Microsoft Word Samara Reis Dissertacao Mestrado versao final submetida docx



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APRESENTAÇÃO 
 
Em  1985,  Baron-Cohen,  Leslie  e  Frith  publicaram  um  artigo  intitulado  “A  criança 
autista  tem  uma  Teoria  da  Mente?”  (em  original,  “Does  the  autistic  child  have  a  theory  of 
mind?”),  que  revolucionou  a  maneira  de  se  pensar  o  autismo.  Até  então,  eram  observados 
déficits na comunicação verbal e não-verbal dessas crianças, mas menos era sabido sobre os 
processos cognitivos subjacentes às falhas no desenvolvimento de relações sociais adequadas.  
Até hoje, esse artigo é citado com frequência – 452 vezes somente em 2017, de acordo 
com  a  contagem  do  site  Google  Acadêmico
1
-,  e  os  principais  resultados  discutidos  nele  se 
referiam à associação dos quadros de autismo com déficits na chamada Teoria da Mente, que 
os autores definiram como a capacidade de inferir sobre a mente alheia, sendo esses déficits 
independentes da capacidade intelectual das crianças. 
Mais  de  30  anos  se  passaram,  e  os  quadros  de  autismo,  atualmente  denominados 
Transtorno do Espectro Autista (TEA) (American Psychiatric Association, 2013), continuam 
um tema frequente em estudos científicos, constando no título de 2.049 trabalhos somente em 
2017,  conforme  verificado  no  indexador  PubMed
2
.  Isso  sugere  um  grande  interesse  da 
comunidade  científica  nesse  tema,  possivelmente  porque  ainda  há  muitos  aspectos  a  serem 
explorados e compreendidos em relação ao TEA. 
O  mesmo  pode-se  dizer  dos  estudos  envolvendo  a  chamada  Cognição  Social,  que 
engloba habilidades cognitivas voltadas especificamente para o funcionamento social, como a 
percepção emocional,  empatia e Teoria  da  Mente  (Monteiro  &  Louzã  Neto,  2010).  Estudos 
que citam a Cognição Social no título ou resumo duplicaram nos últimos cinco anos, somando 
313  registros  em  2012  e  713  em  2016,  e  chegando  a  697  até  a  última  consulta  em  2017, 
                                                 
1
 Última consulta realizada em 22/09/17 no endereço 
https://scholar.google.com.br
 com a busca pelo nome do 
artigo e observação do número de citações do mesmo. 
2
 Última consulta realizada em 22/09/17 no endereço 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed
 com a busca do 
termo “autism spectrum disorder” ou “autism” em títulos de publicações científicas. 


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conforme verificado nos registros PubMed
3

Entretanto, embora a Cognição Social seja um aspecto essencial para a compreensão 
das alterações comportamentais nos indivíduos com TEA, nos últimos 10 anos, há somente 
251 registros ao todo que incluem ambos os termos no título ou resumo, conforme indicado 
pelo  mesmo  indexador
4
.  Uma  busca  substituindo  o  termo  “Social  Cognition”  (Cognição 
Social)  por  “Theory  of  Mind”  (Teoria  da  Mente)  junto  a  “Autism  Spectrum  Disorder” 
(Transtorno  do Espectro  Autista)  resultou  em  somente  176  registros  nos  últimos 10  anos,  e 
esse  número  cai  para  96  quando  este  termo  é  buscado  em  associação  a  “Empatia”.  Isso 
significa  que,  embora  diversas  áreas  do conhecimento estejam  pesquisando  sobre  o  TEA,  a 
área  de  Neuropsicologia  relacionada  à  Cognição  Social  representa  apenas  uma  pequena 
parcela desses estudos. 
Ainda menos explorado é o fenômeno do Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA). Na 
linha de pesquisa de fatores genéticos ligados ao TEA, observou-se que parentes próximos de 
indivíduos  assim  diagnosticados  apresentavam  traços  cognitivos  e  comportamentais 
associados a esses transtornos (endofenótipo) em grau subclínico (Dawson et al., 2007; Losh, 
Childress,  Lam  &  Piven,  2008;  Virkud,  Todd,  Abbacchi,  Zhang  &  Constantino,  2009;  de 
Jonge  et  al.,  2015).  Essa  manifestação  foi  denominada  Broader  Autism  Phenotype  (BAP) 
(Piven,  Palmer,  Jacobi,  Childress  &  Arndt,  1997),  e traduzida como  Fenótipo  Ampliado  do 
Autismo (Endres, Lampert, Schuch, Roman & Bosa, 2015), estando provavelmente associada 
a fatores como herança genética (Ronald e Hoekstra, 2011). 
Trata-se, portanto, de um objeto de estudo promissor no campo da Neuropsicologia e 
da psicologia do desenvolvimento. Porém, uma busca nos registros PubMed revelou apenas 
                                                 
3
 Última consulta realizada em 22/09/17 no endereço 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed
 com a busca do 
termo “social cognition” em títulos ou resumos de publicações científicas. 
4
 Última consulta realizada em 22/09/17 no endereço 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed
 com a busca do 
termo “social cognition” e “autism spectrum disorder” em títulos ou resumos de publicações científicas. 


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119 trabalhos sobre o tema nos últimos 10 anos
5
, ainda que seu primeiro registro date de 1997 
(Piven et al.). 
Embora o fenômeno do FAA tenha sido observado inicialmente em pais e irmãos de 
crianças com autismo, outros pesquisadores verificaram que as características associadas ao 
mesmo apresentam distribuição normal na população (Constantino & Todd, 2003; Hoekstra, 
Bartels,  Verweij  &  Boomsma,  2007;  Ingersoll,  Hopwood,  Wainer  &  Donnellan,  2011), 
apontando  para  a  importância  de  se  estudar  traços  associados  ao  TEA  na  população  geral, 
como  forma  de  identificar  preditores,  e  compreender  como  suas  dimensões  se  relacionam 
entre  si  e  com  outros  construtos  associados  a  um  funcionamento  social  prejudicado  nesses 
quadros (Jobe & White, 2007; Stewart & Austin, 2009; Grove, Baillie, Allison, Baron-Cohen 
& Hoekstra, 2014). 
Por sua vez, no domínio da Cognição Social, a empatia é uma função cuja associação 
com o TEA e, por conseguinte, com o FAA, é ainda pouco clara. Tratando-se de um construto 
multidimensional,  conforme  corroborado  por  diversos  estudos  de  neuroimagem  (Dvash  & 
Shamay-Tsoory,  2014),  a  empatia  engloba  um  componente  cognitivo  e  outro  afetivo.  A 
empatia cognitiva (EC) diz respeito à tomada de perspectiva emocional, ou seja, a capacidade 
de  inferir  e  compreender  emoções  alheias,  enquanto  a  empatia  afetiva  (EA)  refere-se  à 
capacidade  de  sentir  o  que  o  outro  sente,  compartilhando  a  experiência  emocional  alheia 
(Vachon & Lynam, 2015). 
Se,  por  um  lado,  déficits  na  capacidade  de  empatizar  vem  sendo  reportados  na 
literatura  em  associação  ao  Espectro  Autista  (Baron-Cohen  &  Wheelwright,  2004;  Blair, 
2005; Mathersul, McDonald & Rushby, 2013; Grove et al., 2014), e também, em menor grau, 
em  parentes  de  indivíduos  com  TEA  (Grove  et  al.,  2014),  outros  estudos  sugerem  que  a 
empatia  afetiva  pode  não  estar  prejudicada  de  fato  nos  quadros  de  TEA,  mas  sim 
                                                 
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 Última consulta realizada em 22/09/17 no endereço 
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed
 com a busca do 
termo “broader autismo phenotype” em títulos de publicações científicas. 


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desbalanceada (Smith, 2009), restrita à valência emocional negativa (Mazza et al., 2014), ou 
até mesmo preservada (Dziobek et al., 2008; Lockwood, Bird, Bridge & Viding, 2013). Como 
a maioria dos estudos utiliza medidas de autorrelato para avaliar a empatia, existe também a 
hipótese  de  que  a  resposta  emocional  desses  indivíduos  seja  psicologicamente  similar  à  de 
indivíduos  típicos,  entretanto,  a  sua  interpretação  da  mesma  seja  distorcida,  levando  a 
autorrelatos  imprecisos  (Trimmer,  McDonald  &  Rushby,  2016),  o  que,  segundo  alguns 
autores,  pode  estar  relacionado  a  uma  condição  chamada  "alexitimia",  caracterizada  pelo 
prejuízo na capacidade de identificar e descrever as próprias emoções, que leva também ao 
prejuízo na identificação de emoções alheias (Bird et al., 2010; Bird & Cook, 2013). 
Trata-se  de  um  campo,  portanto,  que  precisa  ser  melhor  investigado.  Entretanto,  é 
necessário  ter  instrumentos  adequadamente  adaptados  e  validados  para  uso  na  população 
brasileira, para realizar tais estudos no país. Embora existam alguns instrumentos já validados 
no  Brasil  para  avaliação  da  empatia,  que  serão  descritos  nos  capítulos  a  seguir,  julgou-se 
necessário buscar um que fosse mais alinhado com a atual compreensão multidimensional do 
construto  de  empatia  e  capaz  de  discriminar  adequadamente  entre  a  EC  e  EA.  Da  mesma 
forma, em relação a medidas de traços do TEA, buscou-se uma que fosse capaz de detectar 
traços relacionados a quadros de TEA na população geral, não somente na clínica. 
Ao realizar a adaptação transcultural e validação de dois instrumentos que julgou-se 
terem  cumprido  tais  critérios,  este  trabalho  buscou  contribuir  com  a  comunidade  científica 
brasileira, tanto na área de instrumentos e medidas quanto de Neuropsicologia e Psicologia do 
Desenvolvimento.  As  versões  brasileiras  da  Affective  and  Cognitive  Measure  of  Empathy 
(Vachon & Lynam, 2015), ou Medida de Empatia Afetiva e Cognitiva, e do Autism Spectrum 



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