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parte da constituição de um ethos esportivo. Se o esporte já estava inserido em alguns espaços 
no Brasil do século XIX, é no século XX que se pode perceber o nascimento do que Sevcenko 
(1998)  intitulou  de  “civilização  esportiva”.  O  esporte,  como  as  diferentes  ações  que  faziam 
parte do projeto de formação acmista, tinha função educativa, formadora. Portanto, respeito às 
regras,  autocontrole,  honestidade  e  lealdade  eram  alguns  dos  valores  que  circulavam  em 
reportagens  da  instituição,  apresentando  o  momento  da  prática  esportiva  como  um  tempo 
privilegiado de diferenciar os associados que têm uma “boa formação”, através de suas ações 
durante a partida, daqueles que ainda precisam de maiores investimentos da instituição.  
Esse  conjunto  de  trabalhos,  apesar  da  variedade  da  abordagem  e  da  diversidade 
analítica,  contribuíram  na  construção  do  alicerce  para  a  compreensão  de  um  determinado 
projeto  de  formação  ‒  a  presença  da  Associação  Cristã  de  Moços  no  Brasil  ‒,  que  foi 
(re)construído  na  relação  do  movimento  evangélico  norte-americano  com  os  mais  diversos 
sujeitos  envolvidos:  brasileiros,  estrangeiros,  comerciantes,  empregados,  evangélicos, 
católicos. Este estudo pretende colaborar com a historiografia ao focar em uma instituição de 
estrutura  protestante,  que  se  apresenta  como  ecumênica,  mas  possui  a  maior  parte  dos 
associados  professando  a  religião  católica;  que  apresenta  característica  conversionista,  mas 
não  dispõe  exclusivamente  de  ações  que  contemplam  a  educação  religiosa  e,  sim,  de  um 
projeto  de  formação  que  abrange  ainda  a  educação  do  intelecto  e  do  físico,  que  também 
deveria estar alinhada à formação religiosa. 
 
 
IV 
 
 
A noção de circulação, pensada a partir do estudo de Chartier (1990), foi utilizada 
para  ajudar  na  compreensão  dos  movimentos  –  de  sujeitos,  de  ideias,  de  experiências,  de 
estratégias  pedagógicas  –  que  participaram  da  construção  do  projeto  de  formação  da 
Associação  Cristã  de  Moços  no  Brasil.  Aqui,  a  circulação,  pensada  a  partir  da  história 


24 
 
   
cultural,  afasta-se  da  ideia  de  simples  importação,  cópia,  transplante,  mas  sugere  uma 
construção cultural a partir de diferentes sentidos, com maiores possibilidades de se perceber 
a existência de interações, de trocas (CHAMON, 2005). Torna-se mais evidente, também, a 
pluralidade  cultural  em  detrimento  de  uma  oposição  entre  dominantes  e  dominados, 
conferindo  maior  visibilidade  aos  empréstimos  e  intercâmbios,  ressaltando  a  multiplicidade 
das diferenças (CHARTIER, 1990).  
Chamon  (2005,  p.  29)  aponta  que  a  noção  de  circulação,  a  partir  dessa 
compreensão de história, pretende abolir a descontinuidade histórica e geográfica e a relação 
passiva ao colocar ênfase na interação dos termos produção/apropriação e na relação contínua, 
contígua  e  criativa  que  eles  estabelecem  entre  si,  sem  apresentá-los  de  maneira  estanque  e 
como pares de opostos. Assim, enfatiza-se a interdependência entre as culturas sem negar as 
desigualdades e os desequilíbrios nessa relação. 
Ajustar  a  lente  a  partir  da  noção  de  circulação  significou  estar  aberto  à 
compreensão  de  que  o  trânsito  dos  diversos  missionários  estrangeiros  no  Brasil  –  sejam  os 
vinculados à missão acmista ou ao movimento protestante – somado aos inúmeros saberes e 
práticas que foram colocados em evidência por diferentes sujeitos – estrangeiros e brasileiros 
que,  no  exterior,  tiveram  sua  formação  ou  participaram  de  intercâmbios  –  contribuiriam 
decisivamente  para  pensar  na  não  existência  de  um  projeto  de  formação  acmista 
exclusivamente norte-americano, ou tipicamente carioca, ou paulistano, ou gaúcho.  
É  perceptível  que  o  movimento  missionário  evangélico  norte-americano,  que 
circulou com maior intensidade no Brasil, em fins do século XIX, criando uma ambiência, um 
terreno  favorável  à  recepção  da  ACM,  contribuiu  para  a  implantação  e  consolidação  do 
projeto  acmista.  Myron  A.  Clark  foi  o  único  enviado  pela  Comissão  Internacional  das 
Associações Cristãs de Moços para a missão de criar uma sede no Brasil, porém não estava 
sozinho.  Havia  diversos  missionários  protestantes  que,  mesmo  não  atuando  junto  a  Clark, 
atuavam paralelamente como suporte, como elo entre a instituição e a comunidade evangélica, 
especialmente  divulgando  o  projeto  acmista  nos  seus  diferentes  espaços  de  ação.  Eram, 
portanto, mediadores. 
Não  era  raro,  ainda,  perceber  a  circulação  de  missionários  evangélicos 
estrangeiros  com  ligação específica com  as YMCAs. John  Mott,  secretário  internacional  das 
Associações Cristãs de Moços, em diversas oportunidades, apresentava à comunidade acmista 
temas  escolhidos  para  um  público  específico,  o  brasileiro.  Tais  temas  exteriorizavam  e 
materializavam sua forma de pensar a constituição de um projeto de formação.  


25 
 
   
Por  outro  lado,  diversos  sócios  das  ACMs  brasileiras  foram  enviados  para  os 
Estados  Unidos  no  intuito  de  participarem  de  intercâmbios  e  cursos  de  formação  acmista. 
Esses  sócios,  inseridos  em  uma  ambiente  cultural  diferente  do  brasileiro,  apropriaram-se  e 
reconstruíram, em graus variados, os traços culturais de um projeto de formação que circulou 
pelas diferentes sedes acmistas do Brasil. O brasileiro Frederico Gaelzer, sócio da ACM de 
Porto  Alegre  na  década  de  1910,  foi  um  dos  enviados  aos  Estados  Unidos  para  cursar 
Educação Física em instituição da YMCA. Lá, apropriou-se, filtrou e colocou em circulação os 
saberes e as práticas que faziam parte de um projeto de formação acmista. 
Mirian Warde (2000a), ao pretender estudar a influência cultural norte-americana, 
apontou  a  necessidade  de  abordá-la  a  partir  da  ideia  de  “empréstimos  culturais”,  de 
intercâmbios.  Isso  significa  pensar  na  construção  cultural  como  um  processo,  no  qual 
participam sujeitos – individuais e coletivos – em posições desiguais e em contato com uma 
circulação  permanente  de  diferentes  padrões  culturais.  Não  se  trata  de  tentar  perceber  a 
existência  de  um  local  de  emissão  e  outro  de  recepção,  mas  a  circulação  de  ideias, 
experiências, sujeitos, que vão possibilitar, em graus variados, trocas culturais.  
Nesse  movimento  de  circulação  de  saberes  e  práticas  em  prol  da  construção  de 
determinado  projeto  acmista,  foi  profícuo  perceber  a  presença  de  um  periódico  oficial  da 
Associação  Cristã  de  Moços,  a  revista  Mocidade,  e  de  diversos  documentos  que  foram 
produzidos/traduzidos/reproduzidos pelas sedes brasileiras, especialmente pela ACM do Rio 
de  Janeiro.  Para  Chartier  (1990),  as  produções,  traduções  e  reedições  são  estratégias  de 
apropriação.  No  caso  acmista,  foi  utilizado  um  conjunto  de  textos  construídos,  adaptados  e 
traduzidos,  que  circularam  pelas  sedes  das  ACMs,  no  Brasil,  divulgando  os  temas 
considerados centrais para o projeto formador. Neste estudo, a apropriação não está no centro 
das  observações,  porém,  por  diversas  vezes,  foi  possível  perceber  desvios,  rejeições, 
negociações,  indicando  que  o  projeto  acmista,  no  país,  foi  construído  nas  relações  entre  os 
diferentes sujeitos envolvidos. Nesse caso, a circulação contribuiu para se fazer perceber os 
movimentos que sustentam tais relações, as quais não são estáticas, mas móveis e fluídas.  
Durante o processo de construção da base do projeto acmista brasileiro, criou-se 
um  espaço  que  iria  reunir  e  colocar  em  evidência  os  princípios  desse  projeto.  Esse  espaço 
pode ser pensado, apoiado em Pratt (1999), a partir da noção de “Zona de Contato”, onde se 
encontram  diferentes  culturas,  com  seus  choques,  apropriações,  desaparições,  rejeições, 
possibilitando  novas conformações.  Dessa  forma,  as Zonas  de  Contato  são  “espaços  sociais 
onde  culturas  díspares  se  encontram,  se  chocam,  se  entrelaçam  uma  com  a  outra, 


26 
 
   
freqüêntemente  em  relações  extremamente  assimétricas  de  dominação  e  subordinação  [...]” 
(PRATT, 1999, p. 27). 
Essa noção de Zona de Contato contribuiu na análise das Convenções Nacionais 
das Associações Cristãs de Moços do Brasil ‒ evento trisanual, iniciado em 1903, que reunia 
as  sedes  brasileiras,  constituindo-se  em  um  espaço  de  apropriações,  trocas  e  negociações. 
Circulavam,  nesse  espaço,  pessoas  da  administração  das  diferentes  ACMs  brasileiras  e 
representantes  das  YMCAs,  apresentando  temas  relevantes  à  formação  do  acmista,  trocando 
experiências e apresentando as dificuldades, as inovações e os desafios. É da circulação e da 
compreensão  que  a  apropriação  se  dava  em  graus  variados  e  condicionados  aos  choques, 
adaptações e rejeições culturais, e acredita-se que não seria indicado pensar na existência de 
um transplante de projeto totalmente apropriado, assim como dificilmente se teria um projeto 
único  para  todas  as  ACMs  brasileiras,  ou  ainda  um  projeto  único  e  isento  de  contribuições 
externas  para  determinada  sede  acmista.  Dessa  forma,  pode-se  pensar  que  não  é  possível 
apontar  um  local  de  emissão  e  outro  de  recepção,  apesar  de  a  sede  carioca  apresentar 
predomínio na publicação/tradução dos textos que circulavam entre as Associações, no Brasil. 
Portanto,  é  nas  relações  entre  as  sedes  brasileiras  que  podemos  perceber  a  construção  dos 
projetos de formação da ACM.  
É fértil também pensar a ACM a partir da ideia da Zona de Contato, onde estão 
presentes,  com  certa  frequência:  brasileiros,  estrangeiros,  protestantes,  católicos,  patrões, 
empregados,  pedreiros,  advogados,  comerciantes.  Nesse  lugar,  esses  diferentes  sujeitos  se 
encontram  com  toda  sua  bagagem  cultural.  Trata-se,  ainda,  de  se  atentar  para  a  presença  – 
espacial  e  temporal  –  de  sujeitos  anteriormente  separados  por  descontinuidades  históricas  e 
geográficas, cujas trajetórias agora se cruzam. Portanto, essa é uma zona privilegiada para se 
perceber as interações, as trocas.  
Essas  noções  foram  mobilizadas,  nesta  tese,  essencialmente  com  o  propósito  de 
contribuir para a leitura das fontes. Tais noções contribuíram na compreensão da inexistência 
de  um  lugar  único  de  emissão  de  um  projeto  de  formação,  caracterizador  de  uma  cultura 
dominante, conforme papel desenvolvido por Myron Clark nos momentos de implantação e 
consolidação  das  Associações  Cristãs  de  Moços,  no  Brasil.  Não  se  tratava  de  uma  simples 
adequação cultural. Travava-se de uma disputa pela busca de espaços, especialmente marcada 
pela  presença  de  uma  instituição  de  estrutura  protestante,  em  um  país  católico.  Portanto,  é 
nesse  terreno  que  se  percebe  os  embates,  as  trocas,  as  negociações.  Assim,  a  cultura  não 
circula por uma via de mão única, mas no seu movimento de devir, na relação, nos desvios, 
nas rejeições, nas apropriações e re-significações.  


27 
 
   

 
 
Como  mostra  Certeau  (2006,  p.81),  em  história  tudo  começa  com  o  gesto  de 
separar, reunir e transformar em documentos certos objetos distribuídos de outra maneira. Foi 
inspirado  nesse  “conselho”  metodológico  que  investi  na  busca  de  objetos  que  mantinham 
algum tipo de relação com a Associação Cristã de Moços no Brasil. A ACM, nesse sentido, 
foi  tomada  como  eixo  e  ponto  de  partida,  direcionando-me,  na  procura  pelos  documentos 
necessários a esta pesquisa: à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro; à Federação Brasileira 
das ACMs, em São Paulo; ao Centro de Memória do Esporte, na Universidade Federal do Rio 
Grande  do  Sul  (UFRGS),  em  Porto  Alegre;  e  às  diferentes  sedes  acmistas  do  Brasil,  que 
foram implantadas no período estudado e ainda estão em atividade. 
Olhar para esse conjunto de documentos significou artificializar o que, por vezes, 
consideramos natural, é como se “de resíduos, de papéis, de legumes, até mesmo das geleiras 
e  das  ‘neves  eternas’”  e,  no  caso  deste  estudo,  dos  textos  que  revelavam  um  projeto  de 
formação  nas  ACMs  fizéssemos  deles  outra  coisa:  “história”  (CERTEAU,  2006,  p.  79). 
Assim,  não  se  trata,  apenas,  de  dar  voz  aos  documentos  ou  a  um  silêncio,  mas  transformar 
alguma  coisa,  que  tinha  sua  posição  e  seu  papel,  em  alguma  outra  coisa  que  funciona 
diferentemente  (CERTEAU,  2006).  É  pensar  que  as  fontes,  independentes  de  sua  natureza, 
variedade e valor, são apenas uma espécie de matéria prima a ser utilizada pelo historiador, 
sendo, portanto, uma condição necessária, mas não suficiente (LOPES, 1996). 
Em se tratando de textos produzidos no interior e pela própria instituição, ressalta-
se, ainda mais, a necessidade de procurar os interditos, as zonas opacas, os rastros
15
. Ginzburg 
(2007, p. 11) sugere que: 
 
[...]  ler  os  testemunhos  históricos  a  contrapelo,  como  Walter  Benjamin 
sugeria,  contra  as  intenções  de  quem  os  produziu  –  embora,  naturalmente, 
deva-se  levar  em  conta  essas  intenções  –  significa  supor  que  todo  texto 
inclui  elementos  incontroláveis.  Isso  também  vale  para  os  textos  literários 
que pretendem se constituir numa realidade autônoma. Até neles se insinua 
algo de opaco comparável às percepções que o olhar registra sem entender 
[...] Essas zonas opacas são alguns dos rastros que um texto (qualquer texto) 
deixa atrás de si. 
 
                                                 
15
  Ao  construir  o  “paradigma  indiciário”,  Carlo  Ginzburg  (1989,  p.  177)  parte  da  ideia  central  de  que,  se  a 
realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – indícios – que permitem decifrá-la. 


28 
 
   
Ao  iniciar  este  estudo,  na  Biblioteca  Nacional,  acessei  vários  documentos  das 
Associações  Cristãs  de  Moços  do  Brasil,  como:  A  Educação  Physica,  publicado  em  1911, 
pela ACM de Recife; e Pela pátria, preparando as forças (...)Um centro de boas amizades



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