstrando  a  importância  dos  investimentos  de  outros  países  na  manutenção  da 
sede.  
A  sede  de  Porto  Alegre  não  diferiu  muito  do  quadro  carioca.  A  receita  da 
instituição,  em  1915,  mostra  que  por  volta  de  48%  da  receita  anual  eram  oriundos  do 
pagamento  da  anuidade  (MOCIDADE,  nº  258,  ago.  de  1915,  p.  02).  Um  diferenciador 
revelou-se nas atividades ofertadas pela instituição: dentre as ações que complementavam o 
montante  acima,  os  cursos  disponibilizados  pelo  Departamento  Intelectual  representaram 
menos  de  11%  da  receita  total,  caracterizando  o  baixo  acesso  dos  sócios  aos  cursos  pagos, 
como o comercial
70

Recife também recebeu recursos estrangeiros nos momentos iniciais, como os das 
empresas:  Casa Clark, Mr. Hardwick,  London  and Brazilian  Bank,  London  and  River  Plate 
Bank,  Standard  Oil,  Wilson  and  Sons,  Mr.  G.  R.  Gibbs.  A  revista Mocidade  traz  nomes  de 
diversas  outras  pessoas  e  empresas  que  ajudaram  a  instituição  financeiramente,  porém  as 
citadas acima caracterizam aquelas que, mensalmente, se dedicaram a destinar um montante à 
ACM  de  Recife,  sendo  reconhecidas  como  “amigos”  da  instituição,  uma  vez  que 
contribuíram, de forma mais sistemática, com a obra missionária (MOCIDADE, nº 258, set. 
de 1915, p. 04). 
Cabe  observar  que  a  identificação  de  uma  determinada  empresa,  a  qual 
encaminhava recursos para diferentes sedes da ACM no Brasil, como, por exemplo, London 
and Brazilian Bank e London and River Plate Bank, revela que, mais do que uma contribuição 
com  uma  instituição  específica,  se  tratava  de  um  investimento  na  obra  missionária 
desenvolvida no país, pela ACM. Afinal, como aponta Weber (1967), contribuir na missão de 
expansão de uma instituição alinhada ao protestantismo não caracterizava somente uma boa 
ação, mas uma obrigação devido à posição do indivíduo nesse mundo, alcançada graças aos 
direcionamentos de Deus.  
Aliada às quantias recebidas pelos sócios e às atividades oferecidas regularmente 
pelas  ACMs,  outra  importante  estratégia  de  arrecadação  foram  as  campanhas.  Na  ACM  do 
Rio de Janeiro, em 1915, foi lançada uma campanha com o intuito de admitir novos sócios. 
Sua  organização  estava  estruturada  em  forma  de  uma  competição,  na  qual  foram  formadas 
equipes compostas por sócios que ingressaram no mesmo ano, na instituição, contemplando 
                                                 
70
 Haviam cursos ofertados pela instituição, como o primário, que não eram cobrados. (Será mais bem trabalhado 
na Parte 5.) 


82 
 
   
associados  do  período  de  1893  a  1914.  No  processo  de  arrecadação,  cada  equipe  que 
arrecadasse  mil  réis  acumularia  um  ponto,  e,  como  nas  competições  em  geral,  haveria 
ganhadores e perdedores
71
 (MOCIDADE, nº 256, jun. de 1915, p. 06). 
Para  criar  um  clima  favorável,  incentivando  o  empenho  dos  sócios,  foi  enviado 
um  ofício  aos  membros  da  ACM  do  Rio  de  Janeiro,  mobilizando-os  para  aderirem  à 
campanha:  
 
Todos  os  homens  válidos  alistados  nesta  Associação  [...]  são  chamados  às 
armas para uma campanha que tem por fim a conquista de novos voluntários 
para  a  causa  em  que  estamos  empenhados:  Guerra  contra  o  Mal  e  a 
Ignorância, quer seja intelectual, física ou moral. (MOCIDADE, nº 256, jun. 
de 1915, p. 06).  
 
Isso nos remete a um protestantismo guerreiro (MENDONÇA, 2008), para o qual: 
 
[...]  Não  havia  inimigos  visíveis  a  combater,  nem  chefes  guerreiros 
materialmente presentes a seguir. A ideologia guerreira é transportada para o 
espiritual: o inimigo a ser combatido é o mal, e o chefe guerreiro é Jesus. O 
triunfo  final  sobre  o  mal  será  assinalado  pela  vinda  pessoal  de  Jesus  que, 
vitorioso,  inaugurará  o  milênio.  A  convicção  é  de  que  a  vinda  do  milênio 
será  abreviada  na  medida  em  que  o  mal  for  sendo  suplantado  pelo  bem. 
(MENDONÇA, 2008, p. 346). 
 
A  construção  de  uma  identidade  coletiva  é  o  cimento  necessário  para  que  as 
pessoas  lutem  em  prol  de  um  objetivo  comum  (CARVALHO,  2008).  No  caso  da  ACM,  a 
representação  do  combate,  caracterizada  pela  Primeira  Guerra  Mundial  que  estava  em 
andamento, em 1915, foi o cimento utilizado, visando juntar forças contra outra batalha, a da 
defasagem intelectual, física e moral do povo brasileiro. O repertório militar foi uma forma 
encontrada,  na  campanha,  de  fortalecer  os  laços  entre  os  sócios,  criando  um  espírito  de 
combate.  Os  grupos  foram  organizados  num  “batalhão”,  independente  do  número  de 
“efetivos”  que  fariam  parte  dele.  Havia  um  “distintivo”  que  era  colocado  em  cada  um  dos 
“praças”,  segundo  o  ano  de  seu  “alistamento”,  para  que  cada  “soldado”  reconhecesse,  com 
mais facilidade, os seus “camaradas” (MOCIDADE, nº 256, jun. de 1915). 
                                                 
71
 Entre as equipes ganhadoras, haveria diferentes lugares, definindo, assim, as que conseguiram maior êxito na 
sua missão. Apesar da organização em grupos, a premiação iniciava-se pela participação individual, sendo que o 
sócio que conseguisse maior número de pontos seria premiado com uma medalha de ouro, seguido pelo segundo 
e  terceiro  lugares,  que  receberiam  medalhas  de  prata  e  bronze  respectivamente.  A  equipe  que  conseguisse 
acumular mais de cem pontos seria agraciada com um jantar festivo, e, para finalizar, a equipe que apresentasse 
o  maior  resultado  teria  seu  retrato  estampado  num  quadro  de  honra  na  instituição.  Cf.  MOCIDADE,  nº  256, 
1915, p. 06. 


83 
 
   
Portadora  de  um  espírito  nacionalista,  a  guerra  foi  simbolicamente  acionada, 
visando  criar  uma  sensação  de  solidariedade,  uma  identidade  coletiva,  para  que  todos  os 
indivíduos se lançassem na campanha contra os problemas que a Associação se propunha a 
combater.  Escolheram-se  os  “válidos”,  porque,  para  enfrentar  uma  guerra,  somente  os 
preparados  deveriam  ser  recrutados  para  que  se  tornasse  possível  enfrentar,  com  força 
máxima,  na  visão  da  instituição,  a  degeneração  da  sociedade  brasileira.  O  movimento 
expansionista  da  ACM  fazia  parte  desse  objetivo  formativo  da  instituição,  almejando  o 
processo  de  regeneração  do  indivíduo,  que,  para  a  ACM,  poderia  ser,  em  parte,  alcançado 
pelas suas contribuições (MOCIDADE, nº 256, jun. de 1915). 
Assim,  as  campanhas,  os  investimentos  estrangeiros  e  nacionais,  as  diferentes 
formas de arrecadação e as ações desenvolvidas pelas diferentes comissões, as quais faziam 
parte da organização das ACMs, foram imprescindíveis, mas não suficientes para garantir a 
consolidação  das  sedes.  Os  recursos  humanos  envolvidos  na  administração  também  se 
incluíam  no  conjunto  de  preocupações  da  Associação  no  caminho  de  sua  implantação  e 
consolidação,  o  que  nos  ajuda  a  perceber  a  presença  do  missionário  norte-americano  na 
preparação  para  a  implantação  das  sedes  do  Rio  de  Janeiro,  Porto  Alegre  e  São  Paulo, 
ausentando-se  apenas  na  sede  de  Recife,  que  ficou  a  cargo  de  outro  secretário  enviado  dos 
Estados Unidos, o missionário John H. Warner
72

No  momento  de  implantação das  sedes  brasileiras,  Myron Clark foi  o  secretário 
geral  da  ACM  do  Rio  de  Janeiro;  Alvaro  de  Almeida,  um  brasileiro  com  formação  nos 
Estados Unidos para trabalhar em ACMs, atuou como secretário geral na ACM de São Paulo; 
um  brasileiro
73
,  com  formação  em  Springfield,  secretariou  os  trabalhos  na  ACM  de  Porto 
Alegre; e John Warner foi o secretário geral, enviado pelos Estados Unidos, que administrou a 
implantação  da  ACM  de  Recife.  Todas  as  Associações  que  se  mantiveram  vivas  contaram 
com a presença de secretários gerais, com formação específica no exterior, para atuarem no 
gerenciamento  da  instituição,  indicando  a  centralidade  do  cargo  na  consolidação  da  missão 
acmista. Em contrapartida, todas as sedes que iniciaram como organizações provisórias, sem a 
                                                 
72
  Basicamente,  a  estrutura  das  ACMs  apresentava  os  cargos  de  Presidente,  Vice-presidente,  Tesoureiro, 
Secretário Arquivista, Secretário Geral, acrescido dos diretores responsáveis pelas diferentes comissões, os quais 
organizavam  as  ações  das  instituições.  Dentre  os  cargos,  o  de  Secretário  Geral  mostrava-se  como  estratégico 
para  o  bom  andamento  da  instituição,  destacando-se  como  uma  função  que  necessitava  de  uma  formação 
adequada. Diversas solicitações foram expedidas pelas ACMs brasileiras em busca de secretários internacionais, 
especialmente  pelas  sedes  de  Porto  Alegre  e  Recife,  assim  como  foram  feitos  investimentos  para  o  envio  de 
brasileiros ao exterior para receberem a formação  necessária nos cursos Técnicos oferecidos pela ACM norte-
americana, como foi o caso de Alvaro de Almeida (MOCIDADE, nº 259, set. de 1915; MOCIDADE, nº 343, set. 
de 1922). Detalhes da estrutura das ACMs brasileiras serão abordados a seguir. 
73
 Não há, nas fontes, indicativos do nome do secretário em questão. Cf. MOCIDADE, nº 343, set. de 1922, p. 
19. 


84 
 
   
presença  de  um  secretário  geral  com  formação  específica,  extinguiram-se  com  o  tempo
74
 
(MOCIDADE, nº 255 e 256, jun. de 1915; nº 343, set. de 1922). 
Todavia,  nem  sempre  a  formação  específica  para  secretário  geral,  realizada  no 
exterior, era garantia de sucesso na implantação e consolidação de uma ACM no Brasil. Nos 
primeiros  treze  anos  da  ACM  de  Porto  Alegre,  a  qual  possuía  como  secretário  geral  um 
brasileiro  com  formação  específica  no  exterior,  construiu-se  uma  imagem  dessa  Associação 
como sendo a de um “clube educativo”, que, nesse período, apresentava um número reduzido 
de sócios (MOCIDADE, nº 343, set. de 1922, p. 19). Foi então que chegou à ACM de Porto 
Alegre  o  secretário  geral  norte-americano  I.  H.  Gallyon,  com  o  objetivo  de  redirecionar  os 
caminhos  da  instituição.  São  Paulo  não  foi  diferente  de  Porto  Alegre.  Inicialmente,  a 
instituição  paulista  contou  com  a  presença  de  um  secretário  geral  brasileiro  com  formação 
específica para o cargo em uma ACM dos Estados Unidos. No entanto, após pouco mais de 
dois anos, o cargo foi assumido pelo secretário geral norte-americano John H. Warner.  
A  formação  de  secretário  geral,  proporcionada  pelas  ACMs  norte-americanas, 
contribuía  consideravelmente  para  a  permanência  das  instituições,  sendo  que  as  que  foram 
administradas, nos momentos iniciais, por brasileiros com formação no exterior perduraram, 
apesar  de  não  apresentarem  o  mesmo  desenvolvimento  das  demais  sedes  ou  de  quando  os 
brasileiros  eram  substituídos  por  secretários  internacionais.  Os  brasileiros  que  receberam  a 
formação de secretário geral nos Estados Unidos não conseguiam conduzir a ACM do mesmo 
modo  que  os  secretários  estrangeiros,  representando,  talvez,  uma  estratégia  de  domínio 
político das YMCAs.  
Se  os  secretários  gerais  foram  figuras  estratégicas  na  construção  das  ACMs  no 
Brasil, a quantidade deles não se deu proporcionalmente às demandas do país. Para se juntar a 
Clark, dois secretários norte-americanos chegaram ao Brasil entre 1904 e 1907, sendo eles: J. 
H.  Warner  e  Harry  O.  Hill.  A  escassez  de  secretários  exigia  que  eles  circulassem  em 
diferentes  sedes  no  Brasil,  como  forma  de  contribuir  no  fortalecimento  das  Associações  do 
país.  Assim,  com a  chegada  de  Hill  quando  Warner  encontrava-se  trabalhando  na  ACM  de 
São Paulo, fez com que Warner fosse realocado para atuar em Recife, devido à necessidade de 
um  secretário  na  sede  dessa  cidade.  Hill,  por  sua  vez,  foi  designado  para  trabalhar  na  sede 
paulistana, a qual já se encontrava em estágio avançado de desenvolvimento, em parte, devido 
                                                 
74
  Ao  Secretário  Geral  cabia  “atender  a  toda  a  correspondência,  tomar  nota  estatística  de  todo  trabalho,  dar 
direção pessoal aos trabalhos sociais nos intervalos da reunião da diretoria, e apresentar mensalmente à mesma 
um relatório sobre o movimento da secretaria, com recomendações e comentários”. Cf. ASSOCIAÇÃO CRISTà
DE  MOÇOS.  Modelo  de  Estatutos  de  uma  Associação  Cristã  de  Moços.  In:  Mocidade:  Revista  Mensal  das 
Associações Christãs de Moços no Brasil. n. 255 e 256, 1915. 


85 
 
   
à presença mais duradoura de Warner. No entanto, o trânsito de Warner pelas ACMs do Rio 
de  Janeiro,  São  Paulo  e  Recife  não  possibilitava  uma  continuidade  do  seu  trabalho, 
dificultando, em parte, o processo de consolidação das Associações. 
Assim, diferentes estratégias foram utilizadas pela missão acmista no Brasil, em 
direção à consolidação das sedes. Investir no convencimento da comunidade local, envolver 
com  o  movimento  protestante  da  cidade,  coletar  recursos  por  meio  de  diferentes  fontes, 
elaborar  ações  que  incentivassem  a  participação  dos  sócios,  possibilitar  a  presença  de 
secretários  gerais  com  formação  específica  para  atuarem  na  implantação  das  sedes  foram 
formas encontradas pelas ACMs brasileiras durante seus momentos iniciais, no Brasil. Além 
dessas estratégias, tratadas neste espaço, pode-se ainda salientar a importância da publicação 
de panfletos e do periódico Mocidade, que circulavam dentro e fora das instituições.  
 
 



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