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Samuel Araújo: 



Descolonização e discurso: notas acerca do poder, do tempo e da 

noção de música 

 

 

 

Discutindo a prática da etnomusicologia e sua posição entre os estudos do 



homem, Nettl notou que o enraizamento daquela disciplina em 

 

 

... estudos comparativos resultou da visão de mundo de uma cultura 



 

colonialista e dos aportes da incipiente antropologia, baseados no 

 

social-Darwinismo; a atividade missionária e o acúmulo de espécimes 



 

de museu também desempenharam seu papel (Nettl 1984:39). 

 

 

É pelo menos significativo que, em edição posterior do mesmo periódico 



(World of Music) do qual extraimos a citação acima, seu segundo exemplar dedicado 

à discussão de ‘universalidades musicais’, duas contribuições acerquem-se de 

estudos comparativos partindo de perspectivas contraditórias. Por um lado, é 

lançada uma ambiciosa “história mundial da música” sob o patrocinio do Conselho 

Internacional da Música da UNESCO (Brook and Bain 1984), pautando-se por 

métodos comparativos convencionais: um inventário (dez volumes) de 

características empiricamente observáveis em diversas culturas musicais, das quais 

um certo número de universalidades seriam deduzidas e arroladas em volume 

conclusivo. Ainda que a referência à comparação inter-cultural nesse primeiro 

documento permaneça restrita a procedimentos metodológicos, o desenho em si 

1

 

do projeto parece aceitar implicitamente uma noção que vem causando desconforto 



a muitos, precisamente por motivo de seu talhe evolucionista; ou seja, todos os 

povos do mundo cultivariam práticas simplesmente traduzíveis como “música”. 

 

No entanto, como contrargumenta Gourlay no mesmo periódico (refletindo 



sobre a ainda corrente onda de popularidade da chamada ‘world music’, ou ‘world 

beat’, na Europa), esta idéia de universalidade tem seu terreno limitado à 

 

 



 conceituação ocidental, daí propagando a idéia de que a música possui 

 

semelhanças pelo mundo afora, semelhanças que são espúrias, porque 



 

nós [Europeus] escolhemos ouvir apenas aquilo que reforça esta  

 

concepção errônea (Gourlay 1984:32). 



 

 

Prosseguindo em sua critica ao empiricismo, Gourlay sugeriu que, ao invés 



desse caminho,  

 

 



 

Nós devemos começar não supondo que alguma forma de ‘música’,  

 

como a conhecemos, é universal, mas sim que há maior  



 

possibilidade de universalidade de alguma forma de expressão para  

 

a qual ainda não temos qualquer denominação, a não ser sabermos  



 

tratar-se de ‘não-música’ - não no sentido dado por Merriam a  

 

‘ruido’, mas num sentido mais amplo de uma forma de expressão  



 

criativa que subsume aquelas comunmente designadas como  

 

‘som musical’, ‘dança’, ‘drama’ e‘ritual’... (Gourlay 1984:36). 



                            

1

 Basicamente dez volumes tratando de distintas “músicas” regionais e que seriam seguidos de um 



“volume sinóptico final em que ligações, identidades e possíveis universalidades são propostas 

(Brook and Bain 1984:211)”.  

 



 

2

 



 

Esta consideração final - apontando para um corte ideológico em plena 

demanda, embora ainda amplamente limitado à negação de cânones disciplinares - 

dava ressonância ao que vários etnomusicólogos (e, antes destes, antropólogos) 

tinham experimentado em algum ponto de suas respectivas práticas. Na verdade, 

abordava um tema-chave que tem provocado recorrentes reflexões acerca do 

direcionamento e do próprio sentido da disciplina Etnomusicologia. O cerne da critica 

de Gourlay, no entanto, tendeu a permanecer pelo menos neutralizado, na medida 

em que se podia ler, ainda em 1987, argumentos em prol de una “musicologia 

completa” que pudesse integrar “nosso conhecimento de música ao nosso 

conhecimento de processos mentais, históricos e espirituais e à música de todos os 

povos e nações ... (Rice 1987:483)”. Esta e outras perspectivas revisionistas 

simultaneamente evadem a questão central: a reconceituação de uma disciplina e 

seu objeto, além de manter o posicionamento privilegiado de um ‘observador 

ocidental neutro’ (“nosso cohecimento” no texto de Rice). Tal construção ideológica - 

que traveste distanciamento no tempo, enquanto instrumento de dominação, em 

alteridade no espaço e é definido pelo acúmulo de ‘adequados’ instrumentos 

analíticos - é, pois, fadada a retornar tautologicamente a seu ponto de partida: a 

legitimação e reprodução de uma hierarquia entre formações sociais dentro de um 

campo dado de forças em conflito. Reconsiderar o conceito em si de tempo parece-

nos então um passo necessário para que se possa aprofundar o corte proposto por 

Gourlay. 





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